Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Foi em meados de 1983 que, sem saber, fui pela primeira vez confrontado com o temível, mas ainda quase desconhecido, síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA).

Estava em Bruxelas e operei um senhor ruandês muito magro; menos de um ano depois, morria das complicações do SIDA.

 

Na altura, dizia-se que o SIDA era um síndrome adstrito aos homossexuais, drogados e negros! Tal estigmatização tranquilizava os não homossexuais, não toxicodependentes e não negros! Depois, perante a nossa ignorância sobre o SIDA, veio o medo: ao examinarmos esses doentes era-nos aconselhado, no hospital, o uso de luvas, de batas, de máscaras... Perante a incerteza do contágio, era melhor protegermo-nos!

 

Então, ao terrível sofrimento dos doentes, acrescentámos o nosso afastamento e a nossa própria angústia, filha do nosso desconhecimento, do nosso medo.

 

Duros tempos de incerteza em que os bem pensantes moralistas não se inibiram de lançar os piores anátemas sobre o pecado do sexo.

 

Em finais dos anos 80, perdi pessoas conhecidas vindas do então Zaire: não eram negros, nem homossexuais, nem toxicodependentes. O círculo tinha-se alargado e, de repente, sentimo-nos todos ameaçados: medo das transfusões, do sexo ocasional e não só.

 

Estávamos todos no mesmo barco, já não havia mais lugar para a indiferença e a intolerância, essas duas terríveis doenças da mente que classifico como as piores doenças da Humanidade.

 

Pouco a pouco, graças aos movimentos da sociedade civil, às Nações Unidas e aos governos, foi possível uma sensibilização e uma tomada de consciência salutar sobre esse autêntico flagelo.

 

Desde então, passadas quase três décadas do início do surto epidémico, surgiu enfim um fraterno ímpeto de solidariedade e de compreensão (infelizmente nem sempre generalizado) para com os nossos semelhantes infectados pelo vírus, fossem eles hetero ou homossexuais, brancos ou negros, toxicodependentes ou não.

 

O caso dos hemofílicos do mundo inteiro chocou-nos pela dimensão do seu drama, do nosso drama, tanto individual como colectivo.

 

Desde então muitos progressos foram feitos, tanto na abordagem e sensibilização do síndrome como no desenvolvimento de novos fármacos e na maior acessibilidade, infelizmente ainda muito insuficiente sobretudo nos países mais pobres, dos doentes aos tratamentos.

 

O drama é também que o Mundo continua sem dispor de uma vacina eficaz e não se vislumbra o momento em que tal aconteça.

 

Para uma doença que já vitimou seguramente mais de 40 milhões de pessoas, que deixou muitos milhões de crianças órfãs e que representa um pesadíssimo fardo social e económico para os países mais atingidos, nomeadamente na África central e austral, temo que muito reste por fazer até nos darmos como satisfeitos no controlo, para não dizer na erradicação, dessa temível pandemia.

 

Não há tempo a perder: governos, cientistas, médicos e população em geral têm que unir esforços e vontades para que esta verdadeira “peste negra” do final do Século XX e início do 3º Milénio e o seu terrível cortejo de sofrimento e morte cesse. A criação do Fundo Global (destinado ao combate à Malária, à Tuberculose e ao SIDA) foi um importante primeiro passo, mas só com o empenhamento de todos o vírus imprevisível do SIDA será domado, como aconteceu com o da varíola.

 

Alerto: grandes regiões da África Central, Austral e do Leste estão a despovoar-se devido ao SIDA. Não esqueçamos que, associada à corrupção e à crise económica e social existentes, essa tragédia hipoteca o desenvolvimento e o futuro de África. E sem África o Mundo não será sustentável!

 

É urgente a criação de uma vacina eficaz e é indispensável que o preço dos testes e dos tratamentos já existentes seja acessível às populações de todo o Mundo. Se assim não for, nesta Casa Global que é o nosso Mundo, não controlaremos o flagelo.

 

Temos que continuar com o nosso esforço sem esmorecer. Ainda optimista quanto ao futuro do Ser Humano, não tenho dúvidas que acabaremos com o flagelo do SIDA: em nome dos doentes, da juventude actual, merecedora de uma sexualidade sem medos, e das gerações vindouras.

 

Hoje a guerra está longe de ser vencida mas já começamos a ganhar batalhas.

Estou certo que a Humanidade vencerá.


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publicado por Fernando Nobre às 09:51
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21 comentários:
De moda a 13 de Maio de 2009 às 01:55
Adorei o blog
posts interessantes
está de parabens
bjos


De transportadora a 2 de Abril de 2009 às 21:38
Parabéns pelo entusiasmo e força revelados no artigo!

Um grande abraço.



De transportadora a 2 de Março de 2009 às 18:20
Interessante parabéns!


De paula a 26 de Fevereiro de 2009 às 14:57
39,5 milhões de pessoas estão infectadas pelo VIH/SIDA e 96% dos novos casos ocorrem nos países em desenvolvimento. Embora a África Subsariana tenha apenas 10% da população mundial, representa 64% dos seropositivos e 90% das crianças seropositivas com menos de 15 anos de idade. É uma dimensão da doença dificilmente concebivel para nós.


De Fernando Nobre a 27 de Fevereiro de 2009 às 10:07
Assim é. Os números falam por si...embora por vezes se tornem, pela sua enormidade, abstractos e até enfadonhos como me diz um grande amigo.


De paula a 1 de Março de 2009 às 16:58
Os números dão a verdadeira dimensão da realidade, se abstractos ou enfadonhos, devem ser confrontados com a realidade prática, aplicável a quem são dirigidos. O abstracto não muda mentalidades. Os números e as imagens, tocam, doem. Sabe isso melhor do que eu.


De r a 25 de Fevereiro de 2009 às 13:42
Está uma referência ao seu/vosso blogue no seguinte endereço:

http://fait-divers.blogs.sapo.pt




De Fernando Nobre a 26 de Fevereiro de 2009 às 08:28
Muito obrigado pela atenção.


De Diogo Ribeiro a 25 de Fevereiro de 2009 às 04:51
Ao ler este "post", sobretudo na parte dos tratamentos, veio-me logo à cabeça o Processo de Patentes entre os Médicos Sem Fronteiras e a Glaxo (penso eu) sobre os medicamentos usados no tratamento do SIDA na Índia. O que só por si mostrou que muita da industria ainda olha mais para o dinheiro do que para o "mundo". Pura indiferença.
Recordou-me também do novo conceito de SIDA como doença crónica, o que no fundo mostra um pouco da nossa capacidade de tentar lutar contra este Síndrome, sendo que infelizmente só é "crónica" para aqueles que têm acesso aos tratamentos, o que infelizmente não acontece em todo o lado. Este direito deveria ser um direito universal!

No entanto, temos de olhar para o futuro, e na minha opinião, o futuro tem uma palavra de ordem nesta doença, PREVENÇÃO. É preciso educar, e tal como referiu, educar a TODOS e não só aos homossexuais, drogados e negros. Não podemos estar à espera de uma vacina, apesar de devermos lutar por ela.
Mas, permita-me que o diga com muita tristeza e talvez correndo o risco de ser injusto, que uma Vacina contra a Sida não daria lucros monetários, pois o dinheiro que se faz com a medicação, que ainda por cima é uma medicação "ad eternum", para muita gente, se sobrepõe à realidade de esta "peste negra".

Mas no fim, acredito como você que a Humanidade Vencerá e cada vez será menos indiferente ao mundo em que habitamos. Assim, acredito num futuro melhor e grandioso para a Humanindade.

Um abraço


De Renata a 25 de Fevereiro de 2009 às 00:40
Dr. Fernando Nobre,
Como não tenho o seu e-mail, peço licença para usar o blog para lhe enviar um vídeo muito interessante:
http://www.roberthappe.net/port/video.htm
Grata pela atenção,
Renata.


De Fernando Nobre a 26 de Fevereiro de 2009 às 08:32
Obrigado pela informação. Já visionei: muito interessante e vai no bom sentido.


De OLima a 24 de Fevereiro de 2009 às 23:33
Visitar este blogue é uma experiência enriquecedora, refrescante e revigorante.


De Carlos Rebola a 24 de Fevereiro de 2009 às 23:07
Dr. Fernando Nobre

Penso que o eficaz combate a esta pandemia, o SIDA, terá de ultrapassar dois grandes obstáculos, a falsa moral que estigmatiza, que lentamente está a mudar para melhor, graças a uma informação mais alargada e correcta (verdadeira) acerca da doença, fez-me lembrar o que se passou com os leprosos, ostracizados o que provocava nos doentes culpa, vergonha e um grande sofrimento psicológico o que os levava a esconder a doença, favorecendo a disseminação. O outro grande obstáculo é económico, e reside principalmente no gigantescos lóbis da industria farmacêutica, parece que é mais rentável em termos de negócio manter a doença controlável por meio de fármacos consumidos durante uma vida que usar um meio farmacológico que usado uma só vez erradique a doença.
Também tenho esperança que tais obstáculos serão ultrapassados.
Quanto ao acesso aos tratamentos pelos povos mais pobres e por isso os mais atingidos pelo SIDA, passa por concretizar as propostas que são feitas no sentido de colocar o preço dos tratamentos à medida das possibilidades desses povos. É um direito humano universal e fundamental, o acesso aos cuidados de saúde.

Um abraço de agradecimento e admiração
Carlos Rebola


De mariam a 24 de Fevereiro de 2009 às 22:36
Caro Fernando Nobre,
BEM-HAJA p'los seus depoimentos e exemplo de vida. Tenho um filho adolescente, preocupo-me e muito com o flagelo 'SIDA'...
Tomo a liberdade de deixar aqui um blog, onde sobre o 'SIDA' e outros temas relacionados com ele, se 'falam' com naturalidade.
http://sidadania.blogspot.com/

um abraço solidário
maria m



De Fernando Nobre a 26 de Fevereiro de 2009 às 08:30
Um abraço solidário também. Obrigado.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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