Domingo, 29 de Março de 2009

Posso desde já afirmar algumas certezas, pese embora as dúvidas e inquietações que me assolam, sobre o que nos está a acontecer e sobre o que poderá advir, em Portugal e no Mundo, se não soubermos reagir…

 

Algumas certezas:


- Sem o restabelecimento da insubstituível CONFIANÇA entre os cidadãos, os governantes, os empresários e o sistema financeiro, vulgo banca, será de todo impossível sair-se da presente espiral negativa criada pela ganância e a irresponsabilidade de uma certa “liderança” enferma de egocentrismo e indiferença.


A desconfiança hoje profundamente enraizada em todos os quadrantes da sociedade é o factor decisivo que condiciona negativamente tudo o resto.


Sem se tomarem as decisões imprescindíveis e urgentes na política e na justiça (regulamentações diversas, julgamento rápido dos prevaricadores e imediata confiscação de todos os seus bens, estejam onde eles estiverem, em seus nomes ou não…), decisões que devem ser vistas como essenciais par a salubridade ética e moral de uma sociedade e de um sistema financeiro completamente pervertidos porque engendrados por mentes enfermas de ganância, sem o mínimo bom senso, e desconectadas da realidade, a CONFIANÇA não regressará e então nada será possível. Nem em 2009, 2010, 2011, ou 2012…


- A derrocada em curso já provocou pelo menos o surgimento de mais duas centenas de milhões de pobres no Mundo: nos países mais pobres mas também no seio dos países até agora definidos como ricos ou desenvolvidos. A esse respeito a procissão só agora chegou ao adro e mais centenas de milhões de pobres e de miseráveis surgirão até que se consiga estancar a hemorragia do desemprego e da desesperança.


– Sem uma MUDANÇA RADICAL DO PARADIGMA sobre o qual se alicerçou a Sociedade Humana vigente, há décadas ou mesmo há séculos, não há saída sustentável para a actual crise sistémica. Se essa MUDANÇA PROFUNDA DE COMPORTAMENTOS não ocorrer, e quanto mais depressa melhor, podemos estar certos que a instabilidade financeira, económica, social e política irá agravar-se e desembocará numa crise de regime profunda em todo o Mundo que gerará conflitos globais, sociais e militares, tremendos.


Não é por acaso, meus amigos, que se assiste desde já a manifestações da fome e que todas as grandes potências têm em curso aumentos orçamentais brutais e acelerados para o reforço e a modernização dos seus arsenais bélicos: algo de extremamente grave está em gestação.


Os “líderes actuais” responsáveis da “Ideologia Económica do Desastre”, por convicção ideológica ultraliberal, por subserviência ou demissão perante o desregulado poder financeiro ou por mera ganância ou incompetência, não pensem que bastará apenas fazer uma superficial cirurgia estética (para povo ver e ser ludibriado), para continuarem, ficando tudo na mesma, a actuar como fizeram até hoje!


Tal não será exequível, pois não só é anunciadora de desastres ainda mais profundos mas também porque os povos já não querem mais esse sistema gerador de profundas desigualdades e de indizível sofrimento. Repito: vai ser necessária uma MUDANÇA RADICAL DE PARADIGMA DAS MENTALIDADES, DAS POLÍTICAS E DOS GOVERNANTES A TODOS OS NIVEIS. UMA NOVA SOCIEDADE ESTÁ EM MARCHA E É IMPARÁVEL. QUEM AINDA NÃO ENTENDEU ISSO NÃO PERCEBEU NADA, NÃO OLHA PARA O FUTURO E ESTÁ A QUERER MERGULHAR-NOS NO ABISMO.
CABE DESDE JÁ, OU CABERÁ MUITO EM BREVE, À SOCIEDADE CÍVIL MUNDIAL SOLIDÁRIA ERGUER A MURALHA CONTRA A DESGRAÇA.


- Os mercados terão que ser muito mais regulados, as Off Shores (paraísos das fraudes e outras evasões fiscais) terão que ser banidas, os Estados vão ter que controlar os pilares mestres do seu sistema bancário, segurador, energético e hídrico (e não abrir mão evidentemente dos seus sistemas de segurança interna e externa assim como das suas relações exteriores…), e será necessário regulamentar com um mínimo de ética e bom senso as obscenas disparidades actuais nos salários (e outros bónus) e nas reformas!


- É urgentíssima a estabilização do Mercado e o fim dos cortejos de despedimentos, dos layoff e dos trabalhos precários, causas, senão mesmo sinónimos, de maior pobreza e miséria. É agora porque em 2010, 2011 ou 2012 já será tarde demais porque com o rebentamento das Bombas Sociais o equilíbrio societário será rompido com consequências imprevisíveis!


O expoente máximo dessa miséria humana reflecte-se nas situações, verdadeiramente dramáticas, vividas pelos sem-abrigo. A AMI sabe alguma coisa a esse respeito pelo acompanhamento que faz dessa problemática (com os seus 9 Centros Porta Amiga e os seus 2 Abrigos para os sem-abrigo), há já 15 anos no nosso País!


É pois urgentíssimo o combate estruturado e sem tréguas à pobreza. Há anos que falo e escrevo sobre essa matéria. Temos de fazer do combate à nossa pobreza, a nossa grande vergonha colectiva, uma verdadeira CAUSA NACIONAL (e GLOBAL!). Afirmei-o ainda recentemente perante o Senhor Presidente da República, Professor Cavaco Silva, o qual, na sua conferência de imprensa, no final da honrosa visita que fez às instalações da AMI na cidade do Porto, por ocasião do seu 5º Roteiro para a Inclusão, também salientou a necessidade desta Causa Nacional.

 
Meus Amigos, estas são algumas das minhas certezas, ou das minhas “verdades”, que convosco quis partilhar.

 



publicado por Fernando Nobre às 09:00
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14 comentários:
De Paula Antunes a 31 de Agosto de 2009 às 16:14
Caro "Extraordinário Ser Humano" e Dr. Fernando Nobre...cada vez que o ouço ou que o leio , quase sempre uma lágrima faz força para descer ou desce mesmo. Obviamente não se lembrará de mim, mas estive com o amigo Sejo Vieira no Festival Mundial da Terra em Sever do Vouga há algum tempo atrás e fiquei sem palavras face aos seus relatos.
Só quem for totalmente desprovido de coração não se sente... Eu, na minha modesta possibilidade de ajudar, sempre que posso faço-o. Sozinha não mudo o mundo, mas se melhorar o dia de alguém já é alguma coisinha.

Quanto aos que o criticam em relação ao seu apoio ao BE...ignore.Nem merecem resposta.
Eu sou de direita e não seria democrata, nem humana se não o respeitasse. Respeito e muito.

Bem haja
Paula Antunes



De Fernando Nobre a 31 de Agosto de 2009 às 20:15
Obrigado Querida Amiga Paula. Por tudo o que escreveu, e é isso que eu também sinto, a minha Amiga é "apenas" um Ser Humano e é isso que faz de si um Ser Extraordinário. O ser de "direita" ou de "esquerda" para mim não quer dizer nada. Se me conseguisse definir diria apenas que sou um ser sensível que não consegue ser indiferente perante o sofrimento alheio. E isso dói e por isso mesmo muitas vezes grito. Não entendo nem aceito tanta bestialidade nem tanto cinismo. É só isso e apenas isso. Abraço.


De Teresa Lourenço a 29 de Agosto de 2009 às 18:00
Dr Fernando
deixou-lhe aqui o meu apreço pelo ser humano que o Senhor é!
Fiquei fascinada com o seu percurso profissional.
O seu apelido de Nobre não foi um acaso, mas sim um símbolo do seu humanismo!
Se um dia realizar uma conferencia em Genebra, cidade onde resido, terei imenso gosto de poder assistir. Um abraço Teresa Lourenço


De Sofia Montenegro a 6 de Abril de 2009 às 16:11
Caríssimo Dr Fernando Nobre,
obrigada pela sua resposta. Eu, como já era de prever, entre o hotel e a instituição Benefac Tours voluteering (www.benefactours.com), esclhi, precepitadamente, a última e agora terei q ir. Comuniquei(email) à Embaixada em Nairobi q não se manifestou..Mas vou insistir. Obrigada pela sua disponibilidade, de sempre, em ajudar todos, até a mim!
Um abraço com amizade
Sofia Montenegro


De Fernando Nobre a 7 de Abril de 2009 às 07:22
Insista. É bom que a nossa embaixada saiba onde está. Não sei se ainda é o meu amigo Luís de Sousa Lorvão que está lá como embaixador... Se for, diga que vai por mim. Boa sorte! Cuidado e boa e profícua experiência!


De Miguel Mendes - aluno FCM-UNL a 5 de Abril de 2009 às 23:09
Caro Dr. Fernando Nobre,

Tive o prazer de o ouvir na FCM-UNL na passada sexta feira.
Sou biólogo e, durante o meu curso de Biologia, várias vezes ponderei mudar para Medicina. Tinha uma única visão em mente: a chamada Medicina Humanitária.

Terminado o curso, agora a trabalhar em Educação Ambiental, comecei Medicina este ano, estando a fazer os 1º e 2º anos ao mesmo tempo.
Ouvir as suas palavras veio trazer mais um pouco de sentido à minha luta.

Quando o Dr. disse que "há sempre um aluno na bancada que quer seguir a vida de trabalho no terreno", pensei, humildemente, "Sou eu." Espero que muitos mais tenham sentido esse mesmo sentimento de identidade nas suas palavras.

Quis estender a mão, olhá-lo nos olhos e dizer: "Espero, um dia, ter a honra de trabalhar do seu lado."

Agora, com 24 anos e com parte do curso de Medicina pela frente, sinto que pessoas como o Dr. dão mais sentido ao meu rumo.


Pelas suas palavras,
Por um futuro trabalho conjunto,
Por tudo o que tem para me ensinar,

Obrigado


Até breve,

Miguel de Sousa Mendes
2º ano de Medicina, FCM-UNL


De Sofia Montenegro a 4 de Abril de 2009 às 23:00
Caríssimo Dr Fernando Nobre,
Mais um post notável e com a clareza de sempre. Parabéns, mais uma vez! Pedindo desde já desculpa por falar noutro assunto, vou atrever me pois estou um bocado em stresss ...Vou na próxima 3af p o Uganda e gostaria de saber se conhece a ONG BenefacTours-Volunteer Placements , pois n sei se será credível/seguro lá ficar. Será q devo ficar n1 hotel conhecido por uma questão de segurança?
desde já obrigada, com os melhores cumprimentos e admiração de sempre
Sofia Montenegro


De Fernando Nobre a 6 de Abril de 2009 às 12:51
Amiga não conheço essa ONG. É sempre mais seguro à partida ficar num hotel onde seja facilmente localizável e contactável... Força e muita sorte. Dia 13 parto para o Mali. Abraço.


De MJ a 2 de Abril de 2009 às 20:27
Subscrevo na íntegra as suas palavras tão sábias e tudo farei para as divulgar.
Muitas vezes pergunto-me se a maior pobreza de todas não procura residência cativa no interior do ser humano, que por negligência e falta de percepção permite que se instale e propague dentro de si como uma erva daninha...

Os sinais vêm de fora (só não vê e não ouve quem não quer) mas talvez esta urgente "mudança de paradigma", para ser real, tenha de operar-se de dentro para fora...


abraço solidário
mj


De ana a 2 de Abril de 2009 às 23:11
resumindo, e como dizia a minha avó, «só se é pobre de espírito» ... será?


De mariah a 2 de Abril de 2009 às 10:15
...um autismo perverso dos poderosos...

"Temos de fazer do combate à nossa pobreza, a nossa grande vergonha colectiva, uma verdadeira CAUSA NACIONAL (e GLOBAL!)."
este sistema vai acabar!
Nem há que ter dúvidas.

Entretanto ...morre-se na pior das vergonhas ...




De Jorge Delfim a 1 de Abril de 2009 às 00:10
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas,
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

José Carlos ARY DOS SANTOS


De M. Albertina F.S.Silva a 29 de Março de 2009 às 13:52
Ai meu Amigo, o problema é que eles fazem que não entendem, não querem perceber, são autistas conscientes (que me perdoem os que o são de facto, que não merecem serem comparados com esta gente).
O que eles não sabem (nem sonham),é que ao tentarem lançarem-nos no abismo, estão a cair eles próprios na cova que estão a abrir...(e se eu pudesse ser a primeira a lançar a terra para os tapar, dançaria de alegria)...
Eles bem se maquilham, bem falam(por acaso nem é verdade, são tão repetitivos, que enjoam), mas já enganam poucos.
Haverá sempre os que se enganam e os que gostam de ser enganados, porque lhes convêm, esquecendo que não há nada mais efémero que o poder,dos "lambe botas", mas "enquanto dura, vida doçura"...
Mas este terramoto social não pode deixar que assim continue tudo impune...impossível continuarmos a assistir de braços cruzados, a lares e lares destroçados, a dramas insuportáveis de pais que se esquecem dos filhos( mesmo sendo negligência indesculpável, quem puder não atire pedras)...de suícidios, de quase nos tornarmos irracionais, em busca de soluções que não obtemos.
Como erguer a "MURALHA CONTRA A DESGRAÇA"?
Não chega a NOSSA VERGONHA, OS NOSSOS GRITOS , temos que urgentemente agir. E está a chegar o tempo de lhes dizermos BASTA. SE NÃO NOS OUVEM , VÃO TER ALÉM DE NOS VER,embora também sejam cegos, CONTAR OS VOTOS DO NOSSO DESCONTENTAMENTO....
E A NÍVEL GLOBAL " OS SENHORES BRANCOS ,DE OLHOS AZUIS ,QUE FIZERAM DA ECONOMIA MUNDIAL O SEU CASINO" como diz Lula da Silva, que se cuidem... PARA GRANDES MALES, GRANDES REMÉDIOS.
ESTAMOS FARTOS.
BOA TARDE, a todos. Um obrigada à Paula, que me deu uma força para voltar... (para bem ou para o mal).
Um abraço, dr. Fernando. Volte bem e ajude-nos a ter força para lutar.
AS SUAS PALAVRAS E ACTOS SÃO EXEMPLOS MOTIVADORES!


De isabel mota a 29 de Março de 2009 às 09:29
Bom dia Dr.
Concordo consigo, no entanto, penso que há uma outra mudança, urgente, a fazer; uma mudança que passa por uma viagem ao mais íntimo de nós. Por cada estímulo ao consumismo, à inveja, ao olhar para o outro, há uma oportunidade perdida de mudarmos, também nós, o mundo.
Falava com um jovem esta semana acerca do voluntariado. Tem 19 anos, mora perto de Lisboa, e a ideia que tem ainda se prende aos bombeiros e pouco mais.
Há que investir na divulgação de causas como estas, nas escolas, nas empresas, nas famílias. Se cada um contribuir para quem precisa de nós, a começar pelos nossos vizinhos, acredito, recuperaremos muita da humanidade que nos foi "roubada" pelos especuladores, pelos lideres gananciosos, por todos os que aos meus olhos se tornaram menos humanos.
Boa semana. Tive muito gosto em lê-lo no início deste domingo. Ainda que as suas palavras nada tenham a ver com o sol que brilha e entra pela minha janela.
Um abraço com amizade, Isabel Mota


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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