Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Escrevo sobre Angola, país que me viu nascer, já lá vão 57 anos. Porque decidi uma vez por todas na minha vida sobrepor ao “politicamente correcto” o “humanamente correcto” e porque já não aguento assistir à tragédia da grande maioria dos angolanos, e porque o meu silêncio se tornou ensurdecedor perante a minha consciência, quero lançar aqui um grito de dor e de protesto assim como um veemente apelo em nome de um povo heróico, mártir e esquecido: o povo angolano, o meu povo irmão. Na tragédia em curso há décadas, só e apenas ele é merecedor de carinho, respeito e admiração porque só e apenas ele está isento de culpas.

 

Culpados foram e são, porque se deixaram moldar pelas teias da política internacional e pela corrupção, uma boa parte dos seus dirigentes, passados ou presentes, no governo ou na oposição, a comunidade internacional com as suas gananciosas interferências e os seus planos de (des)ajustamento estrutural e certos governantes portugueses perfeitamente ignorantes da História e das gentes (tão merecedoras de carinho, respeito e admiração) de África em geral e de Angola em particular. A todos eles acuso de serem os responsáveis directos do genocídio passado e do sofrimento ainda em curso, em Angola. Nenhuma dessas entidades pode, nem poderá nunca furtar-se, em consciência, das enormes responsabilidades que teve e tem no germinar, no eclodir e no arrastar do indizível sofrimento e morticínio que esmagou e continua a esmagar o povo angolano. Activa ou passivamente, embora em diversos graus, todos incentivaram (ou cinicamente fingiram que não era nada com eles) o desentendimento e a desconfiança mortais, a corrupção escandalosa, o armamento desenfreado, a ganância sem limites, a indiferença assassina, a cobardia irresponsável... Em suma, o desgoverno total que engendrou uma Angola, sofrida e mutilada por várias gerações, onde coexistem um punhado de multimilionários cleptopatas e milhões de miseráveis que deambulam perdidos e deslocados, na esperança muitas vezes vã de encontrarem uma instituição que lhes acuda com um pouco de arroz, alguns medicamentos e um agasalho, ou, na sua falta, uns restos num contentor de lixo, com que enganar a fome e morrerem silenciosamente...ignorados!

 

Conseguiram assim, transformar um grande e riquíssimo país (talvez por isso mesmo!), embora hoje em fase de recuperação, sobretudo em Luanda e nas capitais provinciais, num dos países com maior grau de destruição, com maior número de amputados e de minas antipessoais e com menor índice de desenvolvimento do Mundo: a nefasta sinergia da corrupção, da incompetência, da cobiça e indiferença internacional perante o sofrimento alheio, assim como a mortífera intolerância entre os angolanos fizeram de Angola, com as suas fabulosas potencialidades humanas, agrícolas, pecuárias, piscatórias, mineiras (diamantiferas, petrolíferas e muito mais), cinegéticas, turísticas ... um amontoado de miséria que deveria comover o mais insensível e empedernido dos homens fosse ele angolano ou estrangeiro, simples cidadão ou governante. Pelos vistos, os responsáveis directos por todo esse descalabro ainda não se comoveram... a matança dos inocentes continua! Anonimamente…


Angola tem hoje, finda a guerra civil mortífera em 2002 que para os responsáveis directos tudo parecia explicar e justificar..., a derradeira ocasião de se reencontrar. Essa ocasião não pode ser desperdiçada: acabaram os subterfúgios, as mentiras e as desculpas descabidas. Os angolanos, e essencialmente eles, com particular responsabilidade para os seus dirigentes, têm o dever e a possibilidade de reporem Angola no mapa do Mundo, tornando-a num exemplo para toda a África. Tal só acontecerá se os governantes e a sociedade civil angolana agarrarem com unhas e dentes os poucos trunfos de que Angola dispõe, nomeadamente o seu povo, os seus minérios, as suas enormes potencialidades agropecuárias, piscatórias, turísticas e o petróleo. Desde já lanço um alerta aos dirigentes africanos mais clarividentes e responsáveis: em certos círculos geopolíticos anglosaxonicos já se ousa falar e escrever da necessidade, como sempre em nome do bem dos povos, de se começar a pensar na eventualidade da utilidade de uma nova recolonização...noutros moldes... evidentemente... CUIDADO! Tal não pode acontecer mas só não acontecerá se, de uma vez por todas, os dirigentes interiorizarem que o maior património dos seus países é o seu povo, sendo por isso fundamental investir na educação, na saúde e numa agricultura diversificada, em vez de se iludirem com o agastado discurso do país “Grande” e “Rico”; se fizerem as leituras correctas, com as implicações decorrentes, do que está a acontecer na perversa e nada ética revolução mundial em curso, e se pugnarem verdadeiramente pela tolerância e concórdia nacional (estou a pensar especificamente em Cabinda, atropelada pela História da descolonização e sempre sofredora) e implementarem a Democracia e uma Boa Governação que, como é óbvio, não se coaduna de modo nenhum com a tentacular corrupção que foi e é, quanto a mim, a maior responsável do estado em que Angola e África estão, com nefastos e devastadores efeitos equiparados, ou até superiores, aos da guerra. É tempo de se assumir esta verdade!


Só assim, acredito, é o meu sonho!, o povo angolano alicerçado no seu sofrimento e sustentado pela sua sociedade civil, embora ainda fraca e dispersa mas cada vez mais sensibilizada, organizada, interveniente e exigente poderá enfim construir uma sociedade democrática e encontrar o caminho da Paz, da Concórdia e da Responsabilidade que o conduzirá ao amanhã radioso com que há tanto sonha e ao qual tem direito, como todos os povos. É da mais elementar justiça e não lhe resta outra alternativa para sobreviver!

 

Não posso terminar sem fazer um último apelo: que o povo português nunca esqueça, apoiando-os, os povos irmãos angolano e cabinda com o qual partilha tantos laços de sangue e de História. Eles merecem.
 



publicado por Fernando Nobre às 08:00
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Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Foi em meados de 1983 que, sem saber, fui pela primeira vez confrontado com o temível, mas ainda quase desconhecido, síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA).

Estava em Bruxelas e operei um senhor ruandês muito magro; menos de um ano depois, morria das complicações do SIDA.

 

Na altura, dizia-se que o SIDA era um síndrome adstrito aos homossexuais, drogados e negros! Tal estigmatização tranquilizava os não homossexuais, não toxicodependentes e não negros! Depois, perante a nossa ignorância sobre o SIDA, veio o medo: ao examinarmos esses doentes era-nos aconselhado, no hospital, o uso de luvas, de batas, de máscaras... Perante a incerteza do contágio, era melhor protegermo-nos!

 

Então, ao terrível sofrimento dos doentes, acrescentámos o nosso afastamento e a nossa própria angústia, filha do nosso desconhecimento, do nosso medo.

 

Duros tempos de incerteza em que os bem pensantes moralistas não se inibiram de lançar os piores anátemas sobre o pecado do sexo.

 

Em finais dos anos 80, perdi pessoas conhecidas vindas do então Zaire: não eram negros, nem homossexuais, nem toxicodependentes. O círculo tinha-se alargado e, de repente, sentimo-nos todos ameaçados: medo das transfusões, do sexo ocasional e não só.

 

Estávamos todos no mesmo barco, já não havia mais lugar para a indiferença e a intolerância, essas duas terríveis doenças da mente que classifico como as piores doenças da Humanidade.

 

Pouco a pouco, graças aos movimentos da sociedade civil, às Nações Unidas e aos governos, foi possível uma sensibilização e uma tomada de consciência salutar sobre esse autêntico flagelo.

 

Desde então, passadas quase três décadas do início do surto epidémico, surgiu enfim um fraterno ímpeto de solidariedade e de compreensão (infelizmente nem sempre generalizado) para com os nossos semelhantes infectados pelo vírus, fossem eles hetero ou homossexuais, brancos ou negros, toxicodependentes ou não.

 

O caso dos hemofílicos do mundo inteiro chocou-nos pela dimensão do seu drama, do nosso drama, tanto individual como colectivo.

 

Desde então muitos progressos foram feitos, tanto na abordagem e sensibilização do síndrome como no desenvolvimento de novos fármacos e na maior acessibilidade, infelizmente ainda muito insuficiente sobretudo nos países mais pobres, dos doentes aos tratamentos.

 

O drama é também que o Mundo continua sem dispor de uma vacina eficaz e não se vislumbra o momento em que tal aconteça.

 

Para uma doença que já vitimou seguramente mais de 40 milhões de pessoas, que deixou muitos milhões de crianças órfãs e que representa um pesadíssimo fardo social e económico para os países mais atingidos, nomeadamente na África central e austral, temo que muito reste por fazer até nos darmos como satisfeitos no controlo, para não dizer na erradicação, dessa temível pandemia.

 

Não há tempo a perder: governos, cientistas, médicos e população em geral têm que unir esforços e vontades para que esta verdadeira “peste negra” do final do Século XX e início do 3º Milénio e o seu terrível cortejo de sofrimento e morte cesse. A criação do Fundo Global (destinado ao combate à Malária, à Tuberculose e ao SIDA) foi um importante primeiro passo, mas só com o empenhamento de todos o vírus imprevisível do SIDA será domado, como aconteceu com o da varíola.

 

Alerto: grandes regiões da África Central, Austral e do Leste estão a despovoar-se devido ao SIDA. Não esqueçamos que, associada à corrupção e à crise económica e social existentes, essa tragédia hipoteca o desenvolvimento e o futuro de África. E sem África o Mundo não será sustentável!

 

É urgente a criação de uma vacina eficaz e é indispensável que o preço dos testes e dos tratamentos já existentes seja acessível às populações de todo o Mundo. Se assim não for, nesta Casa Global que é o nosso Mundo, não controlaremos o flagelo.

 

Temos que continuar com o nosso esforço sem esmorecer. Ainda optimista quanto ao futuro do Ser Humano, não tenho dúvidas que acabaremos com o flagelo do SIDA: em nome dos doentes, da juventude actual, merecedora de uma sexualidade sem medos, e das gerações vindouras.

 

Hoje a guerra está longe de ser vencida mas já começamos a ganhar batalhas.

Estou certo que a Humanidade vencerá.


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publicado por Fernando Nobre às 09:51
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Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Antes de podermos abordar os assuntos socio-existenciais dos refugiados e requerentes de asilo, importa-nos tentar ter a visão da dimensão do problema a nível mundial e nacional, isto é, fazer o diagnóstico da situação.

 

O que se passa em Portugal não é mais do que um epifenómeno resultante da situação gravosa que se vive a nível mundial. Por isso, a adopção de medidas correctas e justas a nível local (Portugal) depende da acertada visão que se tenha da situação global (mundial). Sem estarmos cientes da evidente correlação causa-efeito que as ligam, as propostas que hoje dinamizarmos, estarão talvez já caducas amanhã: O Mundo está, também na questão dos refugiados, em aceleração.

 

Qual é, pois, a situação mundial, hoje, e que perspectivas tememos para um futuro próximo, no que diz respeito à questão dos refugiados e à sua evidente consequência, os requerentes de asilo?

 

Mercê das guerras, conflitos étnicos, discriminação, intolerância, indiferença, seca e fome que assolam o Mundo desde o fim da segunda guerra mundial, existiam em 2007 cerca de 16 milhões de refugiados sob a protecção de agências das Nações Unidas e 51 milhões de deslocados (cerca de 26 milhões devido a conflitos armados e 25 milhões em consequência de catástrofes naturais). Estes números totalizam 67 milhões de pessoas candidatas (assim tenham possibilidade) à imigração.  A estas dezenas de milhões, podem acrescentar-se centenas de milhões que, por razões económicas, estão dispostas a deixar o seu país.

 

Para se ter uma ideia da espiral assustadora que vivemos, bastará dizer que, em 1970 havia só 2,5 milhões de refugiados; em 1980 havia 11 milhões. Em 1992, calcula-se que o número de refugiados e deslocados tenha crescido de 10.000 pessoas por dia. Pode, pois, afirmar-se que o Mundo (no qual se inclui a Europa) vive actualmente a pior crise de refugiados desde a segunda Guerra Mundial, a tal guerra que traria, dizia-se, o fim do horror, do arbitrário, da loucura!

 

O Homem ainda não aprendeu e continua, alegre, inconsciente e louco, a provocar catástrofes...

 

Mas quem é o refugiado ou requerente de asilo? Será que temos a certeza que nós próprios não o seremos amanhã?

 

O refugiado não é mais do que um ser humano, como você e eu, que foge, constrangido, à perseguição e à miséria, com medo de perder a liberdade ou a vida. Quem não o faria perante tais ameaças?

 

Fá-lo forçado porque, como já dizia Eurípides, 431 anos antes de Cristo “não existe maior dor no mundo que a perda da sua terra natal”. A maioria das pessoas só se decidem ao exílio após um longo e doloroso dilema e sonham todos com o dia em que poderão voltar para o seu país com dignidade e segurança.

 

Só quem nunca passou por campos de refugiados (como infelizmente conheci junto dos Somalis no Quénia, dos ruandeses no Zaire, dos curdos no Irão, dos Sarauis na Argélia, dos Palestinianos no Líbano ou dos refugiados do Sri Lanka na Jordânia), quem nunca conviveu com deslocados (como foi o meu caso na Geórgia, Azerbaijão, Zaire, Angola, Moçambique, Irão, Iraque, Líbano, Chade, Sudão...) ou nunca falou com um requerente de asilo político, é que não interioriza quanto é fundamental para esses seres humanos a dignidade, a compreensão, a ajuda.

 

Pobre da mulher refugiada e exilada que não tenha um marido, um pai, um irmão, um filho adulto para a proteger e lutar pela sua ração alimentar quando da distribuição: estará exposta às violações e às mais insultuosas humilhações durante as terríveis etapas do seu périplo.

 

De uma vez por todas, a fim de podermos depois dar o melhor apoio assistencial, é fundamental que saibamos e compreendamos, tal como diz o ACNUR, que “os refugiados não são uma ameaça ou um perigo. Eles estão ameaçados e em perigo. Eles não são um fardo para a sociedade. Eles carregam o fardo da sociedade”. Eles não são pessoas sem face que mendigam a nossa compaixão. São seres como nós apanhados inocentes nas grandes tormentas do nosso século.

 

Se lhes dermos uma oportunidade, podem contribuir para o bem de todos. Não nos esqueçamos que, segundo a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a Convenção de Genebra de 1951, toda a pessoa tem o direito de pedir e obter asilo para fugir, com fundamentado receio, a perseguições devido à sua raça, religião, nacionalidade, grupo social ou devido às suas opiniões políticas.

 

75% dos refugiados no Mundo não vão bem longe: vão de um país pobre para outro país pobre. Poucos vão bater às portas dos países ricos. Aqueles que para já conseguem chegar à Europa (e a Portugal) são, pois, uma minoria, a ponta do dantesco iceberg do miserável mundo dos refugiados provocado pelas ditaduras, guerras ... e devido à hipocrisia, à falta de ética e determinação da dita Comunidade Internacional.

 

Há quatro causas de exílio: políticas, económicas, climatérico-ecológicas e as guerras. Algumas dessas causas não são reconhecidas internacionalmente mas nada é simples: as causas sobrepõem-se e umas levam às outras.

 

Para o drama dos exilados e refugiados, só existem três soluções possíveis e duráveis:
- o repatriamento voluntário para o seu país de origem;
- a integração nos países de primeiro asilo;
- a reinstalação num país terceiro.

 

Já que não lhes podemos garantir o que é o primeiro direito para todo o ser humano, uma vida digna no seu país de origem, temos que lhes garantir essa dignidade no nosso país. A Europa da democracia, dos direitos do Homem, da fraternidade e da liberdade, não se pode transformar numa fortaleza autista, egoísta e indiferente.

 

Portugal, com os seus cinco milhões de emigrantes e de luso-descendentes espalhados pelos quatro cantos do Mundo, mundo de culturas que fomos dos primeiros a divulgar, tem o dever e a obrigação de ser, também hoje, pioneiro na tolerância e no acolhimento.

 

Para o conseguir, é fundamental que tenhamos sempre em conta:
- campanhas de sensibilização/informação do público, polícias, funcionários, advogados;
- meios acrescidos para o acolhimento, aconselhamento e apoio;
- um estatuto do exilado e refugiado revisto, corrigido e sem discriminação;
- um procedimento legal justo, rápido e acessível;
- um acesso real aos cuidados de saúde, com uma particular atenção ao suporte psicológico;
- uma política de alojamento condigna;
- estruturas de concertação sustentadas por uma vontade política clara.

 

Meus Amigos, a Fundação AMI e eu próprio estamos decididos a dar o nosso contributo para a dignificação dos exilados e refugiados no nosso país. Os nossos Centros Porta Amiga continuarão a dar o seu apoio e desde já nos disponibilizamos para colaborar eficazmente com todas as entidades a fim de que, no nosso país, o exilado ou refugiado viva com dignidade.

 

Ao terminar, quero manifestar um sonho: que um dia ninguém mais se veja obrigado ao exílio e que todos possamos sempre partir, apenas por vontade, para uma boa aventura ou umas belas férias.
 



publicado por Fernando Nobre às 17:23
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Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?tvprog=23294&formato=flv



publicado por Fernando Nobre às 21:16
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Um dos erros mais graves que poderíamos todos cometer para o nosso futuro colectivo seria pensarmos que a Democracia, ainda existente na Europa e no nosso país, é perene. Nada é perene!


Tenho o hábito de dizer que a Democracia é uma flor como a papoila: persistente mas frágil! Renasce sempre, mesmo nos terrenos mais rochosos e inóspitos, mas também uma vez colhida e acomodada, murcha e morre rapidamente. Estamos em risco de viver esta última fase. Ainda vamos a tempo de a evitar se soubermos TODOS reagir.


Os alertas repetitivamente lançados nos últimos tempos, em artigos e livros, por pessoas sensatas, moderadas e informadas que conheço e por quem nutro amizade, o maior respeito e a máxima consideração tais como Mário Soares, Adriano Moreira, Almeida Santos, Ramalho Eanes, Loureiro dos Santos, Garcia Leandro, Carvalho da Silva, Miguel Sousa Tavares, Dom Duarte e muitos outro (e eu próprio há muitos anos) devem ser entendidos como verdadeiros gritos de alarme sobre o estado da nossa sociedade.


Estamos todos cientes que as crises que vivemos (financeira, económica, institucional, partidária e de valores) podem fazer ruir, mais rápido do que os incautos e irresponsáveis pensam, o sistema democrático. Não tenhamos medo de o afirmar. Estamos a viver o fim de um regime sem sabermos o que o irá substituir, nem como, nem quando.


O que eu sei, e assim penso e escrevo há alguns anos, é que chegou o momento das grandes opções de fundo e que os problemas globais que enfrentamos exigem uma governação global com ética, autoridade, bom senso e humanidade.


A crise em curso, associada a um desprestígio e descrédito profundos das instituições (sistemas financeiros, governos, partidos políticos, Justiça…), minando profundamente os fundamentos dos estados de direito, pode dar a oportunidade esperada aos movimentos ou partidos neonazis, fascistas, xenófobos e racistas. Eles estão atentos e preparam-se activamente em redes europeias e mundiais. Não menorizemos a questão pois tal alheamento poderá ser fatal às nossas sociedades ainda democráticas.


Os responsáveis por tudo isso têm rosto e nomes: somos todos nós, pela nossa indiferença e cobardia; são os responsáveis financeiros pela sua ganância desenfreada; são os empresários e a sua irresponsabilidade social; são os políticos fracos, demissionários e corruptos; são as religiões e a sua sede de poder, cada vez mais desfasadas em relação ao Divino; é a Justiça a várias velocidades; são os partidos e a sua lógica de poder de curto prazo e de satisfação das suas devoradoras clientelas.


Os efeitos do aprofundamento da pobreza e do desemprego, quanto a mim a procissão só vai no adro, já começaram e fazem temer o pior: discursos políticos xenófobos, mesmo dentro da União Europeia, violam impunemente as suas leis perante uma liderança europeia comprometida, fraca e inoperante, como no Reino Unido e na Itália (os demagogos medrosos já estão à solta…); ataques racistas, cada vez mais violentos e até mortais, crescem como ervas daninhas em vários países europeus; os proteccionismos e os medos, de péssima memória, regressam a galope!


Perante estes factos temos que reagir todos em força e imediatamente. As Democracias podem murchar e morrer, como as papoilas, perante as crises sociais que se vislumbram, aparentemente inevitáveis e que já amedrontam muitos.


Aos novos Desafios Globais (miséria, fome, clima, armas, guerras…) devemos responder com novas Respostas Globais (cidadania global, solidariedade global, valores universais tal como a honestidade, a dignidade e o respeito pela vida, todas as vidas!). Perante velhas e recorrentes Ameaças (fascismo, racismo, xenofobia, ditaduras…) temos que nos erguer e contrapor, sem tibiezas, medos ou cobardias, com as velhas e eficazes Armas de sempre (liberdade, resistência, fraternidade, coragem, luta…) mas de forma mais organizada, estruturada e empenhada: é chegado o momento de o fazermos.


No que me diz respeito continuarei a Alertar Consciências e a Lutar por Valores que defendem a vida, os mais fracos e a Democracia. Nas próximas eleições para o Parlamento Europeu darei, como independente e a título pessoal, o meu apoio àqueles que a meu ver melhor defenderão o que me parece essencial defender, numa Europa em crise e em perigo: os excluídos e a Democracia.


É nesse sentido que, com a AMI, reforçarei a nossa missão “Aventura Solidária” do Senegal ao Brasil, passando pela Guiné-Bissau, e que em Maio deste ano organizaremos um Fórum Internacional em Lisboa sobre o tema “Encontro de Culturas – Ouvir para Integrar”. Essas duas acções vão no sentido de criar pontes de diálogo e de entendimento entre povos e culturas, combatendo a intolerância, o desconhecimento, o subdesenvolvimento, a xenofobia e o racismo, e para melhor se entender as razões profundas das migrações. Aliás, nesse sentido, o meu próximo texto no blog será sobre “Imigração”.


Termino por onde comecei. Democracia e Democratas: ALERTA! A crise económica que apenas começou pode pôr tudo em questão: inclusive a Paz Social e a Democracia na Europa acomodada! ALERTA!
 



publicado por Fernando Nobre às 20:40
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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Mais uma vez, sou tentado a colocar aqui um texto, escrito há 8 anos, que, pela actualidade que ainda mantém, considero pertinente.

 

 

Entrámos no Século XXI, esperançoso para muitos, assustador para bastantes mais e uma verdadeira incógnita para quase todos se exceptuarmos os inconscientes que, cegos pela sua megalomania financeira e pelo seu efémero e aparente poder, pensam tudo poder condicionar, dominar, manipular, operando a seu belo prazer, do ambiente à existência dos seus semelhantes. Tal é a cegueira, que nem se apercebem dos enormes desafios que os esperam, em grande medida como consequência directa dos seus egoísmos, insensatez e ganância, e que teremos de enfrentar e vencer no século que agora principia!

 

Acabamos de deixar, convenhamos que com poucas saudades, o Século XX, sem dúvida marcado pelo mais intolerável paradoxo:


1) Por um lado, assistimos a horrores:


a) Os genocídios, as matanças e as arbitrariedades provocadas pelas mentes doentias dos loucos sedentos de poder ou de hegemonia, como Hitler, Hiro Hito, Estaline, Mao, Pol Pot ou Pinochet, entre tantos outros, e de todos os seus acólitos. Inúmeros outros ditadores os sucederem, espalhando a morte, o terror e a barbárie do Ruanda à Serra Leoa, passando pela Libéria, Somália, Burundi, Angola, Colômbia, El Salvador, Congo, Bósnia, Chechénia e tantos outros... Mas tal só foi possível com a conivência e, tantas vezes até com o apoio das diplomacias das “Grandes Potências”. Diplomacias pouco ou nada democráticas, na medida em que, conduzidas quase sempre à revelia dos sentimentos e das aspirações dos nossos povos, se fossem postas à votação, de certeza não seriam sufragadas.

b) Do lado negro do Século XX, ainda de salientar as mentes geniais e brilhantes, mas cegas e loucas, dos cientistas que, enclausurados nos seus laboratórios e levados pela excitação da “descoberta”, omitiram as suas responsabilidades éticas perante a Humanidade e, deixando-se manipular por pressões políticas e “Razões de Estado”, conceberam e realizaram as bombas atómicas, químicas e bacteriológicas, de sinistra memória, que até hoje ameaçam de extermínio e enfermidades. E mais, sem acautelarem todas as possíveis implicações, lançaram-se desenfreadamente, como autênticos aprendizes feiticeiros, na manipulação genética criando os OGM (Organismos Geneticamente Modificados), verdadeira espada de Damocles suspensa sobre os agricultores e, por isso, sobre todos nós, tornando a Clonagem Humana uma assustadora realidade.

c) De salientar ainda o autismo social e alucinante que produziu a nossa civilização no século que findou: produziu riqueza e descobertas científicas inigualáveis na História mas infelizmente não soube ou, pior, não quis, por egoísmo ou indiferença, partilhá-las com toda a Humanidade, deixando-as reféns de uma minoria cada vez mais rica e mais detentora do saber e da alta tecnologia, perante uma maioria cada vez mais numerosa (a população mundial passou vertiginosamente de um para seis biliões de pessoas entre 1900 e 2000, vivendo actualmente metade destas pessoas amontoadas em megacidades; e serão cerca de 70 por cento em 2025. Já entrámos no assustador Milénio Urbano!) mais relativamente pobre e ignorante, mais ignorada e prisioneira do ciclo infernal das suas doenças esquecidas e da sua miséria, criando assim as condições objectivas que nos fazem entrar no século XXI com justificados receios e anseios das bombas sociais e ecológicas que deixamos armadilhar.

 


2) Por outro lado, tivemos a sorte e a alegria de assistirmos durante o século agora findo a acontecimentos extraordinários:


a) A medicina conheceu assinaláveis progressos, dos meios de diagnóstico aos tratamentos, permitindo a cura e a prevenção de enfermidades que povoam de terror, não há muito tempo, o nosso imaginário colectivo, mesmo no Ocidente, tais como a peste, a lepra, a tuberculose, a varíola, a sífilis, a cólera... pena é não se ter também investido e investigado de forma suficiente e empenhada as doenças que afectavam e continuam a afectar essencialmente os países mais pobres, tais como a malária (só há bem pouco tempo banida da Europa e que pode regressar mais depressa do que muitos pensam...), a doença do sono ou tripanosomíase, a biliarziose, a doença de Chagas, o dengue, a oncocercose, a leishmaniose, ... sem falar já da terrível pandemia do SIDA que, por si só, poderá parar ou gravemente condicionar o futuro desenvolvimento da África negra e da Ásia meridional, doença essa para a qual, para já, se vislumbram mais preocupações de controlo dos futuros mercados, com os enormes lucros financeiros daí decorrentes, do que em salvar as dezenas de milhões de africanos já condenados à morte certa.

b) O aperfeiçoamento e o desenvolvimento antes inimaginável da tecnologia, infelizmente não seguida por uma evolução espiritual tão intensa, levou-nos à Lua, às profundezas dos oceanos, à televisão, à telefonia mais sofisticada, à Internet, à informação/desinformação/manipulação instantânea, dita online, aos satélites espiões e outros ultra-sofisticados, à Ressonância Magnética e outras imagiologias médicas espectaculares, aos aviões supersónicos que fizeram de Lisboa e Moscovo duas aldeias vizinhas embora ainda muito incompreendidas, à maximização da produção agrícola e animal que levou a que, como nunca antes, o Mundo conhecesse uma produção alimentar globalmente excedente mas coexistindo com vastas regiões de fome e com o brinde, devido à ganância pelo lucro fácil das multinacionais da indústria agroalimentar, da encefalite espongiforme bovina e humana!

c) O acordar da sociedade civil mundial: este acordar é, quanto a mim, a grande esperança para o Século XXI. Os cidadãos do mundo inteiro entenderam enfim que “Democracia” não é apenas ter direito a voto e a falar! É também participar no dia-a-dia nas decisões e nas suas correctas implementações que condicionam as nossas vidas e a nossa Humanidade no seu concreto. Estou certo de que esta tomada de posição assumida pela Sociedade Civil Mundial, expressa muito claramente no I Fórum Social Mundial (que decorreu em Porto Alegre, no Brasil, recentemente), é irreversível no sentido da MUDANÇA POSITIVA tão necessária para os bem mais necessitados do Mundo. Espero muito sinceramente e esperançosamente que os “Senhores do Mundo” do G8, do FMI, Banco Mundial e outros, que se reúnem há décadas em Davos, entendam e entrem em diálogo rapidamente pois só assim se evitarão explosões sociais de terríveis consequências a curto e médio prazo!

 

Foi com este intolerável paradoxo do Século XX que entrámos no Século XXI, com todos os medos e anseios justificados, entre outros:


• da explosão demográfica, das imigrações em massa – já iniciadas e doravante inevitáveis com os seus nefastos acompanhantes, o racismo e a xenofobia.
• da instabilidade laboral e social e da subsequente exclusão e miséria que nos irão bater à porta, trazidas pela globalização, refém de um neoliberalismo selvagem, desregulado, sem humanismo e sem ética.
• das drogas para os nossos filhos.
• do SIDA, sobretudo para os países mais pobres,
• dos integrismos, fanatismos e outros fundamentalismos, religiosos ou não.
• da destruição irreversível dos recursos naturais.
• do descontrolo no uso das armas nucleares mesmo que “só” tenham urânio “empobrecido”.
• de já não sabermos o que podemos comer pois já não podemos confiar no que os responsáveis nos dizem, como o surto da BSE tem demonstrado em toda a Europa!
• da aceleração brutal que a vida levou, tornando tudo efémero, tudo instável, fazendo com que ninguém hoje tenha certezas e garantias para o “amanhã”.
• de saber se não seremos também produtos descartáveis e se os nossos filhos terão sequer tempo para nos vir dar um beijo, deixando-nos numa atroz solidão, solidão essa à qual são já votados muitos dos nossos anciãos depositados em “lares”, por vezes autênticas antecâmaras da morte por abandono!


São esses os desafios que vamos ter de enfrentar e vencer juntos, lutando por um novo padrão do Homem: um Homem que lute por ser e não por parecer, um Homem com uma mente virada não só para si mas também para o Outro e para o Mundo como partes integrantes do seu próprio Ser!


A evolução positiva do Mundo e do Universo, assim como a nossa própria evolução e bem-estar exige-o a todos nós! Vamos pois em frente e juntos venceremos todos esses desafios e medos e todos os demais que possam surgir!


Não estamos sós, pude confirmá-lo pessoalmente em Porto Alegre: os cidadãos do mundo inteiro estão a reagir! Eis, meus queridos amigos, o novo paradigma para o Século XXI, já que a Humanidade na sua lentíssima, mas mesmo assim, positiva caminhada ainda não logrou alcançá-lo. Com a nossa ajuda, os nossos netos irão certamente conseguir.

 

Publicado na AMInotícias nº19, 2001

 



publicado por Fernando Nobre às 11:22
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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

O texto que se segue foi escrito em Dezembro de 1998, há mais de 10 anos (incluí-o também no meu livro "Gritos Contra a Indiferença")...

 

Constato, infelizmente, que tinha razão!...

 

De regresso de várias viagens -  à Guiné-Bissau (via Senegal) durante o último Verão, para apoio às populações vítimas da guerra; de uma estadia no Bangladesh onde a AMI está a financiar um projecto junto dos miseráveis deslocados pelas recentes inundações; de uma passagem por Nova Iorque, a convite da Fundação Konrad Hilton para participar num seminário sobre o Humanitário e o século XXI; e de uma missão humanitária nas Honduras para socorrer as vítimas do ciclone Mitch - devo confessar que concordo com o Sr. Ignacio Ramonet, director do “Le Monde Diplomatique”: estamos a caminho do caos. Ou paramos já (para escutarmos e socorrermos os gritos de desespero de ¾ da população mundial, para olhar e ver os erros cometidos nomeadamente na defesa do Homem e do meio ambiente e para pensarmos no que realmente queremos fazer do nosso mundo) ou todo este frenesim descontrolado pode levar-nos mesmo ao caos global.
Hoje, os políticos, os economistas e os financeiros estão todos ultrapassados, tentando no máximo gerir o dia a dia, pela rapidez com que a globalização se fez e pela instantaneidade com que os colossais fluxos financeiros se movimentam, destabilizando regiões inteiras num jogo virtual especulativo, perverso e perigosíssimo para o mundo inteiro. Estamos em equilíbrio muito instável em cima de um castelo de cartas que pode ruir de repente, levando consigo toda esta aparente e falsa tranquilidade. A falência do banco Barings e os efeitos do “el niño” e da “el niña” já deviam ter sido suficientes, entre muitos outros sinais de alerta, para nos chamar à razão e ao bom senso!

As revoluções tecnológica (tendencialmente desumanizante), económico – financeira (verdadeiro jogo como no “mercado dos futuros”!!) e social (a crise global do poder/ desemprego) em curso, estão a levar ao domínio total do financeiro sem rosto sobre o político, o social, o ético e o moral com todas as terríveis consequências. Sem querer ser o Velho do Restelo, grito: alerta!, cuidado!

Com tanto miserável no nosso mundo onde umas 300 pessoas acumulam mais riqueza do que 3 biliões (50% da população mundial), onde o fosso entre o Norte e o Sul nunca foi tão abissal, onde as disparidades sociais nos países ditos civilizados e desenvolvidos nunca foi tão grande, isso só pode rebentar. Quando? Não sei! Só sei que assim não vamos a parte nenhuma. É tempo de inverter a marcha funesta que nos tem conduzido. Por favor, é preciso bom senso.

Após ter estado num espaço de um mês em Gabu, na Guiné, em Nova Iorque e a sua frenética Wall Street, em Bogra, no Bangladesh e em Tegucigalpa nas Honduras, estou em estado de choque. Não aceito tão fantásticas disparidades; não é humanamente suportável. Eu não consigo conviver com isso sem gritar a minha angústia, revolta e indignação e sem tentar, convosco, fazer algo de positivo pelos sofredores, pelo nosso mundo.
Peço-vos, pois, para reagirem. À escala individual, sejamos solidários. Não à indiferença, não à intolerância, não ao caos que alguns estão a oferecer a tantos, em nome de coisa nenhuma a não ser a insensatez e a cobiça. Temos, cada vez mais, de continuar juntos a nossa luta. Só ela dá sentido à vida.

 

Publicado na AMInotícias nº14 - 1998



publicado por Fernando Nobre às 14:53
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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

http://sic.aeiou.pt/online/video/informacao/Falar+Global/2009/2/electronicadesangue.htm

 

 



publicado por Fernando Nobre às 21:58
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Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Enquanto homem que pretende ser activo na Sociedade Civil portuguesa e mundial, cometeria “um crime por omissão” ao não me pronunciar sobre os assuntos que dizem respeito a todos.

 

Portugal, seria absurdo nega-lo, enfrenta problemas que, sem serem catastróficos, são muito graves e carecem de urgente, empenhada e determinada resolução. De nada vale silencia-los, pois só se resolvem enfrentando-os e não negando-os com visões de curto prazo e demagogia que só demonstram a ausência de uma estratégia clara e de uma firme vontade em se ir avante com as reformas de que o país carece. O essencial sobre os problemas está dito e redito. Está feito o diagnóstico sobre os críticos sectores da saúde, da educação, da justiça, da agricultura, da defesa, da política externa… que são débeis porque débeis são a nossa organização, a nossa vontade e determinação políticas, a nossa economia e a nossa sociedade civil.

 

Nenhum de nós pode nem poderá estar satisfeito enquanto houver pessoas sem-abrigo, reformas de miséria, precariedade no trabalho, doentes que ficam meses à espera de uma operação; enquanto centenas dos nossos estudantes forem obrigados a emigrar para se formarem; enquanto as nossas universidades não se expurgarem do supérfluo e inútil e não deixarem de ter os parcos orçamentos que têm; enquanto, por norma, for preciso esperar anos para se fazer justiça; enquanto se privilegiarem com o erário público os “elefantes brancos” e os buracos sem fundo, em vez de se investir em hospitais, em escolas, apetrechos para universidades e centros de pesquisa, na luta contra a exclusão social e na melhoria da reforma dos idosos; enquanto os campos do nosso Interior se forem despovoando; enquanto os nossos ex-combatentes e as nossas Forças Armadas não forem devidamente reconhecidos e dignificados; enquanto a nossa política externa continuar a ter o orçamento mísero que tem; enquanto não se der a devida importância às nossas comunidades de emigrantes e imigrantes; enquanto a nossa sociedade civil for fraca, ignorada e mesmo, por vezes, ostracizada; enquanto a nossa economia não for competitiva e cidadã.

 

Se não superarmos tudo isto e o muito que ficou por dizer, ninguém, nem Estado, nem Mercado, nem nós – Sociedade Civil – (em suma, os três pilares que, quando equilibrados, são a essência de uma sociedade civil humana e harmoniosa), repito, ninguém, poderá dormir descansado, pois não teremos conseguido criar todos, em conjunto, a sociedade justa e ética de que Portugal precisa e que merece.

 

Falta vontade, organização, aprumo, dignidade e transparência na definição das prioridades. E depois, rigor, determinação e empenho no seu cumprimento.

 

São grandes os desafios e os obstáculos, sem dúvida, mas sinceramente creio que Portugal os vencerá se acreditar que é possível e se para tal for devidamente motivado.

Só com rigor, só sobrepondo o mérito, a competência e as provas dadas à cunha e ao clientelismo, só com profissionalismo, só com uma estratégia clara quanto às prioridades nacionais, só com transparência na gestão das contas públicas, só com genuína e sincera abertura à sociedade civil, chamando-a a intervir e a participar, só com um combate sem quartel à corrupção que mina a eficácia e a dignidade nacionais, só com mensagens e acções mobilizadoras que vençam o desânimo e o pessimismo instalados, será possível debelar a crise moral, social e económica que parece ter-se instalado. Para isso serão precisas decisões e opções políticas sérias e corajosas, que enfrentem alguns interesses instalados, que substituam intenções vagas, por medidas concretas e combatam, sem tréguas, a demagogia, o cinismo, a tibieza, a ligeireza e a superficialidade.

 

A grave crise latente no sistema político representativo, tendo na linha de mira a própria democracia, é um sinal de alerta de que todos temos de ter consciência. Tal como o Mundo de hoje tão injusto e ameaçador, Portugal, o nosso País, precisa de Estadistas, quero dizer, de políticos que não se demitam das suas responsabilidades e que façam da correcta gestão do bem público, a sua prioridade, não esquecendo nunca que a ÉTICA, a ESTABILIDADE, e a EQUIDADE SOCIAIS, deverão estar sempre presentes no momento da tomada de decisões.

 

Peço-vos pois, a quem lê o que escrevo, que contribuam decisivamente, num verdadeiro compromisso de Sociedade Civil, para um Portugal mais dinâmico, mais ético, mais solidário, digno e regulado. Para um Portugal com um projecto de sociedade e onde uma nova cultura cívica e de responsabilidade valorize o esforço e traga de volta uma visão estratégica de que D. João II foi, no plano histórico, o nosso maior exemplo. Assim, com opções e prioridades claras, poderemos de novo acreditar e sonhar com largos horizontes, empolgando-nos, dando-nos esperança a todos, em nome de Portugal.

 

Portugal pode não ter a força das armas nem a dos dinheiros, mas poderá sempre ter a força de ler o Direito e proclamar a Justiça, à luz dos Direitos Humanos. Designadamente, dando o exemplo.

 

O que aqui deixo expresso é válido para qualquer país do Mundo.

O NOSSO Mundo.
 



publicado por Fernando Nobre às 15:29
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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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LIVROS QUE PUBLIQUEI

- "Viagens Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Gritos Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Imagens Contra a Indiferença",
Círculo de Leitores / Temas & Debates


- "Histórias que contei aos meus filhos",
Oficina do Livro


- "Mais Histórias que Contei aos Meus Filhos", Oficina do Livro

- "Humanidade - Despertar para a Cidadania Global Solidária", Temas e Debates/Círculo de Leitores

- "Um conto de Natal", Oficina do Livro
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