Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Poderá parecer estranho a muitos, e em particular a quem me julga conhecer, que eu me debruce, mesmo que sucinta e superficialmente, sobre um tema difícil, sensível, para alguns esotérico ou nebuloso até.


Eu, médico, especialista em cirurgia e em urologia, que participei em tantas missões humanitárias concretas, na tentativa quantas vezes infrutífera e inglória de salvar umas vidas. Eu, o homem com os pés bem enraizados no solo terreno, porque se assim não fosse não teria sobrevivido sem enlouquecer, de tanto ter convivido com o sofrimento alheio, e até com o meu, o que tenho eu a ver com a espiritualidade e até mesmo com a religiosidade?


Mas tudo! Nunca poderia ter feito o pouco que fiz se não tivesse os pés bem enterrados e simultaneamente a cabeça, nas “nuvens”! Foi porque permanentemente me interroguei sobre a minha própria essência e sobre a razão profunda de ser da minha efémera existência, que sempre levantei os olhos para os meus semelhantes e para o “céu” à procura de explicações e, porque não dizê-lo, de consolo.


À eterna questão que sempre se me colocou com particular acuidade, “de onde venho e para onde vou”, questão eterna que desde tempos imemoriais o ser humano racional se coloca (ainda há uns anos a vi gravada no México numa estela Olmeca do século VIII d.C.), a pouco e pouco fui encontrando resposta no contacto com outros povos, outras culturas e com alguns violentos embates que a vida, geralmente generosa para comigo, me foi reservando.


Hoje sei (é das poucas certezas que tenho nesta fase outonal da minha passagem terrena) que a razão de ser da minha existência é - sortudo que fui em nascer com o acesso ilimitado à cultura, ao conhecimento e aos outros povos – a de tentar dar o meu contributo para que os meus irmãos do mundo sofram menos e para que todos eles, assim como a minha mulher, meus filhos, familiares e amigos possam viver com dignidade e, se possível, contribuir um pouco para a sua felicidade.


Membro de uma cadeia fraterna sem fim, vinda de nenhures e a caminho da sua total plenitude e harmonia, eu, poeira infinitérrima, sou insubstituível, como todos vós, porque sou único e parcela dessa entidade que se convencionou apelidar de Deus ou de outros milhares de nomes. Sem mim, sem vós, sem todos nós em união, esse Deus está incompleto e possivelmente ferido de morte.


Para mim, é esse o sentido da Espiritualidade. Sem essa Força que move montanhas, continentes, planetas e galáxias, nada seria possível! Só Ela permitirá que ultrapassemos os nossos mortíferos egoísmo, indiferença, intolerância e ganância que tantos genocídios tem praticado entre nós, fazendo-nos compreender o seu completo “não senso”.
Só ela, a Espiritualidade, nos permitirá, com “os pés no chão e a mente no rodopio das galáxias” vencer os desafios globais e implementar soluções esperançosas como a Espiritualidade Global Fraterna.


Já tenho idade, vivências e conhecimentos acumulados suficientes para dizer exactamente o que penso, quando e onde entender, sem insultar ninguém.


A Espiritualidade exige frontalidade com Amor. Pouco me importa o que as carpideiras disserem. A minha preocupação é deixar bem claro quais são as minhas opções de fundo e qual é a visão que eu tenho para o Mundo, o Universo e o meu País, Portugal. Esse é o meu Dever e o meu Direito mais sagrados de que não abdicarei jamais como ser livre e centelha divina que sou, à semelhança de todos vós.


Acredito que a verdadeira e bem entendida Espiritualidade nos conduz inevitavelmente para o valor mais sublime: a Solidariedade activa para com o nosso irmão mais infeliz, último nome de Amor.

 

Assim acredito. Assim tento e tentarei actuar até ao fim: com dignidade e coerência teimarei em dar o meu singelo contributo para que entendamos todos que o que está verdadeiramente em causa é uma imperiosa e profunda mudança do paradigma das relações entre os seres humanos. Se assim não for, nada será duradouro e as Crises suceder-se-ão com o seu infindável cortejo de sofrimento para muitas centenas de milhões de seres humanos.


Temos que apostar nos Valores Universais, tais como o Amor, a Ética, a Equidade, a Justiça, a Tolerância, o Perdão, a Solidariedade, a Fraternidade, a Dignidade, a Honra e o Civismo… sem os quais nada será possível, nomeadamente o restabelecimento da insubstituível e indispensável confiança entre os Cidadãos, o Estado e o Mercado. Isso também é Espiritualidade…

 


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publicado por Fernando Nobre às 11:06
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27 comentários:
De Glória belinha a 5 de Junho de 2014 às 00:13
Querido companheiro de muitas jornadas, obrigado pela descrição clara, realmente e na dolideradade e no amor sem interesses que o ser humano cresce e a divindade se manifesta. Os Grandes Masters o sabem e o Fernando e um deles. Abraço amigo da Glória


De Paulo Fernandes a 30 de Maio de 2010 às 09:31
Fiz uma pesquisa por "espiritualidade e blog" e foi o melhor post que encontrei. Parabéns!

A quem interessar, a minha humilde contribuição para este tema está em http://quemsomosideiasnovasprecisam-se.blogspot.com/.


De Maria Manuela Paiva Eiras Antunes clara a 15 de Maio de 2010 às 03:08
Sr. Dr. Fernando Nobre
desde o momento exacto em que, atraves de qq canal televisivo soube da sua candidatura ,senti um entusiasmo muito grande feito de esperança , de gratidao e de sentido de urgencia de cumprir com o meu dever de corresponder á sua generosidade em relaçao á Nação ( gentes, cultura e historia). Tenho exteriorizado este entusiasmo com muitas pessoas , enviando mails com a soa reflexão \" espiritualidade\".
Ela diz tudo e apresenta a dimensao do ser humano que intui ser sr.dr. E venho confirmando, lendo os seus textos e biografia . Estive naquele jantar na fundação 25 abril , onde pudemos conversar e onde cada frase, cada conceito, cada proposição do seu discurso colaboraram para a certeza de que eu devo ajudá- lo a fazer com que Portugal possa vir a ter o previlegio de o ter como seu mais alto representante.


De alves miguel a 7 de Março de 2010 às 00:30
Sim a cadeia vem do passado e projecta-se para o futuro


De paula a 23 de Fevereiro de 2010 às 14:56
«...sê o melhor no que quer que sejas», há algum tempo que venho a recear estar a assistir a uma pré-campanha, e ei-la. espero que não esteja a misturar alhos com bugalhos, que não esteja a passar de médico humanitário para estrela de jet set, que a sua modéstia não dê lugar ao encanto pelos holofotes, que a AMI não perca em vão um bom presidente, espero que não me desiluda :) felicidades!


De Felippa Lobato a 3 de Fevereiro de 2010 às 11:28
“O Acaso é a Única coisa que não acontece por acaso.”*

Meu caro Amigo Fernando Nobre, ao ler as suas palavras senti profundamente a energia da Fonte de onde elas são emanadas.

A linguagem do Coração é feita desta qualidade. E por isso, tem a particularidade de ser Sentida por qualquer Ser Humano.

A linguagem do Coração toca e abraça a linguagem do Silêncio.

O Silencio segreda-nos... a engenharia cósmica de como tudo É.

Tudo o que no Hoje a Humanidade vivência é a “aula/ ensinamento” que ela mesma necessita para o Despertar da Consciência.

Receba um abraço de Gratidão por ousar ser quem é.

Até sempre

Felippa Lobato

* Frase do Prof. Tiago de Oliveira, matemático português que partiu no final do séc. XX e que conseguiu criar uma equação matemática na qual prova esta Realidade.


De Sandra Carvalho a 18 de Janeiro de 2010 às 19:34
*


De Anónimo a 15 de Janeiro de 2010 às 14:00
A espiritualidade é isso mesmo dr., um voo de um "eu" para outro "eu"; uma simbiose, uma osmose que nos leva a viver e a ver o outro como nosso Deus. Só vivendo e sofrendo no outro decantamos as "impurezas" de nosso espírito. Que Deus nos ilumine nos caminhos da Verdade! O seu trabalho, a sua acção e a sua palavra purificam a Humanidade. Pela parte que me toca, OBRIGADO.


De Viviana Almada a 15 de Janeiro de 2010 às 12:29
Passamos tantas vezes pela vida sem nos apercebermos que ao nosso lado (nem que seja num qualquer blog), existem pessoas com os quais nos identificamos. Que preenchem o mais profundo da nossa essência, das nossas ideias, da nossa vida...Nesses "encontros" intensos no caminho da vida podemos perceber que esta, não pode deixar de ter um sentido que vá muito mais além que a mera existência terrena. A vida é um dom gigante. "Ideia" só mesmo saída de Alguém grandioso. Dom de Amor e de generosidade. Estamos cá, fomos bafejados por essa dádiva. Há um sentido e só consegue perceber essa linguagem quem, pela inteligência do Coração, da espiritualidade, conseguiu entendê-la nesta vida terrena. Tudo passa, mas uma coisa é certa, os Valores universais a que se refere nunca passarão e, o Outro tem que ser o alvo dessa aposta. Não lhe vou dizer, em termos de elogios, muito mais do que outros já lhe disseram. Mas quero agradecer ao criador, como o faço todos os dias quando abro os olhos para este nosso "wonderful world", o facto de hoje ter encontrado neste blog mais algum sentido para a minha caminhada e ao muito que ainda tenho que fazer. Pelo seu exemplo de vida e as suas palavras, bem haja!


De Maria a 23 de Dezembro de 2009 às 17:31
Dr. Fernando Nobre

Este texto (como tantos outros seus) fez-me derramar lágrimas de comoção genuínas. Subscrevo inteiramente as suas palavras.
Tenho a sua pessoa como uma das minhas maiores referências. Quando vejo coisas que não me agradam neste mundo...e são tantas...lembro-me sempre das suas importantes palavras...
Gosto da ideia de termos sempre os pés bem assentes na terra (tal como as árvores fazem com as suas raízes) e a cabeça lá nas nuvens, lá onde podemos sentir o verdadeiro aroma do significado da existência da humanidade. Plantei esta semente no meu humilde quintal....:-)

Desejo-lhe um Feliz Natal e que 2010 lhe traga tudo de bom.
ABRAÇO!!
Maria


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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- "Viagens Contra a Indiferença",
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- "Gritos Contra a Indiferença",
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- "Imagens Contra a Indiferença",
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- "Histórias que contei aos meus filhos",
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- "Mais Histórias que Contei aos Meus Filhos", Oficina do Livro

- "Humanidade - Despertar para a Cidadania Global Solidária", Temas e Debates/Círculo de Leitores

- "Um conto de Natal", Oficina do Livro
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