Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

Ao ouvir as notícias dos últimos 3 dias (200 mortos em Gaza) só posso, mais uma vez , lamentar a escalada de violência na Terra Santa. 

Como é que é possível que, no lugar em que as três religiões do Livro veneram de igual modo os três patriarcas (Abraão, Isaac e Jacob), se assista, continuamente, a tamanha barbárie e que a política do "olho por olho, dente por dente" esteja a deixar-nos a todos cegos e desdentados? 

Esperemos que a próxima liderança norte-americana tenha capacidade para sentar à mesa de negociação os envolvidos e encontrar uma solução. 

Continua actual o texto que escrevi em 2002, como editorial da AMInotícias:

 

Tenho apenas uma pretensão: a de ser um espírito livre. Acredito que a consciência humana é o que há de mais belo porque, quando impoluta, é inquebrantável, indomável e não se vende, e dou como exemplo admirável o insigne Cônsul Aristides de Sousa Mendes, de ilustre memória para toda a Humanidade, na sua intransigente e justa defesa dos judeus durante a 2ª Guerra Mundial.


Dito isto, entendo que há momentos em que, como todo o ser humano, tenho o dever indeclinável de dar um grito de protesto, por imperativo de consciência: é o que tenho feito e espero poder continuar a fazer, enquanto tiver força e oportunidade, contra as injustiças, venham elas de onde vierem.


Hoje, não me posso calar perante o insuportável e intolerável drama do sacrificado e mártir povo palestino, e o cortejo atroz das suas inocentes vítimas israelitas.


O exacerbado drama humano em curso na Palestina e em Israel explica-se, como é evidente, por factores históricos mas, actualmente, sobretudo: 

 

1º- pela intolerância e arrogância do governo israelita tendo à cabeça um primeiro ministro com marcadas tendências neonazis que julga, com o álibi da “luta contra o terrorismo”, tudo lhe ser permitido para matar a Autoridade Palestina, que manifestamente abomina, sem que haja ninguém para o parar na sua louca e suicidária aventura que, manifestamente, já vai longa! Lembro-me do cerco de Beirute em 1982 (estive lá!) e das matanças nos campos de Sabra e Chatila.... E não me venham com o argumento de que “é democrático porque foi eleito”, porque, nesse caso, o famigerado, louco e assassino Hitler também era democrático porque também ele foi eleito em 1933 e, nesse caso, se o Le Pen um dia fosse eleito também se tornaria, ipso facto, democrático...! Como é possível que um povo, o judaico, que tem uma história milenar repleta de sofrimento e de vultos importantíssimos para a Humanidade aceite ser governado por tal carrasco? Interrogo-me, não compreendo. Seria importantíssimo relerem, entre outros, MILA 18, EXODUS, OH JERUSALEM... e repensarem nos Dez Mandamentos de Moisés e no suicídio colectivo em MASSADA durante a ocupação romana para entenderem que não têm o direito de fazerem aos outros o que injustamente lhes fizeram... Por isso sofri ao visitar os campos de extermínio de Auschwitz e de Dachau. Nunca entenderei a barbárie!

2º- pela incompetência e corrupção de uma certa elite política palestiniana e árabe completamente alheada dos verdadeiros interesses dos seus povos, que pouco ou nada fizeram para melhorar as suas tristes e miseráveis condições de vida, nomeadamente nos campos de refugiados, enquanto vultuosos financiamentos da União Europeia, do Japão, da Arábia Saudita, dos Emiratos Árabes e da importante diáspora palestiniana iam chegando... De salientar que o pouco que tinha sido feito está hoje reduzido a escombros pelo vandalismo arrasador das invasões das forças israelitas...

3º- pela indiferença, falta de coerência, inoperância, cobardia e parcialidade da comunidade internacional, em todo o seu espectro e esplendor, dos Estados Unidos da América à União Europeia, passando pelas Nações Unidas e outros ...


Nenhum espírito minimamente bem formado e informado, inclusivamente sobre o sumário da História dos últimos 3000 anos!, pode aceitar ou sequer alhear-se das acções e tendências em curso nem deixar de estar seriamente preocupado com o futuro da Democracia e, por isso, da Paz no Mundo.


Porque no fim de contas é “apenas” e “só” isto que está em causa: a Paz e a Democracia no Mundo. Com o “cair da máscara”, acção cinicamente legitimada com o trágico 11 de Setembro de 2001, instalou-se, sem a mínima vergonha, a política de dois pesos e duas medidas, do mais forte, da indiferença, da intolerância, do desprezo, da arrogância e do “quero, posso e mando” que em nada se coaduna com um Mundo harmonioso e sustentado, que legitimamente pretendemos para todos.

 

Um Requiem pela Humanidade, orquestrado e dirigido por maléficos maestros, está a ser tocado. Oxalá seja interrompido a tempo dando lugar, a nível global, a um novo sistema baseado em Princípios, Valores e Ética com os mesmos Deveres e Direitos para todos, sem excepção.

 

A utilização do vocábulo “terrorista” tem manifestamente, e sobretudo após o 11 de Setembro, intenções e estigmas que importa desmascarar. Não está em causa o profundo sentimento de dor que sentimos pelas vítimas, sejam elas israelitas ou palestinianas, martirizadas pela violência bárbara que a todo o momento as despedaça, (até que seja a nossa vez!), seja às mãos de um homem ou mulher bomba (amanhã, quem sabe?, uma criança), seja às mãos de um condutor de um buldozer que lhes desfaz a casa por cima das cabeças só porque não querem abandoná-las ou porque não as abandonam suficientemente depressa! O que está evidentemente em causa é a perversa manipulação na utilização da palavra “terrorista”. “Terroristas”, poderemos vir a ser considerados todos nós amanhã, você e eu, tal como foram sempre considerados todos os resistentes e, por isso, executados quando apanhados, como sucedeu, por exemplo, com muitos europeus (tais como os heróicos resistentes judeus do Gueto de Varsóvia) assassinados pelos nazis alemães durante a segunda guerra mundial. “Rebeldes” ou “Terroristas” já o foram, ou de tal seriam apelidados hoje!, todos os Resistentes, Libertadores ou Fundadores de Estados, alguns hoje quase endeusados pelos seus povos, tais como Dom Afonso Henriques, Simon Bolívar, José de San Martin, George Washington, General De Gaule, Ben Gourion, Agostinho Neto, Patrício Lumunba, Mao Tse Tung, Ho Chi Minh e milhares de outros que sentiram a necessidade de, em nome dos seus povos, resistir por todos os meios ao seu alcance, mesmo os mais cruéis, à opressão, à humilhação e ao desespero infligidos aos seus povos ou para os levar rapidamente à vitória... Todos eles comanditaram e ordenaram acções de terror contra os seus dominadores ou inimigos vitimando dezenas, centenas, milhares, centenas de milhares, ... de vítimas inocentes: trata-se de factos. Tudo o resto são interpretações históricas, políticas e morais ajuizadas em função da visão ou do interesse dos que tiveram a sorte de saírem vencedores!


Ai dos perdedores, porque para esses não há nem nunca houve perdão: muitos acabaram fuzilados, enforcados ou a apodrecer em masmorras! Assim teriam acabado todos os que citei, como aconteceu com o Patrício Lumunba, se tivessem perdido! Outros houve, porém, embora também terroristas, tais como Fouché, Estaline, Menahem Beguin, Pinochet... que foram adulados acabando as suas vidas feitos duques, presidentes, primeiros ministros e mesmo Prémio Nobel da Paz, pasme-se!


Assim nos querem vender hoje o Arafat e certos palestinos como “terroristas” mas não o fazem com os “terroristas” Ariel Sharon e alguns dos seus seguidores.
No entanto, ambas as partes têm folhas de serviço de puro terror, a primeira como entidade dominada, humilhada e resistente e a segunda como entidade dominadora e opressora ... embora sempre com as palavras Deus, Paz, Democracia e Povo nos lábios.

 

Ouso pois afirmar que para haver Paz na Palestina tem de haver absolutamente: Equidade, Equilíbrio, Respeito, Humanidade e Tolerância.
Quero com isso dizer:
- Dois Estados Independentes (e não um Independente, Israel, e o outro uma Colónia, um Bantustão ou um Protectorado desmilitarizado, sem controlo das suas fronteiras e sem direito a uma política externa autónoma...), o que obrigatoriamente impõe 
- o desmantelamento e o fim dos colonatos israelitas no futuro Estado da Palestina (que já só representa 22% da antiga palestina) e exige que 
- Jerusalém, Cidade Santa, seja reconhecida universalmente como Cidade de Paz, seja desmilitarizada (já que infelizmente, pelos vistos, não se pode desmilitarizar todo o Mundo!), e seja a Capital dos dois povos e dos dois Estados, que deverão ser Estados Irmãos, pois só assim sobreviverão.

 

Judeus e Palestinos deveriam ter sempre em mente que têm o mesmo Patriarca: Abraão, o Pai das três religiões monotéistas do Mundo: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo! É tempo, após desavenças milenares, de viverem como Irmãos em nome de Abraão, Ismael, Isaac e Jacob: a Paz no Mundo assim o exige!

 

É pois, simplesmente, em nome desse Ideal de Justiça e de Humanidade e por isso forçosamente de Respeito pelo Outro (Liberdade, Fraternidade e Igualdade... lembram-se?), que é, para mim, o único que poderia e deveria levar à Paz no nosso Mundo, que eu tenho gritado e continuarei a gritar: por imperativo de consciência! Pode-vos parecer uma Utopia mas... garanto-vos que continuo a achar que vale a pena lutar por utopias, mesmo quando “brindado” com “avisos-ameaças” como recentemente me aconteceu. Está a tornar-se perigoso dizer o que se pensa. Será? Se assim for, maior razão para gritar, por imperativo de consciência, o meu protesto de homem livre.



publicado por Fernando Nobre às 14:12
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7 comentários:
De Graza a 3 de Janeiro de 2009 às 13:42
Um post de leitura obrigatória!


De Pedro de Azevedo Peres a 2 de Janeiro de 2009 às 17:41
Criei um blog no dia passado dia 30. (ver sff http :/ palestinapt.blogspot.com / ) que tem por objectivo ser um ponto de encontro para todos os que, não pondo em causa a existência do Estado de Israel, entendem que o Povo Palestino tem direito à sua Pátria e ambos os povos o direito e a obrigação de viver em Paz..
Posso publicar o seu comentário, indicando a fonte e estabelecendo o link ?

Um abraço



De maria azenha a 31 de Dezembro de 2008 às 12:16
Poema do ano velho novo


pena é que o amor seja lembrado só nestes dias
e que dele se fale com abundância quando a chuva cai agora
e ainda há muito frio e as guerras se aceleram
ao fechar do livro do velho ano
para nos dizer que houve pelo menos um dia de tréguas
e acabe tudo como principia depois da neve

pena é que só agora viva a magia de um colar de pérolas
com sua métrica e nostalgia de luz alumiando as trevas das ruas.
alimentamos o canto insonoro dos homens sem memória livre
cobrindo as mãos com o silêncio dos injustos .
e voam como mariposas da paisagem de Gaza
as romãs de sangue que floriram a toda a hora.
fazem parte do soar das doze badaladas,
quer tu queiras ou não.

não sei a quem pedir mais Paz no frágil cãntaro do tempo,
reparto contigo o vinho e o pão que a terra deu este ano.

na rua silenciosa dormem os cães e os mendigos
sem uma côdea de sonho para os próximos dias do ano novo.
mais tarde adormecem na almofada macia os rostos da anestesia
no terrorismo da jaula dos dias .

pela indiferença morremos.
pela diferença somos ainda poucos
e caminhamos sobre as ondas do mar chorando para dentro dos olhos
a terra inteira.


maria azenha

P.S- grata pela sua Indiferença!


De Fernando Nobre a 31 de Dezembro de 2008 às 16:02
Lindo poema. Agora é chegado o tempo das acções. Amiga poucos mas destemidos. Não hesite em ir ter com os famintos. Somos todos gotas de água mas todas as gotas são indispensáveis. Grande abraço.


De paula a 30 de Dezembro de 2008 às 23:10
obrigada por permitir que veja este lado do conflito. obrigada por ajudar a entender. obrigada


De C.G.Coelho a 30 de Dezembro de 2008 às 18:36
Caro amigo (desculpe o abuso, mas como me tornei leitora diária deste blogue penso poder tratá-lo assim).

Tive o privilégio de descobrir este seu "caderno virtual de reflexões " (é como eu denomino os blogues familiares e outros que gosto de visitar) por mero acaso. Depois, a milha filha de 4 anos teve a sorte de receber do "pai natal", "menino Jesus", como gostarmos mais, o livro das histórias que contou aos seus filhos.
Como tal, confesso-me viciada e não perco um dia sem vir aqui partilhar consigo a sua visão do mundo.

Ora, este seu texto tão actual, INFELIZMENTE pelas piores razões recordou-me Brecht e algo que deveria fazer parte da nossa vida quotidiana para que nem NÓS nem os OUTROS alguma vez possamos esquecer...

«A indiferença

Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.»


De Fernando Nobre a 31 de Dezembro de 2008 às 15:57
Existem várias versões desse imperioso e sábio grito. Sempre de actualidade. Uma versão, a primeira?, é atribuída ao Pastor Martin Niemoller que foi um activista anti nazi. Não há grito mais poderoso contra a indiferença e a cobardia. Obrigado por o relembrar.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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