Terça-feira, 30 de Março de 2010

Queridos amigos,

 

o tempo não me permite mais, mas o apreço exige que vos dirija algumas palavras, ainda que de forma menos frequente, por isso, deixo-vos algumas considerações sobre o desarmamento nuclear, uns dias depois do anúncio do acordo entre os EUA e a Rússia.

 

 

Falar do desarmamento e da absoluta necessidade em se conseguir a sua implementação global é fácil e, simultaneamente, uma quase impossibilidade, se o nosso objectivo real consistir em ir mais além do sonho ou da utopia quase inacessíveis mas porém possíveis.

 

É fácil, para mim, falar e escrever sobre a imperiosa necessidade do desarmamento global porque há quase três décadas que me vejo permanentemente confrontado com as desastrosas e trágicas consequências da proliferação do armamento pelos quatro cantos do Mundo.

 

Essas trágicas consequências são nomeadamente as centenas de milhares de vítimas, ou mesmo vários milhões, que entre mortos e estropiados violentam as nossas consciências ano após ano, e o crónico subdesenvolvimento em que vivem largas dezenas de países que investem, porque estimulados e obrigados a tal, montantes colossais na compra de armamento sofisticado, desnecessário, inútil e incentivador de conflitos, ditaduras e repressões ao invés de investirem na educação, saúde, agricultura, infra-estruturas e na modernização tecnológica e governativa...

 

A corrida insensata a que se assiste em muitos países, ditos em vias de desenvolvimento, pela aquisição de armamento, que serve na maioria dos casos para amedrontar e submeter os seus próprios povos, é sempre sinónimo de péssima governação e farta corrupção.

 

Sem armas, nomeadamente as ligeiras, não haveria as carnificinas a que assistimos diariamente. É bom relembrar que todos os anos cerca de 500 000 pessoas são mortas por bala e que milhões de minas anti-pessoais e outros artefactos explosivos esperam pelo pé ou pela mão imprudente e ingénua de uma criança para a mutilar horrivelmente ou matar (anualmente, mais de 80% das vítimas  das minas são  civis, segundo a campanha Internacional para a Proibição das Minas Terrestres), quando se sabe que o custo de uma dessas minas é de apenas 3 USD, daí serem consideradas armas pobres, mas que o custo para as localizar e destruir pode atingir 1000 USD e que muitas vezes as empresas de desminagem estão ligadas às empresas produtoras...

 

Afirmo, por isso, sem qualquer dúvida, que a produção e a comercialização de armas no Mundo (explosivas, químicas, atómicas, bacteriológicas e balísticas) é um dos grandes desafios que a Humanidade enfrenta e é o maior obstáculo à Paz, ao Desenvolvimento e à sobrevivência da espécie humana que parece desde já caminhar para o holocausto nuclear.

 

As guerras convencionais e os conflitos atípicos, cada vez mais frequentes, que se focalizam essencialmente nos países mais problemáticos, tanto etnicamente como social e economicamente, só se fazem porque nunca há penúria de armas, bem pelo contrário. E aí está o busílis da questão e porque, como afirmo no início, é fácil falar, mas “simultaneamente uma quase impossibilidade se o nosso objectivo real for ir mais além do sonho e da utopia quase inacessíveis mas porém possíveis”!

 

Que eu saiba, as guerras e os conflitos não se fazem à pedrada e à flechada! E mesmo quando o drama como o genocídio ruandês em 1994 se deveu em parte ao fornecimento abusivo e descontrolado de muitas dezenas de milhares de catanas por parte de um dos membros permanentes do Conselho de Segurança, tal só se pôde concretizar perante a impotência, a indiferença e o imobilismo dos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas como tão bem explica o Tenente General Romeo Dalaire, na altura Comandante Chefe das forças da ONU no Ruanda, no seu impressionante livro “Shake the Hand to the Devil”.

 

Este imoral comércio, que coloco no mesmo abominável patamar dos infamantes comércios da droga e da prostituição, em particular a infantil, está intrinsecamente associado aos conflitos étnicos e pseudo-religiosos que são sempre guerras pelo poder e só não acaba já porque os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas são os maiores produtores e os maiores vendedores de armas do Mundo, como já foi citado num recente relatório anual do PNUD.

 

A esse respeito nunca será demais salientar e relembrar que o primeiro dever do Conselho de Segurança das Nações Unidas é zelar pela Paz no Mundo e que o desarmamento é vital para concretizar a proibição de violência segundo o artigo 2 (4) da Carta das Nações Unidas.

 

Estamos pois, é evidente, perante um problema digno da quadratura do círculo: impossibilidade de se conseguir o tão almejado desarmamento a menos que haja verdadeira vontade política para se pôr termo a tão tamanha estupidez e insano paradoxo. Quanto a mim, tal só se concretizará se o novo e ascendente conceito de Cidadania Global se afirmar e globalizar dando nascimento a um novo paradigma humano.

 

Só esse novo paradigma humano fará com que a Convenção Anti-minas, o Tribunal Penal Internacional, o Protocolo de Quioto e tantas outras convenções mundiais (Crianças, mulheres, Racismo...) sejam ratificadas e respeitadas por todos. Só se a Sociedade Civil Mundial exercer uma pressão consistente e constante, se concretizará “Um outro Mundo possível” e se conseguirá atingir o que é tão vital, a saber: o fim da produção e comércio das minas e das armas ligeiras assim como um Tratado eficaz de não proliferação do armamento pesado de todo o tipo assim como a sua redução e até extinção.

 

Só assim ficará controlado esse lucrativo e mortífero negócio, muito associado aos circuitos da corrupção e desgovernação que desestabiliza inúmeros países pelos conflitos que facilita e provoca, empobrecendo os já parcos recursos financeiros de alguns estados e que ameaça desestabilizar o Mundo inteiro, se já não o fez!

 

Estrangulados pelos seus governos fortemente armados, corruptos e corruptíveis não resta a esses povos senão o subdesenvolvimento crónico, o medo da guerra e da repressão, a miséria, a falta de esperança e a massiva imigração que já apavora a Europa.

 

É por isso que considero o recente acordo entre os EUA e a Rússia para a redução das armas estratégicas nucleares, o renascer da esperança…

Ainda que o acordo venha a revelar-se um passo demasiado pequeno para a ambição de reduzir o armamento nuclear, será já, certamente, um passo de gigante no sentido da dignidade e do futuro possível da Humanidade.



publicado por Fernando Nobre às 09:31
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10 comentários:
De Pedro Maximino a 21 de Abril de 2010 às 14:14
“A partida dos novos faraós”

Os novos faraós, tais como os de então são os régios e divinos administradores máximos desta nossa pobre existência, só a eles está reservado o direito de manter na ignorância e pagos por parcos soldos legiões inteiras de cidadãos, são os escravos da actualidade pagos pelos salários mínimos do nosso descontentamento, enquanto eles acumulam riqueza e benesses inerentes ao seu estatuto de poderio absoluto.

Os novos faraós, já não mandam construir pirâmides mas compram ilhas e grandes propriedades em paraísos isolados, onde mandam erigir mansões com três pisos acima do solo e cinco abaixo, tal como as de então servem para resguardar a sua integridade em caso de extrema necessidade e para guardar os objectos de culto da actualidade.

Os novos faraós, já não mandam sacrificar uma virgem no Nilo, mas advogam-se no direito de sacrificar países e continentes para satisfazer a sua exacerbada ganância, possuem dezenas de funcionários de luxo bem colocados nas hierarquias dos governos e instituições financeiras de que são “donos”, para bem poderem controlar os fluxos financeiros e os grandes negócios desenhados a pedido.

Os novos faraós são poucos mas bons, pelo menos a julgar pelo estado a que isto chegou, para eles tudo certamente não passa de um jogo de vaidades em que o nosso mundo é um tabuleiro de xadrez onde movimentam as peças que finalmente os levarão à glória de partir numa barca de oiro, carregada de tesouros, na viagem para o outro lado e que ajudarão a franquear as portas de éden, só é pena que a esperança média de vida destes faraós não seja a mesma que a dos faraós de outrora pois assim poderíamos vê-los partir bem mais cedo.


De Pedro Maximino a 20 de Abril de 2010 às 16:23
“A nuvem do sul”

A nuvem do norte anda a dar cabo daquilo que ainda resta da já débil economia desta nossa Europa, acontece que esta é proveniente da erupção do vulcão Eyjafjallajokull, situado na Islândia, país recentemente falido e cujos parceiros, amigos da onça, se recusaram a ajudar, pois bem agora aí temos nós a resposta dos islândeses.

Acontece também que andam agora por aí uns economistas, agências de rating e um sem número de outros especuladores a tentar chatear-nos, dizendo eles que a seguir aos gregos seremos nós e os espanhóis os próximos a afundar-nos no meio desta barafunda em que as economias da zona euro estão mergulhadas.

Os gregos já conseguiram ver aprovada uma boa maquia para os ajudar a sair desta trapalhada, com o generoso contributo dos parceiros europeus incluindo o nosso, pois as consequências do exemplo islândes impressionaram os demais e segundo consta à boca pequena os gregos terão mesmo ameaçado com os deuses do Olimpo caso não vissem satisfeitas as suas pretensões.

Quanto a nuestros hermanos nunca foram de meias tintas e quando toca a defender a sua dama saem a terreiro com todas as suas armas, consta que o Rei já telefonou ao nosso primeiro a propor uma estratégia ibérica, estando na disposição de incluir nela o valente touro osborne, ícone da valentia espanhola e que não consta tenha sido alguma vez derrotado, é um argumento de peso que estava guardado para uma ocasião especial e impressionará sem dúvida os parceiros.

Já o nosso primeiro terá dito ao Rei que iria pensar na proposta, mas os economistas chefes e os demais que se cuidassem pois nós temos o vulcão dos Capelinhos e não tarda nada se não parassem de nos chatear ainda se veriam a braços com mais uma nuvem de poeiras vulcânicas, desta feita vinda de sul.


De Pedro Maximino a 19 de Abril de 2010 às 15:58
“A Praga”

A Praga foram e com Praga no coração voltaram, mas essa até nem é a principal questão, aquilo que nos deve alegrar a todos é que de Praga trouxeram a ideia do século, aquela que pode voltar a colocar o nosso país de novo nas bocas do mundo e o facto de tudo ter resultado de um simples acaso, mas é quase sempre assim com as ideias geniais.

Depois do ex-economista chefe do FMI ter dito “vai chegar a altura em que os mercados financeiros se vão recusar pura e simplesmente a financiar este esquema”, referindo-se ao nosso país e quando tudo parecia perdido eis que o presidente da República Checa diz estar “muito surpreendido por Portugal não estar nervoso por ter uma previsão de défice de 8 por cento” e daqui nasce a ideia genial.

Até porque a princípio a nossa comitiva não percebeu bem a perplexidade do presidente checo e de facto ninguém ali nem no país estava nervoso, eu até tenho um primo que quando não tem dívidas até nem dorme bem e para voltar a ter noites descansadas trata logo de se endividar e connosco provavelmente à custa de muita dificuldade e endividamento passa-se o mesmo e já teremos certamente criado anticorpos para lidar com estas situações.

Bom mas passando adiante, o que nasceu logo ali nas cabeças dos nossos responsáveis ? o óbvio claro, criar um instituto de altos estudos governamentais, dedicado apenas a estadistas estrangeiros, com cursos de curta duração mas onde poderão comprovar, com base na nossa longa experiência como não sentir nervosismo e ultrapassar estas situações de crise de forma optimista.

Consta já por aí o sucesso desta iniciativa que irá recentrar-nos no papel de país que mostra novos mundos a este mundo perplexo e nervoso, isto a julgar pelo número de inscrições já registadas no primeiro curso que decorrerá na época estival, também conhecida por “sealy season” que é precisamente quanto esta gente tem mais disponibilidade, já me constou inclusivamente que o ex-economista chefe virá fazer uma pós-graduação, o presidente checo será o aluno número um, isto por sem querer ter dado o mote à ideia e surpresa das surpresas o meu primo terá sido convidado para leccionar uma das cadeiras.


De Sofia Janeiro a 14 de Abril de 2010 às 20:09
Boa tarde,
Li o seu livro "Humanidade - Despertar para a Cidadania Global e Solidária" e gostaria de lhe dar os parabéns pela forma clara e sistematizada com que nos deu a sua perspectiva do estado do mundo. Agradeço este livro que considero bastante inspirador e desafiante.
Apenas permita-me que discorde consigo quando identifica as alterações climáticas como "a" calamidade ambiental que devemos combater. Veio provar-se que estudos e cientistas que mostraram a existência de alterações no clima e evidenciaram uma relação de causa-consequência entre a acção do Homem e estas, foram manipulados. O clima está diferente, sim, mas estas alterações são provavelmente naturais, sempre existiram e existirão ao longo da história do Planeta. Não temos o quadro todo para poder avaliar atém que ponto é que as alterações sentidas são ou não significativas. Refiro que não está provado a relação directa entre a acção do Homem e as alterações climáticas.
Que os recursos naturais estão ameaçados e com eles a sobrevivência de milhões de pessoas, sem dúvida. Mas a seca, a esterilidade dos solos e a diminuição da biodiversidade, são consequência de um conjunto de factores, na sua maioria de origem antropogénica . E são estes que deveriam estar no centro das atenções.
Isto não significa que as alterações climáticas não têm impactos, sim têm. O aumento da temperatura traz consigo o degelo das calotes polares com a consequente subida do nível da água do mar, o surgimento de doenças inesperadas, entre outras. Mas é importante ter em atenção que, em primeiro, não se sabe se as subidas da temperatura das últimos décadas são para ficar ou se são uma variação normal à escala dos períodos geológicos e, por outro, que a ser natural pouco podemos fazer a não ser precavermo-nos e minorar ao mínimo o que da nossa actividade poderá ter algum impacto. E sendo assim deixa um pouco de fazer sentido os discursos de alarmismo e atribuição de culpas a governos, à comunidade internacional e ao poder económico relativamente a este assunto. O que não quer dizer que a substituição dos combustíveis fosseis e o uso eficiente da energia não sejam óptimas ideias, tanto pela poluição que provocam como porque irão acabar. Todas as medidas que se tomem para um ambiente mais limpo e para a preservação dos recursos e ecossistemas naturais são muito bemvindas , aliás muito necessárias, muito urgentes. Mas não porque isso irá afectar o curso das alterações climáticas.

Por último: (espero que tenha lido o meu texto até aqui, obrigado) estou a desenvolver um pequeno projecto para jovens e crianças desfavorecidas na cidade de Tavira. É um projecto para a igualdade de oportunidades no qual desenvolveremos actividades de educação ambiental, desporto, danças, artes, teatro, entre outros, querendo com isto motivar estas crianças e jovens a desenvolver interesses e a descobrir os seus talentos e gostos, tanto numa perspectiva de ocupação de tempos livres como profissional. Estas acções serão financiadas pela APJ (Agência Portuguesa para a Juventude). Com o objectivo de continuar findo o projecto, estamos a criar uma bolsa de actividades a que possam ser financiadas por pessoas ou empresas e ainda apelar ao voluntariado e envolvimento das pessoas, solicitando que se disponibilizem para partilhar os seus conhecimentos, dotes ou artes com estes jovens, numa sessão que poderá ser um atelier de musica, de pintura, uma visita guiada sobre arqueologia , uma aula de ioga, etc. etc.
Quem organiza é um grupo informal de pessoas com vontade de intervir e que quer fazer algo para uma sociedade mais justa e ambientalmente responsável.
Neste contexto gostaria de lhe perguntar se haverá alguma possibilidade de nos honrar com dois pequenos textos para incluir no site e no folheto divulgativo do projecto. O primeiro seria dirigido à sociedade de uma forma em geral e o segundo dirigido aos jovens que são o público-alvo do projecto.
Agradeço a atenção dispensada!
Os melhores cumprimentos,
Sofia Janeiro
sofiajaneiro@gmail.com


De Fernando Nobre a 3 de Maio de 2010 às 16:13
Cara Amiga,

Obrigado pelas suas amáveis palavras.
Relativamente à sua exposição sobre as alterações climáticas, devo dizer-lhe que também estou a par dessa teoria, mas a mesma não invalida as orientações gerais apontadas sobre a temática, pois contra factos não há argumentos e a verdade é que o aquecimento global, uma realidade incontornável, conduz a estados climatéricos extremos, provocando secas e cheias. Para que tenha uma breve ideia, 2009 foi palco de 245 catástrofes naturais, que afectaram 58 milhões de pessoas e prevê-se que venham a afectar 375 milhões de pessoas por ano, até 2015.
No que diz respeito ao convite que me dirige, agradeço reconhecidamente, mas, infelizmente, não poderei aceitá-lo nos moldes em que sugere, pois, neste momento, estou a gerir 2 agendas dificílimas, uma, enquanto Presidente da AMI, e outra, enquanto candidato à Presidência da República, durmo apenas 3h por noite e a grande dificuldade com que me deparo é a escassez de tempo.
Permita-me, por isso, que proponha que retire as citações que considerar mais adequadas, do meu livro “Humanidade - Despertar para a Cidadania Global Solidária”, pedindo-lhe, apenas, que indique a fonte.
Obrigado.
Abraço amigo,


De Pedro Maximino a 14 de Abril de 2010 às 00:28
“Base de sustentação”

Nos meus tempos de escola não havia bullying, andávamos à porrada e chamávamos nomes feios uns aos outros, mas isso que importa, são sinais dos tempos e a propósito aprendíamos que a pirâmide é todo o poliedro formado por uma face inferior e um vértice que une todas as faces laterais, essa face inferior era também designada por base.

Essa base seria como a sustentação de toda a pirâmide, isso na altura, mas hoje já se sabe existe também a pirâmide invertida, sinais dos tempos, talvez para designar uma pirâmide com opções sexuais dentro do vasto leque de possibilidades que os tempos modernos aportaram à nossa civilização, coisa que na altura também não se falava.

E já agora que a conversa descambou para onde descamba sempre, para o sexo, que tal abordarmos a temática da obscenidade dos prémios dos gestores, eles representam também a inversão da pirâmide onde o que conta mesmo é o seu vértice ou gestor, ou ainda como mais modernamente resolveu designar-se CEO.

Este, o CEO é a cereja no topo do bolo do sistema económico vigente e o que importa a cada organização é poder exibir-se como a que melhor o remunera, sinais dos tempos, onde impera a vaidade organizacional e onde fica bem apresentar-se aos seus pares como uma organização com um CEO coberto de milhões e porventura também trará dividendos da mais variada ordem, que esta malta não dorme.

Já agora no meu tempo também brincávamos ao espeta, ao arco, ao lá vai alho, ao pião e a muitas outras coisas que entretanto se foram perdendo ou perderam valor num mundo novo onde impera a boa da estética e a ética que se lixe, é o salve-se quem puder, daí que importe mesmo é ter uma pirâmide com o vértice bem engraxado e polido que da base de sustentação não reza a história.


De Pedro Maximino a 12 de Abril de 2010 às 14:00
“Obra do acaso”

Era homem forte e pujante como quase todos os mestre da faina, possuía com outros dois sócios o galeão “Fortuna de Albufeira”, quis o destino que nessa noite o mar fosse assolado por uma tempestade medonha e o Fortuna fosse engolido, dos três só ele se salvou, mas o sustento da família ficou comprometido e assim teve que rumar com a mulher e filha a paragens mineiras da hulha, no sítio de Jungens, a tristeza era muita, principalmente para a filha que habituada a uma vida de orla marítima e cosmopolita para a época se via agora remetida a um sítio perdido no interior do Alentejo, mas depressa descobriu vocação e forma de ultrapassar a solidão pois sendo possuidora de instrução acima da média na altura, cedo se dedicou ao ensino por aquelas paragens.

Não muito longe ao Condado de Palma, chegava mais um ratinho, vindo de Viseu, aos treze anos para trabalhar naquelas paragens, a sua família de onze filhos outro destino não pôde dar-lhe e ele bem sabia o significado de treze pessoas à mesa dar azar, mas bem cedo comprou a sua primeira bicicleta e possuidor de uma vontade férrea, aos fins de semana lá rumava à capital para tirar o seu curso na Academia Maguidal, tendo conseguido formar-se com distinção em 1946, quis o destino que fosse depois exercer a sua profissão de alfaiate na aldeia de S.Cristovão, paredes meias com a mina de Jungens, conheceu a professora algarvia lá do sítio, casaram e tiveram duas filhas e um filho, tendo acabado depois por exercer durante largos anos a sua profissão na vila de Grândola, que a mina e S.Cristovão eram locais menos afreguesados.

Lá mais para o norte numa aldeia perto da fronteira com Espanha não muito distante de Vilar Formoso vivia um casal, ele comerciante e ela professora primária com a prole de cinco filhos e não pensavam em estendê-la, mas acontece que num triste dia lá na aldeia um dos filhos que ia a conduzir um carro, carro puxado por mulas à época, fosse esmagado pelo mesmo quando as ditas se espantaram tendo padecido e quis o destino que um outro filho então fosse concebido, não para substituir o falecido, mas seguramente para amenizar a dor da perda, esse filho mais novo estudou na Guarda, no magistério primário, tornou-se professor da instrução primária e viria a ser colocado a leccionar na vila alentejana de Grândola, onde conheceu uma das filhas do alfaiate, por sinal também estudante no magistério primário de Beja, com a qual casou, desta união nasceram dois filhos, um dos quais eu, obra de tanto acaso, mas que agora não tenho outro remédio senão aturar-me.


De Pedro Maximino a 6 de Abril de 2010 às 23:53
“Haja saúde”

A economia adoeceu, dizem os entendidos, mas ao que parece houve apenas uns bancos que se fartaram de alambazar com activos tóxicos e tiveram uma danada duma figadeira, é normal pois quem abusa arrisca-se a mais tarde ou mais cedo vir a arcar com as consequências, até o povo diz com a sua sapiência “quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga”, neste caso será mais “quando o sistema financeiro não tem juízo o povo é que paga”.

E o que se viu foi que alguns deles por já não estarem nada bem de saúde acabaram por sucumbir, enquanto outros, sabe-se lá por que razão, acabaram por ser salvos da agonia, ou mesmo morte certa, pelo dinheirinho de todos nós contribuintes, seria talvez pela cor dos seus lindos olhos, ou porque souberam fazer olhinhos às pessoas certas, o que é certo é que todos nós pagámos e eles enfim lá se salvaram e todos continuam a lucrar mais do que nunca.

Quanto à economia produtiva, a das empresas, as mais saudáveis continuaram com os negócios como habitualmente, outra coisa não seria de esperar, àquelas que já padeciam de alguma doença a crise soube que nem ginjas, pois puderem despedir e deslocalizar-se sem que muitas perguntas incomodas fossem colocadas, ou não fosse a conjuntura a responsável, outras houve que morreriam mesmo sem a crise, é a lei da vida económica.

Acerca dos governos já se sabe, como tiveram que injectar o nosso dinheirinho onde eles acharam que fazia mais falta e fez falta uma boa maquia, tiveram que nos sobrecarregar com aumento de impostos, que dizem eles não são aumentos, mas a receita deles aumenta, ou será que afinal não aumenta, eu é que já não sei, ou melhor nunca soube, porque afinal esses tipos só sabem é levar-nos uma parte cada vez maior do nosso rendimento e sem que nós percebamos muito bem para quê.

E quanto à malta os que foram apanhados pela crise têm que ir vivendo como podem com a ajuda do estado enquanto ele puder, os outros os que continuam a trabalhar já se sabe governam-se com um pouco menos porque o governo precisa de um pouco mais para nos governar e para injectar aos milhões onde eles acham, e nós todos povo de brandos costumes apenas desejamos que haja saúde e bancos para nos assaltar, fossemos nós povo de outra massa e desejaríamos que houvesse saúde e bancos para nós assaltar.


De Pedro Maximino a 31 de Março de 2010 às 22:56
“No princípio era o estrume”

No princípio era o estrume, cada família tinha os seus animais e o seu hortejo, os dejectos dos ditos eram usados na fertilização, plantavam batatas, favas, alfaces e outros legumes que usavam na alimentação, a bem dizer quase todas as famílias eram numerosas, embora o conceito não tivesse sido ainda descoberto, cresciam e reproduziam-se e por estranho que possa parecer foram nossos bisavós e avós.

Viviam o seu dia-a-dia, as conversas eram mundanas, tinham parcos rendimentos quantas vezes abaixo do mínimo, embora nessa altura ainda nem sequer fosse garantido, aliás nada era garantido, apenas a labuta para conseguir o sustento muitas vezes em terras de Vera Cruz, donde em tempos viera o ouro para sustento do reino e cujo rendimento garantia ainda a prosperidade dos monarcas reinantes.

Tempos adiante a evolução não se fez esperar e os alimentos passaram a ser comprados em pequenos comércios nos vilarejos, o grão e feijão a granel, a flanela e chita a metro, que bonitas camisas faziam, as famílias já não tinham tantos membros e os progenitores já se começavam a dedicar ao comércio e a labutar em pequenas indústrias ou pequenas explorações agrícolas melhorando dessa forma o rendimento disponível, foram talvez nossos avós e pais.

Viviam-se tempos não muito fáceis, onde se podia falar apenas de alguns assuntos, fado, futebol e Fátima, do resto pouco ou nada era aconselhado pois as paredes tinham ouvidos, era o tempo de partir com a “valise” de cartão para terras da Gália, uma pequena viagem, ou umas férias no Algarve eram já um luxo ao alcance de alguns e o sistema vigente conseguia ainda prosperar à sombra dos juros permitidos pelo ouro que ainda ia restando.

Mas agora é que a porca torce o rabo, os alimentos e os demais bens florescem por tudo quanto é canto, duzentos centros comerciais já são poucos, em breve serão dois mil, as famílias com irmãos dos filhos já começam a ser uma coisa rara, o pessoal aufere rendimentos razoáveis ou bons, os que têm trabalho, os outros auferem o que o estado social vai ainda conseguindo disponibilizar, são talvez os nossos pais e somos nós.

Falar é coisa que agora não possui limites, pode-se falar de tudo, mesmo tudo, já se parte em busca de um amanhã melhor para todo o lado, é a globalização e já vamos tendo férias e momentos de lazer cada vez em paragens mais distantes, mas o regime estourou com o ouro todo, o buraco é de tal ordem que este ano vamos necessitar de qualquer coisa como 24 mil milhões de euros para o conseguir manter a funcionar, dava para comprar Marrocos ao Rei e íamos todos para lá, mas não sendo assim quem pagará a factura vão ser os nossos filhos e netos e se no princípio era o estrume agora ficou só o mau cheiro, mas o problema é que não se sabe bem de onde vem.


De Sandra Carvalho a 30 de Março de 2010 às 15:00
Querido Doutor,
Muito obrigada, mais uma vez, pela clarividência! Deixo-lhe o link da "Conferencia Mundial de los Pueblos sobre el Cambio Climático y los Derechos de la Madre Tierra" que irá ocorrer na Bolivia agora em Abril pela mão de Evo Morales... Não sei se já sabia(?)... Talvez este seja mais um passo no sentido da emergência desse novo paradigma humano.
Um abraço caloroso.
http://cmpcc.org/


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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