Domingo, 15 de Março de 2009

Republico hoje a introdução que tive a honra de escrever para um dos livros que recomendo este mês, por achar que é um assunto pertinente e muitas vezes votado ao esquecimento ou obscurecido por aqueles a quem interessa que nao se saiba.


O livro de Sonia Shah, “As cobaias humanas – os testes de medicamentos no 3º mundo”, conta uma história de terror, infelizmente verídica! Ainda há pouco tempo, um amigo médico africano, com elevadas responsabilidades num organismo das Nações Unidas, contou-me as enormes pressões a que foi submetido para que desse cobertura ética e científica a um ensaio terapêutico que não respeitava minimamente as normas e os cânones exigidos pelos protocolos internacionalmente aceites sobre ensaios medicamentosos... O livro de Sonia Shah, fruto de uma investigação aprofundada e séria cita, e bem, nomes da indústria farmacêutica que, muitas vezes sob a cobertura de empresas de fachada, “testas de ferro”, praticam uma das mais abomináveis violações dos Direitos Humanos ao pôr em risco a integridade física de seres humanos, quando não a própria vida, sem o seu informado consentimento.


Essas actividades ilegais, verdadeiros crimes bioéticos, são sempre praticados junto dos grupos humanos mais miseráveis dos países mais vulneráveis, pese embora também nos países “mais” desenvolvidos tais actividades já tenham sido levadas a cabo no passado, em prisões e em asilos para deficientes psíquicos e mentais. Ao fim e ao cabo, a sinistra epopeia dos médicos malditos nazis durante a II Guerra Mundial não foi assim há tanto tempo…


Os desvarios bem documentados por Sonia Shah, que também dá rosto humano a muitas das esquecidas vítimas, são sempre eticamente condenáveis, porque como já referi, são verdadeiros crimes que deveriam ser exemplarmente punidos. Esses crimes só são possíveis, porque as empresas e as pessoas que os praticam estão enfermas com os vírus da ganância e da indiferença que as incentivam a praticar actos bárbaros na procura de ganhos financeiros astronómicos mesmo, e sobretudo, á custa de vidas alheias, porque miseráveis e anónimas.


Este livro fala de uma imoralidade monstruosa praticada contra vidas indefesas e contra a consciência humana. Esses pseudo-testes medicamentosos são levados a cabo com a exclusiva finalidade do embuste e do lucro sem limites, violando brutalmente os protocolos e preceitos ético-científicos internacionalmente conhecidos, junto de populações miseráveis como já referi, mas que faço questão de repetir, em países onde muitos responsáveis políticos e administrativos, médicos ou não, se mostram particularmente sensíveis e moldáveis à corrupção desses vampiros encobertos de “respeitabilidade”…


Quando seres humanos são vistos como meras cobaias sem qualquer direito perante empresários e cientistas gananciosos e amorais, enclausurados nas suas torres de marfim está mais do que justificado o livro corajoso que temos entre mãos.


É essencial relembrar que, como está escrito nos princípios de base da Declaração de Helsínquia, o bem individual da pessoa deve sempre prevalecer, em qualquer ensaio clínico, sobre os interesses da ciência e da sociedade. É também útil relembrar aos médicos e enfermeiros que a nossa razão de ser é o desejo de atenuar o sofrimento e de lutar pelos nossos doentes!


Sonia Shah, com este livro, pôs o dedo numa das chagas vivas do nosso tempo. Faço votos para que as pessoas leiam este livro, pois esta, como outras chagas da nossa Humanidade, têm cura. Para tal, bastará que não olhemos para o lado e nos empenhemos todos na luta contra a miséria humana e o subdesenvolvimento, pântano onde todas as sanguessugas se deleitam. Só com o fortalecimento da Cidadania Global Solidária, última muralha contra os horrores e os terrores como os que são aqui magistralmente retratado por Sonia Shaha, será possível pôr-se termo definitivamente a este tipo de desvario.


Por isso, obrigado e bem haja, Sonia! Este seu livro é mais uma pedra na edificação de uma Humanidade de valores que sonho, que todos sonhamos….

 



publicado por Fernando Nobre às 09:46
link do post | comentar

8 comentários:
De Azoth a 2 de Dezembro de 2009 às 17:59
Numa tertúlia entre conhecidos, alguém me criticou por ter escrito estas palavras no meu post A PIEDADE:- "Em pleno século XXI, continuamos quase tão bárbaros como os bárbaros que invadiam a Península Ibérica há séculos atrás".

Só tive uma resposta bem curta. Podia ter focado uma série de realidades chocantes, como a que foca e bem,mas bastou-me apenas uma:- Tens lido as notícias? O que pensas de seres humanos assassinados no Perú, aos quais lhes era retirada a gordura para a indústria cosmética na Europa, segundo as autoridades locais. Ao que parece, o ideal de beleza hoje em dia vai muito para além da vida aqui pela civilizada Europa. Bárbaros, eu disse quase tão bárbaros? mas que disparate... Pobres bárbaros, mas que injustiça.


Tudo de bom


De Luísa Almeida a 29 de Setembro de 2009 às 17:10
Dr. Fernando Nobre,

Ao consultar o seu Blog deparei-me com este tema que muito me impressiona por se tratar, usando as suas palavras “... de uma imoralidade praticada contra vidas indefesas e contra a consciência humana”. Trouxe-me à memória um livro que li em tempos intitulado 'Médicos Malditos' que retrata o horror de experiências médicas efectuadas barbaramente a prisioneiros em campos de concentração durante a 2ª Guerra Mundial. Estou neste momento a iniciar a leitura do livro de Sonia Shah 'Cobaias Humanas'. Obrigada Dr. Fernando Nobre, por utilizar todos os meios ao seu alcance como instrumentos de cura do seu semelhante não limitando a sua actuação ao tratamento do corpo, fazendo desse modo jus ao seu apelido.

Luísa Almeida
30/9/009


De Anonimo a 6 de Julho de 2009 às 12:44
Tenho conhecimento de uma situação ocorrida em Portugal de exploração de pacientes para fins de desenvolvimento de medicamentos.
Este paciente aqui em causa sofria de cancro da próstata até à pouco tempo. À cerca de 7 ou 6 anos atrás ele aceitou fazer testes de um medicamento para uma empresa ou laboratório localizado nos Estados Unidos. Todos os dias ele tinha de tomar esse medicamento. Mais tarde teve o dito cancro e pelo que se concluiu foi devido a esse medicamento. A companhia farmacêutica em causa não lhe deu nenhum apoio, nem monetário nem para tratamento.
Muito recentemente o médico que o acompanhava perguntou-lhe se dava autorização para que o tumor retirado fosse enviado para os Estados Unidos para ser estudado durante 15 anos. Existem outros pormenores graves de que não tenho conhecimento para falar, mas que são motivos de grande alarmismo para as pessoas.
Esta situação passou-se no nosso país, no hospital Amadora Sintra e foi completamente visível a insensibilidade do médico em causa, assim como a sua falta ética e interesses pelos quais se guiava (É assim que os hospitais privados ganham dinheiro!)

Apelo para que as pessoas tenham muito cuidado com este tipo de situações. Leiam cuidadosa e minuciosamente os contractos que assinam.
Este não é apenas um problema do 3.º mundo. Existem muitos interesses instalados na indústria farmacêutica.

São capazes de confiar num médico? Eu não.


De Teresa Ramos a 6 de Abril de 2009 às 17:00
Infelizmente fazemos a pessoas e animais, porque nos achamos uma espécie superior e dentro da espécie alguns se acham superiores também. Peter Singer explica isto bem com a sua teoria do Espécismo , "O Fiel Jardineiro" ficciona o que se passa em África , "A Corda" de Hitchcock satiriza e mostra-nos como o Homem facilmente entra em desvario mental por se achar superior.
O estudo de Tuskegge sobre a Sífilis (1932) é só outro exemplo somos capazes para proveito próprio.
Era bom que o animal humano parasse de tirar partido dos outros animais sejam eles humanos ou animais, sejam eles pobres ou ricos.

"A vivisection is a social evil because if it advances human knowledge , it does so at the expense of human character "
George Bernard Shaw


De Jorge Vicente a 17 de Março de 2009 às 00:43
no entanto, caro fernando nobre,

acho que a situação vai melhorar no futuro. a publicação deste livro, a maior consciencialização das pessoas irá despoletar algo que ainda não sei bem o que é no futuro. veja bem: o caso do grupo blinderberg (será esse o nome correcto?), filmes como este ou o livro de sonia shah não passarão despercebidos. vai chegar uma altura em que as coisas terão de mudar senão...

um grande abraço
jorge vicente


De paula a 15 de Março de 2009 às 22:14
Com certeza que há muitas mais «cobaias humanas» para além das do 3º mundo. Experiências que são feitas em cidadãos, menos protegidos, menos informados, mais debilitados, e sob a camuflagem dos governos, dos serviços nacionais de saúde, bem aqui ao nosso lado, bem dentro das nossas portas.
Bem há pouco tempo um urologista sugeriu que o meu pai tomasse um remédio para a próstata que ainda não está «comercializado», uma experiência, dizia ele.
Nem sempre os mais fracos são os mais desprotegidos, a sua fraqueza torna-os mais visíveis do que aqueles que pela sua neutralidade passam pela vida incógnitos, ao «abrigo» de países desenvolvidos, vítimas da ganância dos outros, cobaias humanas, também.


De M. Albertina F.S.Silva a 16 de Março de 2009 às 02:06
Boa noite,Paula
Entendo o que sente, porque já passei, não digo pelo mesmo,mas por algo semelhante ,com a minha Mãe. De qualquer modo e falando,sem ainda ter lido o livro referido pelo Dr. F. Nobre, penso que são situações muito diferentes. Aqui,pelo menos propoêm e tem que haver autorização do doente ou familia--penso estar certa,mas...
Do que fala o texto é algo muito mais feroz, que fere a nossa sensibilidade .
Se já o é com o que fazem com os animais ,como vi há bem pouco tempo num mail que me enviaram e ,em documentários ,que infelizmente só passam nos canais não generalistas, o que fazem com seres humanos indefesos é criminoso!
Mas como sempre os interesses económicos sobrepôem-se a tudo:moral, ética, direitos humanos.
De vez em quando há umas "pedradas no charco" como o filme magnifico (para mim) de Fernando Meirelles, O FIEL JARDINEIRO, mas é pouco,muito pouco, para o muito sofrimento, provocado por estas "experiências".
Por isso,estes alertas, e divulgação de livros sobre esta temática ,são sempre úteis.
Voltei a ler seu comentário e a frase que " nem sempre os mais fracos são os mais desprotegidos" fez-me pensar e repensar...Perdoe-me ,Paula, mas não consigo concordar.
Aliás,ainda que eu tenha percebido o sentido da frase, a Paula mais acima diz :"cidadãos menos protegidos, mens informados, mais debilitados"...
E também não percebi porque disse "neutralidade porque passam na vida". Será Paula que as cobaias humanas de que fala o texto, alguma vez fizeram algo que as tornasse não neutrais?
Paula só estou a expôr dúvidas, não quero de maneira alguma entrar em confronto consigo, até porque ,como já disse,entendo o que a faz sentir assim. um abraço.tina


De paula a 16 de Março de 2009 às 16:01
Albertina, quando digo que os mais fracos nem sempre são os mais desprotegidos, refiro-me à visibilidade que lhes dá a sua fraqueza, tem o exemplo deste livro. Não quero de maneira nenhuma desvalorizar o significado ou importância da divulgação desses casos.
Só quis lembrar que mesmo ao nosso lado também há violações dos direitos humanos, da maior parte deles, mas que por viverem sob o manto da «civilização», são invisíveis, e como tal desprotegidos mesmo. Desprotegidos pelo preconceito, pela vergonha, pela aparência, pela ignorância, sei lá! Basta olhar à nossa volta com vontade de ver.
Entenda que não quis nem contradizer nem desvalorizar o texto do Dr. Nobre, como poderia? Só pretendia chamar a atenção para o «vizinho» ao nosso lado, nada de relevante ou importante.
É bom saber de si.
paula


Comentar post

Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
FOTO DA SEMANA


LIVROS QUE PUBLIQUEI

- "Viagens Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Gritos Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Imagens Contra a Indiferença",
Círculo de Leitores / Temas & Debates


- "Histórias que contei aos meus filhos",
Oficina do Livro


- "Mais Histórias que Contei aos Meus Filhos", Oficina do Livro

- "Humanidade - Despertar para a Cidadania Global Solidária", Temas e Debates/Círculo de Leitores

- "Um conto de Natal", Oficina do Livro
Pesquisa
 
Contador de Visitas