Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Meus amigos,

 

Após uma longa ausência, devida à escrita de dois livros que serão publicados este ano (um de análise sobre os desafios e esperanças no Mundo e outro de histórias infantis), às múltiplas tarefas na AMI, conferências, aulas e ausências do país, estou de regresso antes de partir de férias, como marido e pai, em deambulações por este lindo Portugal (Beira Baixa e sobretudo Douro e Minho, onde estão, há muitos séculos, as minhas raízes paternas).

 

Mas antes de me ausentar para descansar, olhar, ler e ser marido e pai quase a tempo inteiro, quero deixar aqui algumas reflexões sobre o que vi durante a minha última estadia no Bangladesh, que terminou há dias. Nos últimos dez anos, foi a terceira vez que fui ao Bangladesh, cuja capital Dhaka (floresta) foi fundada por padres portugueses no sec. XVII e onde ainda hoje continuam a morrer habitantes, de uma minoria católica, com apelidos portugueses: Albergaria, Soares, Costa…

 

O Golfo de Bengala, onde desagua o delta do Rio Ganges, foi, inclusivamente, uma área muito frequentada pelas nossas caravelas, na sua epopeia pelo Oceano Índico. Desta vez fui ao Bangladesh acompanhado, pelo meu irmão José Luís, excelente operacional logístico que me acompanha há 15 anos nas missões mais difíceis e, raríssimo, pela minha filha Isabel, antropóloga e fotógrafa, que decidiu seguir-me pelos caminhos do Mundo.

 

O objectivo desta viagem foi o de contactar uma ONG local em Jessore, uns 280Km para sul de Dhaka, para financiarmos projectos que aprovei, nas áreas da saúde e educação, e tomar contacto com a realidade das tragédias repetitivas que ocorrem no delta do Ganges.

 

O Bangladesh, com cerca de 150 000Km2 (1,5 vezes Portugal) tem uma população de cerca de 150 milhões de pessoas (15 vezes Portugal) e autonomizou-se do Paquistão com a ajuda militar da Índia em 1971 deixando então de ser o “Paquistão Oriental” que nada tinha a ver com o “Paquistão Ocidental”, actual Paquistão, a não ser o islamismo.

 

Os bengalis do Bangladesh são o mesmo povo que habita o estado indiano do West Bengal, que tem como capital Calcutá, onde já estive muitas vezes. Com a densidade populacional que tem (é como se Portugal tivesse 100 milhões de habitantes), qualquer tragédia climática, como tem acontecido em crescendo nas últimas duas décadas no delta do Ganges (maioritariamente situado no Bangladesh), afecta centenas de milhares ou milhões de pessoas nesse país. Até há duas ou três décadas havia, em média, um ciclone que fustigava o Golfo de Bengal com efeitos temíveis no delta do Ganges, todos os 7 a 10 anos.

 

Desde 1991 (ano em que um ciclone matou nesse delta mais de 200 000 pessoas) que os ciclones, como os furacões no Golfo do México, mercê das gravíssimas e aceleradas alterações climáticas em curso, fustigam o Golfo de Bengala, 2 a 3 vezes por ano. O último foi em Maio do corrente ano e foi isso que me levou aos dois distritos de delta (Satkhira e Khulna). Foram dias intensos de carro, estradas perigosíssimas com autocarros bailarinos lançados que nem mísseis, de travessias de jangadas, de barcos, de canoas…

 

O delta continua gravemente submerso, afectando profundamente a vida de muitas dezenas de milhares de pessoas que vivem em situações de insalubridade e de precariedade inimagináveis, amontoados em tugúrios, frágeis e instáveis, ao longo dos caminhos-estradas, os pontos mais altos que circundam os campos, hoje imensos lagos ou mares… As latrinas, múltiplas, à beira das águas correm directamente para as mesmas, salobras e extremamente poluídas mas de onde se bebe…

 

Não espanta que 80% das enfermidades tenham a ver com essa água infecta! Essas populações precisam de tudo embora ainda alguns consigam apanhar uns peixitos, que comem, e alguns camarões para venda. Precisam de água potável, comida, assistência médica, abrigos, saneamento básico (latrinas estanques) embora o espaço para tal seja milimétrico… Como sempre os três elos mais fracos dessa cadeia humana, toda flagelada, são as crianças, as mulheres, os idosos… seres humanos como nós!... caso alguém tenha esquecido, ou finja não ver, que eles são seres humanos como nós…

 

Perante tudo o que vi, e após conversas com as autoridades locais das comunidades afectadas em Satkhira, decidi que a AMI vai financiar a construção e apetrecho (equipamento, medicamentos, médico e enfermeiro locais) de um hospital rural com 10 camas, no ponto mais alto possível e com estrutura para resistir a cheias e furacões, e a sanitação (clorificação da água e latrinas). É pouco, mas é o que podemos fazer. Para os pseudo-cientistas, sem ética nem coluna vertebral, que insistem em dizer e escrever que as alterações climáticas são um mito proponho-lhes, se tiverem coragem, uma viagem ao delta do Ganges no Bangladesh.

 

O futuro será bem pior: degelo progressivo também dos Himalaias (origem do Ganges, Rio Amarelo…) e subida do nível das águas dos oceanos… Ainda mais dramático: centenas de milhões de pessoas serão afectadas ou mortas, em regiões e países densamente povoados e financeira e tecnologicamente frágeis, que não podem já construir os diques, como os meus familiares holandeses…

 

Desculpem-me: vou continuar a gritar!

Até breve!

 

PS: Para aqueles que ainda me enviam cartas com impropérios, porque aceitei ser o mandatário nacional do BE ao Parlamento Europeu, dou um conselho: não percam o vosso tempo. Os sectários, donos da verdade e dos julgamentos maniqueístas não mudarão o meu pensamento. É-me grato reconhecer que a maioria assim não é. O Concelho de Gaia, presidido pelo meu amigo e colega Dr. Luís Felipe Menezes, demonstrou a sua tolerância, por unanimidade, ao me concederem a Medalha de Honra e a Cidadania Honorária. Foi a decisão, cidadã, que muito me honrou. Não luto por medalhas. Senão adoptava o discurso politicamente correcto… Abraço!



publicado por Fernando Nobre às 16:24
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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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- "Viagens Contra a Indiferença",
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- "Gritos Contra a Indiferença",
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- "Imagens Contra a Indiferença",
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