Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

É um lugar-comum dizer-se que a “Água é vida” mas não deixa de ser cientificamente exato quando se sabe que o ser humano é cerca de 70% água e que ela é essencial na constituição de todo o organismos vivo, animal ou vegetal, que integra a nossa biosfera.

 

Por outro lado é essencial entendermos todos que o conjunto do mundo hídrico - a hidrosfera - rios, oceanos, glaciares, lençóis freáticos, humidade, em conjunto com a atmosfera e a biosfera constituem um bem comum, partilhado e partilhável por todos nós, um verdadeiro Condomínio da Terra. Ora a preservação, para o futuro da nossa espécie e a sustentabilidade da sobrevivência da civilização humana no planeta Terra a médio prazo (100 a 300 anos), é vital.

 

Há pois que procurar ter bom senso na sua preservação e ser equitativo na gestão e distribuição desse bem coletivo, precioso e insubstituível que é a Água. Para já não é o caso e as disparidades são brutais. Senão vejamos: em média, um norte-americano gasta por dia (para beber, cozinhar, higiene pessoal, lavagem de roupa e loiça, jardinagem, lavagem do carro, agricultura industrial, agropecuária…) cerca de 400 litros de água, um europeu 200 a 300 litros, um cidadão de um país menos avançado 30 a 50 litros e uma pessoa num campo de refugiados, cerca de 15 a 25 litros, já para não falar de certos seres humanos em situações de extrema privação que se contentam com 2 a 5 litros, ou até menos…Claro, não?

 

Por outro lado, evidentemente, a água consumida não tem toda a mesma qualidade o que, quando contaminada, como acontece frequentemente, provoca inúmeras doenças nos países onde a AMI atua com frequência. E de várias formas: por ingestão (cólera, febre tifoide ou paratifoide, disenteria, diarreias infeciosas….) ou por contacto, já que é o habitat de vetores (mosquitos, moscas…) que provocam outras patologias tais como a malária, dengue, oncocercose (cegueira dos rios), febre amarela, doença do sono, etc..

 

É pois fundamental que, no conceito de pegada ecológica (hoje em dia entendida sobretudo como “energética”), se integre a importantíssima pegada hídrica e que se pugne pela sua sustentabilidade. Também é imprescindível que a água potável seja exclusivamente reservada à alimentação, usando-se para o resto do consumo hídrico água reciclada, valorizando na construção de habitações, a captação das águas pluviais canalizadas para cisternas e represas de água…

 

A não resolução atempada, isto é imediata, deste premente desafio provocará grandes guerras no século XXI. Aliás, já provocou: a chacina de Darfur também tem obviamente a ver com a questão do controlo da escassa água de superfície para satisfação geral da pastorícia e da agricultura…

 

O controlo das nascentes dos rios e suas bacias hidrográficas, dos lençóis freáticos e rios subterrâneos rapidamente se tornará na questão central de conflitos violentos. Em caso de penúria grave deste bem tão precioso, a Água, esses conflitos nem sempre, ou raramente, serão dirimidos pelo Direito Internacional. Será o direito da força a ditar as regras da sobrevivência.

 

Basta pensarmos que no Sahel as mulheres andam em média 10 a 15 Km para se abastecerem de água num poço, enquanto nós, em nossas casas, felizmente basta-nos abrir, uma torneira para tomarmos consciência do luxo incrível que está reservado à minoria de que fazemos parte.

 

E é por isso que a AMI, na sua ação, e em termos práticos, dá enorme importância a esta temática específica, seja financiando a construção de poços de água herméticos (para evitar a contaminação das águas) na Índia, Guiné, Senegal, Bangladesh, seja nas suas intervenções de emergência, pondo sempre a tónica na purificação da água, como aconteceu nas Honduras, ou vendo-se  impelida a atuar no combate à epidemia da cólera como o fez na Guiné-Bissau o ano passado.

 

“Uma gota de água para vós, um oceano para nós” como ainda há uns anos me disse um chefe de aldeia no Senegal quando inauguramos um poço construído com o financiamento da AMI. Nessa medida continuaremos a atuar, sempre, em nome da equidade, do desenvolvimento e da Paz.

 

 

 

 


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publicado por Fernando Nobre às 11:04
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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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