Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

 

Chegado aos meus 60 anos, interventor e observador global há mais de três décadas, é com tristeza que constato que chegámos a um fim de ciclo. Se a Humanidade não reagir, como um todo que é - com coerência, ética e preocupação social - perante a crise que vivemos (e que deve ser entendida talvez como uma derradeira oportunidade), mergulhará num precipício e as guerras regressarão também ao continente europeu, mercê de um colapso ético, social, politico, económico e financeiro já evidentes.

 

Vivemos actualmente a quarta grande crise/oportunidade global dos últimos 22 anos. Se todas elas, e já desperdiçámos as três últimas, tivessem sido devidamente interpretadas e conducentes a um novo paradigma humano, individual e colectivo, com a correcta hierarquização das prioridades e valores, não teríamos chegado ao ponto de desnorte e aparente, porque desejada por alguns, impotência a que chegámos.

 

 A primeira grande crise/oportunidade recente deu-se em 1989 com a Queda do Muro de Berlim e o subsequente desmoronar do império soviético. Nesse ano deu-se também o massacre na Praça Tiananmen, em Pequim, na China. Os povos mostraram então que estavam sedentos de liberdade, entendimento e fraternidade humanos. Os decisores globais assim não entenderam.

 

Um novo mundo esteve então ao nosso alcance: poderia ter passado a ser mais ético, mais fraterno, com menos exclusão, melhor ambiente, menos alterações climáticas. O ocidente, e nós europeus também, em vez de estendermos uma união e uma mão fraterna aos povos russo e chinês, só reagimos em termos de xadrez geopolítico no sentido do poder e da hegemonia: quisemos esmagar a Rússia, esfomeando-a e humilhando-a e fizemos ouvidos de mercador aos gritos de Tiananmen. O mercado falou mais alto. Permitimos o fracasso da Cimeira do Rio em 1992, o genocídio no Ruanda em 1994 e a miséria no Congo, Somália…

 

A segunda grande crise/oportunidade global dos últimos 22 anos aconteceu dia 11-09-2001 em Nova Iorque (que presenciei ao vivo). A tragédia do 11-09-2001 (toda a gente já esqueceu o 11-09-1973 entre o médico Allende e o carniceiro Pinochet!) foi a manifestação brutal do ódio e da rejeição totais e de uma nova forma de terrorismo.

 

Sem pensar nas causas, o que nos deveria ter impelido a secar o pântano das misérias e das humilhações diárias que matam milhões de seres humanos, liderados por Bush, Rumsfeld, Cheney, Wolfowitz, Perle, Blair, Berlusconi e …. Barroso, fixámo-nos todos apenas no castigo, no petróleo e num terror sem fim. Esquecemos o verdadeiro desenvolvimento e aprofundámos o desentendimento. Deu-se o caos no Afeganistão* e no Iraque*…  e não ajudámos a resolver a situação entre Israel* e a Palestina*, a bem dos dois povos, dos dois Estados e do mundo. Há 10 anos que o impasse persiste e a situação parece fora de controlo.

 

A terceira crise/oportunidade perdida eclodiu em 2008 com a falência do Lehman Brother que pôs a nu os subprime e o sistema financeiro tipo casino. Num efémero despertar das consciências, ou talvez numa peça de teatro bem encenada, orquestrada e repleta de cinismo e hipocrisia, os decisores globais falaram de uma mais eficiente regulação e fiscalização, do controlo dos bónus obscenos e dos off-shores

 

Tudo palavras que o vento levou. Ficaram, segundo o Banco Mundial, mais duzentos milhões de pobres e uma profunda revolta e humilhação dos povos!

 

Sempre em crescendo e complementando-se, 1989, 2001, 2008, eis-nos em 2011-12, o fim de ciclo, a quarta crise/oportunidade. Talvez a derradeira crise que, se não for vista como derradeira oportunidade, nos poderá levar ao precipício, à falência do sistema, à implosão social e a novas guerras no prazo de uma década.

 

Já o disse e escrevi há vários anos, mercê de décadas de observação directa da questão humanitária, social e política no mundo: temos, não há quanto a mim volta a dar, de conseguir uma mudança de paradigma individual e colectivo que permita três coisas:

  1. Sobrepor a ética e os valores altruístas e humanos às questões sociais, questões sociais essas que devem sobrepor-se às questões políticas, as quais, por sua vez, se devem sobrepor às económicas que, por fim, se sobreporão às questões financeiras. Ou seja, uma ordem de valores diametralmente oposta à que vigora na sociedade actual.
  2. O estado e o mercado devem estar ao serviço do bem-estar e da felicidade dos cidadãos e não, como acontece hoje em dia, o estado e os cidadãos ao serviço do mercado, com a subsequente e permanente socialização dos prejuízos e privatização dos lucros! Tal não é aceitável nem sensato. Para isso precisamos de cidadãos activos, políticos e empresários esclarecidos, conscientes e determinados.
  3. Sinergias francas e totais de todos os centros de investigação do mundo a fim de conseguirmos os melhores resultados no espaço, no mar, na saúde, no ambiente, na alimentação……

 

Se tal não acontecer rapidamente o sistema financeiro desregulado nos conduzirá aos limites da desumanidade. Assim já o afirmava o Presidente Jefferson, por outras palavras, há mais de duzentos anos.

Se assim não for, e rapidamente, já não será possível sobrepor o optimismo da vontade ao pessimismo da razão!

Que cada um faça a sua opção. Eu tenho feito a minha e por isso travei todos os meus combates, sempre, em nome de uma Cidadania exigente e sempre ao serviço das pessoas e da Humanidade.

 

(Escrito em Dakar a 20 de Setembro de 2011)

   

*Poderia referir muitas outras situações. Essas vivi-as eu e muito me ensinaram.

 



publicado por Fernando Nobre às 19:56
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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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