Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

Dois anos volvidos sobre o romper da crise financeira mundial, permito-me dizer que algumas decisões revelaram-se extremamente esclarecedoras. Por um lado, a capacidade de mobilização de capitais financeiros pelos Estados, quando verdadeiramente motivados para o fazer. Por outro, a sua incapacidade para, com rapidez e determinação, regulamentarem de uma vez por todas as transacções financeiras “tipo roleta russa” e exemplarmente punirem os prevaricadores que afectaram a economia global e a vida de centenas de milhões de pessoas.

 

Seria muito laborioso e longo discutir agora e aqui se a injecção maciça de capitais e avais foi o melhor caminho de actuação. Penso sinceramente que os débeis, aprisionados e armadilhados Estados não tinham verdadeira alternativa perante a violência da situação que ameaçava muito claramente levar à derrocada do errado paradigma civilizacional actual.

 

Derrocada essa, provocada pela grande maioria dos “gestores” financeiros e da “classe” política, que, demitindo-se das suas nobres, porque éticas responsabilidades sociais de governação (o ajuizado e íntegro respeito pela “res pública” que se reflectia na saudosa divisa “Pela Lei e Pela Grei” do insigne estadista D. João II), se tornaram puros servos do capital mais nefando com a sua mortífera especulação sem freios, a dita “economia de casino” e os seus “gananciosos e nebulosos produtos tóxicos”.

 

Quando para os “líderes”, os direitos se sobrepõem aos deveres, o descalabro é sempre inevitável! Tal já aconteceu na História, seja com  monarquias ou repúblicas, devido às respectivas “aristocracias” e elites vaidosas, balofas, gananciosas e adulteradas porque sem honra, nobreza de carácter ou coluna vertebral!

 

Não admira pois que os Estados se ajoelhassem perante o desvario da alta finança e as subsequentes ondas de pânico avassaladoras que tudo e todos fizeram, e ainda fazem, tremer… assim como não admira os passes de magia, milhões de milhões a saltarem de nenhures de estados super endividados, com que fomos contemplados.

 

Não nos esqueçamos porém do rasto de profunda miséria que se alastrou, como consequência directa dessas enormes fraudes, para uma parte muito significativa da população do planeta Terra.

 

Porém, duas questões essenciais carecem de respostas e esclarecimentos cabais:

 

1-      Como foi possível mobilizar-se em cerca de um ano, mais (muito mais… quem sabe ao certo?) de 18 milhões de milhões de USD (18.000.000.000.000) para tentar estancar a loucura devida a alguns gestores gananciosos (e mesmo assim ninguém ousa garantir que tão faraónica quantia chegará para evitar o desmoronamento da muralha de areia criada à nossa volta para restabelecer a imprescindível confiança, sem a qual nada será nunca mais possível)?

 

2-      Como é possível que as Nações Unidas, até hoje, não tenham conseguido mobilizar os necessários e “míseros” anuais 25 mil milhões de USD (25 000 000 000), ou seja, 720 vezes menos, para que em 2015 fossem atingidos os propalados Objectivos do Milénio (ODM), tão essenciais para o futuro da Humanidade, pese embora aprovados por todos os chefes de governo presentes na famosa Cimeira do Milénio em Nova Iorque em Setembro de 2000?

 

Estou certo que não faltarão por aí distintas luminárias para responderem, com enorme cinismo é claro, a tamanha falta de humanismo e de inteligência… São as mesmas luminárias que dizem sempre dormir o sono dos justos apesar dos desmandos globais que, enquanto “responsáveis”, incentivaram ou encobriram! Como é possível tão descarados ladrões, insaciáveis e incompetentes não verem todos os seus bens confiscados e estar na cadeia?

 

Estarão à espera que as bombas sociais nos rebentem na cara nos quatro cantos do mundo? E quem irá acudir? Nós os humanitários de serviço, já com pouca pressão nas mangueiras para sermos eficazes perante a grandeza dos incêndios que já se vislumbram? O mundo está mesmo inquietante.

 

Porém, acredito que ainda existem razões para ter esperança.

Na quarta-feira, o relatório anual de avaliação dos Objectivos do Milénio revelou que a taxa global de pobreza deverá cair para 15% até 2015, o que significa que 920 milhões de pessoas continuarão a viver abaixo da linha da pobreza, ou seja, metade do número total de 1990. O mesmo documento mostrou ainda que foram alcançados progressos significativos no acesso à educação primária na África Subsaariana e na saúde infantil e igualdade de género na América Latina e Caraíbas.

 

 

 

 

 



publicado por Fernando Nobre às 14:44
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16 comentários:
De Pedro Falcão a 11 de Julho de 2010 às 13:03
Acho que é uma candidatura honesta, sem vicios da politiquice que por aí campeia.
Mas tem um defeito, que é muito frequente:
O Portugla Insular não é referido.
E Deus bem sabe o desnorte em que anda o arquipélago dos Açores.
O da Madeira já é bem mais conheciso.
A diferença é que Alberto João diz alto o que pensa e anuncia o que faz. E é só uma ilha, e a pouca população do Porto Santo.
Nos Açores são nove Povos, distribuídos por nove ilhas, com um enorme desequilibrio populacional, económico e financeiro, que tem os politicos - na sua maioria - no bolso.
Este Portugal Insular dos Açores são ainda o grande desconhecido do Portugal continental.
Será que o Dr Fernado Nobre conhece a realidade insular dos Açores?
Aquela que os Corvinos, Florentinos, Graciosenses, Jorgenses que se vêm a perder tudo o que têm a favor da ilha grande?
A desertificação galopante das ilhas mais pequenas?
Será que o Dr Fernado Nobre virá ás ilhas dos Açores com os olhos e ouvidos abertos? Será que irá ao Corvo? Graciosa?Terceira?


De Victor Manuel de Lima Louroza a 8 de Julho de 2010 às 20:18
Doutor Fernando Nobre
O meu tempo é valioso
Contei os meus anos e descobri que terei menos tempo para viver do que já vivi até agora.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades, Não sou indiferente.
Sou tolerante mas exigente comigo mesmo e com todos.
Há que caminhar perto das coisas e pessoas de verdade.
ACREDITAR PORTUGAL . Ético,Trabalho,Cidadania e Responsabilidade Social.
O meu valioso tempo será vivido com causas essenciais.
Disponha do meu tempo
Subscrevi a sua candidatura a Presidência da Republica Portuguesa
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim basta o essencial.

Victor Manuel de Lima Louroza


De Jaime Piedade Valente a 8 de Julho de 2010 às 16:17
Devemos ter esperança, mas é preciso cuidar para que não seja irrealista. Li não sei onde esta frase:

'ter esperança não pode ser o mesmo que colocar um novelo de lã numa gaiola e esperar que cante'.


De Pedro Maximino a 8 de Julho de 2010 às 01:26
“Convite”

Nenhum sonhador é insignificante, nenhum sonho é irrealizável, isto leva-nos ao que somos, somos aquilo que sonhamos e se sonhamos não somos nem podemos ser desprezáveis, embora por vezes possamos ser desprezíveis, dependendo dos sonhos que tivermos e principalmente daqueles que concretizarmos.

Já o pensador havia dito “penso logo existo”, sim existo, mas se não sonhar será uma existência vã, de que servirá sem o sonho, o sonho é um estado de espírito, pelo qual e através do qual nos transcendemos mais do que pelo simples acto de pensar, poderemos então dizer “sonhamos logo transcendemo-nos”.

Sim transcendemo-nos porque sonhar é um estado de espírito, não conhece limites materiais, porque espírito é muito para além da matéria, é muito para além de mim e é por isso que a humanidade tem conseguido através do sonho alcançar coisas e feitos que nunca teria conseguido se apenas se tivesse detido no patamar do pensamento.

Por isso mais do que pensar é necessário sonhar, liberto dos preconceitos que muitas vezes as fronteiras do pensamento impõe aos sonhos, transformando-os em simples ideias resultantes de sonhos castrados que mais não são do que os pensamentos que nos conferem a existência, a qual sem sonho não passará disso mesmo.

É por isso que mais do que pensarmos para única e simplesmente existirmos, devemos fazer o esforço de sonhar, tentando assim libertar-nos dos preconceitos que muitas vezes nos limitam à mera existência, daí o convite ao sonho pois só através dele seremos capazes de transpor a fronteira da existência.


De acurcio domingos a 5 de Julho de 2010 às 17:48
Doutor Fernando Nobre
A candidatura de V.Exa reinventa o sonho dos que acreditam e constroem a sua cidadania, para além da pequena política que nos tem sido servida, há mais de 20 anos a esta parte.
Só por isso já valeria a pena .
Mas ela remete-nos para alguns dos referenciais existenciais mais sublimes de que depende a nossa sobrevivência como espécie e como planeta. <Creia que há muita gente a " persegui-lo" nessa UTOPIA! Acúrcio Domingos


De Pedro Maximino a 2 de Julho de 2010 às 00:30
“A bolsa”

A bolsa ou a vida, não claro que não, tem que haver um equilíbrio entre a extorsão e aquilo que nos deixam ficar na bolsa, senão matariam a galinha dos ovos de oiro, ou melhor matavam de fome o Zé pagante e o Zé morto não poderia ser alvo da extorsão que hoje precisamente se viu agravada em mais uns pontos percentuais.

Mas se para o Zé é tudo uma questão de equilíbrio entre a vida e a bolsa, porque mesmo trabalhando não pode chegar junto do patrão e alegar o aumento da despesa e dos impostos para pedir mais salário.

Já para o estado, que sendo nosso empregado, pois trabalha para nós, é muito fácil manter o desequilíbrio entre a vida e a bolsa, basta-lhe aumentar o nível de vida que nós como patrões mãos largas logo tratamos de lhe encher mais a bolsa para que não passe mal.

Já na outra bolsa, a da jogatana, lembrou-se agora o nosso empregado de fazer às claras aquilo que antes fazia em surdina, tentar interferir nos negócios do domínio privado impedindo a realização de mais valias chorudas que poderiam trazer alguma vitalidade à nossa débil economia nesta fase complicada.

É apenas e só mais um desequilíbrio fácil de manter por este nosso empregado, joga na bolsa com os recursos da nossa bolsa, mas a continuar assim nós os patrões mãos largas temos que reunir a associação representativa dos nossos interesses para decidir outro rumo, já que este é insustentável, pois pagamos os combustíveis, a energia e as telecomunicações mais caras, será o nosso contributo para as participações douradas ?

Não se vislumbrando no panorama nacional outro empregado para colocar no lugar, após o despedimento deste, talvez o recurso ao mercado internacional seja uma boa opção, não sendo de descartar a contratação de Hugo Chávez já que tem feito um bom trabalho na Venezuela e no caso deste pedir muito de ordenado poderemos sempre recorrer ao Lula da Silva, já que em breve ficará desempregado.


De Pedro Maximino a 1 de Julho de 2010 às 01:06
“A revolta do ketchup”

Visivelmente abalado e desapontado a estrela da nossa selecção ao passar pela zona de entrevistas rápidas ao ser questionado sobre as razões do desaire terá respondido para que todos ouvissem “Perguntem ao ketchup !”, e razões terá de sobra pois o desejado turbilhão que sairia da embalagem não aconteceu.

Já não bastava o vuvuzelar constante com que a sua carola foi assediada, bem como o facto de não ter conseguido explodir, para finalmente ter-se visto a braços com a esta espécie de ketchup sem capacidade de seleccionar os melhores tomates, para que em cada momento o ketchup gorgolhasse da embalagem.

Triste sina a nossa que no final ainda tivemos que ouvir o ketchup entregar os louros ao adversário pela sua brilhante vitória, não fossemos todos provenientes do mesmo tomatal dir-se-ia estarmos perante a revolta do ketchup, mas não creio, o que se passou foi que escorregamos numa imensa tomada.

A tomatada, ou tomatina é como sabem uma guerra de tomates tradicionalmente espanhola à qual não nos conseguimos adaptar e o facto de o ketchup não nos ter sido de grande utilidade terá ficado a dever-se também ao facto de as principais unidades produtoras do dito se situarem no país vizinho e alguns dos lotes podem ter vindo adulterados.

Maiores cuidados teremos que ter na selecção da matéria prima para as futuras guerras do tomate e também a empregue na produção de ketchup, para que este resulte de melhor qualidade se de facto queremos ir para campo lutar de igual para igual, sabendo que se vamos correndo o risco de levar com alguns tomates na cabeça, também nos arriscamos a acertar com uns valentes esguichos vermelhos no coração dos nossos adversários.


De sofia a 30 de Junho de 2010 às 23:39
Oh meu querido e NOBRE Mestre ... o que posso dizer sobre este seu texto? Vou agradecer as suas sábias e experiente palavras, vou partilhar da sua indignação e repetir consigo: "Como é possível?"
Resta-nos a esperança e a confiança numa luta com final feliz para os mais desprotegidos (utopia dizem eles) ... mas se há tantos mil milhões de milhões mal distribuidos, e mal gastos, e que "são tão essenciais para o futuro da Humanidade", então o que estão os poderosos a fazer? Inconscientes...
Espero e acredito profundamente que cada vez mais Nobres Vozes se ouvirão e que as outras, que já muito feriram, finalmente se calarão...
Bem-Haja Exmo. Senhor Dr. e Amigo F. Nobre!
Um abraço desta sua admiradora e voluntária.


De Pedro Maximino a 30 de Junho de 2010 às 00:51
“Espanha não cumpre”

Espera-se amanhã em Madrid o segundo dia de caos, depois dos sete mil e quinhentos trabalhadores do metro terem decidido não cumprir os serviços mínimos decretados pelo governo, desta forma Espanha não cumpre o que lhe querem impor, Espanha cumpre apenas e só o que lhe vai na alma, em suma cumpre a sua raça.

Nós por cá cumprimos escrupulosamente duas coisas, a saudade e o passado, ou melhor uma coisa só, o saudosismo do passado, o passado dourado que nos proporcionaram as minas do Brasil e os valorosos feitos a bordo das naus, conseguidos por dois ou três de nós que viveram há mais de cinco séculos, em suma cumprimos a nossa nostalgia.

Hoje em campo cumprimos uma vez mais a nossa nostalgia, baseada em metáforas sobre naus e adamastores, mas como se viu não foi suficiente e como já não há vitórias morais considero que apenas um de nós cumpriu a sua raça e esse um foi o nosso guardião que resistiu a quase todas as bombas, excepto uma, é o azar.

Enquanto isso do outro meio campo surgiram todas as bombas, estoicamente defendidas pelo nosso guardião, excepto uma, é a sorte, será caso para dizer a nostalgia do passado navegou junto com o azar e não conseguiu cumprir, enquanto isso a raça fez um qualquer pacto com a sorte e logrou cumprir.


De Pedro Maximino a 29 de Junho de 2010 às 19:27
“Real”

Atrapalhado, nas bocas da oposição, está o governo, isto segundo dizem a propósito do adiamento da entrada em vigor das portagens nas Scuts, após a apresentação das condições que estes, oposição, apresentaram para viabilizar no parlamento a entrada em vigor destas alterações.

Atrapalhada, nas bocas do governo, está oposição, pois segundo estes o adiamento nada teve a ver com esta jogada da oposição, mas sim com a forma de encontrar a solução técnica que melhor assegure a concretização do acordo com vista à defesa do superior interesse nacional.

Atrapalhados ficarão os que no futuro tiverem que cruzar aquelas vias pois a portagem segundo ouvi não vai ser nada meiga, só que no entretanto enquanto o pau vai e vem folgam as costas, o pior será quando terminar a trapalhada em que estão metidos governantes e oposição, para nós melhor será que não termine, assim folgamos um pouco mais.

A propósito de folgar e trapalhadas à parte três notícias do país Real me marcaram hoje, a primeira mais triste, foi a do encerramento do 24 horas após 12 anos nas bancas, dizem eles, “Os trafulhas já podem descansar. Os políticos já podem prometer o céu. Os famosos já podem acumular dívidas. Os actores já podem trocar de namorada todos os dias. A partir de amanhã, o 24 horas já não estará cá para contar tudo. FIM”, é o convite à trapalhada silenciosa.

A segunda mais alegre, também por ora silenciada, é bem Real e revela um sentido dos valores tradicionais e da família, muito vincados, bem como uma grande inteligência, revelada na resposta à pergunta “Faz nudismo ou topless?”, “Adoro as marcas do biquíni.”, mas é também reveladora de uma grande trapalhada pela forma como o assunto foi tratado pelas autoridades.

E a terceira exuberante, é a forma como iremos festejar a vitória no jogo de logo mais, quer vença Portugal, ou Espanha, festejemos até cair para o lado a fabulosa vitória Ibérica que esta representará no campeonato do mundo, pois só desta forma folgaremos um pouco mais, esquecendo as trapalhadas do país Real, das oposições e das governações.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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- "Viagens Contra a Indiferença",
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- "Gritos Contra a Indiferença",
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- "Histórias que contei aos meus filhos",
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- "Mais Histórias que Contei aos Meus Filhos", Oficina do Livro

- "Humanidade - Despertar para a Cidadania Global Solidária", Temas e Debates/Círculo de Leitores

- "Um conto de Natal", Oficina do Livro
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