Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Um dos erros mais graves que poderíamos todos cometer para o nosso futuro colectivo seria pensarmos que a Democracia, ainda existente na Europa e no nosso país, é perene. Nada é perene!


Tenho o hábito de dizer que a Democracia é uma flor como a papoila: persistente mas frágil! Renasce sempre, mesmo nos terrenos mais rochosos e inóspitos, mas também uma vez colhida e acomodada, murcha e morre rapidamente. Estamos em risco de viver esta última fase. Ainda vamos a tempo de a evitar se soubermos TODOS reagir.


Os alertas repetitivamente lançados nos últimos tempos, em artigos e livros, por pessoas sensatas, moderadas e informadas que conheço e por quem nutro amizade, o maior respeito e a máxima consideração tais como Mário Soares, Adriano Moreira, Almeida Santos, Ramalho Eanes, Loureiro dos Santos, Garcia Leandro, Carvalho da Silva, Miguel Sousa Tavares, Dom Duarte e muitos outro (e eu próprio há muitos anos) devem ser entendidos como verdadeiros gritos de alarme sobre o estado da nossa sociedade.


Estamos todos cientes que as crises que vivemos (financeira, económica, institucional, partidária e de valores) podem fazer ruir, mais rápido do que os incautos e irresponsáveis pensam, o sistema democrático. Não tenhamos medo de o afirmar. Estamos a viver o fim de um regime sem sabermos o que o irá substituir, nem como, nem quando.


O que eu sei, e assim penso e escrevo há alguns anos, é que chegou o momento das grandes opções de fundo e que os problemas globais que enfrentamos exigem uma governação global com ética, autoridade, bom senso e humanidade.


A crise em curso, associada a um desprestígio e descrédito profundos das instituições (sistemas financeiros, governos, partidos políticos, Justiça…), minando profundamente os fundamentos dos estados de direito, pode dar a oportunidade esperada aos movimentos ou partidos neonazis, fascistas, xenófobos e racistas. Eles estão atentos e preparam-se activamente em redes europeias e mundiais. Não menorizemos a questão pois tal alheamento poderá ser fatal às nossas sociedades ainda democráticas.


Os responsáveis por tudo isso têm rosto e nomes: somos todos nós, pela nossa indiferença e cobardia; são os responsáveis financeiros pela sua ganância desenfreada; são os empresários e a sua irresponsabilidade social; são os políticos fracos, demissionários e corruptos; são as religiões e a sua sede de poder, cada vez mais desfasadas em relação ao Divino; é a Justiça a várias velocidades; são os partidos e a sua lógica de poder de curto prazo e de satisfação das suas devoradoras clientelas.


Os efeitos do aprofundamento da pobreza e do desemprego, quanto a mim a procissão só vai no adro, já começaram e fazem temer o pior: discursos políticos xenófobos, mesmo dentro da União Europeia, violam impunemente as suas leis perante uma liderança europeia comprometida, fraca e inoperante, como no Reino Unido e na Itália (os demagogos medrosos já estão à solta…); ataques racistas, cada vez mais violentos e até mortais, crescem como ervas daninhas em vários países europeus; os proteccionismos e os medos, de péssima memória, regressam a galope!


Perante estes factos temos que reagir todos em força e imediatamente. As Democracias podem murchar e morrer, como as papoilas, perante as crises sociais que se vislumbram, aparentemente inevitáveis e que já amedrontam muitos.


Aos novos Desafios Globais (miséria, fome, clima, armas, guerras…) devemos responder com novas Respostas Globais (cidadania global, solidariedade global, valores universais tal como a honestidade, a dignidade e o respeito pela vida, todas as vidas!). Perante velhas e recorrentes Ameaças (fascismo, racismo, xenofobia, ditaduras…) temos que nos erguer e contrapor, sem tibiezas, medos ou cobardias, com as velhas e eficazes Armas de sempre (liberdade, resistência, fraternidade, coragem, luta…) mas de forma mais organizada, estruturada e empenhada: é chegado o momento de o fazermos.


No que me diz respeito continuarei a Alertar Consciências e a Lutar por Valores que defendem a vida, os mais fracos e a Democracia. Nas próximas eleições para o Parlamento Europeu darei, como independente e a título pessoal, o meu apoio àqueles que a meu ver melhor defenderão o que me parece essencial defender, numa Europa em crise e em perigo: os excluídos e a Democracia.


É nesse sentido que, com a AMI, reforçarei a nossa missão “Aventura Solidária” do Senegal ao Brasil, passando pela Guiné-Bissau, e que em Maio deste ano organizaremos um Fórum Internacional em Lisboa sobre o tema “Encontro de Culturas – Ouvir para Integrar”. Essas duas acções vão no sentido de criar pontes de diálogo e de entendimento entre povos e culturas, combatendo a intolerância, o desconhecimento, o subdesenvolvimento, a xenofobia e o racismo, e para melhor se entender as razões profundas das migrações. Aliás, nesse sentido, o meu próximo texto no blog será sobre “Imigração”.


Termino por onde comecei. Democracia e Democratas: ALERTA! A crise económica que apenas começou pode pôr tudo em questão: inclusive a Paz Social e a Democracia na Europa acomodada! ALERTA!
 



publicado por Fernando Nobre às 20:40
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29 comentários:
De Humberto Sá a 18 de Junho de 2009 às 23:09
Caríssimo Dr. Fernando Nobre: apesar de escrito há já algum tempo, só agora li este seu texto de ALERTA!
Subscrevo por inteiro as suas palavras, deixando o meu comentário em forma de poema:

MUDA ENQUANTO É TEMPO, HOMEM!

Apareceste...
E o mundo que fizeste transformou-te neste mundo!
Foste mentira. Hoje és a guerra!
E, amanhã, tua ira será o fim da tua era!
...Onde chegaste com tua vingança!

Muda enquanto é tempo, homem!
Transforma-te de novo!
Abre teus braços, estende tuas mãos e vamos brincar, todos, como irmãos.

Nascerá a esperança, haverá amor
E, então, farás um mundo bem melhor!

(In "DISPERSOS NO TEMPO", de Sérgio Sá)


De MAlbertina F.S.Silva a 1 de Março de 2009 às 01:37
Ontem à tarde a RTP1 ou a SIC,já não tenho a certeza, transmitiu um belo filme chamado, "A FEIRA DAS VAIDADES". Comecei a ver mas deu-me para mudar de canal.Má hora o fiz! Assustei-me tanto que corri à farmácia de serviço, para comprar um anti-helmíntico. Fui aconselhada a comprar Pantelmin, que até é barato, e deveria não só eu mas toda a familia tomar. Mais, deveria tambem desparatisar os meus gatos. Sendo assim para não correr riscos, comprei tambem Drontal,que me ficou bem mais caro , do que o outro.Mas assim livro-me de ter por uns tempos, outras espécies de "parasitas" do que as que já tenho em casa.
Espero, Dr. Fernando, que me perdoe a minha ironia e se não quiser publicar o meu comentário, eu compreendo perfeitamente.
Mas não posso deixar de manifestar a minha indignação pelo que ouvi ontem,pela voz do Dr.António Costa. Não é democrático ,nem ético.Não se ganha razão nem votos a ofender os outros.
Parece que até a luz se indignou mais tarde!
Isto é que vai uma democracia!!!!

post scritum--mesmo mudado o canal continuei a ver a "FEIRA DAS VAIDADES"...



De F a 19 de Fevereiro de 2009 às 14:18
Olá.
Só para dizer que subscrevo tudo. Não podia estar mais de acordo. Estar atento é uma urgência. Reagir é necessário. Parece-me que muitos não sabem verdadeiramente qual o valor da democracia, de viver em paz e alimentado. Esta crise já está a assustar muita gente, vai acordar muita gente.
Coloquei no meu blog um link ao seu blog.


De Fernando Nobre a 19 de Fevereiro de 2009 às 17:46
SAIBAMOS TODOS CONSTRUIR UMA REDE SOLIDÁRIA!


De Pedro Miguel Rocha a 18 de Fevereiro de 2009 às 23:44
O prédio materialista, egoísta e capitalista construído pela maioria dos governantes e empresários ao longo dos anos está a ruir. Desmorona-se porque os seus alicerces eram frágeis e porque muitos foram, impunemente, roubando materiais que eram de todos.
Esperemos que a sociedade civil acorde e que tome as rédeas da construção de uma nova casa para o Mundo. Unidos, poderemos, sem dúvida, fazer nascer um lar para todos, um pouco mais solidário, espiritual, fraterno e justo.



De Fernando Nobre a 19 de Fevereiro de 2009 às 16:14
O acordar da sociedade civil vai depender de cada um de nós. Se assim for uma sociedade mais fraterna nascerá.


De Carlos Rebola a 18 de Fevereiro de 2009 às 23:01
Dr. Fernando Nobre

Este magnífico artigo não é só um ALERTA é também e principalmente uma consciencialização fundamentada do perigo que corremos enquanto cidadão e inquilinos deste planeta.
Que a missão "aventura solidária" tenha o êxito que merece pela sua grandeza humanitária.
Obrigado
Carlos Rebola


De Sofia Montenegro a 18 de Fevereiro de 2009 às 01:19
Caríssimo Dr Fernando Nobre, parabéns, mais uma vez, pelo belíssimo artigo! Eu estou inscrita na "aventura solidária" (se for seleccionada vou nem q tenha q assaltar um banco!)que gostaria muito que fosse na Guiné, que ainda não conheço, mas acho q deve ser lindíssimo e premente de ajuda! Concordo com o contributo de todas as personalidades q refere, a democracia é , evidentemente, um bem precioso de mais e os tempos que correm são por demais cinzentos e apáticos. Só discordo da referência a Miguel Sousa Tavares, pois sou professora e ele 'só 'disse , em horário nobre, q os professores eram os inúteis mais bem pagos da sociedade. Devia, antes, ir dar uma ou duas aulas, por ex, à Ribeira , aqui no Porto, contactar, com o real e não cair na tentação de afirmações simplistas e ofensivas. Por si a mesma admiração de sempre, obrigada por ser quem é!
Um abraço com amizade, Sofia Montenegro


De Fernando Nobre a 19 de Fevereiro de 2009 às 16:27
Obrigado. Continue a lutar pelos seus ideais. Temos que aceitar as discordâncias... Já fui bastante criticado e sê-lo-ei ainda mais no futuro estou certo. Tal não me impedirá de lutar pelo que me parecer justo e útil para o nosso País e o Mundo.


De António Mourinho a 17 de Fevereiro de 2009 às 23:09
Li com todo o interesse o seu artigo, gostaria apenas de fazer uma pequena analogia, que estou disposto a pagar se tal vier a acontecer , sendo eu das franjas populacionais mais desfavorecidas. Vale a pena apreciar a mãe natureza antes , durante e depois de um fogo, antes de arder as pessoas tomam-na como garantida descurando dos seus deveres para com ela, quando arde, á pessoa que só olha para o imediato e para si próprio é uma dor atroz, para aquele que olha para o amanhã, sabendo-se parte de um todo, fica triste e sereno, pois sabe que amanhã a mãe natureza nos presenteará com uma alvorada esplendorosa, onde um novo começo se faz alavanca do processo. Este é o meu modo simples de analisar, se a democracia cair outro paradigma se levantará, e como todos os outros sonharemos, lutaremos e vivenciaremos a sua essência até que esta também se esgote e o ciclo se perpetuará tal como o dia sucede á noite. Tudo de bom MOURO


De Fernando Nobre a 19 de Fevereiro de 2009 às 16:29
Assim é e será amigo.


De pedro castro a 16 de Fevereiro de 2009 às 15:32
Boa tarde Dr. Fernando Nobre,
Que democracia esta, que pelo caminho que esta aparenta levar todos nós somos controlados ao máximo por outras entidades;
Vou a uma estação de gasolina, sou visionado perante aquilo que eu faço, vou ao centro comercial, sou visionado pelo que faço, vou a uma loja, sou visionado pelo que eu faço, dia a dia no nosso telemovel, nunca saberemos se estaremos ou não a ser escutados pelas mais banais conversas com amigos, pais, filhos. Acedo à minha conta bancária, outros a podem controlar para saber aonde gasto o que gasto e quanto gasto, até já nos emails não saberemos se existe alguém por cima que também poderá estar a inspecioná-los, enfim numa sociedade democrática como a que estamos a viver em que todos somos suspeitos por coisa nenhuma e outros por tudo, não quero viver! Esta que cáia de madura, que as suas pétolas tombem e que nasca uma nova papoila com uma outra cor muito mais forte que a anterior.
Digo sim à social democracia aonde, o respeito pelo outro exista, aonde um sistema de justiça funcione com todo o seu rigôr, aonde os verdadeiros criminosos sejam julgados e punidos, aonde exista um sistema de ensino que ensine aos nossos filhos e à sociedade o saber respeitar o outro, o saber respeitar as regras da democracia, aonde se cultive o saber ser Homem, que se preserve o meio ambiente, aonde se saiba ser solidário, aonde o respeito pela liberdade pelo próximo exista e fundamentalmente que vejamos qualquer outro ser como uma extensão de nós próprios.
Que saudades tenho de Agostinho da Silva das suas palestras, conversas e do tipo de ensino que defendia para uma sociedade mais justa e mais culta, as suas ideias ainda se mantêm mais que actuais. Só com um sistema de ensino rigoroso aonde se forme um outro tipo de mentalidades é que seremos capazes de algum dia ser uma sociedade evoluida e viver a democracia naquilo que é seu verdadeiro significado.
Por tudo isto que se lute pela democracia, pois o Homem ainda não inventou um outro sistema melhor.
Um Forte abraço.



De Fernando Nobre a 17 de Fevereiro de 2009 às 12:17
Como concordo consigo amigo! É imprescindível que haja aulas de civismo desde a pré - primária até ao pós - doutoramento! Lá chegaremos.


De Beatriz a 16 de Fevereiro de 2009 às 14:36
um link que talvez achem interessante .

vamostentarmudar.org


De Anónimo a 16 de Fevereiro de 2009 às 14:28
Apetece-me lançar a ideia (não original), porque já aconteceu em situações anteriores, noutros Países e sobre outros temas, e marcarmos uma data, um local, uma hora, e todos, mas todos aqueles que somos anónimos - obviamente que os ilustres preocupados com a situação actual poderão e deverão aparecer - nos manifestarmos, ordeira e civilizadamente contra a indiferença. Indiferença dos nossos políticos , da nossa justiça, da nossa educação. Não bastam os Prós e Contras da TV, (apesar de achar um bom programa de informação) mas ,onde só quase os "ilustres" têm voz. Nós temos que fazer entender que não é isto que queremos, não é para isto que votamos e elegemos governantes. Não me importa quem é de esquerda, direita, centro ou o que quer que seja. Importa que todos aqueles que trabalhamos seriamente, pagamos os nossos impostos e as nossas contas estejam unidos pelo mesmo pensamento - Nós não merecemos isto - ! Beatriz


De Graza a 17 de Fevereiro de 2009 às 11:48
É muito bom ver gente a querer marcar data, local e hora! De facto, é como diz o Dr. F. Nobre é preciso actuar já, antes que o clique se dê de uma outra forma mais dramática. Mas o povo não pega nestas ideias da mesma forma apaixonada com que pega na Selecção de Futebol. Precisamos urgentemente de um rastilho porque a carga parece começar a existir. Ou talvez exista o rastilho, ou candidatos a isso, e o que faça falta afinal seja a chama que o acenda.


De Beatriz a 18 de Fevereiro de 2009 às 10:01
Mas o povo não pega nestas ideias da mesma forma apaixonada com que pega na Selecção de Futebol.

Não somos nós o Povo....vamos a isso.

Beatriz


De Fernando Nobre a 17 de Fevereiro de 2009 às 12:27
Também assim penso. Acredito que esse momento vai chegar. Poderá ser um dos aspectos positivos desta tremenda crise de valores. A consciência humana colectiva assim o vai exigir. Já faltou mais...


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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