Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

Dia 28 de Julho de 2008, mercê de uma autorização especial do governo ucraniano, visitei o complexo nuclear de Chernobyl.
Vinte e dois anos antes, dia 26 de Abril de 1986, após poucos meses da sua inauguração, explodiu (Erro humano? Técnico? Até hoje não se sabe…) o reactor nuclear nº 4, o mais recente e moderno dos quatro reactores do complexo nuclear lançado em 1970, deixando escapar desde então material radioactivo, equivalente disseram-me in loco, a umas 500 bombas nucleares semelhantes às que foram lançadas em Nagasaki ou Hiroshima.
Nesse dia a Ucrânia, a Europa e o Mundo estiveram à beira de uma imensa tragédia. Felizmente:
1. O vento levou a maior parte da nuvem radioactiva para a floresta fronteiriça com a Bielorrússia e não para a capital ucraniana, Kiev a mais ou menos 100 km, já então com cerca de 4 milhões de habitantes;
2. O incêndio provocado pela explosão do reactor nº 4 não se propagou aos reactores nº 3 (instalado paredes meias com o nº 4), nem aos outros dois situados a uns 500 metros...
Mesmo assim foram evacuadas à volta de 600 000 pessoas de Chernobyl e das vilas e aldeias vizinhas num raio de 60 km, ainda hoje fantasmagóricas ou apenas retomando lentamente vida.
Terão morrido centenas ou milhares de pessoas (efeitos imediatos ou a longo termo): ninguém sabe ao certo!
O que eu sei é que ainda hoje, passados mais de 22 anos da tragédia:
1. Não mais de 60% das salas do reactor nº 4 foram exploradas, estando as outras 40% inacessíveis pelo nível de radioactividade, sendo que os trabalhadores que entram na central ou tentam tapar os buracos da cobertura do deficiente caixão betão/metal (ferrugento e apodrecido), só ali podem trabalhar 10 a 12 minutos por dia mesmo devidamente apetrechados.

2. Por onde andei, nas vizinhanças do reactor nº 4, sempre acompanhado por um contador de radioactividade, fui submetido a radiações 20 a 300 vezes superiores ao normal!

3. Num hospital especializado de Kiev, que visitei em Fevereiro de 2008, continuam a morrer em quantidade anormal, pessoas com cancros diversos, devido à catástrofe de Chernobyl.

4. Na cidade de Chernobyl, junto ao complexo nuclear, só vivem hoje cerca de 1 500 pessoas das 136 000 que ali habitavam. De salientar, que os reactores nucleares nº 1, 2 e 3 só foram encerrados em 1991, 1996 e 2000 respectivamente! Ou seja, 5, 10 e 12 anos depois da tragédia…

5. É preciso urgentemente fazer um novo e definitivo sarcófago que isole o reactor nº 4. Lamentavelmente, até hoje, a Comunidade Internacional ainda não encontrou os fundos necessários…

6. Os rios e lençóis freáticos foram e continuam a ser contaminados e ainda hoje ninguém sabe ao certo o que se passa no “coração” do reactor que explodiu em 1986.

7. Na Bielorrússia 20% da população vive em regiões contaminadas e setenta aldeias foram para sempre soterradas ou abandonadas.
Por tudo isto, não obstante me garantirem que a próxima geração das centrais nucleares na Europa será 100% segura (?!) quando no nosso país, se começa a aventar a possibilidade da necessidade de energia nuclear, pese embora os “incidentes” recentes na França, Espanha, Suécia, Alemanha… afirmo, mais do que nunca, NÃO à energia nuclear.
Em Portugal temos tantas alternativas! Sol, vento, rios, marés…! Não temos qualquer desculpa para hipotecar, nem que seja com os resíduos nucleares, o futuro de dezenas ou centenas de gerações.


Haja bom senso!
 

 



publicado por Fernando Nobre às 15:48
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7 comentários:
De JNW a 13 de Outubro de 2009 às 09:50
E porque não Chornobyl, Kyiv, Belarus... ou só a Mumbai tem o direito de não ser o Bombaim?

Em 1986 viviam 2,650 milhões e não 4 milhões

JNW


De Rui Vilela a 23 de Fevereiro de 2009 às 23:06
Há uma agência de turismo polaca que oferece visitas guiadas a chernobyl. Estou a pensar ir lá, e pelos vistos é bastante comum. Se a radiação na superfície perto da central é inferior a 1mRam/hora não tem problema algum. O problema é mesmo o solo por baixo dos nossos pés. Mesmo assim, não me parece que haja algo de interessante para se ver a não ser sucata, e material de degradação.


De Bruno a 8 de Janeiro de 2009 às 22:10
Meu caro senhor
Sou um estudante do ensino secundário que sem sítio onde conseguir encontrar uma visão mais minuciosa e com informção realmente importante (não como a que passa nos telejornais) encontrou no seu blog a sua opnião e explicação de temas actuais.
Desejo-lhe uma continuação de um bom trabalho


De Jorge Mendonça a 4 de Janeiro de 2009 às 19:44
É preciso travar com urgência este ímpeto tardio e tão desajustado de apostar na energia nuclear. Porquê o nuclear quando estão mais do que provados os perigos deste tipo de energia. Porquê o nuclear quando existem tantas formas limpas de produzir energia.
Nuclear Não, obviamente!


De inês a 28 de Dezembro de 2008 às 22:38
Bom senso, nem sequer se pede que sejam inteligentes, o pior é serem capazes de se abster da asneira em vez de insistirem em ideias desajustadas. E parece o mais difícil de atingir...


De pine a 27 de Dezembro de 2008 às 20:44
Eu também digo não à energia Nuclear! Parece-me a mim que Portugal quer sempre aquilo que está além do que realmente precisa, das suas reais necessidades e não tem noção do que é , de facto, melhor para nós... Será que ficar bem na fotografia é assim tão importante?....


De O BAR DO OSSIAN a 26 de Dezembro de 2008 às 04:39
O Bar do Ossian deseja-lhe um Bom Natal e um auspicioso Ano Novo, em prol dos desvalidos e dos que sofrem, espezinhados no anonimato pelos poderios do mundo.

Abraço lusitano!
P. S. Boa fortuna para o blog e bem-vindo à blogosfera.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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