Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

Escrevi este texto em 2001. Continuo a acreditar que o exercício de uma cidadania activa e consciente traz benefícios que vão muito além do que, à partida, se espera. 2011 será o Ano Europeu do Voluntariado. Deitemos mãos à obra! Os cidadãos devem envolver-se em causas. Devem acreditar. Só assim poderão sentir-se parte da solução. Não nos desiludamos. Não baixemos os braços. Não nos divorciemos do nosso país. Ele é de todos nós! De cada um de nós.

 

 

Permitam-me, antes de mais, que vos fale um pouco da globalização. Como é de todos sabido, a globalização não é um fenómeno da nossa época já que ela encontra nos episódios mais remotos da humanidade a sua verdadeira génese. Já os Romanos quiseram fazê-la em toda a Europa e nós, Portugueses, contribuímos decisivamente para que ela se alargasse ao mundo então conhecido. O que a globalização dos nossos dias tem indiscutivelmente como característica própria é a grande velocidade a que ela se processa, aliada a um progresso científico e técnico ímpar na história da humanidade, uma comunicação global e uma liberdade de movimentação financeira desregrada e sem o mínimo controlo. A globalização actual associada a uma quebra significativa da influência política tende efectivamente a estar quase exclusivamente na posse do grande capital financeiro, para não falar do capital financeiro especulativo, deixando à margem desta globalização grandes franjas da humanidade. Esta globalização trouxe indiscutivelmente grande instabilidade e uma profunda exclusão já que se sobrepôs ao ideal político e menosprezou por completo as profundas preocupações sociais, culturais, ambientais, éticas e morais que deviam ter sido apanágio do século XX.

 

Vivemos hoje, indiscutivelmente, uma revolução mundial que parece querer ser conduzida unicamente pela força do mercado pondo à margem o homem que devia ter sido sempre o objectivo final de toda e qualquer globalização. É por isso que a sociedade civil, hoje, no mundo, protesta e se manifesta, não contra a globalização em si, mas contra “esta” globalização, apelando a uma globalização alternativa para que um outro mundo mais justo, mais ético, mais solidário seja possível. Face a esta tendência, que não passa de uma tendência,  promovida pelo Fórum Económico Mundial de Davos há cerca de 30 anos e que pretende impor uma globalização com marcadas tendências financeiras e especulativas, é fundamental que a sociedade civil se constitua como contrapoder, não para tomar o poder mas para defender valores. Os cidadãos têm a obrigação de promover e defender valores.

 

Não é por acaso que alguns autores falam da globalização armadilhada. Nesta globalização puramente economicista e produtivista só 20% da mão-de-obra seria necessária, sendo os outros 80% perfeitamente dispensáveis e descartáveis.

  

O mercado parece, assim, ter sido eleito como nova ideologia e não é por acaso que muitos lhe chamam o Deus Mercado. Foi por isso que em 2001 se realizou, pela primeira vez, na cidade do Porto Alegre, no Brasil, o Fórum Social Mundial para que justamente a sociedade civil mundial pudesse dar voz ao seu desalento, exprimir o seu repúdio pelo que se vinha processando na nossa sociedade e para apresentar alternativas ao processo em curso dizendo bem alto que uma outra globalização é possível, como um outro mundo é possível e que há alternativas credíveis ao processo que uma minoria planeou e que está a executar em detrimento de uma larga franja da humanidade que se vê assim excluída, talvez irreversivelmente, de todo o processo de desenvolvimento a também tem direito.

 

É verdade que o fosso que se tem acentuado entre pobres e ricos tem sido encapotado por eufemismos linguísticos. Por exemplo, hoje fala-se nos “países menos avançados” quando, anteriormente, se falava dos países “em vias de desenvolvimento” ou, mesmo antes, dos “países subdesenvolvidos”. Não é menos verdade que, em menos de 30 anos os países hoje ditos menos avançados passaram de 29 para 59. A África que era auto-suficiente no aspecto alimentar há 20 ou 30 anos, recebe hoje 4/5 dos seus bens alimentares, o que faz desde já antever uma catástrofe humanitária de proporções bíblicas quando sabemos que a África subsariana, que tem hoje 800 milhões de habitantes, passará para o dobro em menos de 25 anos. A esse empobrecimento real de uma boa parte da humanidade associa-se uma política de dois pesos e duas medidas: os ditadores são ou não aceites consoante aceitem ou não as “regras do mercado” e a ele se dobrem e com ele pactuem. Pouco importa a desgovernação e a corrupção desenfreada desde que sejam submissos às leis e imposições do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.

 

Um dos grandes efeitos perversos da globalização especulativa em curso foi, sem dúvida nenhuma, a queda das ideologias. Todos os políticos têm o mesmo discurso, hoje quem manda é indiscutivelmente o poder económico-financeiro especulativo. É constrangedor ver como os ex-ministros são hoje funcionários dos grandes grupos económicos. É sem dúvida alarmante apercebermo-nos que, intimamente associado a esse poder económico, predomina também o mundo da comunicação que já só fala de “conteúdos” - noção abstracta e manipuladora, tendo esquecido por completo o seu dever informativo e formativo. Hoje há um Poder cada vez mais perigoso e inquietante, um Poder sem rosto, globalizado, incontrolado. Há cada vez mais multinacionais (com fácil acesso ao crédito bancário, que é, de facto, o verdadeiro poder) a beneficiar de orçamentos superiores aos de muitos estados desenvolvidos e os seus presidentes são autênticos chefes de estado. Sem saberem já quem os representa e quem os governa, não é por acaso que os sindicatos perdem força e influência e as pessoas se alheiam cada vez mais da vida política como prova o facto de a abstenção em actos eleitorais ser hoje o maior partido europeu.

 

É cada vez mais importante despertar as consciências para uma cidadania efectiva. É aqui que o voluntariado encontra permanentemente toda a sua expressão. É fundamental, pois, promover uma cidadania crítica, em permanente alerta, atenta, interventiva e é esta atitude que sustenta o voluntariado. Os cidadãos têm que assumir uma atitude activa e participativa. Sem participação da sociedade civil não pode haver autêntico desenvolvimento nem verdadeira democracia. É esse o drama, nomeadamente em África, porque, pese embora começarem a ter uma sociedade civil activa, ela é ainda incipiente e extremamente frágil. Daí os desvarios permitidos a governos perfeitamente corruptos e sem a mínima noção de estado e do bem público.

 

O voluntariado é, pois, a solidariedade activa e não apenas “de boca”. Perdeu-se muito o conceito de subsidiariedade, não responsabilizando os cidadãos pelos seus deveres e desvalorizando a sua efectiva participação na vida social.      

 

É bom não esquecermos que, se vivemos hoje em democracia, não significa que assim possamos estar daqui a 20 ou 30 anos. A Democracia será tanto mais perene quanto mais a sociedade civil estiver implicada e informada pois só assim servirá de travão a movimentos radicais de intolerância, de fundamentalismos diversos, de xenofobia...

 

É pois fundamental o movimento associativo e o voluntariado. É este pilar que condicionará positivamente o evoluir da nossa sociedade. Por esse movimento passará indiscutivelmente a sobrevivência das causas nobres e dos valores éticos. Só com uma sociedade civil atenta e participativa de mãos dadas com o voluntariado informado é que efectivamente poderemos combater o que tenho dito serem as duas piores doenças da humanidade: a indiferença e a intolerância.

 

Os desafios que a Humanidade tem de enfrentar são enormes mas tenho a convicção de que os cidadãos saberão responder positivamente tanto no que diz respeito à defesa do ambiente como à condução de uma ajuda humanitária verdadeiramente credível e não manipulada por outros interesses menos claros, como no combate sem tréguas à pobreza e à exclusão social e também numa luta sem quartel contra toda a forma de intolerância. Num mundo em que a ausência de políticas corajosas gera a ausência de causas, estou convicto que uma sociedade civil forte e activa saberá lutar por essas causas, as eternas causas universais, as causas dos valores, porque é disso que estamos à espera, duma globalização de valores e sobre isso, sem dúvida nenhuma, o voluntariado tem uma palavra decisiva a dizer. Estou certo que a dirá.

    3 de Dezembro de 2001

 



publicado por Fernando Nobre às 10:33
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81 comentários:
De geriatriaaminhavida a 10 de Janeiro de 2011 às 22:01
Boa noite .Parabéns pelo destaque do sapo.
Foi através dele que vim aqui ter.
Chamou-me à atenção a palavra voluntariado , pois trabalho numa instituição de Idosos.
É um dos locais onde deviria de haver voluntariados , mas infelizmente são muito poucos.
Provavelmente são mais frequentes nas instituições onde há crianças.
A grande maioria das pessoas despreza os idosos, aliás têm nojo deles.
Chegam ao cumulo de me dizerem, quando sabem que trabalho com idosos: "Não pecas a esperança, entretanto arranjas outra coisa, melhor", ou então "és mal empregada para tratares de idosos".
E estes comentários vêm não só de pessoas jovens, mas também de pessoas mais velhas.
Se as pessoas ainda têm estas ideias como isto poderá mudar?
Tenho o prazer de dizer que trabalho no que gosto, apesar de ser muito cansativo não só fisicamente como psicologicamente.
Já agora aproveito para lhe desejar um bom Ano.


De Acácio joão a 9 de Janeiro de 2011 às 13:31
Ao Dr Fernado Nobre
É o primeiro candidato desde o 25 de Abril que transparece honestidade e espírito solidário. É em si que vou votar, assim como a minha família.
Felicidades. Acácio João


De Pedro Maximino a 6 de Dezembro de 2010 às 07:39
“À lupa”

Vai ser analisado à lupa
O nosso querido Portugal
Na euro reunião semanal
Mais um dia que se ocupa

No final com todo o preceito
Arautos desenrolam o papiro
Tocam cornetins, eu suspiro
O que gastaram dava-me jeito

Da conclusão em voz alta
Dez páginas e o arauto rouco
Não se preocupam c’a malta

É só economia, fico louco
Apenas o Euro ocupa a ribalta
Para nós sobra muito pouco.


De Alvaro de Azevedo Moura a 5 de Dezembro de 2010 às 23:46
Este é um excelente artigo. Enquanto existirem figuras públicas a escreverem assim, existe ainda esperança para este Planeta.
Muito obrigado.


De Pedro Maximino a 5 de Dezembro de 2010 às 14:39
“Desdentados”

Portugal será regenerado
Vem a caminho a solução
Ninguém sabe quantos são
Serão acima dum punhado

Vêm de armas e bagagens
Instalar-se nos ministérios
Vão-se basear em critérios
Nunca aceitarão colagens

Depois desta regeneração
Nada será como dantes
Poremos no mapa a nação

Ponham-se a pau gigantes
Pois do cabo abaixo cairão
Perderão uns quantos dentes.


De Magda A.L.Susano a 5 de Dezembro de 2010 às 13:03
Sr. Fernando Nobre, o texto que colocou é extremamente interessante e informativo, obrigada! Partilho da sua opinião a 100% e felicito-o pelo excelente trabalho que tem vindo a fazer no despertar das consciências.

Abraço
Magda


De Pedro Maximino a 4 de Dezembro de 2010 às 23:55
“Levas”

Com os controladores levas
Mas não é cá nestas terras
Cá só leva quem merece
Quando se mete com o PS

Levou também distinta mãe
Do D.Afonso primeiro rei
Grande fundador deste país
Por fazer o que ele não quis

Sem o saberes bem porquê
Levas tu também por tabela
Mas isso não importa já se vê

Vês-te enredado numa novela
Em que és o mau da fita Zé
E levas mais a cada cavadela.


De Pedro Maximino a 4 de Dezembro de 2010 às 10:25
“Avisados”

De cimeira em cimeira
Assim vamos vivendo
E outros lá vão dizendo
Que não será a primeira

Nem segunda ou terceira
Vez que aviso lançaram
Pois há sete anos avisaram
Pr’a presente desgraceira

Mas eu que não fui avisado
Tenho lido alguns manuais
Pelos quais fui informado

Os nossos desígnios actuais
E que nos têm afundado
Iniciaram em mil cento e tais.


De Pedro Maximino a 3 de Dezembro de 2010 às 21:52
“Merceeiro”

Para aliviar a classe média
Estamos a fazer um plano
Vigorará já no próximo ano
Nem fomos à enciclopédia

Fomos ao livro de mercearia
Vimos umas contas ancestrais
Percebemos como os demais
Que rumo a coisa tomaria

Para a economia revitalizar
Lançamos medida apropriada
Novas taxas vamos aplicar

Desta forma assim aliviada
Classe média pode descansar
Por ter a bolsa menos pesada.


De Pedro Maximino a 3 de Dezembro de 2010 às 21:51
"N’arena"

Andamos cá para penar
E é disso que tenho pena
Como do animal na arena
Quando o estão a tourear

Mantem toda a nobreza
Durante a lide é altivo
Tu tentas manter-te vivo
Tentas fintar com destreza

O destino mais que a sorte
Que à lide não vais escapar
Como o destino é mais forte

Tentamos a capa desfeitear
Que os ferros são passaporte
Para a nobreza conquistar.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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