Terça-feira, 15 de Junho de 2010

O título deste texto não é nenhum conto para crianças, mas também o poderia ser se o propósito fosse mostrar-lhes uma janela de esperança e impedir que repetissem os erros já cometidos pelos seus pais e avós.

 

A janela de esperança, efectivamente, ainda existe! Embora estreita, representa o sonho que está sempre presente em cada um de nós e que está a permitir a edificação de uma fortaleza contra o apocalipse. Essa fortaleza é constituída pelos cidadãos conscientes e informados do mundo que não abdicam dos seus valores e que por isso mesmo pugnam de forma determinada por um Mundo mais Humano, onde a Cidadania Global deverá ser uma realidade e onde os princípios éticos e morais deverão ser decisivos na tomada de decisões coerentes e de salvaguarda da Humanidade.

 

Nesse novo Mundo possível, a miséria absoluta, de que padece diariamente um quinto da população do Planeta Terra, seria erradicada e já só seria possível de ser vista num museu construído para o efeito, como sonha o último Nobel da Paz, o Professor bengali Muhammad Yunus. Esse museu, como o do holocausto Nazi, seria a prova viva da nossa memória colectiva sofrida, mas iluminada. Sofrida porque nos confrontaria com o facto de termos sido suficientemente inaptos e insensíveis para aceitar viver durante uma eternidade num mundo onde a “miséria assassina” vitimizava milhões de seres humanos todos os anos, qual verdadeiro genocídio silencioso e esquecido. Iluminada, porque ao conseguirmos eliminar tamanho absurdo, poderíamos enfim viver orgulhosos e felizes, pois teríamos, enfim, conseguido o maior feito alguma vez realizado pelo ser humano.

 

Se acabássemos com a miséria que tantas vezes me choca e humilha, daríamos um passo decisivo na caminhada para uma Paz sustentada e duradoura. Seriam depois necessários outros passos – mas disso as gerações vindouras se responsabilizariam, incentivadas pela nossa acção – até que um novo paradigma humano que impediria de uma vez por todas os desvarios presentes e os hediondos actos que infelizmente já se vislumbram, florescesse e iluminasse novos caminhos e entendimentos.

Mas de momento, infelizmente, de novo os tambores de guerra já rufam e, desta vez, anunciam-se armas atómicas!

Sessenta e dois anos depois do holocausto de Hiroshima e Nagasaki, ouve-se falar novamente, como um dado inevitável e sem possibilidade de retrocesso, da utilização de armas atómicas, desta vez com início no Médio Oriente...e fim no...

 

É contra esse crescente rufar ensurdecedor de tambores enfurecidos que a nossa Muralha (todos nós) se deve erguer e gritar um rotundo NÃO!

Enquanto médico humanista, pai, filho e irmão de todos os seres humanos da nossa Humanidade, peço que estejamos atentos por forma a, no momento oportuno, lançarmos em comum um grito global que imobilize os arautos da guerra espúria que desde já se preparam.

Não pudemos e não soubemos ser escutados de forma a impedir a absurda e criminosa guerra contra o povo iraquiano. Não nos é permitido voltar a falhar.  As crianças de todo o mundo e as gerações vindouras não nos perdoariam.

 

Desta vez, a nossa Muralha, a nossa Fortaleza, tem que conseguir travar os dois genocídios já em curso – o da fome e o da dívida (duas armas de destruição maciça, como justamente as apelida Jean Ziegler) -, mas também o genocídio que resultaria obrigatoriamente de uma deriva militar atómica. Se não o fizermos, não só destruiremos as nossas vidas, mas hipotecaremos, de forma duradoura, o futuro da nossa Terra.

Tirando esses combates tremendos, evitar um conflito atómico com contornos indefinidos e incontornáveis e pugnar pelo fim dos dois genocídios silenciosos já referidos, há ainda outras batalhas muito prementes e essenciais a travar pela nossa Fortaleza Cidadã, Cívica e Humanista. O fim da corrida às armas, o fim dos governos corruptos e ditatoriais, a implementação de um comércio mais justo, a elaboração e aplicação de regras mais éticas, equitativas e equilibradas por parte do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio e do G8..., o reforço da educação e da saúde no mundo, a gestão equilibrada dos recursos do Planeta e o fim da sua mortífera poluição, o fim da exploração sexual infantil e da antiga e nova escravatura, o fim do comércio sujo das pedras preciosas, o respeito pelos Direitos Humanos, o reforço da acção, independência e transparência das Nações Unidas e de todas as suas agências, a construção de uma União Europeia mais aberta e transparente e com dirigentes credíveis, de preferência, e preocupados em escutar os seus cidadãos...

Como vêem, meus Amigos, as tarefas e os desafios – e fiquei longe da enumeração exaustiva – são hercúleos, ciclópicos! A Humanidade não precisa e não suporta mais nenhum desvario como aquele que insistentemente ouço, nos últimos tempos: um conflito atómico! Como se tratasse apenas de comer um gelado ou beber um whisky e, seguidamente, virássemos simplesmente uma página, mais uma, do livro “danos colaterais”, aberto por alguns inconscientes e incompetentes globais.

 

Importa encerrar este livro de cinismo e de ignomínia o quanto antes. A Fortaleza, a Muralha constituída por nós, Cidadãos Globais informados, atentos, humanistas e interventivos, pode consegui-lo. Tal será muito mais fácil e evidente se a nossa Fortaleza Global estiver alicerçada em Governos democráticos, éticos e responsáveis e em forças do Mercado Cidadãs e Solidárias.  É isso que temos que conseguir. É por esse fim que temos que pugnar! É esse, penso eu, o nosso dever indeclinável de Seres Humanos Livres e Sequiosos de Paz, em prol do Mundo sustentado que sonhamos.

 

Não nos esqueçamos do que o sábio Pitágoras dizia: “Educai as crianças e não será preciso castigar os homens”.  Invista-se, pois, na educação, informação, sensibilização para a cidadania e bom senso, a fim de evitarmos mais guerras e indizíveis sofrimentos que castigam os inocentes e os esquecidos de sempre!

Entre a denominação de “Pacifista” ou de “Utópico”, quantas vezes pronunciada com superior desdém e desprezo por alguns, e o de “Assassino” (politico, económico ou ...) a quem nada perturba o sono, eu já escolhi. E vocês, meus Amigos?

 

Mais: não aceito, não quero, não permito que os meus filhos, os biológicos e os do Mundo, sejam carne para canhão, numa guerra atómica ou outra qualquer, inventada e conduzida por objectivos iníquos. Este é o meu grito!

 

Ouçam-no, por favor, em nome de uma Humanidade que sonho e quero humanista e solidária.



publicado por Fernando Nobre às 12:56
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14 comentários:
De Pedro Maximino a 18 de Junho de 2010 às 21:26
“O amigo americano”

O amigo americano morreu esta madrugada, após ter estado vinte e cinco anos preso pelo crime a que fora condenado, a aguardar a execução da pena capital, no estado do Utah onde escolheu ser morto por fuzilamento, após ter escolhido a sua última refeição e o referido método de execução, direitos consagrados na lei americana.

Apesar da execução de condenados por fuzilamento estar proibida desde há seis anos neste estado americano, este condenado pôde usufruir deste modo de execução por ter sido condenado antes da entrada em vigor desta proibição que para os devidos efeitos não pôde nos termos da constituição produzir efeitos retroactivos.

Não sei qual foi o seu crime e apesar da discussão em torno da pena capital, os críticos consideram-no arcaico, no entanto alguns peritos defendem ser este um método “mais humano” do que a injecção letal, rápido é seguramente, mas mais humano seria praticar o mandamento “não matarás”, coisa que em pleno século XXI ainda não é possível infelizmente.

Em pleno século XXI já deveria ter sido também proferido o mandamento “não asfixiarás os teus concidadãos mais desfavorecidos pela via fiscal”, mas tal não foi ainda possível infelizmente e muitos de nós estamos assim a ser condenados a uma morte lenta nesta conquista pacífica do primado da economia sobre o primado dos valores humanos, sem inversão à vista, antes pelo contrário.

Poderia então instituir-se aqui a discussão entre o direito a uma morte rápida ou uma morte lenta, sendo certo que o único direito que qualquer ser humano tem quando nasce é ter uma morte e não deveria aos poderes instituídos ser conferido qualquer poder de interferir na sua velocidade, coisa que em pleno século XXI ainda não é possível infelizmente.

Século XXI do caraças, bom mas já que nada disto é possível, ao menos e tal como no primeiro exemplo, a forma de interferir na velocidade da morte dos cidadãos não deveria nunca produzir efeitos retroactivos, fosse esta por fuzilamento ou sob a forma de aumento gradual dos impostos, século XXI do caraças.


De Egídio Corte-Real a 18 de Junho de 2010 às 02:08
Seria importante que V.Exc . tomasse uma posição pública sobre a seguinte matéria: Este grande embuste, intrujice e patranha destas deputadas do PS, em particular, e do empresariado que reclamam, protestam e rugem pela eliminação de alguns feriados, nem sequer é original, mas independentemente da sua paternidade singular, enferma, padece e sofre de diversos vícios, defeitos e pechas, desde logo, patenteia, anuncia e revela uma noção de extenuação, depauperamento e esgotamento. Será que não possuem mais nada de palpável, manifesto e concreto para dar resposta, atitude e solução à grave crise? Ignóbil, infame e desprezível este lançamento de poeira, nevoeiro e esturro. Ora é sabido, conhecido e manifesto que quando há feriados, determinadas actividades económicas saem notoriamente favorecidas, a título de exemplo, o sector terciário beneficia, desde a restauração às discotecas e bares, passando pelas agências de viajem, há muita gente a produzir e a ser produtiva, e não nos esqueçamos da aviação, com muito pouco dispêndio as empresas de low cost levam os seus clientes a qualquer ponto da Europa. Também não é menos verdade, que os feriados representam um manifesto simbólico do que aconteceu nessa data, nesse dia em particular, transferi-lo, é anular o seu sentido histórico/cultural. O argumento das pontes é patético, pois nem as empresas, nem o Estado são obrigadas a dar esse benefício, é uma opção livre, e se o funcionário tira um dia de férias está no seu direito. O que é notório, visível e grave, é que estas ilustres ilustradas deputadas, não se centrem, concentrem e centralizem sofre o fundo da questão e reclamem contra as horas extras não pagas, que em regra, são executadas no sector privado, independentemente da sua dimensão, inclusive nas cotadas em bolsa. Isso deveria ser uma prioridade e ter precedência sobre este tipo de tolice, contra-senso e despropósito pois o tempo da escravatura legalizada já acabou há séculos, e o trabalho voluntario é feito em instituições de fim não lucrativo e de modo VOLUNTARIO! Não como forma de coação, violência e influência que implica uma pressão, tensão e enervamento no concreto ou no imaginário dos funcionários pelas direcções, na ânsia de raparem, comerem e se banquetearem com mais um suculento, proveitoso e chorudo bónus, ameaçando, assombrando e amedrontando com a cessação, dissolução e extinção do contrato para quem não der ao litro mais umas horas de borla! É assim que essa milícia quer que o país seja produtivo? Cultivando a escravatura, a servidão a sujeição? E sendo essas insignes parlamentares socialistas não deveriam ter, ainda mais atenção, sentido e vigilância sobre estes factos sabidos, conhecido e falados por todos? O que é que mais faltara: propor, agitar e alvitrar com a eliminação, supressão e anulação das férias?
Saudações.


De sofia a 18 de Junho de 2010 às 00:23
Sim, Amigo Fernando Nobre, este é o Seu grito e tem que ser o nosso também:
"Não podemos aceitar, não deveríamos querer nem permitir que nós e os nossos filhos e netos, os biológicos e os do Mundo - que também são nossos e nós deles - sejamos carne, nem peixe nem caviar para para os que nos querem comer, numa guerra atómica, política, económica ou outra qualquer, inventada e conduzida por objectivos iníquos."
Este é o grito da Verdade, a voz que grita pela dura Realidade que anseia por Mudança !
Vamos lá Recomeçar que a Esperança está no Ar !



Ouçam-no, por favor, em nome de uma Humanidade que sonho e quero humanista e solidária.



De Pedro Maximino a 17 de Junho de 2010 às 00:21
“Alargar Portugal”

Nem verde esperança, nem vermelho ketchup, ainda não foi desta, assim como não tem sido desde há um bom par de anos a esta parte, mas não desistamos porque este país não está condenado a ser o mais atrasado da Europa, nem a nossa selecção está condenada a ser eterna portadora de vitórias morais.

Digo e repito esta não é uma república das bananas, não estamos condenados a viver só de corrupções, de fundações, processos judicias mediáticos, inquéritos parlamentares sem eira nem beira, orçamentos não cumpridos, suspeições nunca provadas, PEC’s I, II e III, há que dar a volta e buscar insistentemente o verde esperança.

Digo e repito a nossa selecção não é uma selecção de bananas, não estamos condenados a acertar sempre na barra e no poste, ainda se bola à barra valesse meio golo, ao fim de duas boladas com o ferro a abanar já tinhamos um tento, mas nem isso, temos que acabar com o mau agoiro e buscar insistentemente o vermelho ketchup.

O país está demasiado estreito, a democracia instalada e consistentemente instalada afunila-nos as vistas, este sistema de partidos alapados ao poder com meia dúzia de protagonistas como timoneiros dos nossos destinos, sempre os mesmos, sem provas dadas, mas que saem sempre bem, deixando-nos a nós nas embrulhadas.

O nosso futebol também está demasiado afunilado, parece que esquecemos o jogo pelas alas, os centros à linha, as trivelas e agora para mal dos nossos pecados ainda surgiram as vuvuzelas para desconcentrar as nossas estrelas, também aqui sem provas dadas tudo parece apontar para um boa embrulhada.

Mas ainda há tempo, vamos fazer o que ainda não foi feito, vamos alargar Portugal, integremo-nos em Espanha, eles vão desembrulhar-se da crise primeiro do que nós e podemos aproveitar a boleia, com o benefício para todos do efeito de escala e podemos desde já beneficiar da sua vitória no campeonato do mundo de futebol.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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