Quinta-feira, 19 de Agosto de 2010

No dia Mundial Humanitário, celebrado pela primeira vez em 2009 para homenagear todos os que concretizam a Ajuda Humanitária no mundo e honrar os que perderam a vida ao serviço desta causa, gostava de partilhar o que me inspirou a dedicar cerca de 30 anos da minha vida ao trabalho humanitário.

 

O desejo de ser médico acompanhou-me desde sempre, mas a vontade de exercer uma medicina diferente, em grandes espaços e a favor de quem tinha parcos recursos chegou um pouco mais tarde.

 

Das múltiplas histórias e recordações que semeiam a minha vida pelos quatro continentes, há uma que vos quero contar, porque ao vivê-la pensei muitas vezes naquele que considero ter sido o meu mentor, embora só mais tarde tivesse visitado a sua obra no Gabão e conhecido então uma enfermeira de 87 anos que tinha trabalhado com ele. Estou a falar de Albert Schweitzer. Para quem não leu, aconselho vivamente a leitura de "É meia-noite Doutor Schweitzer", hoje ainda um dos meus livros de cabeceira.

 

Lugadjole, no fundo da Guiné-Bissau, quase na fronteira com a Guiné-Conakry, terra de fulas, de homens-grandes, de picadas e de macacos-cão. É preciso amá-la para a alcançar: 4 a 5 horas de picada a valer para se percorrer os 48 quilómetros que a separam da travessia, em jangada, do rio Corubal no Tché-Tché. Uma vez o rio atravessado, com que dificuldades, discussões, gritos e buzinadelas às vezes, estávamos no sector do Boé. Pensava então viver um pouco do que terão vivido o Stanley, Livingston, Brazza, Serpa Pinto ou o meu bisavô De La Vieter chegado às costas de Cabinda em 1885.

 

Foi nesse meu Lugadjole que um dia me chegou um homem com uma hérnia inguinal direita estrangulada já com sinais de peritonite. Era noite, umas 19h30, chovia e não havia hipótese nenhuma de evacuação. E se houvesse, para onde? Os hospitais de Bissau, Gabu ou Bafatá eram uma lástima.

 

Decidi operá-lo e assim foi. Auxiliado por uma jovem colega de clínica geral, esterilizei umas compressas numa panela de pressão numa fogueira, assim como uns poucos instrumentos e duas colheres dobradas para me servirem de afastadores de Farabeuf, fiz uma raquianestesia e operei o homem à luz de uma lanterna de bolso, com as malditas formigas voadoras, térmitas na época de acasalamento, e uma chuvada forte a lembrar-nos que estávamos nos trópicos. Quando acabámos, cansados e felizes, sabíamos que aquela vida estava salva. África nunca me pareceu tão misteriosa e a minha profissão de médico tão bela: aí voltei a pensar em Albert Schweitzer. Como ele tinha tido momentos de frustração e satisfação, também eu os tinha, mas estou certo que vivia feliz porque vivia intensamente e com a certeza de fazer a diferença.

 

 

 



publicado por Fernando Nobre às 09:30
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Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010

Cada vez que entro numa sala repleta de jovens, sinto-me inspirado e esperançoso, porque acredito na força, na generosidade, na coragem, na solidariedade e na capacidade de sonhar da nossa juventude.

 

É por isso que, neste dia que lhes foi atribuído pela ONU, que marca também o início do Ano Internacional da Juventude, dedicado ao diálogo e à compreensão mútua, quero deixar algumas palavras aos nossos jovens, não de paternalismo, mas de incentivo, alerta e partilha de ideias.

 

Tenho apenas uma pretensão: a de ser um espírito livre. Acredito que a consciência humana é o que há de mais belo porque, quando impoluta, é inquebrantável, indomável e não se vende.

 

Acredito e isto é algo que venho preconizando há muitos anos, que a Intolerância e a Indiferença são as duas piores doenças da Humanidade. Para mim, efectivamente, são essas as doenças que mais ódios, guerras, genocídios, fome e sofrimento causaram, ou permitiram a sua existência, desde sempre, no Mundo. Essa é pelo menos a convicção que tenho e a leitura que faço quando reflicto sobre as causas dos inúmeros conflitos que já presenciei.

 

Ser contra a Intolerância é simplesmente ser pela aceitação do OUTRO, com as suas diferenças, é simplesmente “não fazermos ao outro o que não gostaríamos que nos fizessem a nós”. É não humilharmos o outro, com a nossa prepotência, arrogância e superioridade mas estendermos-lhe uma mão amiga, aberta, para tentarmos caminhar juntos!

 

Ser contra a Indiferença é preocuparmo-nos com o OUTRO, não olhá-lo como se fosse transparente! É abrirmos os olhos e os ouvidos ao sofrimento alheio, aos gemidos e gritos de dor do nosso semelhante, mesmo se está nos longínquos Afeganistão, Palestina, Israel, Ruanda, Congo ou Iraque.

 

Sou, por isso, pela Liberdade, pela Paz e pela Solidariedade, que não são mais do que ousar ir, se necessário, a contra corrente de políticas desumanas, ser humanamente correcto, mesmo se para tal for preciso ser politicamente incorrecto, pugnar pelos valores fundamentais e universais, ou seja, querer um Mundo com dignidade, justiça e progresso para todos!

 

Entendo que há momentos em que todo o ser humano tem o dever indeclinável de dar um grito de protesto, por imperativo de consciência. É o que tenho feito e espero poder continuar a fazer, enquanto tiver força e oportunidade, contra as injustiças, venham elas de onde vierem.

 

Peço-vos, por isso, para reagirem. À escala individual, sejamos solidários. Não à indiferença, não à intolerância. Tenhamos a coragem de fazer a diferença e lutar juntos.

 

Estou ciente de que o Mundo perfeito nos é inacessível, mas creio que é possível sonharmos e pugnarmos por um Mundo melhor e mais justo onde a ética e as questões sociais, ambientais e culturais estejam no vértice das preocupações e intenções humanas.

 

Para que este outro Mundo seja possível - um Mundo multirracial, multireligioso e multicultural -, é essencial criarem-se pontes e interdependências, tendo como suportes básicos a tolerância, a liberdade, a solidariedade e o ecumenismo.

 

Sim, sonho e quero esse Mundo mais justo, mais ético, mais solidário, mais digno e mais honroso para todos. Em nome do Ser Humano, em nome de todos nós. É absolutamente necessário.

 

Não é fácil e, nem sempre agradável, essa luta, e a conquista desse novo mundo surge, na maior parte das vezes, como uma utopia, mas uma conquista só merece ser chamada como tal, quando se ultrapassaram obstáculos para a obter. E o segredo, se é que existe, queridos Amigos, é nunca desistir, qualquer que seja a adversidade.

 



publicado por Fernando Nobre às 09:19
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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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LIVROS QUE PUBLIQUEI

- "Viagens Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Gritos Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Imagens Contra a Indiferença",
Círculo de Leitores / Temas & Debates


- "Histórias que contei aos meus filhos",
Oficina do Livro


- "Mais Histórias que Contei aos Meus Filhos", Oficina do Livro

- "Humanidade - Despertar para a Cidadania Global Solidária", Temas e Debates/Círculo de Leitores

- "Um conto de Natal", Oficina do Livro
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