Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

No passado mês de Agosto, na Geórgia, ex-república da URSS que bem conheço, devido ao aventurismo intempestivo do seu pouco democrático presidente, tivemos a primeira consequência concreta da aventura irresponsável da “independência” do Kosovo.
Independência essa, incentivada e reconhecida à revelia do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, pelos EUA, a maioria dos Estados Europeus (Espanha e poucos outros povos foram até hoje, honrosas excepções) e a própria U.E.


À força do direito sobrepôs-se o direito da força.


Não contentes com este acto violador, verdadeira cereja em cima de um bolo de irresponsabilidade e leviandade, o “Ocidente” (entenda-se os EUA e alguns países europeus) resolveu cercar a Rússia com o alargamento da NATO às suas fronteiras e a instalação de mísseis nas suas mais próximas cercanias, sob pretextos falaciosos de melhor interceptar hipotéticos mísseis iranianos… O “Ocidente” quis esfolar o urso pensando-o morto ou agonizante.
Erro crasso: o urso - a Rússia - só estava adormecido. Acordou: ainda tem garras e dentes fortes e não aceita ser esfolado vivo.
O anão político e militar europeu, sem liderança nem estratégia, anuiu, consentiu e calou-se perante essa estratégia de afrontamento contra a Rússia e fragilizou-se ainda mais. Em vez de se construir a Europa (do Atlântico aos Urais) incluindo a Rússia, o que teria todo o cabimento histórico, cultural, religioso, económico, energético, politico, militar e geográfico, para edificar um verdadeiro pilar europeu sólido no Mundo, que tanto faz falta, optou-se pela exclusão da Rússia.
Os “líderes” europeus, na sua subserviência aos EUA, esqueceram-se mais uma vez que os interesses estratégicos vitais para a Europa não são sempre, nem necessariamente, os mesmos que para os EUA!


Para as organizações humanitárias o futuro anuncia-se, para já, negro de conflitos independentistas. Com o Kosovo e agora também a Ossétia do Sul e a Abecásia, a caixa de Pandora está escancarada. Se a moda dos referendos independentistas pega e se alastra pelo mundo, fazendo tábua rasa sobre o conceito de intangibilidade das fronteiras estatais actuais (pós-coloniais por exemplo), teremos tragédias sem fim em todos os continentes.


A Europa tem que encetar já, porque tem tudo a ganhar com isso, todos os esforços para incluir a Rússia no seu seio. Só assim a Rússia poderá aperfeiçoar e acelerar a sua caminhada para a democracia e se evitará mais cenários de guerra na Europa.
Ainda não é tarde mas é urgente, começar-se um diálogo construtivo em vez da política da exclusão, da humilhação e do confronto que se tem levado a cabo contra a Rússia, desde 1991.


Essa política pode interessar os EUA mas não interessa certamente à Europa.
Portugal, país pequeno e militarmente frágil, ainda que dos raríssimos Estados-Nação no Mundo, deve defender sempre o Direito Internacional e a Carta das Nações Unidas. Já nos chegou o erro grosseiro do Iraque.
Assim actuando, daremos um contributo importante para a nossa própria salvaguarda futura, para a paz e para amenizar as tragédias humanas que se avizinham.


 



publicado por Fernando Nobre às 16:00
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15 comentários:
De JNW a 13 de Outubro de 2009 às 09:58
Se acreditar nas suas palavras do que Mikael Saakashvili é “pouco democrático presidente”, então como podemos classificar dois últimos presidentes russos?

E mesmo assim, o Senhor defende a união com o país, que despreza profundamente a Europa / EU. Se calhar o problema não está na democracia do estado georgiano?


De Fernando Nobre a 17 de Outubro de 2009 às 23:39
Caro amigo como é evidente os presidentes russos também não têm sido democráticos como eu entendo que deve ser a Democracia. Os senhores Bush, Cheney e Rumsfeld e companhia também não se enquadram na minha bitola de democratas...
O que eu pretendo enquanto europeu e europeista convicto e sem qualquer complexo de inferioridade (tenho sangue português, holandês e francês e os meus filhos mais velhos têm ainda mais o belga, o inglês e...o canadiano=ocidental) é atrair a Rússia, por todas as razões como já o escrevi, para o seio da Europa de que faz parte. Só assim teremos um pilar europeu forte e capaz de equilibrar o Mundo. A Ucrânia, a Georgia e a Bielorrússia virão depois automaticamente. Depois! Tentar fazer isso ao contrário é pôr a carroça antes dos bois e não leva a parte nenhuma se não é aos confrontos que tanto mal fizeram à Europa. Isso pode ser do interesse de outros que nos querem ver fracos e dependentes. NÃO É DO INTERESSE DOS EUROPEUS. Abraço.


De pine a 27 de Dezembro de 2008 às 20:59
Algo que que me incomodou em Agosto foi ver e ouvir um pouco por toda a parte voltar a falar-se em Ocidente e Oriente como se de realidades políticas se tratassem. Talvez o meu espanto seja ingénuo... Talvez ainda ande por aí a bambolear uma determinada cortina que insiste em manter-se cerrada às mãos de alguns países (EUA,p.ex....)


De Graza a 26 de Dezembro de 2008 às 22:55
Pelos vistos não "chegou o erro grosseiro do Iraque".
Subscrevo inteiramente.


De Joaquim S. a 26 de Dezembro de 2008 às 19:50
Caro Dr. Fernando Nobre

gostaria de começar por lhe dizer que muito lhe agradeço por ter iniciado este seu blog "Contra a Indiferença", que acompanho com profundo interesse.


Não poderia estar mais de acordo consigo. É hora de a Europa, através dos seus governantes, abrirem a "janela do futuro", acolhendo no seu espaço, no seu coração o anseio legitimo do povo russo - o anseio de liberdade, de merecida convivência fraterna com os irmãos europeus. Aliás, o mesmo deveria ser feito, sem demoras, ao povo Turco, deixando de adiar para um futuro longínquo uma adesão necessária.

É hora da política do consenso, da paz, do abraço fraterno aos povos que, social, cultural e geograficamente também fazem parte de uma Europa das Nações. Só assim garantiremos uma paz duradoura, um progresso justo, uma estabilidade genuina. Todos precisamos de todos!

Bem Haja Dr. Fernando Nobre pelo seu incansável trabalho, pela sua devoção à Causa da Justiça e da Fraternidade, pelo seu exemplo que nos toca no coração. Obrigado!


De Antonio Perry a 25 de Dezembro de 2008 às 22:37
Devo felicitar o Dr Fernando Nobre que tanto admiro pelos seu 57 anos vividos com umsa devoção pouco habitual pelos outros e pela Humanidade.Pelas crianças mulheres e velhos desprotegidos deste mundo. Tenho a mesma idade que o Dr Fernando Nobre e ao olhar para si sinto um vazio profundo na minha vida em que nada fiz pelos outros e passei o tempo todo a olhar para o meu umbigo,com a ganancia de ganhar mais dinheiro e ter mais bens materiais.Já chorei a ouvir o Dr Fernando Nobre a relatar na rádio em 1990 a tragédia que presenciou quando viu as crianças dos orfanatos da Roménia acabada de sair de quatro décadas de violento totalitarismo.Desde então tenho tentado ser um contribuinte da AMI em todas as suas iniciativas.Mas isso não é nada em relação ao desprendimento e dedicação às causas humanitárias do Dr Fernando Nobre.
Recebi este Natal como prenda do meu filho que já me sabia um grande admirador o livro Imagens Contra a Indiferença que sem duvida me tocou.
Gostaria no entanto incentivar o Dr Fernando Nobre a publicar outro livro que mostrasse as imagens mais chocantes daquilo por que passou.Acho que deste modo daria um grande abanão nas consciencias das pessoas.O Choque contra a Indiferença.
Assim me confesso pequenino perante a grandeza de espirito de um homem que eu tenho seguido como um exemplo de vida.Há muito poucos assim.Pena porque se houvesse mais certamente viveriamos num mundo melhor e mais justo.
Comtoda a admiração
Antonio Perry


De Maria a 9 de Fevereiro de 2011 às 21:45
Pena é meter-se na politica .......


De carla cunha a 25 de Dezembro de 2008 às 02:42
Dr. Fernando Nobre há já algum tempo a esta parte que tenho uma admiração po si (pelo trabalho que vem desenvolvendo) mto grande, neste momento da minha vida sinto que tenho mto para dar e não consigo desenvolver a ideia de como, sou mãe adoptiva há 2 dois anos o que vi o que a minha filha sofrer não posso ficar indiferente ao que se passa no resto do mundo que nos envolve, sem prejudicar a educação e o amor que tenho que de dispensar à minha filha sinto que ainda tenho forças para ajudar os que mais precisam de nós, tenho formação na área de bibliotecas e documentação, alguma experiência com crianças desfavorecidas e gostaria de me envolver mais na área do voluntariado(tudo isto inspirado na sua experiência de vida o que me apraz neste momento da minha vida), gostraira que tivesse isso em consideração e contasse comigo para o que achar pertinente.
Com os melhores cumprimentos
Carla Cunha


De Fernando Nobre a 25 de Dezembro de 2008 às 16:43
Amiga podemos sempre ser úteis. Se assim desejar contacte a AMI que, estou certo, saberá canalisar as suas competência e disponibilidade.Abraço.


De A. R a 23 de Dezembro de 2008 às 23:55
Uma visão completamente desintegrada do passado histórico bem recente. Vistas curtas... lamento.


De Fernando Nobre a 24 de Dezembro de 2008 às 14:15
Aceito o seu comentario embora discorde frontalmente. O tempo dirá quem tem vistas curtas... Obrigado.


De KLATUU O EMBUÇADO a 23 de Dezembro de 2008 às 19:25
Quando a Rússia se afirma urso - sem ironia - está numa crise de nacionalismo, e se vem da Esquerda ou da Direita é irrelevante, há séculos que na Rússia a faixa de população dos que sofrem é a mesma; talvez os Russos devessem correr todos de repente para Moscovo e arrasá-la - contornando apenas alguns lugares, demasiado preciosos... :)

Mas a inabilidade da política externa Norte-americana pós-guerra fria é um facto. A questão é crucial: é ou não a Rússia parte da Civilização Ocidental? E não falo de História, como é óbvio, a questão é política, e a resposta também depende dos Russos... Querem ser?

A «exclusão da Rússia» não é sem motivo; a Europa Ocidental nunca lhe reconhecerá qualquer preponderância na condução do seu destino, a questão é de «geografia mental»: a Rússia não é o centro do Ocidente, e a sua «alma», mística e autocentrada, nada cosmopolita e ancorada num solo pátrio que acreditam ser por si uma só civilização, erguida na sua grandeza territorial, é uma das menos europeias no sentido helénico.

De qualquer modo, não penso que a Europa Ocidental deva ter uma estratégia puramente atlântica nesta matéria; a questão dos mísseis é irrelevante, pura carta política (os mísseis não são uma ameaça para a Rússia; admiti-lo é ridículo), mas é um lance que dá um sinal preocupante: apesar da Rússia actual estar muito longe de ser uma democracia e um estado sem pretensões de expansão territorial que não seja uma ameaça para estados vizinhos - é fundamental para a estabilidade da Europa não a excluir à partida da construção de uma nova era de paz e desenvolvimento em que a Comunidade Europeia continua a apostar.

Cumprimentos. Um Bom Natal
P. S. A foto da menina é lindíssima.


De Aurora a 25 de Dezembro de 2008 às 12:51
Ainda bem que descobri esta "janela" sua,para lhe dizer que o mundo poderia ser muito mais feliz,se existem muitos mais homens como o Srº Fernando.
Aprecio a sua dádiva e entrega absoluta pelos mais carenciados ,vítimas da ganância de outros que apenas sabem destruir aquilo que há de mais belo no ser humano.
Boas-festas e uma abraço de uma sócia da AMI.


De João de Brecht a 22 de Dezembro de 2008 às 22:17
Boa Noite.
Enquanto lia o seu artigo surgiu-me uma dúvida...
Fala numa aproximação europeia à Rússia (concordo totalmente com a necessidade de uma plataforma de entendimento) mas acho que quanto à sua democratização "acelerada" há algo a ter em conta; Até 1917, este país conheceu um regime czarista e logo de seguida o socialista. Num país em que toda a tradição cultural, histórica e política apontam para uma sociedade onde a liberdade é limitada (até agora com uma constituição democrática), como poderemos incutir uma "evolução" num sentido democrático num país que desconhece os termos de propriedade privada e em que a classe média é ainda uma minoria?
Se é verdade que a tendencia actual do mundo é a democratização, quão democráticos seremos se impingirmos uma democracia a quem não acredita nela?

Não estou de forma alguma a criticar o texto, que na minha opinião é de grande qualidade, queria apenas saber qual é a sua opinião neste ponto.

Bem-haja


De Fernando Nobre a 23 de Dezembro de 2008 às 12:29
O meu amigo tem razão.
Não obstante, acredito que todos os povos aspiram à liberdade e se a Rússia for integrada no espaço europeu também, forçosamente, evoluirá nesse sentido, à semelhança do que acontecerá à Geórgia e à Ucrânia.
Obrigado.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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