Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Mais uma vez, meus amigos, vos peço desculpa pela minha falta de tempo para este contacto convosco. Tenho um texto sobre Tombouctou escrito na minha mente, mas não ainda no papel... e viajo dia 3 para a Guiné-Bissau... e entre as viagens tenho toda uma série de compromissos (alguns dos quais constantes na rubrica "Eventos em que participo", neste blog)... Escrever neste espaço é, dia após dia, um prazer adiado. Conto com a compreensão de quem esperava mais...

 

Aqui fica, no entanto, um texto sobre a Paz, que escrevi há algum tempo, mas que considero ainda actual.

 

A Paz é e, ouso dizê-lo, sempre foi, a mais imperiosa e absoluta necessidade assim como o maior desejo e sonho da esmagadora maioria das pessoas. Sem Paz, o Mundo muito dificilmente poderá alcançar o Desenvolvimento e a Democracia durável para todos. Disso não tenho dúvidas. Mas se assim é, como se explica que a História da nossa Humanidade possa ser representada, desde sempre (se excluirmos algumas épocas de relativa acalmia e bom senso), por um fresco dominado pelas cores da guerra, da morte, do sofrimento, da exploração, da humilhação e da dor infligidos por seres ditos humanos aos seus semelhantes? 

 

Eis a pergunta dilacerante que me interpela diariamente há três décadas. Como explicarmos tal desvario de comportamento, completamente absurdo e paradoxal? Devo confessar que, quanto mais percorro o Planeta Terra e penso no Universo que nos engloba e nos reduz à insignificância absoluta, mais perplexo fico e mais perdido me sinto ao confrontar-me com a História e sobretudo com a actualidade das guerras e holocaustos.

 

Quanto mais me interrogo, mais convicto fico que o absurdo e o horror com que me tenho confrontado nos quatro cantos do mundo se devem à Indiferença, à Intolerância e à Ganância. A meu ver, são essas as doenças malignas que têm levado a nossa Humanidade aos conflitos incessantes, aos genocídios, à exploração, à humilhação, à despudorada governação global e ao ódio, já de difícil remissão.

 

Essas doenças mortíferas têm corroído a consciência dos seres humanos e têm impedido o surgimento de um novo paradigma nas suas relações. Essas doenças parecem ter atingido a liderança global pois só assim encontro explicação para o desnorteamento total que impera ainda hoje na nossa Humanidade neste início do século XXI e nos mergulhou desde já num Mundo particularmente inquietante, violador e atentatório dos mais elementares direitos humanos, que parece querer conduzir-nos a um novo apocalipse.

 

Todos estamos perfeitamente conscientes, penso eu, que, a menos que os cidadãos no mundo despertem da letargia profunda onde mergulharam, ou foram induzidos, e exijam lideranças globais mais responsáveis, a espada de Dámocles que está suspensa por um frágil fio desabará em cima de todos nós. Estas doenças incendiárias (a Indiferença, a Intolerância e a Ganância), se não forem dominadas com o rápido surgimento de uma nova liderança mundial mais esclarecida, mais responsável, mais sensata e menos geradora de revolta, de humilhação, de injustiça, de exclusão e de ódio, levar-nos-ão a confrontos civilizacionais, religiosos e sociais de dimensões até hoje nunca vistos e inimagináveis.

 

Ao longo da minha caminhada como médico humanitário há três décadas, tendo actuado como tal em mais de 70 países de todos os continentes, considero, repito, que essas doenças são as responsáveis directas de todos os dramas humanos que vivenciei. São elas, quanto a mim , as geradoras das principais ameaças à Paz presente e futura.

 

Mas, quais são as principais ameaças à Paz?


Será que ainda existem esperanças e acções possíveis no sentido de reduzirmos, ou até mesmo anularmos, essas actuais e prementes ameaças à Paz que tanto nos inquietam e amedrontam?


Será que já é irreversível o caminho para o choque de civilizações ou de religiões que alguns propagandeiam e estimulam?

 

Eis-nos perante questões difíceis mas que exigem respostas clarificadoras. Há que encontrar novos caminhos e soluções de mudança para os velhos e novos desafios que enfrentamos. Se assim não for, receio muito que o século XXI acabe ainda bem pior do que começou.

 

Com franqueza, e em boa verdade confesso, temo que já seja tarde demais para atalharmos com eficácia as ameaças que referirei, embora algumas ondas positivas estejam felizmente já lançadas contra o tsunami devastador que nos quer submergir. Mais do que nunca, é fundamental falar de Paz, de cultura de diálogo, de ecumenismo, de entendimento, de pontes entre os povos, e de inclusão.

 

As ameaças mais importantes à Paz, todas elas profundamente violadoras dos Direitos Humanos, e que carecem de resolução urgente para que possamos talvez ainda vislumbrar um amanhã de Paz e um mundo harmonioso são quatro:

 

1. Os conflitos armados no Próximo e Médio Oriente (da Palestina ao Afeganistão passando pelo Iraque)

A não resolução célere, justa e equilibrada desses conflitos é, e será cada vez mais, a causa directa da extensão da conflituosidade entre as comunidades judaica, cristã e muçulmana, e alimentará ainda mais o terrorismo em todo o mundo. A recente guerra entre israelitas e palestinianos, povos irmãos, ainda agravou mais as já explosivas conflituosidades existentes.

 

A pacificação do conflito israelo-palestiniano, com a criação e reconhecimento de dois Estados economicamente viáveis e verdadeiramente soberanos, é a pedra basilar para a eventual resolução dessas tremendas conflituosidades que acabo de referir. Uma vez esse imbróglio histórico, político, territorial e militar ultrapassados, estarão criadas as condições favoráveis para se dar um passo na resolução das outras guerras vigentes na região se, também aí, as nossas democracias souberem fazer passar muito claramente a mensagem de que não serão nunca mais aceites e praticados por nós violações de todo inaceitáveis dos Direitos Humanos, do Direito Internacional e das Convenções de Genebra... Só assim poderemos invocar qualquer autoridade moral para podermos exigir em todo o Mundo o respeito desses direitos elementares.

 

Para mim, já o escrevi há anos, a resolução da tragédia que é o conflito israelo-palestiniano e que está a gangrenar o Mundo só poderá ter um fim se houver dois Estados, reconhecidos e resultando de uma partilha equitativa do território, com soberania plena dos seus governos, com uma utilização equilibrada dos recursos hídricos e um diálogo fraterno entre os dois governos semitas, oriundos de eleições reconhecidas como justas e livres, ficando Jerusalém exclusivamente como Cidade Santa, Património Mundial da Humanidade e sob gestão das Nações Unidas.

 

Quanto às guerras no Afeganistão e no Iraque, a menos que se saia quanto antes airosamente para todos do atoleiro israelo-palestiniano e que a chamada comunidade internacional se empenhe em encontrar rapidamente soluções para as outras ameaças à Paz Global, que passo a enunciar sinceramente, não vejo outra saída que não seja o caos...

 

2. A miséria, a exclusão, a humilhação, a indiferença e o esquecimento a que foram votados ao longo da história largas franjas da população mundial: essa situação tem-se agravado nas últimas décadas mercê de uma má governação em muitos países e de uma orientação económica mundial que ignora o ser humano mais fraco.

 

Já é cansativo e repetitivo citar o que de todos é sabido:
• 1/3 da população mundial vive na pobreza (rendimento per capita <2 USD/dia),
• 1/5 vive na miséria absoluta (r.p.c. <1 USD/dia),
• existe uma real injustiça no acesso à água potável, ao saneamento básico e aos cuidados de saúde minimamente aceitáveis para uma parte importante da população mundial, etc...


Tudo isso é conhecido, assim como são conhecidos Os Objectivos do Milénio, que os líderes mundiais se comprometeram a atingir em 2015 na Cimeira do Milénio nas Nações Unidas em Nova Iorque em Setembro de 2000.

 

Infelizmente já todos sabemos também que esses objectivos não serão atingidos em 2015 como era previsto, o que será um revés grave para a pacificação do planeta. A continuarmos na trajectória actual, esses objectivos, essenciais para todos, talvez só poderão ser alcançados, sobretudo na África Sub-sariana, lá para 2050 ou 2100... A profunda crise financeira, económica e social vigente está a flagelar particularmente os povos mais frágeis e há tanto tempo esquecidos!

 

Chamar-me-ão pessimista! Não. Como o digo e escrevo há anos sou, penso eu, apenas um optimista informado! O tsunami migratório que apavora a Europa (ver o que se passa com a Espanha, a Itália,...) é a prova fundamentada que as políticas ditas “de desenvolvimento” de décadas e nomeadamente os Objectivos do Milénio não estão a surtir efeito algum a sul do planeta, embora um certo discurso politicamente correcto pretenda fazer-nos crer o contrário.

 

Essa onda migratória (os famintos e desesperados estão em marcha...) vai ser avassaladora e, não tenhamos ilusões, não haverá muros, nem canhões, nem barcos de guerra suficientes, em número e em força, para a neutralizar e impedir que a Paz e a ainda existente Democracia no Ocidente sejam gravemente questionadas! Veja-se o que está a acontecer com a aceitação crescente, por parte do eleitorado, dos movimentos e partidos políticos racistas, xenófobos e até nazis, como tem acontecido nas últimas eleições na Europa. É um sinal de alerta grave que tem que ser considerado. Eis o tempo da mudança! Tal está na mão de todos nós!

 

O que eu sei é que essa situação de profunda e imensa exclusão é a grande nutriente do desespero, da frustração e do ódio que alastra por todo o mundo e que alimenta e facilita o recrutamento em massa para os movimentos terroristas e/ou revolucionários violentos. A História assim nos diz: as lideranças desses movimentos sempre pertenceram a elementos letrados da pequena e até da grande burguesia (exceptuando um ou outro caso, como a revolta dos gladiadores liderada por Spartacus...) mas, o que é facto é que a massa humana desses movimentos é, como sempre foi, constituída pelos famintos, excluídos, esquecidos e humilhados. Enquanto não se secar, educando e desenvolvendo, esse verdadeiro pântano da miséria humana, os movimentos terroristas vão ver o recrutamento facilitado e a corrente migratória será imparável.

 

Não é com bombas e metralhadoras que se combate esse fenómeno social que exige, isso sim, uma abordagem responsável e global. O que eu estou certo, enquanto médico, é que a abordagem eficiente das pandemias da malária ou do sida exige uma panóplia de medidas preventivas e curativas. Se não actuarmos da mesma forma, para as matérias que nos preocupam, será impossível atalhar eficazmente as problemáticas que tanto parecem preocupar a liderança mundial: o terrorismo internacional e a imigração selvagem.

 

3. Os Fundamentalismos, Os Movimentos Terroristas e uma Liderança Mundial, a actual, inapta, desadequada e irresponsável (salvo a esperança que ainda representa Obama).

 

Não há dúvida nenhuma que existem hoje no Mundo grupos e movimentos terroristas com ideologias e objectivos que não nos interessam minimamente e que, por meio de acções de terror, procuram destabilizar a ordem vigente, infelizmente enferma das três doenças que já referi.

 

Esses grupos e movimentos terroristas, hoje espalhados no mundo e inter-relacionados, pugnam pela destruição da nossa sociedade e sonham tomar o poder, criando o caos se necessário. Para tal, estão prontos e dispostos a avançar, como já o fizeram, com massacres em massa de inocentes. É evidente que esses grupos têm de ser combatidos com determinação total, mas tal não nos dá o direito de utilizarmos também metodologias terroristas, como se tem verificado e é sobejamente conhecido da opinião pública mundial.Tal não é admissível, como muito justamente diz James Follows (excertos do The Atlantic Monthly de Boston referidos no nº75 do Courrier Internacional) citando David Kilcullen “ É a Al-Qaeda mais a nossa reacção que criam um perigo mortal”, e Sir Richard Dearlove “A causa da América está perdida se esta não conseguir restabelecer a sua estatura moral”.

 

É essencial que nesse combate legítimo, desde que se utilizem armas que não firam mortalmente as nossas Democracias e Liberdades, não se ponha tudo no mesmo saco e que cegamente não se reconheça que há movimentos de resistência, como na Palestina, no Líbano ou no Iraque, com os quais é fundamental que se dialogue para se encontrarem soluções viáveis e sustentáveis.

 

Importa desde já salientar que a denominação “terrorista” foi, e é, volátil. Se olharmos para a história da Humanidade nos últimos 250 anos (e poderíamos recuar muito mais) os pais fundadores dos Estados modernos foram, poderiam ter sido, ou seriam hoje seguramente considerados como terroristas: George Washington, Bolívar, Lenine, Ho Chi Minh, Mao, Charles de Gaulle, Bem Gourion, Menahem Beghim, Yasser Arafat, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Machel, Nino Vieira...Não nos esqueçamos que todos os heróicos resistentes europeus à ocupação nazi durante a 2ª Guerra Mundial, assim como os heróicos resistentes judeus no gueto de Varsóvia, foram apelidados de terroristas tendo sido, quando apanhados, todos torturados e muitos executados como Jean Moulin. Também eram chamados de terroristas os guerrilheiros dos movimentos independentistas nas antigas colónias portuguesas, inglesas, francesas... Assim como os movimentos cujo contributo foi decisivo para a criação de novos estados, como aconteceu, por exemplo, com os grupos Irgoun e Stern, tão importantes para a génese do Estado de Israel.

 

Não nos esqueçamos também (como a memória é volúvel!) que os guerrilheiros chechenos, antes do 11/09/2001, eram apelidados pelo Ocidente de “combatentes pela liberdade”, mas num ápice, após o 11/09/2001 (por conveniências geo-políticas globais...), passaram a ser rotulados de “terroristas”. Conjunturas e interesses passageiros...
Alguns desses “terroristas”, tais como Menahem Begin e Yasser Arafat, até acabaram por ser galardoados com o Prémio Nobel da Paz... Incongruências, incoerências, esquecimentos, lobbies, contingências, interesses ou revisões históricas?

Os movimentos verdadeiramente terroristas, aqueles onde se vislumbra não haver reformulação possível dos seus métodos execráveis, existem e têm de ser combatidos com todos os meios, menos o terrorismo, como se fez com o regime nazi durante a II Guerra Mundial, e como se deveria ter feito com o movimento Khmer vermelho no Cambodja e o movimento Interhamwé no Ruanda em 1994. Esses movimentos e regimes foram genocidários, verdadeiramente de terror e era impossível dialogar com tamanhas monstruosidades.

 

Da mesma maneira, acredito firmemente que, em nome da Paz e da equidade presente e futura, é importante e até imprescindível que se dialogue com certos Estados e movimentos catalogados como pertencendo ao “eixo do mal” ou “terroristas” tais como a Síria, o Irão, o Hamas e o Hezbollah. Assim terá de ser para que se encontrem soluções, caso contrário a conflituosidade no Médio Oriente e entre os mundos judaico, cristão e islâmico ficará irremediavelmente fora de controlo e conduzir-nos-á ao tal conflito de civilizações ou de religiões que alguns pretendem.

 

Diabolizando o outro não se constrói a Paz! As correntes fundamentalistas primárias e maniqueístas existem e são infelizmente muito actuantes nas três religiões monoteístas, as religiões do Livro. Para a construção da Paz é e será essencial que a moderação, o bom senso e um verdadeiro sentido ecuménico impere nas cúpulas das três religiões. É fundamental que se fortaleça o diálogo, que sejam enviadas mensagens claras nesse sentido para a opinião pública mundial e que sejam evitados discursos e opiniões negativas ou de fácil distorção.

 

Associado a essa dinâmica de diálogo, de sensibilidade diplomática e, por que não, de Amor e Perdão, é necessário que se pugne por uma boa governação. Temos que pôr termo, pela pressão global sem tibiezas, a todos os governos cleptopatas, escandalosa e notoriamente corruptos que considero serem governos genocidários porque, mesmo se silenciosamente, são responsáveis pela morte de milhões de seres humanos. Não é porque morrem em silêncio, anónimos, sem um grito, longe das câmaras de televisão, que deixam de ser seres humanos! Não são baratas!

 

Os governos irresponsáveis que criam flagrantes desigualdades e iniquidades são particulares geradores de humilhação, de desespero e de ódio. São eles, associados a políticas nefastas globais, que estão a provocar a fuga maciça das suas populações em direcção ao Ocidente. As suas práticas foram quase sempre encobertas ou incentivadas pelo Ocidente sob o espúrio raciocínio como me foi um dia explicado por um governante mundial, que a “corrupção é útil porque é geradora de uma elite rica que, ao investir no seu país, é geradora de riqueza...” (“Deixem-me rir, para não chorar”).

 

Finalmente, não esqueçamos que são da responsabilidade desses mesmos governos as políticas causadoras dealterações climáticas gravíssimas que, a curto e médio prazo, poderão provocar tragédias humanas de grandes dimensões.


4. O Comércio das Armas

Eis um tema melindroso mas real. Os Estados e os movimentos que se guerreiam não o fazem à pedrada nem à flechada! Todos eles se abastecem, quase livremente e às claras, junto dos grandes produtores ou de empresas “particulares” ditas “independentes” mas que têm canais de ligação aos Estados e aos poderes. São muitas vezes empresas fictícias, de fachada, que permitem aos Estados produtores vender e evacuar os seus stocks, sobretudo de bombas, outros explosivos e equipamentos bélicos que tenham os seus prazos próximos da expiração. Muitas vezes é mais fácil enviar esses foguetes explodirem sobre pessoas do que pagar o custo da sua reciclagem. É, neste caso também, a lógica do mercado e da produtividade a funcionarem no seu melhor...

 

O busílis de toda a questão do armamento (produção e venda), que demonstra que o fenómeno da Paz é uma autêntica quadratura do círculo, é que os maiores produtores e vendedores de equipamentos bélicos no e para o Mundo são os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e que, absurda e cinicamente, são exactamente aqueles que têm como primeira missão zelar pela Paz no Mundo...O que dizer mais?

 

EM CONCLUSÃO, Meus Amigos digo que para haver Paz tem que haver Justiça. Só com Justiça, Sensibilidade e Humanidade poderemos combater as três doenças malignas que referi no início: a INDIFERENÇA, a INTOLERÂNCIA e a GANÂNCIA.

 

Só assim conseguiremos, ainda talvez, soluções para debelarmos as quatro maiores ameaças antes referidas que, quanto a mim, pairam sobre a Paz no Mundo: as guerras incessantes no Médio Oriente (génese do ódio que nutre o terrorismo e o conflito religioso), a Miséria Global (que está na origem do tsunami migratório e facilita, por outro lado, o recrutamento terrorista), o Terrorismo Internacional e a Má Governação (que nutrem a conflitualidade global) e, por fim, o Comércio das Armas.

 

Aos terroristas e diversos beligerantes nunca foi tão fácil recrutar carne para canhão: os famintos miseráveis e humilhados que vomitam ódio pela nossa sociedade de abastança mas exploradora e confrangedoramente desequilibrada.

 

Ousaria dizer que, se resolvêssemos a contento para a Humanidade esses quatro desafios -ameaças à Paz Global, conseguiríamos a criação de um novo paradigma nas relações internacionais e, quem sabe, um novo padrão do Ser Humano.

Ao fim ao cabo para termos Paz bastaria que:
• Todos os Estados respeitassem a Declaração Universal dos Direitos Humanos que ratificaram, assim como as Convenções de Genebra
• Que verdadeiramente pugnassem para que os Objectivos do Milénio fossem atingidos como previsto, o que desde já se revela impossível, em 2015.

 

Se essas quatro ameaças à Paz fossem aniquiladas, penso que todos os outros desafios seriam facilmente superados. Desafios como as alterações climatéricas, a desertificação, o acesso e a repartição equitativas da água (património da humanidade e por isso não privatizável à escala global...), o surgimento e crescimento de partidos políticos racistas e xenófobos, o tsunami migratório que já começou em direcção ao Ocidente, o unilateralismo ou o novo hegemonismo imperial de previsíveis consequências na conflituosidade mundial, as violações graves e repetidas do Direito Internacional e do Direito humanitário, o proteccionismo...teriam solução rápida e justa.

 

Não quereria acabar sem citar quatro indícios de esperança que existem:
1. O despertar da Sociedade Civil Mundial e a tomada de consciência da importância de uma Cidadania Global.
2. Embora não estando a ser conseguidos, a existência dos Objectivos do Milénio demonstram que, nas Nações Unidas, os Estados tomaram consciência de importantes desafios globais que importa urgentemente resolver.
3. Iniciativas como a do Sr. Bill Gates, que demonstram que os Grandes Empresários Globais começam a entender não haver solução para o nosso Planeta se não houver partilha da riqueza.

4. A substituição do nefasto Senhor Bush e sua equipa, pelo Senhor Obama.

 

Penso sinceramente que a Paz, presente e futura, tão ameaçada, tem ainda uma oportunidade. Actuemos já e resolvamos as quatro ameaças, verdadeiros cavaleiros do apocalipse a encaminharem-nos para o Armagedon.

É simples. Basta termos a vontade de ver no “outro” um “semelhante”, e seguirmos dois “mandamentos” muito simples:

“Não matarás” e
“A minha liberdade acaba onde começa a do outro”.

Todos! Cidadãos, Sociedade Civil Organizada, Empresas, Governantes, com particular responsabilidade para os grandes líderes mundiais e as suas instituições (G8, FMI, Banco Mundial, OCDE, OSCE, Nações Unidas, ASEAN, União Africana, Grupo de Roma, Fórum de Davos, etc.)!

 

Só assim será possível formar uma verdadeira Cultura da Paz.


 



publicado por Fernando Nobre às 13:52
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Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Ultimamente tenho constatado que me é difícil ser aceite como um “simples cidadão” que sou porque, aparentemente, colou-se-me o estatuto de “figura pública” embora nunca o tenha pretendido e, devo dizê-lo, até me incomoda.

 

Já antes de ter fundado a AMI há 25 anos, tinha eu então trinta e dois anos, e desde há muito era Cidadão, consciente dos seus deveres e dos seus direitos. Como tal, tenho recusado terminantemente deixar de ser o cidadão que sempre fui: foi essa postura que me levou, em Portugal, a tomar posição política pública em três ocasiões, como consta claramente no “meu perfil”, neste blog.


Àqueles que me criticam violentamente por dizer o que realmente penso sobre certos acontecimentos (guerras EUA – Iraque e Israel - Palestina), pessoas (Senhores Bush, Blair, Aznar, Durão Barroso…) ou por tomar posições políticas ao apoiar quem eu decido apoiar (2002: Dr. José Manuel Durão Barroso e PSD - 2006: Dr. Mário Soares e PS - 2009: Dr. Miguel Portas e BE), quero dizer claramente que em cada uma das ocasiões o fiz porque, genuinamente, acreditei que estava a tentar ser útil para o meu País ou para a Europa. SEMPRE O FIZ, COMO NÃO PODERIA DEIXAR DE SER, SEM NUNCA PEDIR OU ESPERAR FAVORES, FOSSEM ELES QUAIS FOSSEM, AO CONTRÁRIO DO QUE ALGUNS INSULTUOSOS COMENTÁRIOS DEIXAM ENTENDER!


Os mesmos que hoje me insultam por ter ousado dizer o que de facto penso sobre o Presidente da Comissão Europeia, são seguramente os mesmos que me incensaram, enquanto outros me criticavam (como, por exemplo, o meu Caro e Digno Amigo Barros Moura, infelizmente já desaparecido, me exprimiu por telefone), quando o ajudei a tornar-se Primeiro-Ministro de Portugal em 2002!


Para quem ler o “meu perfil” neste blog, ou a intervenção que na altura fiz na Convenção do PSD no Coliseu de Lisboa, em Fevereiro de 2002, e que publiquei no meu livro “Gritos contra a Indiferença” e neste blog, perceberá facilmente quando e como o apoiei (teve na altura destaque informativo na VISÃO e no DN, entre outros).


Por ter dito mais ou menos o que muitas outras figuras públicas, e com muito mais notoriedade, já tinham dito antes de mim (Miguel Cadilhe, Mira Amaral, Miguel Sousa Tavares, Ana Gomes, Mário Soares…) caiu o Carmo e a Trindade na blogosfera, e ao telefone com inclusive ameaças de retaliação financeira, corte de donativos, sobre a inocente AMI e quem ela apoia…


Assim sendo passo a explicar o porquê de ter dito o que disse: nunca aceitei, não aceito nem nunca vou aceitar que a pessoa que objectivamente apoiei para ser Primeiro-Ministro do meu País o tenha abandonado como o fez, fugindo lamentavelmente para Bruxelas, após o ter colocado na infamante reunião, e fotografia, da Base das Lajes que serviu de luz verde ao repugnante massacre no Iraque (que dura há seis anos!) e à sua “promoção” para Bruxelas…
 

Não aceito nem nunca vou aceitar que a pessoa que tanto elogiou e deu cobertura, até ao fim, aos desvarios do Senhor Bush tenha afirmado, em entrevista a um grande jornal português, há cerca de um ano, que dorme como um bebé, o sono dos justos, que venha hoje tentar fazer crer, sem nunca ter apresentado qualquer desculpa ou arrependimento, que nada tem a ver com uma tragédia que já vitimou entre 300 mil e 1 milhão de seres humanos no Iraque e que se apresente hoje como defensor e apologista das políticas do Senhor Obama quando elas são exactamente opostas às do seu directo antecessor, de quem o então Primeiro-Ministro de Portugal, o actual Presidente da Comissão Europeia, sempre foi seguidista e subserviente. Onde está a verticalidade, a postura e a coerência de um ser, ainda por cima quando se pretende projectar como estadista?


Para alguém como eu que há 30 anos convive com o sofrimento e o horror tal é insuportável!

 

E nada tem a ver com partidos políticos (no PSD, nomeadamente, orgulho-me de me considerar há muitos anos amigo dos Drs. Fernando Nogueira, Leonor Beleza, Teresa Gouveia, António Capucho, Luís Filipe Menezes, Alarcão Troni… e de ter sempre tido o maior respeito e consideração pelo Professor Cavaco Silva). Tem a ver simplesmente com dignidade, coerência, coluna vertebral e honra. Só isso e apenas isso!


O cidadão Fernando Nobre sempre apoiou, pagando sempre por ter essa ousadia, quem quis apoiar sem nunca nada negociar, pedir ou receber em troca.


O cidadão Fernando Nobre arroga-se, por isso mesmo, o direito inalienável e indeclinável de criticar atitudes que entende indignas e que magoam a sua consciência de ser humano e de português.


Quem quiser entender que entenda. Quem não quiser, apenas posso lamentar! Penitencio-me no entanto desde já se as minhas palavras, pronunciadas num certo contexto, provocaram algum sofrimento, embora certamente muito menor do que o sofrido pelos portugueses quando o seu Primeiro-Ministro fugiu para Bruxelas e pelas centenas de milhares de feridos, torturados e mortos iraquianos e americanos que padeceram e continuam a padecer numa guerra que tem nomes e rostos responsáveis!


É o que penso como cidadão. A AMI nada tem a ver com isso como nunca nada teve a ver com os apoios políticos que dei até hoje, como cidadão independente, a começar, repito, pelo apoio que dei ao actual presidente da Comissão Europeia quando participei na Convenção do PSD no Coliseu de Lisboa, em Fevereiro 2002, que o levou a Primeiro Ministro de Portugal.

Espero que o que fica aqui explanado ajude a esclarecer, embora possa não o justificar, certas afirmações que tenha feito.

 

Muito Obrigado.


PS: Nos próximos 10 dias estarei no Mali e desde já lamento não poder comunicar convosco. Retomarei o dialogo quando voltar…

 


 



publicado por Fernando Nobre às 19:15
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Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Desafio gratuito? Debate e opção fúteis e inúteis? Escolha impossível? Penso que não. Será um desafio gratificante, julgo eu, se a opção “ser”, a acertada para mim, for a escolhida; não é seguramente a mais fácil mas será aquela que, nos momentos derradeiros, mais nos realizará e nos reconfortará!

 

 

Acredito plenamente que o “ser” tem que se sobrepor ao “ter”. Sei que não é o sentimento dominante neste início de século preocupado por uma globalização essencialmente financeira e especulativa, pelo vírus da ganância que galopa na mente de certos “yuppis” e de certas “empresas”, por uma tecnologia que parece tudo explicar e dominar e por uma visão maniqueísta das relações humanas que pretende conduzir-nos para perigosos desvios militaristas assim como para um choque de civilizações e religiões obsoleto porque retrógrado, sem cabimento e esperança e causador de tanto sofrimento e morte. O terrorismo e o combate que lhe está a ser travado são epifenómenos que decorrem das contradições e efeitos negativos quando o “ter”, irreflectidamente, tem a pretensão e ousadia de se sobrepor ao “ser”. A actual guerra contra o terrorismo está enferma de inutilidade e morte porque manifestamente desadequada e incompleta: só feita de tiros, torturas, prisões arbitrárias e cárceres fora das normas jurídicas, humilhações e mortes não nos levará a parte nenhuma a não ser a mais terror: será uma espiral infernal para todos, mesmo para aqueles, os do “ter”, que pensam ter-se posto ao abrigo nos condomínios fechados ou outras torres de marfim...

 

 

Meus amigos, há poucos anos ouvi no Centro de Convenções de Washington o então presidente da Organização Cooperação e Desenvolvimento da Europa, Sr. Jean Roger Bovin fazer uma análise da situação mundial que me reconfortou ainda mais na minha opção de pretender apenas “ser” e de lutar nesse sentido. Disse então o Sr. Bovin que “a pobreza impede o desenvolvimento social e o progresso”, “que o crescimento económico não conduz obrigatoriamente ao desenvolvimento social”, e que “o desenvolvimento social não é alcançado sem um investimento sério na saúde e na educação”. Afirmou também que “a democracia e a miséria não podem coexistir” e que por isso “é fundamental investir no desenvolvimento social para se almejar ter democracia”. E alertou para o facto da ”Nova Ordem Mundial” sonhada pelo outrora presidente George Bush (pai!) ter falido e se assistir a um aumento acelerado das disparidades! E mais, alertou também que previa para 2020 (amanhã!) que a África iria pôr no mercado de trabalho duas vezes mais jovens do que a Europa, EUA, Japão e Rússia, juntos!, o que provocaria uma corrente migratória Sul – Norte nunca vista... Sábias observações e temíveis previsões... Pois é, eis o resultado que a aposta no “ter” estéril produziu no nosso planeta: um crescimento económico sem desenvolvimento social integrado e global.

 

 

O “ter” é ilusão, é pura aparência, é efemeridade, é indiferença, é intolerância, é enfermidade, é solidão. O “ter” não tem esperança porque se esgota nele próprio, alimenta-se dele próprio exigindo sempre mais “ter”! Que saída para essa quadratura do círculo, para esse não senso que alguns tentam erguer em novo paradigma querendo fazer-nos crer que é a única via para a resolução dos problemas da humanidade? Só há uma: inversão de marcha em direcção ao “ser”. Não é fácil, espera-nos muita frustração (tanto maior quanto menos “ser” houver...) e alguma satisfação sobretudo aquela de sabermos que, no mais íntimo do nosso ser, estamos no caminho certo, na única via para a criação da Paz e da Harmonia entre os seres humanos.

 

 

“Ser” é humanidade, consciência social, livre arbítrio, liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade, cultura, preocupação ambiental, ecumenismo, tolerância, aceitação e preocupação do outro... Este é o meu pensamento, a minha opção, o meu testamento. Não de um rato de sacristia!, mas de um cirurgião que muitas vezes teve vidas entre as mãos, de um operacional que percorreu o Mundo e de um homem que sabe perfeitamente como é a morte e que gostaria de a enfrentar olhos nos olhos com o mínimo de angústia e medo. Só e apenas isso. Tentar “ser”.

 

 

E se tentássemos todos?

 



publicado por Fernando Nobre às 17:52
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Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

 

http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Internacional/Interior.aspx?content_id=1188711



publicado por Fernando Nobre às 10:22
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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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- "Imagens Contra a Indiferença",
Círculo de Leitores / Temas & Debates


- "Histórias que contei aos meus filhos",
Oficina do Livro


- "Mais Histórias que Contei aos Meus Filhos", Oficina do Livro

- "Humanidade - Despertar para a Cidadania Global Solidária", Temas e Debates/Círculo de Leitores

- "Um conto de Natal", Oficina do Livro
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