Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Desafio gratuito? Debate e opção fúteis e inúteis? Escolha impossível? Penso que não. Será um desafio gratificante, julgo eu, se a opção “ser”, a acertada para mim, for a escolhida; não é seguramente a mais fácil mas será aquela que, nos momentos derradeiros, mais nos realizará e nos reconfortará!

 

 

Acredito plenamente que o “ser” tem que se sobrepor ao “ter”. Sei que não é o sentimento dominante neste início de século preocupado por uma globalização essencialmente financeira e especulativa, pelo vírus da ganância que galopa na mente de certos “yuppis” e de certas “empresas”, por uma tecnologia que parece tudo explicar e dominar e por uma visão maniqueísta das relações humanas que pretende conduzir-nos para perigosos desvios militaristas assim como para um choque de civilizações e religiões obsoleto porque retrógrado, sem cabimento e esperança e causador de tanto sofrimento e morte. O terrorismo e o combate que lhe está a ser travado são epifenómenos que decorrem das contradições e efeitos negativos quando o “ter”, irreflectidamente, tem a pretensão e ousadia de se sobrepor ao “ser”. A actual guerra contra o terrorismo está enferma de inutilidade e morte porque manifestamente desadequada e incompleta: só feita de tiros, torturas, prisões arbitrárias e cárceres fora das normas jurídicas, humilhações e mortes não nos levará a parte nenhuma a não ser a mais terror: será uma espiral infernal para todos, mesmo para aqueles, os do “ter”, que pensam ter-se posto ao abrigo nos condomínios fechados ou outras torres de marfim...

 

 

Meus amigos, há poucos anos ouvi no Centro de Convenções de Washington o então presidente da Organização Cooperação e Desenvolvimento da Europa, Sr. Jean Roger Bovin fazer uma análise da situação mundial que me reconfortou ainda mais na minha opção de pretender apenas “ser” e de lutar nesse sentido. Disse então o Sr. Bovin que “a pobreza impede o desenvolvimento social e o progresso”, “que o crescimento económico não conduz obrigatoriamente ao desenvolvimento social”, e que “o desenvolvimento social não é alcançado sem um investimento sério na saúde e na educação”. Afirmou também que “a democracia e a miséria não podem coexistir” e que por isso “é fundamental investir no desenvolvimento social para se almejar ter democracia”. E alertou para o facto da ”Nova Ordem Mundial” sonhada pelo outrora presidente George Bush (pai!) ter falido e se assistir a um aumento acelerado das disparidades! E mais, alertou também que previa para 2020 (amanhã!) que a África iria pôr no mercado de trabalho duas vezes mais jovens do que a Europa, EUA, Japão e Rússia, juntos!, o que provocaria uma corrente migratória Sul – Norte nunca vista... Sábias observações e temíveis previsões... Pois é, eis o resultado que a aposta no “ter” estéril produziu no nosso planeta: um crescimento económico sem desenvolvimento social integrado e global.

 

 

O “ter” é ilusão, é pura aparência, é efemeridade, é indiferença, é intolerância, é enfermidade, é solidão. O “ter” não tem esperança porque se esgota nele próprio, alimenta-se dele próprio exigindo sempre mais “ter”! Que saída para essa quadratura do círculo, para esse não senso que alguns tentam erguer em novo paradigma querendo fazer-nos crer que é a única via para a resolução dos problemas da humanidade? Só há uma: inversão de marcha em direcção ao “ser”. Não é fácil, espera-nos muita frustração (tanto maior quanto menos “ser” houver...) e alguma satisfação sobretudo aquela de sabermos que, no mais íntimo do nosso ser, estamos no caminho certo, na única via para a criação da Paz e da Harmonia entre os seres humanos.

 

 

“Ser” é humanidade, consciência social, livre arbítrio, liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade, cultura, preocupação ambiental, ecumenismo, tolerância, aceitação e preocupação do outro... Este é o meu pensamento, a minha opção, o meu testamento. Não de um rato de sacristia!, mas de um cirurgião que muitas vezes teve vidas entre as mãos, de um operacional que percorreu o Mundo e de um homem que sabe perfeitamente como é a morte e que gostaria de a enfrentar olhos nos olhos com o mínimo de angústia e medo. Só e apenas isso. Tentar “ser”.

 

 

E se tentássemos todos?

 



publicado por Fernando Nobre às 17:52
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19 comentários:
De José Fonseca a 27 de Outubro de 2009 às 12:32
Sr. Dr. Fernando Nobre só quero deixar aqui bem escrito que é uma afronta e crime contra a Humanidade deixar velhos e Jovens e Homens Mulheres de Família nesta Pobreza desenfreada como aqui existe em Portugal, vejo o meu Povo do qual faço parte sem dinheiro para ir a um dentista, defender-se na justiça dignamente e viver com 450 euros por mês e ter de viver em pardieiros e em quartos e em casas abarracadas ou ter de imigrar para ter uma vida um pouco melhor enquanto a ampulheta da vida vai descontando os grãos de areia que ainda nos sobram até expirarmos a nossa validade como humanos.
Como eu com 45 anos desempregado vim viver para o campo tive de largar a casa onde estava para vir para uma via mais económica mas mais difícil para arranjar Trabalho pois como sou de electrónica aqui no campo é difícil , mas vou vivendo como posso neste momento estou a cultivar um quintal para ajudar ao orçamento familiar.
Mas certamente irei trabalhar para Angola... será o que me resta ? mas não está nada fácil e até agora nada consegui a não ser promessas.
A vida dos Portugueses de alguns Portugueses é cheia de espinhos e Tormentas e nada mas nada muda isto ! este regime está a arruinar a vida das pessoas, o Estado cada vez mais se Liberta das obrigações que tem com as pessoas, e deixa-nos sem capacidade de podermos responder aos nossos problemas, em exemplo tenho tido bastantes dificuldades burocráticas acrescidas como até antes não tinha o que é demonstrativo da falta de tutela e como o Estado nos abandona, quem não tiver capacidade para se defender não tem soluções não tem saída , as empresas de telecomunicações obrigam as pessoas a assinar contratos leoninos com fidelizações e levam-nos o dinheiro por tudo e por nada vivemos num Pais cheio de defeitos e falsidade, louvo quem o tente mudar pois que como eu o tenho feito mas de forma mais discreta pois não sou figura pública mas tenho feito ainda por esta forma bastante e pesada Contestação Social.

Cumprimentos
José Dias Fonseca


De Fernando Nobre a 1 de Novembro de 2009 às 17:32
Compreendo o que o meu amigo diz. É verdade. Foiisso, entre outras coisas que disse, gritei!, no 3º Congresso Nacional dos Economistas no Funchal dia 23 deste mês. Força e não desista de lutar em nome da sua dignidade de Ser Humano. Obrigado e abraço.


De simão costa a 23 de Outubro de 2009 às 17:02
Exmo sr Fernando Nobre é a hora de mudança na atitude das pessoas, continue assim, um dia vamos lá chegar, quando mais cidadãos tiverem a sua coragem de enfrentar tudo e todos pelo bem estar da humanidade.

Muito Obrigado

Simão Costa


De Fernando Nobre a 1 de Novembro de 2009 às 18:41
Caro amigo ao fazer o que faço só tento fazer o meu dever de ser humano privilegiado. Abraço.


De IDRISSA BADJI a 7 de Outubro de 2009 às 20:30
Caro Presidente Fernando
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Caro Presidente Fernando <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>Primero</A> , desculpa-me sobra minha expressão , no falo muito bem Português Sou do Senegal, fui um colaborador do El Hadji Malick Sarr vosso Amigo. Estou aki 3 mês e trabalho em Pombal no imobiliária para 9 meses. <BR>É com muita emoção que tenho leio vossa reflexão multidimensionais. Apreciado e desejo que o seu mensagem passa. <BR>Muito brigado


De Fernando Nobre a 12 de Outubro de 2009 às 18:37
Caro amigo Idrissa não é preciso tratar-me por presidente. Espero sinceramente que seja feliz em Portugal e que regresse sempre que quiser ao seu belo país que conheço tão bem há já muitos anos. Somos apenas seres humanos e como tal devemos ser tratados e amados. Abraço e Força.


De Sofia a 26 de Abril de 2009 às 11:21
Dr.Fernando Nobre, todos os agradecimentos são poucos. Pela sua integridade, coragem, humanidade, e compaixão. O senhor e' o verdadeiro Samaritano e inspiração viva para milhares (senão milhões) de pessoas que acreditam no fim da fome e da guerra.
Há esperança, de que os homens de amanhã saibam rejeitar a corrupção e tornar o mundo num lugar realmente paradisiaco. Um abraço no coração.
Sofia


De Fatyly a 25 de Abril de 2009 às 18:54
Já há muitos anos que admiro o que faz, o que diz e o legado que tem dado...não com palavras mas com gestos e atitudes de um homem com H grande e de quem bebeu água do Bengo como Eu.

Li o seu blogue e revi-me em muitas das suas palavras e voltei às que dão o nome a este espaço.

Este post é o espelho de quem, "neste mundo cão", é verdadeiro, simples, humano e sem fronteiras .

O senhor é o coração dessa vasta equipe e tenho muito orgulho de dizer que é português made in Angola:)

Um abraço sincero e respeitador


De Fatima M. Ribeiro a 24 de Abril de 2009 às 15:06
Olá!
Sr. Fernando Nobre
Eu estive em São Tomé há 3 semanas. Fui lá por causa de um projecto humanitário a nível do ensino Básico, que eu quero desenvolver. Sou estudande do ensino noturno da escola Secundária de Albufeira.
Eu sabia que ia encontrar muita miséria mas fiquei ainda mais triste com as atitudes de indiferença que vi. Revolta-me que pensem, que este povo vive assim porque quer, sei que muitos não têm alternativa.
Hoje ao pesquizar sobre a taxa de analfabetismo dei. de cara com o seu blogue e fiquei contente por encontrar alguém que como eu esteja revoltado com estas situações que estam presentes no nosso mundo.
Se possível gostaria que visse o meu trabalho. http://homemcomfuturo.blogspot.com


De Branca Pinto a 11 de Abril de 2009 às 02:00
Olá Dr. Fernando Nobre,
Verdades tão sensatas e sensíveis nos deixa!
Vamos todos tentar, todos os dias mais um bocadinho. Às vezes pensamos que já assim o fazemos, mas quem sabe nos falta ainda mais um esforçozinho . É que num mundo tão consumista , quando abdicamos de muitas coisas achamos sempre que só temos o essencial, no entanto ao reflectirmos no que se passa à nossa volta, algumas vezes muito do que achamos essencial é ainda assim acessório. Pessoas como o senhor, habituado a percorrer tantos caminhos, a viver por vezes em situações tão diferentes das que temos, percebe perfeitamente o que quero dizer.
E quando valorizamos o ser é tão reconfortante estar com outros que o fazem e sentirmo-nos mutuamente amados pelo que somos e não pelo que temos.
Um grande beijinho. Com muita amizade.
Branca


De sucast a 10 de Abril de 2009 às 15:15
sábias palavras, obrigada pela sua partilha.


De Ana Silva a 9 de Abril de 2009 às 12:37
Concordo plenamente relativamente ao "Ser".
No que respeita à sua afirmação anterior sobre a democracia e a pobreza devemos ter contudo em consideração que "democracia" se refere apenas a um tipo de regime político. Provavelmente referia-se a uma democracia liberal, as que respeitam e valorizam os Direitos Humanos.
Não nos podemos esquecer que países como a Índia são importantes democracias. Já a qualidade de vida da população....
Bem Haja
Ana Silva


De Pedro Miguel Rocha a 9 de Abril de 2009 às 07:50
Há um conto espiritual do Oriente, de que gosto bastante, que ilustra, de uma forma muito simples, a profunda e premente mensagem que o Sr. Dr. Fernando Nobre aqui nos deixou. Chama-se "A Cana de Bambu" e tomo a liberdade de transcrever e de partilhar uma parte:
" Num próspero reino do Norte da Índia, vivia um monarca que alcançara uma idade muito avançada. Um dia mandou chamar um ioguim que habitava no bosque entregue à meditação profunda e disse-lhe:
- Homem piedoso, o teu rei quer que pegues nesta cana de bambu e que percorras todo o reino com ela. Viajarás sem descanso de cidade em cidade, de povoação em povoação e de aldeia em aldeia. Quando encontrares uma pessoa que consideres a mais tola, deverás entregar-lhe a cana.
O ioguim viajou sem descanso, chagando os seus pés pelos caminhos da Índia. Percorreu muitos lugares e conheceu muitas pessoas, mas não encontrou nenhum ser humano que considerasse o mais tolo.
Passaram-se alguns meses e voltou ao palácio real. Teve notícias de que o monarca adoecera com gravidade e acudiu aos seus aposentos. Os médicos explicaram ao ioguim que o rei estava às portas da morte e que se esperava o desfecho fatal. Com voz quebrada, mas audível, o monarca lamentava-se:
- Sou tão infeliz, tão infeliz! Toda a minha vida acumulando imensas riquezas e que fazer agora para transportá-las comigo? Não as quero deixar, não as quero deixar!
O ioguim entregou a cana de bambu ao monarca. "

Votos de uma Santa Páscoa!
Respeitosos cumprimentos.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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- "Viagens Contra a Indiferença",
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