Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Faço questão de republicar o texto que escrevi quando completei 56 anos (e que aqui publiquei depois, em Dezembro de 2008). Hoje celebro os meus 60 anos e continuo a sentir-me a viver este Outono da Vida.

 

 

Amor, Compaixão e Liberdade: vale a pena viver e lutar!

 

Não sei quanto tempo me resta de vida. Nenhum de nós sabe ao certo e é bom que assim seja. Quando temos 20 anos, pensamos ter a eternidade terrena e ainda bem! Temos então forças e sonhos, ou pensamos ter!, para mudar o Mundo, torná-lo muito melhor, se possível no paraíso reencontrado.

Não há então montanha inacessível, obstáculo inultrapassável, desafio impossível. Já tive 20 anos. Era de aço, dizia o meu Pai, e tinha muitos sonhos. Foi lindo. Pensava que nascíamos todos puros, ingénuos e bons. Magnífica primavera com miragens idílicas: teria o meu hospital no mato tal Albert Schweitzer!

Hoje, ao completar 56 anos, já não sou de aço, já não consigo ficar três dias sem dormir, sempre a trabalhar a olhar pelos meus doentes, como fazia nos hospitais de Bruxelas… Estou no Outono da minha vida e o Inverno vem a galope… Já não há eternidade terrena, já sonho menos, já só há efemeridade e bastante inquietude pelo estado do Mundo. Numa altura em que às vezes os filhos se afastam, estão no seu direito, em que a morte nos ceifa ou ameaça ceifar, amigos, familiares próximos… as interrogações nos tiram o sono… A nossa pequenez interpela-nos: ainda bem.

Vai-se alguma ingenuidade, fortalecem-se algumas certezas.

Assentadas as poeiras estéreis das vaidades, das importâncias e das ambições, só já a valsa das galáxias e o amor dos nossos entes mais queridos nos encantam. Já sabemos que não vamos endireitar o Mundo (de que enorme arrogância padecíamos!), mas sabemos algumas coisas. Sim, sei com a máxima certeza absoluta que vale a pena ainda continuar a viver e a lutar pelo Amor, pela Compaixão e pela Liberdade. Com Paixão. É indeclinável. Sem apelo.

Aos 56 anos, já tudo o resto é fútil, ilusão. Foi-se o aço mas ficou a certeza: não me acomodar com a insensibilidade, com a indiferença, com a falta de amor, de compaixão e de liberdade com que alguns nos querem prender… Envenenando-nos, envenenando-me.

Numa altura em que folhas secas já começaram a cair da minha árvore, levadas por um vento cada vez mais fresco, há meia dúzia de flores que se agarram ao meu tronco com a tenacidade da perenidade.

São as flores que me acompanharão até ao fim e que vos gostaria de oferecer neste final de ano com o desejo sincero que elas se incorporem no vosso tronco e nunca vos abandonem, estejam vocês onde estiverem e seja qual for a estação que estejam a viver.

Amor, compaixão, liberdade, sensibilidade, harmonia, tolerância. Vivam com elas, lutem por elas. Vale a pena. Eu vou fazê-lo. A AMI vai continuar a expandi-las. É em nome dessas flores que chamo filhos a todas as crianças do Mundo e amigos a todos os seres humanos. Já não consigo viver de outro modo.

É essa hoje a minha luta. É ela que me mantém ainda vivo. Afinal ainda tenho sonhos…

 

 



publicado por Fernando Nobre às 13:11
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3 comentários:
De Luis Gonçalves a 20 de Dezembro de 2011 às 21:46
Boa noite Exm.º Dr. Fernando Nobre,

O meu nome é Luís Gonçalves e faço parte de uma associação que se chama Teia D´Impulsos que é uma– Associação Social, Cultural e Desportiva TDI ) sem fins lucrativos que está sediada em Portimão. Criamos um espaço de debates, denominado Teia de Ideias, cujo propósito é dinamizar um espaço mensal de discussão de ideias, sobre diversas temáticas que dizem respeito à nossa cidade e região principalmente. Este espaço de debate, que decorrerá na Casa Manuel Teixeira Gomes, em Portimão, contará com a participação de vários convidados, que ao longo de cerca de 90 minutos poderão expor os respectivos pontos de vista acerca do tema escolhido. A tertúlia será registada em formato áudio sendo posteriormente transmitida pela Rádio Costa D’Oiro , que também se associa a esta iniciativa. O próximo debate que estamos a organizar vai decorrer dia 18 de Janeiro pelas 21h e está subordinado ao tema "Voluntariado - um suporte social". Consideramos que é um tema muito importante a ser debatido, porque embora exista voluntariado em Portugal, por vezes é um voluntariado que não possui a informação e formação desejada para realizarem as tarefas a que se propõem. Acreditamos que nesta altura difícil que o país apresenta, o voluntariado é um suporte social importante para a nossa democracia. Gostava de lhe endereçar o convite a partilhar com os habitantes algarvios in loco" e com todos os nossos ouvintes e internautas as suas experiências, dificuldades e sucessos para que consigamos alcançar uma maior consciência cívica nesta área. Cremos que com a sua presença, o despertar desta consciência no Algarve, região que tem actualmente um grande número de desempregados, passando por momentos de grandes dificuldades, seria indubitavelmente maior. Se assim o desejar por favor contacte-nos pelo nosso mail teiadimpulsos@gmail.com .Grato pela vossa atenção, com os melhores cumprimentos e desejo de boas festas, despeço-me.

Luís Gonçalves


De NC a 16 de Dezembro de 2011 às 23:02
Dr. Fernando Nobre parabéns por mais um ano nesse outono da vida.
As suas palavras ressoam, como sempre, no âmago do meu ser, e, acredito que de todo o ser humano que queira prestar atenção, tocam numa profundidade de onde a força e a coragem brotam rompendo todas as amarras que nos impedem de continuar a acreditar e a lutar por esse sonho.

Obrigada pelas sementes e obrigada por continuar a partilhar a sua enorme sabedoria.


De paula a 16 de Dezembro de 2011 às 18:56
Parabéns Dr. pelo seu aniversário. Este é dos textos mais humanos, mais tocantes, que li aqui. Alegra-me que o republique depois dos tempos tão atribulados que tem vivido. Há valores que não mudam, graças a Deus.
Abraço
paula


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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