Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Mais uma vez, sou tentado a colocar aqui um texto, escrito há 8 anos, que, pela actualidade que ainda mantém, considero pertinente.

 

 

Entrámos no Século XXI, esperançoso para muitos, assustador para bastantes mais e uma verdadeira incógnita para quase todos se exceptuarmos os inconscientes que, cegos pela sua megalomania financeira e pelo seu efémero e aparente poder, pensam tudo poder condicionar, dominar, manipular, operando a seu belo prazer, do ambiente à existência dos seus semelhantes. Tal é a cegueira, que nem se apercebem dos enormes desafios que os esperam, em grande medida como consequência directa dos seus egoísmos, insensatez e ganância, e que teremos de enfrentar e vencer no século que agora principia!

 

Acabamos de deixar, convenhamos que com poucas saudades, o Século XX, sem dúvida marcado pelo mais intolerável paradoxo:


1) Por um lado, assistimos a horrores:


a) Os genocídios, as matanças e as arbitrariedades provocadas pelas mentes doentias dos loucos sedentos de poder ou de hegemonia, como Hitler, Hiro Hito, Estaline, Mao, Pol Pot ou Pinochet, entre tantos outros, e de todos os seus acólitos. Inúmeros outros ditadores os sucederem, espalhando a morte, o terror e a barbárie do Ruanda à Serra Leoa, passando pela Libéria, Somália, Burundi, Angola, Colômbia, El Salvador, Congo, Bósnia, Chechénia e tantos outros... Mas tal só foi possível com a conivência e, tantas vezes até com o apoio das diplomacias das “Grandes Potências”. Diplomacias pouco ou nada democráticas, na medida em que, conduzidas quase sempre à revelia dos sentimentos e das aspirações dos nossos povos, se fossem postas à votação, de certeza não seriam sufragadas.

b) Do lado negro do Século XX, ainda de salientar as mentes geniais e brilhantes, mas cegas e loucas, dos cientistas que, enclausurados nos seus laboratórios e levados pela excitação da “descoberta”, omitiram as suas responsabilidades éticas perante a Humanidade e, deixando-se manipular por pressões políticas e “Razões de Estado”, conceberam e realizaram as bombas atómicas, químicas e bacteriológicas, de sinistra memória, que até hoje ameaçam de extermínio e enfermidades. E mais, sem acautelarem todas as possíveis implicações, lançaram-se desenfreadamente, como autênticos aprendizes feiticeiros, na manipulação genética criando os OGM (Organismos Geneticamente Modificados), verdadeira espada de Damocles suspensa sobre os agricultores e, por isso, sobre todos nós, tornando a Clonagem Humana uma assustadora realidade.

c) De salientar ainda o autismo social e alucinante que produziu a nossa civilização no século que findou: produziu riqueza e descobertas científicas inigualáveis na História mas infelizmente não soube ou, pior, não quis, por egoísmo ou indiferença, partilhá-las com toda a Humanidade, deixando-as reféns de uma minoria cada vez mais rica e mais detentora do saber e da alta tecnologia, perante uma maioria cada vez mais numerosa (a população mundial passou vertiginosamente de um para seis biliões de pessoas entre 1900 e 2000, vivendo actualmente metade destas pessoas amontoadas em megacidades; e serão cerca de 70 por cento em 2025. Já entrámos no assustador Milénio Urbano!) mais relativamente pobre e ignorante, mais ignorada e prisioneira do ciclo infernal das suas doenças esquecidas e da sua miséria, criando assim as condições objectivas que nos fazem entrar no século XXI com justificados receios e anseios das bombas sociais e ecológicas que deixamos armadilhar.

 


2) Por outro lado, tivemos a sorte e a alegria de assistirmos durante o século agora findo a acontecimentos extraordinários:


a) A medicina conheceu assinaláveis progressos, dos meios de diagnóstico aos tratamentos, permitindo a cura e a prevenção de enfermidades que povoam de terror, não há muito tempo, o nosso imaginário colectivo, mesmo no Ocidente, tais como a peste, a lepra, a tuberculose, a varíola, a sífilis, a cólera... pena é não se ter também investido e investigado de forma suficiente e empenhada as doenças que afectavam e continuam a afectar essencialmente os países mais pobres, tais como a malária (só há bem pouco tempo banida da Europa e que pode regressar mais depressa do que muitos pensam...), a doença do sono ou tripanosomíase, a biliarziose, a doença de Chagas, o dengue, a oncocercose, a leishmaniose, ... sem falar já da terrível pandemia do SIDA que, por si só, poderá parar ou gravemente condicionar o futuro desenvolvimento da África negra e da Ásia meridional, doença essa para a qual, para já, se vislumbram mais preocupações de controlo dos futuros mercados, com os enormes lucros financeiros daí decorrentes, do que em salvar as dezenas de milhões de africanos já condenados à morte certa.

b) O aperfeiçoamento e o desenvolvimento antes inimaginável da tecnologia, infelizmente não seguida por uma evolução espiritual tão intensa, levou-nos à Lua, às profundezas dos oceanos, à televisão, à telefonia mais sofisticada, à Internet, à informação/desinformação/manipulação instantânea, dita online, aos satélites espiões e outros ultra-sofisticados, à Ressonância Magnética e outras imagiologias médicas espectaculares, aos aviões supersónicos que fizeram de Lisboa e Moscovo duas aldeias vizinhas embora ainda muito incompreendidas, à maximização da produção agrícola e animal que levou a que, como nunca antes, o Mundo conhecesse uma produção alimentar globalmente excedente mas coexistindo com vastas regiões de fome e com o brinde, devido à ganância pelo lucro fácil das multinacionais da indústria agroalimentar, da encefalite espongiforme bovina e humana!

c) O acordar da sociedade civil mundial: este acordar é, quanto a mim, a grande esperança para o Século XXI. Os cidadãos do mundo inteiro entenderam enfim que “Democracia” não é apenas ter direito a voto e a falar! É também participar no dia-a-dia nas decisões e nas suas correctas implementações que condicionam as nossas vidas e a nossa Humanidade no seu concreto. Estou certo de que esta tomada de posição assumida pela Sociedade Civil Mundial, expressa muito claramente no I Fórum Social Mundial (que decorreu em Porto Alegre, no Brasil, recentemente), é irreversível no sentido da MUDANÇA POSITIVA tão necessária para os bem mais necessitados do Mundo. Espero muito sinceramente e esperançosamente que os “Senhores do Mundo” do G8, do FMI, Banco Mundial e outros, que se reúnem há décadas em Davos, entendam e entrem em diálogo rapidamente pois só assim se evitarão explosões sociais de terríveis consequências a curto e médio prazo!

 

Foi com este intolerável paradoxo do Século XX que entrámos no Século XXI, com todos os medos e anseios justificados, entre outros:


• da explosão demográfica, das imigrações em massa – já iniciadas e doravante inevitáveis com os seus nefastos acompanhantes, o racismo e a xenofobia.
• da instabilidade laboral e social e da subsequente exclusão e miséria que nos irão bater à porta, trazidas pela globalização, refém de um neoliberalismo selvagem, desregulado, sem humanismo e sem ética.
• das drogas para os nossos filhos.
• do SIDA, sobretudo para os países mais pobres,
• dos integrismos, fanatismos e outros fundamentalismos, religiosos ou não.
• da destruição irreversível dos recursos naturais.
• do descontrolo no uso das armas nucleares mesmo que “só” tenham urânio “empobrecido”.
• de já não sabermos o que podemos comer pois já não podemos confiar no que os responsáveis nos dizem, como o surto da BSE tem demonstrado em toda a Europa!
• da aceleração brutal que a vida levou, tornando tudo efémero, tudo instável, fazendo com que ninguém hoje tenha certezas e garantias para o “amanhã”.
• de saber se não seremos também produtos descartáveis e se os nossos filhos terão sequer tempo para nos vir dar um beijo, deixando-nos numa atroz solidão, solidão essa à qual são já votados muitos dos nossos anciãos depositados em “lares”, por vezes autênticas antecâmaras da morte por abandono!


São esses os desafios que vamos ter de enfrentar e vencer juntos, lutando por um novo padrão do Homem: um Homem que lute por ser e não por parecer, um Homem com uma mente virada não só para si mas também para o Outro e para o Mundo como partes integrantes do seu próprio Ser!


A evolução positiva do Mundo e do Universo, assim como a nossa própria evolução e bem-estar exige-o a todos nós! Vamos pois em frente e juntos venceremos todos esses desafios e medos e todos os demais que possam surgir!


Não estamos sós, pude confirmá-lo pessoalmente em Porto Alegre: os cidadãos do mundo inteiro estão a reagir! Eis, meus queridos amigos, o novo paradigma para o Século XXI, já que a Humanidade na sua lentíssima, mas mesmo assim, positiva caminhada ainda não logrou alcançá-lo. Com a nossa ajuda, os nossos netos irão certamente conseguir.

 

Publicado na AMInotícias nº19, 2001

 



publicado por Fernando Nobre às 11:22
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10 comentários:
De A. Mourinho a 20 de Fevereiro de 2009 às 18:07
Um artigo de grande conteúdo , no qual concordo com 99%, o restante 1% não é de discórdia, tenho apenas outra abordagem perante os assuntos, quando fala dos cientistas que descobriram as bombas, sei que Einstein, chegou á Terra com a missão de nos dar uma energia barata, para assim todas as populações mundiais puderem ter uma vida digna, infelizmente num planeta governado por Seres imperfeitos seria uma utopia pensar que poderão criar um mundo perfeito, o homem tem á sua disposição o suficiente para saber o caminho, infelizmente entretém-se com os atalhos, ou seja a vida de tão simples que é assusta-o, por isso perde o tempo a criar conceitos complicados que ao fim acabam por falir de conteúdo , de qualquer modo poucas coisas das que até hoje foram inventadas tinham por fim magoar, matar ou outros destes abomináveis fins, infelizmente o homem no seu pior, sempre os explorou pelo lado errado, sem perceber que se a vida deixar de existir tudo o que existe carece de valor algum, acredito que como todas as grandes civilizações do passado falharam também a nossa caminha, digo voa para o seu fim, mas tal como quando a noite se põe, para o dia a suceder, assim iremos nós e isto para mim mais do que esperança é uma certeza, de um homem simples. MOURO


De pedro castro a 13 de Fevereiro de 2009 às 17:43
Boa Tarde Dr. Fernando Nobre,
Mais um texto, embora escrito à 8 anos, contem as verdades sobre o nosso mundo actual.
As minhas dúvidas é se os textos de hoje (pela forma desequilibrada que este Mundo caminha) também não serão as certezas do amanhã.
Espero acreditar, afincadamente que os nossos netos terão um mundo bem melhor e mais diferente do actual.
Só numa uma sociedade bastante evoluída aonde a instituição família consiga ter um papel importante na educação e desenvolvimento da Pessoa Humana e as instituições escolares conseguirem educar outros valores em vez de tentarem criar maquinas de saber desnecessário é que algum dia poderemos caminhar para uma sociedade mais equilibrada a pensar nos outros como uma extensão de nós próprios.
Até lá, estaremos todos a apagar fogos que se acendem e reacendem sem nunca conseguirmos extingui-los de uma vez por todas. Que saudades eu tenho de Agostinho da Silva, grande Homem.
Um forte abraço.
Pedro Castro


De Fernando Nobre a 15 de Fevereiro de 2009 às 13:19
Todos temos saudades do Agostinho da Silva. Estou certo que outras Luzes surgirão. Abraço amigo.


De Dina Costa a 12 de Fevereiro de 2009 às 15:14
Caro Dr. Fernando Nobre:

Aqui e agora quero colocar algumas palavras. Apenas algumas, poucas, porque o meu tempo é escasso, mas não quero deixar de o fazer. O correr dos dias tem feito com que deixe para trás algumas coisas que eu quero fazer, uma delas saber mais sobre a A.M.I .
Mas hoje, li-o mais num pedacinho da sua experiência, portanto da sua alma e ler este texto remeteu-me para a guerra da Bosnia and Herzgovina . O mês: Julho, o ano: 1995, em que um dos piores horrores (que engrossa o número das más acções do Homem) aconteceu em Srebrenica . Não lhe chamarei tão só massacre, antes genocídio de cerca de 8373 bósnios, entre homens e crianças...
O meu ex marido, oficial do Exército português, esteve em missão, como Capacete Azul, de 1995 a 1996, estando primeiro em Tuzla Bosnia ), Zagreb Croatia ) e por fim em Belgrado (Servia). A 25 de Maio, de 1995, 72 pessoas morreram na praça de Tuzla , num dia lindo de Sol.
Acompanhei tudo à distância, grávida da nossa filha e ainda hoje, quando o oiço falar das causas, dos acontecimentos que fala e viveu, eu revivo, por vezes esse ano e as coisas que me foram relatadas...

Nunca consigo evitar que os meus olhs se encham de água sempre que este (e outros assuntos) me vêm à memória e ao coração...

Que Deus lhe dê a força para continuar a desenvolver todo o seu trabalho!
Obrigado, Dr. Fernando!

Dina Costa





De Fernando Nobre a 13 de Fevereiro de 2009 às 07:39
HÁ CERTAS EXPERIÊNCIAS QUE NOS MARCAM INDELÉVELMENTE. MESMO ASSIM TEMOS QUE CONTINUAR. BEM HAJA POR NÃO DESISTIR!


De MAlbertina F.S.Silva a 12 de Fevereiro de 2009 às 02:23
Sempre actual. Sempre o dedo na ferida.
Tocou-me especialmente o último ponto, porque sinto que no estado em que se encontra a nossa sociedade, não conseguimos vencer "os desafios que temos que enfrentar".
É, Dr. Fernando, ou colocamos os nossos idosos nos "depósitos".eu chamo-lhes sala de espera da morte, ou somos gravemente penalizados profissionalmente, quando optamos pelo que a nossa moral e o nosso coração nos manda.
E, somos sempre julgados ,quer se opte por uma ou outra situação.
Que ética , que valores nos podem ajudar a saber,- a encontrar-, o lado certo?
Este ano, optei por ouvir o coração. Que consequências terei, não sei. Para a minha estabilidade emocional, recuso-me a pensar nisso.
O que tem de ser, será...
Mais uma vez o meu egoísmo ao falar da minha "realidade" . Quantas não existirão iguais ou piores?
Mas é-me muito doloroso ver o ostracismo com que são tratados os nossos idosos.
Permita-me que daqui mande um abraço à amiga Paula. Outro para si. Boa noite.
Tina


De paula a 12 de Fevereiro de 2009 às 10:41
obrigada Albertina. lembro-me frequentemente de si, por entre a correria dos dias.
Força!
paula


De Fernando Nobre a 13 de Fevereiro de 2009 às 07:45
Seguir o nosso "coração" é a opção mais certa, quanto a mim, embora nunca esquecendo a razão. Um dia, se lá chegarmos, seremos tomos velhos. É uma evidência, eu sei, mas mesmo assim há algumas pessoas que se esquecem dessa inevitabilidade... Força!


De mariah a 11 de Fevereiro de 2009 às 13:09
Apesar de tudo,não posso passar em branco sobre os meus gritos de areia movediça... deixando-os sob a forma habitual:


"queria que me ouvissem contar a verdade"



esperava apenas a tigela de sopa
enquanto jogava às cartas
vi-o nos telejornais
vi-o à entrada de casa
vi-o nas escadas do metro
vi-o no centro da cidade
e quando alguém não suportou mais e disse
“quem é que responde por isto?”
ignoraste os telejornais
ignoraste as escadas do metro
Ignoraste o rosto que esperava apenas
uma tigela de sopa
ignoraste o teu nome por dentro do rosto
que esperava apenas uma tigela de sopa

estavas no dia em que foste transformado

uma estrela de sangue
e dois buracos no teu rosto sem nome
é a herança do mundo

maria azenha
2009-02-11

P.S. Grata pela Voz deste espaço.


De Fernando Nobre a 13 de Fevereiro de 2009 às 07:47
Grato também pela sua sentida poesia.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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