Pode ser lida aqui.
Deixo aqui expressa a minha séria preocupação pelo facto de estar a ser considerada a eliminação da disciplina de Formação Cívica, principalmente, depois de ter já sido eliminada a disciplina de Área Projecto.
Compreendendo a necessidade de uma maior concentração de esforços e recursos no ensino/aprendizagem das disciplinas essenciais, não posso contudo concordar que seja abolido todo e qualquer espaço até agora existente para o desenvolvimento de projectos que permitam aos alunos sair da escola e envolverem-se na sua comunidade, empenhando-se e trabalhando para o bem comum, durante os quais a transmissão de valores como a solidariedade, o civismo, a cidadania e os Direitos Humanos é praticada. Esses são também, quanto a mim, valores essenciais, aos quais a escola deve dar igual valor e atenção e do ensinamento dos quais não se deve eximir.
De que servirá à sociedade um matemático brilhante, um médico ilustre, um empresário de sucesso, um investigador pioneiro, se não souber pôr o seu trabalho ao serviço dos outros?
Num momento em que os jovens tendem, cada vez mais, a fechar-se em si, a dedicar o seu tempo às novas tecnologias e a passar cada vez menos tempo em contexto familiar, é premente que se mantenham em vigor programas educativos, nas escolas, que os façam mergulhar na sua comunidade, envolverem-se nela e crescerem sabendo respeitar, sabendo ajudar e cooperar, sabendo agir e adquirindo a sensibilidade necessária que lhes vais permitir serem profissionais conscientes, éticos e preocupados com o outro. No fundo, é premente que sejam exploradas e desenvolvidas capacidades que permitam ao alunos dar-se à sociedade, ao invés de apenas receberem conhecimentos que, indubitavelmente, são essenciais e estruturantes, não sendo, no entanto, suficientes.
Acredito, veementemente, que cada vez mais a vertente humana, cívica e solidária da formação de um jovem deve ser trabalhada desde cedo, sob pena de, se não o for, estar em risco o exercício de uma vida profissional ética e consciente.
Preocupam-me notícias como esta.
A entrevista que dei, dia 6 de Janeiro, a Mário Crespo, pode ser vista aqui.
De regresso em pleno à minha actividade na AMI, estou, actualmente, em missão de avaliação no Senegal, país onde mantemos projectos desde 1996.
A presença da AMI neste país está à vista de todos.
Orgulho-me, como qualquer português se pode orgulhar, do nosso trabalho aqui.
Muitas vezes, o que nos dizem ser impossível é apenas difícil. A AMI é uma prova disso mesmo. E hoje, aqui, estou certo disso.
Mais do que nunca, gostaria que repensassem neste desafio, por mim proposto há alguns anos também neste blog: ser ou ter?
Desafio gratuito? Debate e opção fúteis e inúteis? Escolha impossível? Penso que não. Será um desafio gratificante, julgo eu, se a opção “ser”, a acertada para mim, for a escolhida; não é seguramente a mais fácil mas será aquela que, nos momentos derradeiros, mais nos realizará e nos reconfortará!
Acredito plenamente que o “ser” tem que se sobrepor ao “ter”. Sei que não é o sentimento dominante neste início de século preocupado por uma globalização essencialmente financeira e especulativa, pelo vírus da ganância que galopa na mente de certos “yuppis” e de certas “empresas”, por uma tecnologia que parece tudo explicar e dominar e por uma visão maniqueísta das relações humanas que pretende conduzir-nos para perigosos desvios militaristas assim como para um choque de civilizações e religiões obsoleto porque retrógrado, sem cabimento e esperança e causador de tanto sofrimento e morte. O terrorismo e o combate que lhe está a ser travado são epifenómenos que decorrem das contradições e efeitos negativos quando o “ter”, irreflectidamente, tem a pretensão e ousadia de se sobrepor ao “ser”. A actual guerra contra o terrorismo está enferma de inutilidade e morte porque manifestamente desadequada e incompleta: só feita de tiros, torturas, prisões arbitrárias e cárceres fora das normas jurídicas, humilhações e mortes não nos levará a parte nenhuma a não ser a mais terror: será uma espiral infernal para todos, mesmo para aqueles, os do “ter”, que pensam ter-se posto ao abrigo nos condomínios fechados ou outras torres de marfim...
Meus amigos, há poucos anos ouvi no Centro de Convenções de Washington o então presidente da Organização Cooperação e Desenvolvimento da Europa, Sr. Jean Roger Bovin fazer uma análise da situação mundial que me reconfortou ainda mais na minha opção de pretender apenas “ser” e de lutar nesse sentido. Disse então o Sr. Bovin que “a pobreza impede o desenvolvimento social e o progresso”, “que o crescimento económico não conduz obrigatoriamente ao desenvolvimento social”, e que “ o desenvolvimento social não é alcançado sem um investimento sério na saúde e na educação”. Afirmou também que “a democracia e a miséria não podem coexistir” e que por isso “é fundamental investir no desenvolvimento social para se almejar ter democracia”. E alertou para o facto da ”Nova Ordem Mundial” sonhada pelo presidente George Bush (pai!) ter falido e se assistir a um aumento acelerado das disparidades! E mais, alertou também que previa para 2020 (amanhã!) que a África iria pôr no mercado de trabalho duas vezes mais jovens do que a Europa, EUA, Japão e Rússia, juntos!, o que provocaria uma corrente migratória Sul – Norte nunca vista... Sábias observações e temíveis previsões... Pois é, eis o resultado que a aposta no “ter” estéril produziu no nosso planeta: um crescimento económico sem desenvolvimento social integrado e global.
O “ter” é ilusão, é pura aparência, é efemeridade, é indiferença, é intolerância, é enfermidade, é solidão. O “ter” não tem esperança porque se esgota nele próprio, alimenta-se dele próprio exigindo sempre mais “ter”! Que saída para essa quadratura do círculo, para esse não senso que alguns tentam erguer em novo paradigma querendo fazer-nos crer que é a única via para a resolução dos problemas da humanidade? Só há uma: inversão de marcha em direcção ao “ser”. Não é fácil, espera-nos muita frustração (tanto maior quanto menos “ser” houver...) e alguma satisfação sobretudo aquela de sabermos que, no mais íntimo do nosso ser, estamos no caminho certo, na única via para a criação da Paz e da Harmonia entre os seres humanos.
“Ser” é humanidade, consciência social, livre arbítrio, liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade, cultura, preocupação ambiental, ecumenismo, tolerância, aceitação e preocupação do outro... Este é o meu pensamento, a minha opção, o meu testamento. Não de um rato de sacristia!, mas de um cirurgião que muitas vezes teve vidas entre as mãos, de um operacional que percorreu o Mundo e de um homem que sabe perfeitamente como é a morte e que gostaria de a enfrentar olhos nos olhos com o mínimo de angústia e medo. Só e apenas isso. Tentar “ser”.
E se tentássemos todos?
Faço questão de republicar o texto que escrevi quando completei 56 anos (e que aqui publiquei depois, em Dezembro de 2008). Hoje celebro os meus 60 anos e continuo a sentir-me a viver este Outono da Vida.
Amor, Compaixão e Liberdade: vale a pena viver e lutar!
Não sei quanto tempo me resta de vida. Nenhum de nós sabe ao certo e é bom que assim seja. Quando temos 20 anos, pensamos ter a eternidade terrena e ainda bem! Temos então forças e sonhos, ou pensamos ter!, para mudar o Mundo, torná-lo muito melhor, se possível no paraíso reencontrado.
Não há então montanha inacessível, obstáculo inultrapassável, desafio impossível. Já tive 20 anos. Era de aço, dizia o meu Pai, e tinha muitos sonhos. Foi lindo. Pensava que nascíamos todos puros, ingénuos e bons. Magnífica primavera com miragens idílicas: teria o meu hospital no mato tal Albert Schweitzer!
Hoje, ao completar 56 anos, já não sou de aço, já não consigo ficar três dias sem dormir, sempre a trabalhar a olhar pelos meus doentes, como fazia nos hospitais de Bruxelas… Estou no Outono da minha vida e o Inverno vem a galope… Já não há eternidade terrena, já sonho menos, já só há efemeridade e bastante inquietude pelo estado do Mundo. Numa altura em que às vezes os filhos se afastam, estão no seu direito, em que a morte nos ceifa ou ameaça ceifar, amigos, familiares próximos… as interrogações nos tiram o sono… A nossa pequenez interpela-nos: ainda bem.
Vai-se alguma ingenuidade, fortalecem-se algumas certezas.
Assentadas as poeiras estéreis das vaidades, das importâncias e das ambições, só já a valsa das galáxias e o amor dos nossos entes mais queridos nos encantam. Já sabemos que não vamos endireitar o Mundo (de que enorme arrogância padecíamos!), mas sabemos algumas coisas. Sim, sei com a máxima certeza absoluta que vale a pena ainda continuar a viver e a lutar pelo Amor, pela Compaixão e pela Liberdade. Com Paixão. É indeclinável. Sem apelo.
Aos 56 anos, já tudo o resto é fútil, ilusão. Foi-se o aço mas ficou a certeza: não me acomodar com a insensibilidade, com a indiferença, com a falta de amor, de compaixão e de liberdade com que alguns nos querem prender… Envenenando-nos, envenenando-me.
Numa altura em que folhas secas já começaram a cair da minha árvore, levadas por um vento cada vez mais fresco, há meia dúzia de flores que se agarram ao meu tronco com a tenacidade da perenidade.
São as flores que me acompanharão até ao fim e que vos gostaria de oferecer neste final de ano com o desejo sincero que elas se incorporem no vosso tronco e nunca vos abandonem, estejam vocês onde estiverem e seja qual for a estação que estejam a viver.
Amor, compaixão, liberdade, sensibilidade, harmonia, tolerância. Vivam com elas, lutem por elas. Vale a pena. Eu vou fazê-lo. A AMI vai continuar a expandi-las. É em nome dessas flores que chamo filhos a todas as crianças do Mundo e amigos a todos os seres humanos. Já não consigo viver de outro modo.
É essa hoje a minha luta. É ela que me mantém ainda vivo. Afinal ainda tenho sonhos…
O texto que se segue foi proferido numa conferência, no dia 27 de Junho de 2010, por ocasião de uma iniciativa da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, denominada "Concelho de Estado" e que dedicou esta primeira edição ao Doutor Mário Soares, sua vida e obra.
Fui convidado para participar, dando a minha opinião sobre o futuro de Portugal.
Aqui fica, tal e qual foi escrito e dito no que ao futuro do nosso país diz respeito.
Como tudo poderia ser tão diferente se estes gritos tivessem sido ouvidos e entendidos e as soluções aqui preconizadas tivessem sido adoptadas e concretizadas...
Doutor Mário Soares,
Excelências,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Meus Amigos,
Ao falar do futuro de Portugal não posso, nem por um instante, não ter permanentemente em mente todos os portugueses, nos quais incluo todos os falantes da língua portuguesa, seus ascendentes e descendentes.
Portugal é uma Nação com quase nove séculos de história e é uma das poucas nações que marcou indelevelmente a história da Humanidade. Portugal é da dimensão do mundo!
O futuro de Portugal não é pois despiciendo! Importa assim, que o acautelemos desde já!
É bem verdade que atravessamos momentos muito difíceis mas também não é menos verdade que no nosso percurso histórico já atravessámos momentos semelhantes, ou até bem piores. E a verdade é que o povo português sempre encontrou força anímica, líderes, arte e engenho para encontrar soluções inteligentes, criativas, humanistas e positivas que permitiram a nossa caminhada colectiva enquanto nação até aos nossos dias.
Embora esse dado histórico alentador deva obstar ao derrotismo, ao pessimismo e ao fatalismo do momento, o que é facto é que Portugal se encontra hoje numa encruzilhada muito delicada que exige decisões e acções coerentes, urgentes e de médio a longo prazo que precisam de ter como base de sustentação o mais largo consenso nacional possível.
Se é verdade que a situação hoje é muito mais complexa porque enquadrada num contexto financeiro, económico, político e social mundial e europeu extremamente instável, e sobre o qual não temos talvez qualquer ou nenhum meio de intervenção, como factor extrínseco que está fora do nosso alcance, também é verdade que temos factores intrínsecos particularmente gravosos e sobre os quais podemos actuar a menos que aceitemos, de ânimo leve, perder a soberania que ainda nos resta.
Para mim é aqui que está o cerne da questão. Ou abdicamos e aceitamos ser a curto prazo uma espécie de protectorado da liderança europeia (entenda-se: Alemanha) ou reagimos já, combinando um plano de emergência nacional, de curtíssimo prazo, e um plano estratégico nacional de médio-longo prazo. Esses planos exigem consenso e o empenho da mais vasta plataforma nacional possível: partidos políticos, sindicatos, associações patronais, mundo associativo, mundo académico e cidadãos. Temos e devemos, quanto antes, alcançar, repito, um consenso nacional perante a eminência de uma gravíssima crise nacional. E, mais importante, ninguém pode ou poderá eximir-se dessa tarefa. Portugal precisa de trabalho e acção. Só com pura retórica não vamos lá!
Nós sabemos quais são os nossos problemas: dívida externa e juros da dívida incomportáveis, défice insustentável, desemprego desmoralizador, justiça pouco célere e não equitativa, administração pública pesada e não isenta, que já consome 14% do PIB e 30% das despesas públicas, sistema fiscal pouco incentivador, educação medíocre e que não premeia a excelência, falta de pontualidade, desrespeito por prazos e compromissos, falta de competitividade, salários baixos, dependência energética e alimentar francamente estrangulador, destruição do nosso tecido produtivo (agricultura, pescas…)… e despesismo excessivo do Estado e das famílias que há pelo menos duas décadas vivem largamente acima das suas possibilidades, recorrendo aos créditos fáceis e não se preocupando nada em constituir poupanças…
Chegou pois o momento de dizer BASTA com verdade e frontalidade. Permitam-me a metáfora: estamos com uma hérnia estrangulada e temos que a operar antes que surja a peritonite e a morte.
Como?
A – UM PLANO DE EMERGÊNCIA QUE IMPLIQUE:
1 - O corte nas despesas públicas a começar pelo encerramento imediato de centenas ou milhares de institutos e fundações públicas inúteis, salvo para os seus gestores, que só aprofundam o défice das nossas contas públicas.
2 - O terminar com certas parcerias público-privadas que têm penalizado gravemente o orçamento do Estado.
3 - A adopção de medidas moralizadoras nos salários, mordomias e reformas dos servidores de topo do Estado inclusive das empresas públicas.
4 - A racionalização dos meios utilizados em todos os serviços da Administração Pública, evitando desperdícios e duplicação de funções, sejam eles civis ou militares.
5 - A discriminação positiva do IVA e do IRS a fim de que os esforços dos cidadãos sejam equitativamente e proporcionalmente repartidos evitando penalizar a fracção mais pobre ou remediada da nossa população.
6 - O congelamento de todos os megaprojectos apostando os investimentos públicos no apoio às PME para a redinamização do nosso tecido produtivo (agricultura, pescas, energias limpas) e a reabilitação dos nossos centros históricos, monumentos e museus essenciais para a nossa atracção turística (Ásia/China).
B – UM PLANO ESTRATÉGICO DE MÉDIO A LONGO PRAZO (=DESÍGNIOS)
Deverão ser constituídos já grupos de trabalho com peritos das diferentes áreas estratégicas entendidas como “Desígnios ou Causas Nacionais” que permitam garantir a sustentabilidade da nossa Paz Social, do nosso Desenvolvimento e da nossa Democracia.
Esses peritos deverão ser reconhecidos e respeitados pela sua integridade e competência e ser nomeados pelos partidos políticos, sindicatos, associações patronais, associações cívicas, academias e universidades. Esses grupos de trabalho deveriam ter metas temporais para apresentarem as suas propostas de modo a atingir os objectivos pretendidos.
As áreas em análise deveriam ser quanto a mim:
Excelências,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Meus Amigos,
Acredito sinceramente num futuro próspero e sustentável para Portugal desde que saibamos criar sinergias e consensos entre nós e aceitemos TODOS sacrifícios proporcionais aos nossos meios num diálogo construtivo em prol da salvaguarda da soberania do nosso Estado. Já não há volta a dar. Chegou a hora de encarar a realidade. Possamos estar todos nós à altura das nossas responsabilidades enquanto cidadãos a fim de darmos a resposta que a situação da Nação clama e exige.
É tempo de marcharmos todos contra os novos canhões que nos atingem: o fatalismo, o chico-espertismo, a partidarite aguda, paralisante e sufocante, a corrupção, a irresponsabilidade, a incompetência, o laxismo. É tempo de aprender a premiar o esforço, o trabalho, o talento, o mérito, a competência, o espírito de sacrifício e valorizar o conhecimento, acabando com as nossas crónicas e destrutivas maledicência e inveja.
Portugal e os Portugueses merecem e querem ter um futuro condigno para que os Capitães de Abril e uma das insignes figuras do País, o Doutor Mário Soares, brilhem sempre na História de Portugal!
É este o meu desejo mais sincero.
É esta a minha visão para o futuro de Portugal. Exemplaridade e Esperança!
Muito obrigado!
Chegado aos meus 60 anos, interventor e observador global há mais de três décadas, é com tristeza que constato que chegámos a um fim de ciclo. Se a Humanidade não reagir, como um todo que é - com coerência, ética e preocupação social - perante a crise que vivemos (e que deve ser entendida talvez como uma derradeira oportunidade), mergulhará num precipício e as guerras regressarão também ao continente europeu, mercê de um colapso ético, social, politico, económico e financeiro já evidentes.
Vivemos actualmente a quarta grande crise/oportunidade global dos últimos 22 anos. Se todas elas, e já desperdiçámos as três últimas, tivessem sido devidamente interpretadas e conducentes a um novo paradigma humano, individual e colectivo, com a correcta hierarquização das prioridades e valores, não teríamos chegado ao ponto de desnorte e aparente, porque desejada por alguns, impotência a que chegámos.
A primeira grande crise/oportunidade recente deu-se em 1989 com a Queda do Muro de Berlim e o subsequente desmoronar do império soviético. Nesse ano deu-se também o massacre na Praça Tiananmen, em Pequim, na China. Os povos mostraram então que estavam sedentos de liberdade, entendimento e fraternidade humanos. Os decisores globais assim não entenderam.
Um novo mundo esteve então ao nosso alcance: poderia ter passado a ser mais ético, mais fraterno, com menos exclusão, melhor ambiente, menos alterações climáticas. O ocidente, e nós europeus também, em vez de estendermos uma união e uma mão fraterna aos povos russo e chinês, só reagimos em termos de xadrez geopolítico no sentido do poder e da hegemonia: quisemos esmagar a Rússia, esfomeando-a e humilhando-a e fizemos ouvidos de mercador aos gritos de Tiananmen. O mercado falou mais alto. Permitimos o fracasso da Cimeira do Rio em 1992, o genocídio no Ruanda em 1994 e a miséria no Congo, Somália…
A segunda grande crise/oportunidade global dos últimos 22 anos aconteceu dia 11-09-2001 em Nova Iorque (que presenciei ao vivo). A tragédia do 11-09-2001 (toda a gente já esqueceu o 11-09-1973 entre o médico Allende e o carniceiro Pinochet!) foi a manifestação brutal do ódio e da rejeição totais e de uma nova forma de terrorismo.
Sem pensar nas causas, o que nos deveria ter impelido a secar o pântano das misérias e das humilhações diárias que matam milhões de seres humanos, liderados por Bush, Rumsfeld, Cheney, Wolfowitz, Perle, Blair, Berlusconi e …. Barroso, fixámo-nos todos apenas no castigo, no petróleo e num terror sem fim. Esquecemos o verdadeiro desenvolvimento e aprofundámos o desentendimento. Deu-se o caos no Afeganistão* e no Iraque*… e não ajudámos a resolver a situação entre Israel* e a Palestina*, a bem dos dois povos, dos dois Estados e do mundo. Há 10 anos que o impasse persiste e a situação parece fora de controlo.
A terceira crise/oportunidade perdida eclodiu em 2008 com a falência do Lehman Brother que pôs a nu os subprime e o sistema financeiro tipo casino. Num efémero despertar das consciências, ou talvez numa peça de teatro bem encenada, orquestrada e repleta de cinismo e hipocrisia, os decisores globais falaram de uma mais eficiente regulação e fiscalização, do controlo dos bónus obscenos e dos off-shores…
Tudo palavras que o vento levou. Ficaram, segundo o Banco Mundial, mais duzentos milhões de pobres e uma profunda revolta e humilhação dos povos!
Sempre em crescendo e complementando-se, 1989, 2001, 2008, eis-nos em 2011-12, o fim de ciclo, a quarta crise/oportunidade. Talvez a derradeira crise que, se não for vista como derradeira oportunidade, nos poderá levar ao precipício, à falência do sistema, à implosão social e a novas guerras no prazo de uma década.
Já o disse e escrevi há vários anos, mercê de décadas de observação directa da questão humanitária, social e política no mundo: temos, não há quanto a mim volta a dar, de conseguir uma mudança de paradigma individual e colectivo que permita três coisas:
Se tal não acontecer rapidamente o sistema financeiro desregulado nos conduzirá aos limites da desumanidade. Assim já o afirmava o Presidente Jefferson, por outras palavras, há mais de duzentos anos.
Se assim não for, e rapidamente, já não será possível sobrepor o optimismo da vontade ao pessimismo da razão!
Que cada um faça a sua opção. Eu tenho feito a minha e por isso travei todos os meus combates, sempre, em nome de uma Cidadania exigente e sempre ao serviço das pessoas e da Humanidade.
(Escrito em Dakar a 20 de Setembro de 2011)
*Poderia referir muitas outras situações. Essas vivi-as eu e muito me ensinaram.
Uma vez que foi ontem votado, em reunião plenária, o parecer sobre a minha renúncia ao mandato de deputado, publico hoje a carta que enviei à Presidente da Assembleia da República, Dra. Assunção Esteves, na qual explico as razões da minha decisão.
Lisboa, 1 de Julho de 2011
Senhora Presidente da Assembleia da República,
Excelência,
Venho por esta via, com a máxima consideração e o total respeito pelos deputados eleitos e pela insubstituível função exercida pela Assembleia da República, como genuína casa da representatividade nacional na sua pluralidade e da Democracia portuguesa, apresentar a minha renúncia, a partir do dia de hoje, ao mandato de Deputado, eleito como independente e primeiro candidato da lista do Partido Social Democrático pelo círculo de Lisboa, para a XII Legislatura que teve início a 20 de Junho de 2011.
Independentemente da grande honra que é ser deputado, decidi em consciência que, perante os grandes desafios sociais que teremos de enfrentar e viver no futuro próximo, serei mais útil na acção, no terreno, ajudando os Portugueses mais afectados pela crise e desprotegidos a combater a miséria, a exclusão social e a injustiça, promovendo a dignidade e a esperança entre os mais pobres, voltando à minha actividade de mais de trinta anos de intervenção cívica, humanitária e de ajuda ao desenvolvimento em Portugal e no Mundo, no quadro dos Médecins Sans Frontières e da Fundação AMI, instituição que tive a honra de fundar em 1984 e a que presido.
É nessa área, e diante dos tempos duros que nos esperam de real emergência social, que a minha experiência, o meu empenho e o meu trabalho melhor poderão servir o País na resolução dos problemas concretos de pessoas concretas.
Nesse sentido, ao longo de mais de três décadas, creio ter ajudado a prestigiar Portugal no Mundo e contribuído para a diminuição das desigualdades e exclusão social no nosso País.
O Parlamento é a Casa da Democracia e os partidos políticos os seus pilares insubstituíveis e incontornáveis. Estou certo que chegará um dia em que o reconhecimento da pluralidade de modelos de representação política aclamará o Parlamento também como a Casa da Cidadania.
Quero também deixar expresso, nesta minha carta de renúncia ao mandato de deputado, o meu sentido respeito e a minha profunda amizade pela Excelentíssima Senhora Presidente da Assembleia da República, Dra. Assunção Esteves, e a minha elevada consideração pelas Senhoras Deputadas e pelos Senhores Deputados eleitos. É com alguma tristeza que me afasto das funções de recém-eleito deputado, mas estou certo e ciente de que serei, como já referi, mais útil aos portugueses, a Portugal e ao Mundo na acção cívica e humanitária que constitui a minha marca identitária.
Quero aqui expressar o meu mais sentido agradecimento ao Senhor Presidente do Partido Social Democrata, Dr. Pedro Passos Coelho, pelo desafio que me lançou para encabeçar a lista de Deputados pelo Círculo de Lisboa e pela honra que me deu o grupo parlamentar do PSD, como partido vencedor das últimas eleições legislativas, ao propor-me, como cidadão independente e oriundo da Sociedade Civil, como primeiro candidato do Partido Social Democrata a Presidente da Assembleia da República.
Travar esta batalha ao lado do Senhor Dr. Pedro Passos Coelho e da grande maioria do PSD constituiu um enorme desafio que muito me orgulha e uma imensa honra. O Senhor Dr. Pedro Passos Coelho e a maioria do grupo parlamentar do PSD tiveram sempre para comigo uma atitude de grande estímulo e apreço. Tentei retribuir dando toda a minha energia, disponibilidade e genuíno empenhamento.
Pressinto no Senhor Dr. Pedro Passos Coelho, nosso mui digno Primeiro-Ministro, a inteligência determinada, a coragem, o bom senso e o sentido de Estado necessários para resgatar Portugal do caos económico, político e social, irresponsavelmente por outros criado.
Acredito também que a Assembleia da República, por si tão dignamente presidida, dará um significativo contributo para o futuro positivo de Portugal.
Por fim, quero agradecer, uma vez mais, aos Deputados do PSD pelo Círculo de Lisboa, e em particular à JSD, que me acompanharam, apoiaram e defenderam, durante toda a campanha. O sucesso eleitoral do PSD no Círculo de Lisboa, que tive a honra de encabeçar, deveu-se a uma equipa de gente extraordinária, generosa, e de coragem. Guardá-los-ei sempre nas minhas mais gratas recordações.
Às Senhoras Deputadas e aos Senhores Deputados, as minhas sinceras saudações e o desejo de grande êxito para o exercício do seu mandato.
Estou seguro de que todos nós, independentemente do lugar onde exerceremos o nosso dever de cidadania, saberemos cumprir as nossas responsabilidades e responder com honra aos desafios do nosso tempo e de Portugal.
Com os meus respeitosos cumprimentos,
Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre
