Domingo, 21 de Dezembro de 2008

 

Não sei quanto tempo me resta de vida. Nenhum de nós sabe ao certo e é bom que assim seja. Quando temos 20 anos, pensamos ter a eternidade terrena e ainda bem! Temos então forças e sonhos, ou pensamos ter!, para mudar o Mundo, torná-lo muito melhor, se possível no paraíso reencontrado.
Não há então montanha inacessível, obstáculo inultrapassável, desafio impossível. Já tive 20 anos. Era de aço, dizia o meu Pai, e tinha muitos sonhos. Foi lindo. Pensava que nascíamos todos puros, ingénuos e bons. Magnífica primavera com miragens idílicas: teria o meu hospital no mato tal Albert Schweitzer!
Hoje, ao completar 57 anos, já não sou de aço, já não consigo ficar três dias sem dormir, sempre a trabalhar a olhar pelos meus doentes, como fazia nos hospitais de Bruxelas… Estou no Outono da minha vida e o Inverno vem a galope… Já não há eternidade terrena, já sonho menos, já só há efemeridade e bastante inquietude pelo estado do Mundo. Numa altura em que às vezes os filhos se afastam, estão no seu direito, em que a morte nos ceifa ou ameaça ceifar, amigos, familiares próximos… as interrogações nos tiram o sono… A nossa pequenez interpela-nos: ainda bem.
Vai-se alguma ingenuidade, fortalecem-se algumas certezas.
Assentadas as poeiras estéreis das vaidades, das importâncias e das ambições, só já a valsa das galáxias e o amor dos nossos entes mais queridos nos encantam. Já sabemos que não vamos endireitar o Mundo (de que enorme arrogância padecíamos!), mas sabemos algumas coisas. Sim, sei com a máxima certeza absoluta que vale a pena ainda continuar a viver e a lutar pelo Amor, pela Compaixão e pela Liberdade. Com Paixão. É indeclinável. Sem apelo.
Aos 57 anos, já tudo o resto é fútil, ilusão. Foi-se o aço mas ficou a certeza: não me acomodar com a insensibilidade, com a indiferença, com a falta de amor, de compaixão e de liberdade com que alguns nos querem prender… Envenenando-nos, envenenando-me.
Numa altura em que folhas secas já começaram a cair da minha árvore, levadas por um vento cada vez mais fresco, há meia dúzia de flores que se agarram ao meu tronco com a tenacidade da perenidade.
São as flores que me acompanharão até ao fim e que vos gostaria de oferecer neste final de ano com o desejo sincero que elas se incorporem no vosso tronco e nunca vos abandonem, estejam vocês onde estiverem e seja qual for a estação que estejam a viver.
Amor, compaixão, liberdade, sensibilidade, harmonia, tolerância. Vivam com elas, lutem por elas. Vale a pena. Eu vou fazê-lo. A AMI vai continuar a expandi-las. É em nome dessas flores que chamo filhos a todas as crianças do Mundo e amigos a todos os seres humanos. Já não consigo viver de outro modo.
É essa hoje a minha luta. É ela que me mantém ainda vivo. Afinal ainda tenho sonhos…

 


 



publicado por Fernando Nobre às 10:00
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18 comentários:
De paula a 21 de Dezembro de 2009 às 14:59
parece-me que celebra mais um aniversário.
mando-lhe um sorriso de parabéns para aqui, para este texto que tanto gosto.


De paula a 2 de Junho de 2009 às 23:35
É aqui, neste texto, nesta época que procuro uma fuga nas minhas horas de cansaço. É aqui que me parece ver a partir de dentro dos seus olhos o mundo, os sentimentos, as duvidas, o ser humano, e as certezas. As certezas que eu tanto invejo, que gostaria de ter para mim alguma, só uma que fosse, para além da da morte.
É aqui neste texto, que revejo, reouço, a música de simon and garfunkel «bridge over troubled water».
Todos temos as nossas estratégias para que sigamos levando a vida por essa realidade fora. Esta aqui, é uma das minhas. Isto não é um comentário, é um registo, para mim, num lugar que não é meu.

Já agora, desejo-lhe que sobreviva à extenuante (penso eu) campanha eleitoral em que anda com um «valeu a pena», «não me enganei».
Cuide-se Dr.


De Webmaster a 7 de Março de 2009 às 04:23
A equipa do Peticao.com.pt agradece que a autora da petição http://www.peticao.com.pt/fernando-nobre entre em contacto, pois não preencheu o seu email.


De Josemir Moura a 26 de Dezembro de 2008 às 19:06
Sr. Fernando Nobre,

A PAZ seja contigo! Foi através de um amigo português que tomei conhecimento do blog e da grandeza do seu trabalho. FIQUEI DEVERAS EMOCIONADA! ENCANTADA!!!! MELHOR DIZENDO: EXTASIADA!!!! Sou brasileira, sedenta pelo prazer de um trabalho social que não busca uma retribuição material, e sim a satisfação de um ideal.
Só pessoas que trazem dentro de si a magnanimidade de alma, pode ainda hoje minimizar as dores alheias e atenuar na medida do possível a incapacidade do Estado de suprir as necessidades básicas dos cidadãos, principalmente dos menos favorecidos.
Esse trabalho, sem dúvida, é o ideal de muitos, mas poucos o ousam fazê-lo, causa essa que deveria ser abraçada pelo mundo inteiro
Mas, não devemos perder as esperanças!!! Continuo acreditando nos homens de boa vontade, que em Portugal se chama Dr. Fernando Nobre. Continuo acreditando em pessoas auto-suficientes que trabalham voluntariamente para auxiliar outras que não estão em condições de cuidar de si mesmas.
A motivação é essencial. Não temos como por fim a uma guerra, mas se não o fizermos, quem vai fazê-lo? "A frustração gera uma energia para lutar mais".
Parabéns! Que DEUS o abençoe cada vez mais na sua caminhada e preserve em si a "nobreza" que traz não só no nome, mas na alma!


De Fernando Nobre a 2 de Janeiro de 2009 às 08:50
Obrigado pelo seu comentário. Acredito, parafraseando um sábio, que o optimismo da vontade acabe sempre por superar o pessimismo da razão. Espero, como aos demais amigos e amigas que aqui me manifestam confiança e me dão força para continuar (e simultâneamente aumentam o peso da minha canga, dos meus deveres...), nunca a desiludir querida amjga. Grande abraço!


De Anónimo a 23 de Dezembro de 2008 às 16:52
Senhor Professor
Se a sua juventude foi linda, este seu texto que acabo de ler é igualmente lindo, maravilhoso...
As suas palavras são um bálsamo para as nossas almas. Precisamos de ler e ouvir as suas opiniões sobre o que se passa no mundo. As pessoas menos esclarecidas e as mais obstinadas têm de ser elucidadas...
No seu notável livro "Imagens contra a indiferença" considero admiráveis os rótulos de Esperança e de Dignidade humana que atribuiu às fotografias daqueles rostos de países tão distantes e sofridos que imortalizou para a posteridade...
Ao felicitá-lo pelo seu recente aniversário, desejo-lhe uma longa vida com saúde para nos poder brindar com mais livros e mais textos orientadores das nossas consciências...
Os abnegados corajosos não mudam o Mundo, mas contribuem para a sua paulatina mudança e mudam sobretudo pequenos mundos. A semente já cá está.
Parabéns.
Uma grande admiradora


De Natália Vieira a 23 de Dezembro de 2008 às 14:58
Hoje descobri o seu blog e fiquei muito feliz, porque agora posso escrever-lhe o que sinto sobre si e sobre o seu trabalho.
Admiro-o imenso e para mim é um daqueles seres magníficos que dignificam a vida.
Obrigada por existir.
Natália Vieira
Ilha da Madeira


De NORMA HELENA GUERRERO a 23 de Dezembro de 2008 às 14:28
Caro Fernando, encontrei o seu blog através do site eclesia, que visito todos os dias. Sou brasileira, vivo no rio de Janeiro e tenho 52 anos. Você fez uma colocação encantadora e quero lhe dizer que você não está sozinho seja nos seus pensamentos, sentimentos e desejos. É urgente, arregimentar os corações inquietos e fortalece-los com certezas fincadas na esperança que não decepciona. Um abraço bem brasileiro, voltarei ao blog com alegria.


De Fernando Nobre a 25 de Dezembro de 2008 às 13:56
Até sempre minha amiga. Abraço fraterno.


De Paula Raposo a 22 de Dezembro de 2008 às 13:16
Parabéns, Dr.! Um textp magnífico e de como não perdendo os sonhos nos transportamos para um mundo melhor. Um abraço.


De pine a 22 de Dezembro de 2008 às 07:58
Eu sou uma pessoa de pouca fé. Já acreditei que o mundo podia ser mudado, mas não acredito mais... É pois para mim um renovar de esperança o seu exemplo e este contacto um pouco mais directo consigo.
Mostre-nos o que pode ser feito, o que, afinal, cada ser humano, cada um de nós pode fazer.


De Ana a 22 de Dezembro de 2008 às 03:51
Um acaso feliz fez-me encontrar o seu blog precisamente hoje.
Parabéns , Dr Fernando Nobre, pelo seu aniversário, mas, em especial, pela sua luta que tenho acompanhado com admiração.
Acabo de folhear com atenção o seu último livro. Quem escreve e olha assim, nunca estará no Outono da vida. As flores, que são aqueles a quem com amor chama filhos, não deixarão de florir em si uma eterna Primavera.
Que os seus sonhos nunca o abandonem.
Obrigada por me fazer acreditar na humanidade que , apesar de tudo, alguns ainda persistem em dignificar.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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