Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

As instituições da Sociedade Civil não estão lançadas na conquista do poder - conceito cada vez mais ilusório, efémero, diluído, relativo e pouco substantivo no mundo actual - mas estão, sim, empenhadas numa cruzada pelo reconhecimento sem ambiguidades da utilidade e mesmo da indispensabilidade de uma sociedade civil organizada, forte, credível, transparente, participativa, exigente, frontal, coerente, empreendedora, activa e atenta, em Portugal como no resto do Mundo.

 

De facto, a implicação sistemática da Sociedade Civil organizada nos processos de decisão de assuntos que dizem respeito à vida dos cidadãos, é decisiva, se quisermos um Portugal, uma Europa e um Mundo aberto e democrático que, efectivamente, pretenda, e talvez consiga, erradicar a pobreza e promover um desenvolvimento sustentado e durável para todos.

 

É este, hoje, o novo paradigma de sociedade pelo qual lutamos democraticamente pois estamos perfeitamente conscientes e convictos de que, sem uma Sociedade Civil atenta e participativa, não há Cidadania plena, não há Democracia duradoira, não há Desenvolvimento harmonioso.

 

Disso também as Nações Unidas estão cientes quando tentam incentivar e implementar o conceito de “Diplomacia Democrática” que mais não é do que o indispensável diálogo activo e construtivo entre Sociedade Civil, Governos e Nações Unidas, na expectativa de que as decisões tomadas, nomeadamente nas Assembleias Gerais, sejam seguidas de implementação e não se acumulem em arquivadas e inúteis resmas legislativas que só contribuem para a Globalização Armadilhada em curso.

 

Pessoalmente e em nome da AMI, creio sinceramente que só uma Sociedade Civil forte, politicamente independente e, por isso, obrigatoriamente, financeiramente independente, pode fazer ouvir a sua voz sobre temas candentes que condicionam o futuro da Humanidade, contribuindo assim decisivamente para a perenidade da Democracia que é, convenhamos, o bem mais precioso que a Humanidade alcançou um dia.

 

Não estamos à procura da usurpação do poder dos órgãos democraticamente eleitos nem de protagonismos fúteis e estéreis mas sim, prontos a darmos um contributo, que pensamos ser positivo, na procura das soluções para os problemas que nos afligem, sejam eles nacionais ou globais.

 

O que nós pretendemos e ousamos até exigir, em nome da Sociedade Civil Portuguesa e Mundial e das centenas de milhões de seres humanos que diariamente são vítimas da globalização economicista e autista em curso, pese embora a violentíssima crise que abalou a economia de Mundo e cujos efeitos sociais e políticos ainda não são conhecidos em toda a sua amplitude, é uma globalização com marcadas preocupações humanas, sociais, ambientais e culturais, em que os direitos humanos, enfim respeitados, possam andar de mãos dadas com uma maior equidade no que diz respeito a uma melhor redistribuição da riqueza, dos cuidados de saúde e dos alimentos assim como a uma boa acessibilidade à educação, à cultura e à água para todos!

 

Para nós, é de todo impensável e inaceitável que a Humanidade continue a trilhar, por mais 30 anos, o mesmo caminho intolerante, indiferente e autista que vem percorrendo nas últimas três décadas sob a batuta feroz e cega de uma economia liberal selvagem, unicamente preocupada com o lucro fácil e o seu deus-mercado que tudo parece condicionar e justificar, esquecendo-se das suas responsabilidades sociais, morais e éticas. Tal evolução, a ser mantida, não seria compatível com a sobrevivência da Humanidade! Os senhores de Davos e os governantes têm que entender esta evidência!

A nossa visão do Mundo é partilhada por milhares de organizações espalhadas pelo mundo, com preocupações humanistas e sociais, actuantes, que sonham e trabalham para a construção de um mundo melhor e até já ousam falar da necessidade de uma cidadania planetária participativa e actuante.

 

O perdão da dívida dos países em desenvolvimento e o congelamento das contas bancárias astronómicas dos seus corruptos e insensíveis governantes, a defesa das mulheres no mundo, a luta pela democracia participativa em todos os países, mesmo nos actualmente ditos democráticos, o fim dos regimes ditatoriais e corruptos, a luta pela salvaguarda do meio-ambiente, o fim do trabalho e da prostituição infantis, o fim da violação dos Direitos Humanos, a luta sem tréguas contra as doenças esquecidas (nomeadamente a Sida, a malária, a tuberculose), o fim das manipulações genéticas dos alimentos, o fim das crianças-soldados, o fim das armas biológicas, nucleares e químicas, sejam elas “empobrecidas” ou não, continuarão a ser, entre muitas outras, a razão da luta sem quartel que os movimentos da Sociedade Civil Mundial continuarão a travar em prol do Ser Humano, até que sejam ouvidos!

 

Que ninguém tenha dúvidas a esse respeito: o movimento de mudança começado em Seattle e organizado em Porto Alegre não tem retorno e far-se-á pacificamente, espero, ou senão, violentamente, bem o receio.

Estou convicto, como li algures, que o optimismo da vontade ainda se pode sobrepor ao pessimismo da razão. Este é o meu sonho, possivelmente e provavelmente o vosso também, mas sei que só é possível atingirmos esse objectivo se estivermos juntos.


Notas:

 

a) De notabilizar o lançamento, pelas Nações Unidas, da oportuna e indispensável iniciativa “Condomínio da Terra” (salvaguarda dos espaços comuns do Planeta Terra: atmosfera, hidrosfera e biosfera), do qual sou um dos Embaixadores em Portugal.

 

b) Sábado, dia 27 de Junho, estava previsto decorrer um jantar de gala, seguido de leilão de obras de arte, a favor da AMI, no Porto. Foi cancelado, por ter havido demasiadas desistências quanto às presenças. Dizem-me que terá tido a ver com as minhas opções pessoais, enquanto cidadão, durante a campanha para as eleições europeias, o que muito lamento. Felizmente, ainda há Pessoas que sabem separar o trigo do joio e compreender o outro para além do juízo de valor fácil e gratuito… o Doutor Mário Soares convidou-me para apresentar o seu último livro, mesmo sabendo da minha opção pessoal nas eleições europeias; no próprio dia 27 de Junho (amanhã) receberei a medalha de ouro da cidade de Vila Nova de Gaia, atribuída pela Autarquia, presidida por Luís Filipe Menezes; e da parte dos meus ilustres e queridos Amigos Dra. Leonor Beleza, Prof. Doutor Adriano Moreira, Senhor Dom Duarte Pio e Senhora Dona Isabel de Herédia não senti a mínima alteração na relação de profunda amizade e respeito que mantemos. 

Admitir a diferença, e respeita-la, é o valor basilar da Paz e de uma Cidadania esclarecida.

 

c) Sei que tenho estado bastante ausente deste espaço. E não posso prometer que nos próximos tempos vá ser diferente… Em Julho estarei em “retiro”, durante duas semanas, para estruturar e alinhavar o meu próximo livro, que consistirá num conjunto de reflexões pessoais sobre o actual estado do Mundo, seus problemas e, quanto a mim, caminhos a seguir. Perdoem-me os que acharam que este blog teria uma outra cadência. É, isso sim, inversamente proporcional ao ritmo da minha vida…
 



publicado por Fernando Nobre às 12:47
link do post | comentar

36 comentários:
De zita Judas a 13 de Janeiro de 2010 às 20:53
acabei de me inscrever agora mesmo no voluntariado da AMI
Se necessitarem estou disposta a ir amanhã para o Haiti
Sou a mulher do José Luis Judas, que o senhor conhece
Obrigada


De sucast a 24 de Julho de 2009 às 18:56
... nem só de blogs vive o mundo, mas a suas palavras são sempre uma mais valia para os (meus) pensamentos sobre esse mundo.


De Fernando Nobre a 31 de Julho de 2009 às 22:51
As suas palavras dão-me alento para continuar. Obrigado.


De Natália Vieira a 17 de Julho de 2009 às 12:39
Olá Dr. Fernando Nobre.
Como é que aguenta?
Também eu, não tenho partido político, não tenho religião.
Sou mais novo que o Dr. e luto diariamente pela arrogância, pela falta de humanidade. pela falta de respeito pela natureza e pelos animais, pelas desigualdades sociais...enfim tudo o que simboliza na maior parte o humano.
Só que, como hoje, sinto-me cansada de lutar...
Cansada de "ser diferente" e de lutar contra a maré.
Perdemos muito mas também ganhamos muito. Sei que a resposta está em sabermos valorizar o que ganhamos em troca, mas nem sempre é fácil quando somos encarados como os não gratos.
Já uma vez o escrevi que admiro a sua coragem!
Devem ser muitos os momentos de desespero que possui na sua vida!
Só gostaria de saber como é que aguenta...
Acho muito bom que escreva para encher de força e coragem outros como eu, que lutam no dia a dia para dignificar a espécie humana.
Um bem haja para si.
Fique bem

Natália Vieira
Ilha da Madeira


De Fernando Nobre a 31 de Julho de 2009 às 22:57
Aguento porque acredito e porque não me vejo fazer de outro modo. Tenho muitos defeitos. um deles é ser muito teimoso... Por outro lado também a família e os amigo(a)s dão-me muita força para persistir. Obrigado Amiga.


De Sofia Montenegro a 12 de Julho de 2009 às 15:07
Caríssimo Dr Fernando Nobre:
Não se esqueça nunca q é um 'farol', p muita gente, q ao pensar em si, o vê como uma âncora em àguas de esperança relativamente à diminuição da pobreza e desigualdade. As pessoas q falharam ao tal jantar são, eventualmente, frágeis, pois o seu humanismo está condicionado por factores externos. Dê lhes tempo q voltarão, senão elas outras...
Eu , em princípio volto ao Uganda p mais umas semanas de voluntariado. Presumo q tenha recebido a brochura q lhe enviei sobre a ong(softpowereducation) via ctt. Ali o grande problema é o norte do país e a sua fronteira com a R D do Congo. Tenho um convite p ir lá,ao norte do Uganda, mas n sei se devo pq p além da insegurança há o problema das doenças(houve focos de ébola em 2007)...Em relação ao Rwanda, conhece alguém q me pudesse dar o contacto p algum apoio q necessitasse? Vou tentar ir lá , vamos lá ver se consigo!
Um abraço, com amizade, e muita força,
Sofia Montenegro
Ps_houve um comentário q (penso q, mas pode ter sido erro meu a enviar)enviei mas n apareceu. Bem eu dava lhe os parabéns após as eleições pq acho q o seu apoio foi fundamental p os resultados.BOAS FÈRIAS!


De Fernando Nobre a 31 de Julho de 2009 às 23:06
Tenha algum cuidado consigo Amiga porque Seres como a Sofia são e serão cada vez mais importantes e necessários para que a Humanidade resista!
Quanto ao Ruanda, que a nossa Embaixada em Nairobi também cobre, a AMI tem contactos lá de uma ONG que também actua no Burundi e na RDCongo. Envie email para a AMI (Directora do DI: Dra Tânia Barbosa) e peça esse contacto dizendo que eu dei acordo. Força Sofia e volte sempre.


De Sofia Montenegro a 1 de Agosto de 2009 às 01:10
Caríssimo Dr Fernando Nobre:
quanta generosidade nas suas palavras que, vindas de si, me responsabilizam completamente do imensamente pouco q faço. Sou 1 simples grão de areia em relação aos Milhões (de grãos) que representa. Parto dia 4/7 p o Uganda(tive q adiar viagem por causa do concurso de profs). Um abraço do tamanho do mundo c a amizade e admiração de sempre,obrigada, Sofia :)


De Teresa Santos a 11 de Julho de 2009 às 20:14
Dr. Fernando Nobre:

A única coisa que o Senhor merece de todos nós, é um respeito e uma admiração profundas, não desrespeito e atitudes inclassificáveis . Mas sabe Dr., é muito difícil ser bom, ser compreendido e reconhecido, num país onde reinam os medíocres
Não me tinha apercebido desse incidente (se é que pode considerar como tal!) relativo ao leilão. De facto não há palavras!
Tomei a liberdade - e peço-lhe as maiores desculpas - de transcrever no meu blog um excerto da alínea b). É que é urgente que todos tomemos consciência dos atentados que se praticam, cada vez mais, à nossa liberdade.
Os meus cumprimentos, e a minha imensa gratidão por tudo o que faz em prol dos pobres, dos desfavorecidos.
Que Deus o abençoe


De Fernando Nobre a 31 de Julho de 2009 às 23:07
Obrigado Amiga Teresa.


De paula a 10 de Julho de 2009 às 15:59
Um dia, Santo Agostinho passeava pela praia e encontrou um menino que tinha feito um pequeno buraco na areia e com uma concha enchia o buraquinho com água do mar. O menino corria até a margem, enchia a concha com água do mar e depositava a água num buraquinho que ele tinha feito na areia. Vendo isto, Santo Agostinho perguntou-lhe porque fazia isso, o menino respondeu que tentava esvaziar toda a água do mar colocando no buraquinho da areia…

Ainda não consegui encontrá-lo nessas corridas ao mar, quando vem para norte eu tenho que ir para sul, quando está no sul eu não posso sair do norte


De Fernando Nobre a 31 de Julho de 2009 às 23:09
Linda História essa de Santo Agostinho. Obrigado Amiga Paula.


De Beatriz a 10 de Julho de 2009 às 10:45
Boa Viagem ao Bangladesh, e bom regresso a Portugal.

Beatriz


De Fernando Nobre a 31 de Julho de 2009 às 23:11
Já regressei! Com força para continuar. Obrigado.


De João Ferreira a 8 de Julho de 2009 às 03:08
Caro Fernando,

Eu sinto-me em sintonia consigo, de tal forma que resolvi passar das palavras aos actos e daí resolvi embarcar na construção do Movimento Esperança Portugal que à pouco tempo se constituiu como partido político. O MEP, a sigla pelo qual é mais conhecido, emerge da sociedade civil e de um vasto leque de pessoas mais ou menos ligadas a ONGs que sem qualquer experiência política decidiram se mobilizar para desenvolver Portugal tendo em conta 7 pilares: Mesa com lugar para todos; Sociedade de Famílias; Cultura de Pontes; Desenvolvimento Humano Sustentável; Democracia mais próxima do cidadão; Solidariedade Intergeracional e Mundo Interdependente e Solidário.

A primeira parte do programa político para as Legislativas ligado ao 1º pilar Mesa para Todos e intitulado uma Nova Agenda Social foi divulgado hoje dia 7 de Julho. Gostaria de lançar o repto e convidá-lo a si e a todos os que o lêem neste blogue para lerem o programa, e poderão com certeza dar o seu contributo em forma de comentário neste blogue ou no próprio site do MEP. Vale mesmo a pena dar uma vista de olhos nesta Agenda Social, consultem-na em: http://www.mep.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=864&Itemid=1

Abraço
João F, ex.voluntário Porta Amiga Porto


De Fernando Nobre a 9 de Julho de 2009 às 19:30
Logo que possa irei ver. Obrigado e abraço.


De Manuela Araújo a 6 de Julho de 2009 às 12:27
Dr. Fernando Nobre

Gostei imenso da sua intervenção de ontem no Fórum do Condomínio da Terra, em Gaia. Parabéns. Sou aquela que ontem lhe perguntou o que fazer com os cépticos do clima. De facto é também uma questão de ética, mas o certo é que tenho verificado eles têm muita força, apesar de serem poucos. Conseguem baralhar as pessoas de tal modo que elas deixam de se preocupar com a crise ambiental.

Peço que me desculpe, mas transcrevi, lá no meu blogue um parágrafo do seu prefácio ao livro "Comércio Justo Para Todos", a parte da metáfora do perneta famélico e do campeão olímpico, mas foi por uma boa causa. Espero também não ter deturpado as suas palavras, ao referi-las.

Não tenho a menor ideia de quais são as suas opções políticas nem vou procurar saber, pois os assuntos a que se dedica são muito mais importantes do que aquilo a que a actual política se dedica. E é absolutamente típico e reprovável que as pessoas sejam acarinhadas ou desprezadas pelas suas opções políticas.

E porque me são caras todas as questões relacionadas com a sustentabilidade, entre as quais a justiça social e económica, obrigada por ter contribuído com a sua participação no Fórum.

Mais uma vez, bem haja.


De Fernando Nobre a 9 de Julho de 2009 às 19:27
Minha cara amiga lute pelo que acredita e vá avante contra ventos e marés. As minhas opções políticas são simples: ainda acredito em certos seres humanos e quando assim é aceito dar-lhes o meu contributo. Assim fiz com o Miguel Portas para o Parlamento Europeu porque me pareceu importante, ainda me parece, que nesse recinto do politicamente muito correcto e do unanimísmo houvesse algumas pessoas para de vez em quando animar as águas. Não sou do BE como não sou de nenhum partido pois como homem livre que sou gosto de pensar pela minha cabeça e não sou seguidista de ninguém. Abraço e vá em frente com os seus ideais. Tem esse direito. Quanto aos que dizem que não há crise climática deixá-los estar. Tarde ou cedo mudarão de ideias. A natureza se encarregará disso! Abraço!


De JS Teixeira a 3 de Julho de 2009 às 20:18
Vejam o artigo de opinião escrito no blogue O Flamingo (http://o-flamingo.blogspot.com/) acerca da "tourada" que teve lugar, ontem, na Assembleia da República.


Comentar post

Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
FOTO DA SEMANA


LIVROS QUE PUBLIQUEI

- "Viagens Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Gritos Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Imagens Contra a Indiferença",
Círculo de Leitores / Temas & Debates


- "Histórias que contei aos meus filhos",
Oficina do Livro


- "Mais Histórias que Contei aos Meus Filhos", Oficina do Livro

- "Humanidade - Despertar para a Cidadania Global Solidária", Temas e Debates/Círculo de Leitores

- "Um conto de Natal", Oficina do Livro
Pesquisa
 
Contador de Visitas