Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Meu Deus como ouso eu escrever-te esta carta quando de Ti tanto duvidei e ainda por vezes duvido embora não entenda o Universo sem Ti. É certo que de Ti, ou dos teus mensageiros (Abraão, Moisés, Boudha, Jesus, Maomé), retive o que norteou e norteia a minha vida: “Não matarás”, “Que aquele de entre vós que não cometeu pecado lhe lance a primeira pedra” e “...perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido...” e, sobretudo, que o Amor é a essência da vida!

E é por isso, Jahvé, que ouso escrever-Te. Faço-o porque, confesso, estou perplexo, revoltado e perdido. Se Tu és único, e por isso necessariamente o Pai de todas as criaturas, independentemente da crença que professam ou não, como entender que todos os apologistas do ódio, da guerra e da exclusão, independentemente da crença que professam ou não, ousem sem vergonha invocar permanentemente o Teu nome para justificarem os seus crimes, a sua ganância e o sofrimento que infligem aos seus irmãos? Dir-me-ás que sempre assim foi...mas será que teremos de continuar sempre nesta senda absurda, intolerante e mortífera? O “olho por olho, dente por dente” está-nos a deixar a todos cegos e desdentados...Recuso-me a aceitar-Te como qualquer “deus” menor, vingador, castigador e sectário...

Allah o que poderemos nós fazer, nós, simples poeiras efémeras, para que todos na Terra e no Universo entendam que só há um caminho para acabarmos com tanta loucura: o Amor, outro dos teus Nomes. Tu que és Luz, será que conseguirás acabar com todos os fundamentalismos e terrorismos? Será que a Tua centelha sagrada perfurará a muralha empedernida de estupidez e de indiferença assassina presente em tantas mentes tacanhas e cegas que ainda não sabem o que é humildade e sensibilidade? Se as próprias galáxias são poeiras no infinito Universo, que crias em permanência, será que esses inconscientes que são menos que átomos, assim como nós todos, se deixarão iluminar por Ti? Ainda haverá esperança? Quantos milhões de anos luz até que Tu, a Luz, os penetres e retires, e nos retires também!, das trevas?

Tu, O Inacessível, que tantas vezes procuro na dor das guerras, da fome, dos campos de refugiados...serás mesmo inacessível ou sou eu que não te sei encontrar porque emaranhado nas minhas contradições, nos meus medos? Será que só és O Invisível porque não Te queremos ver? Permanentemente mergulhados no horror ou nas névoas das nossas mentiras e ilusões estaremos condenados à cegueira e à desorientação perpétuas?

Tu, porque não te imagino de outro modo, que és Compaixão, Solidariedade e Ponte de Diálogo entre todos os teus filhos, nós todos, como é que te sentes há milénios perante tanta barbaridade? Será verdade que tudo isso é só teatro, ilusão e sonho? Será verdade que todos os terrores e atrocidades a que diariamente assistimos são indispensáveis ao nosso desenvolvimento espiritual colectivo da mesma maneira que só a escuridão dá sentido á luz? Será que um dia farás que acordemos e percebamos que todo esse não senso era só encenação? Será que a morte é o acordar, o renascer...? Andamos todos equivocados e daí a minha desorientação?

Tu, o Grande Arquitecto do Universo, como consegues manter o equilíbrio, a serenidade? Porque és o único verdadeiro sábio, conhecedor e fazedor do princípio e do fim, o alfa e o ómega da nossa caminhada aparentemente sem nexo. Sim porque só Tu, o Inalcançável, sabes donde viemos e para onde vamos. A nós restam-nos as suposições, as frustrações, os desejos, as crenças...

Só Tu, que és a única e verdadeira Força, o coreógrafo da valsa das galáxias, entendes o que a harmonia e a beleza encerram e pretendem. Para mim são necessariamente o objectivo último da Humanidade para o qual tanto gostaria de poder contribuir com a minha pincelada. Será? No Outono da minha vida, sem certeza nenhuma de alcançar o Inverno letárgico, ou revigorante, estou, meu Deus, cheio de dúvidas e de medos para o Mundo, para os meus, para mim...Mais do que nunca sinto-me uma inexistência...

Olho para a montanha que me reservaste para subir e receio já não ter forças para escalar o que me resta ainda vencer e ter assim uma possibilidade de chegar ao arbusto ardente, a Ti.

Se não conseguir garanto-Te que tentei e continuarei a tentar até ao último dos meus suspiros pois, como sempre me ensinaste, e acredito, “o que tem de ser tem muita força”. Tu tens que ser. Se assim não for já nada tem sentido para mim e terei vivido uma falácia. Não pode ser!

Desde aquele dia, na Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, em que não me senti merecedor de um sinal que me enviaste (assim hoje creio) e por isso, descrente, Te pedi confirmação (o que evidentemente não me concedeste), que me julgo indigno de Ti. Não estava preparado. Mais uma vez, pecador, nesse dia duvidei de Ti, da tua força, duvidei de mim e do meu merecimento.

Só espero que no fim dessa minha permanente andança pelo mundo, onde tento apenas ser um bombeiro que distribui umas gotas de água (a pressão na mangueira é quase nula), esteja um dia pronto para Te reconhecer se tiver a felicidade de Te encontrar.

Possa o arco em que me transformaste ter força suficiente para que as acções e as preces que tem lançado se tenham aproximado de Ti. Se assim não foi é porque errei. A minha única defesa será dizer: pelo menos tentei! Será?

Até esse momento derradeiro em que espero fundir-me em Ti, e impregnar-me de uma ínfima parcela da tua sabedoria, faz-me entender este mundo que tanto me machuca e me tritura. Para tal eis-me aqui pronto para beber a taça de fel que eventualmente me tenhas destinado. “Caminho plano não leva ao céu”... diz a sabedoria popular.

Dá-me então forças para continuar a subir a montanha e um dia ter a suprema felicidade de beber uma taça de mel e leite contigo.

Tenho pois que continuar a subir a montanha...
 


 



publicado por Fernando Nobre às 23:59
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27 comentários:
De paula a 25 de Fevereiro de 2011 às 22:19
felizmente, finalmente, acabou. tê-lo-emos de volta aqui? aqui onde chegava ao cidadão comum, a quem adimirava o seu percurso de vida.
paula


De Anónimo a 29 de Janeiro de 2009 às 14:57
Sublime

Uma grande admiradora


De Sara Rocha a 15 de Março de 2009 às 22:11
Caríssimo Dr. Fernando

"Nobre" assenta-lhe maravilhosamente... bem haja por existir!


De Pedro Castro a 28 de Janeiro de 2009 às 13:15
Dr. Fernando Nobre, simplesmente para lhe dizer que este foi sem dúvida o melhor texto que até agora já li, a paixão, o sentimento e a sensibilidade com que o escreveu só está à altura de grandes Homens, o Senhor é sem dúvida um deles.
Parabéns uma vez mais pela sua luta e perseverança na tentativa de fazer deste nosso Mundo um Mundo bem melhor.
Com certeza muitos outros lhe seguirão e todos juntos, quem sabe um dia tudo será bem diferente.
Um forte abraço
Pedro Castro


De Josemir Moura a 7 de Janeiro de 2009 às 19:50
Sr. Dr. Fernando Nobre

A Paz seja contigo,

Fico completamente inebriada pelos seus textos, mas confesso que lágrimas rolaram pela face ao ler este último, e por isso transcrevi uma passagem para melhor explicitar-me. ... Allah o que poderemos nós fazer, nós, simples poeiras efémeras, para que todos na Terra e no Universo entendam que só há um caminho para acabarmos com tanta loucura: o Amor, outro dos teus Nomes. Tu que és Luz, será que conseguirás acabar com todos os fundamentalismos e terrorismos?"
A resposta não poderia ser outra. A paz que o mundo procura é a ausência de guerra, a fartura de bens materiais, a tranquilidade de uma vida sem problemas. As nações procuram a PAZ, armando-se para a guerra. As manifestações pela paz muitas vezes acabam em violência e atos de vandalismo.
Foi por isso que Jesus, o Nazareno, afirmou que a paz que ele nos deixou é diferente da paz que o mundo oferece. É a paz interior, que, tenho certeza, conheces bem de perto. Pois, dúvidas não tenho de que com tamanha grandeza de alma és um instrumento nas mãos de Deus, o Deus de Moísés , de Isaque, de Abrãao , de Jacó que com as mãos estendidas o ilumina de maneira grandiosa e o leva a propagar pelo mundo através do exemplo do desprendimento e da abnegação do seu trabalho à PAZ que resulta em alegria mesmo na dor; em confiança, mesmo nos perigos; em coragem, nas horas de medo; em esperança, na hora da morte; em AMOR, mesmo aos inimigos.
Portanto, independentemente da fé que professemos, jamais duvidemos que Deus ainda está no meio de seu povo, que ainda hoje sua promessa divina de restauração se cumpre, que a sua a obra é inexplicável e não conseguimos compreendê-la, se não nos fizermos humildes e pequeninos, por que a esses Deus pomete e cumpre preciosas ações de restauração.
Que esse DEUS O ABENÇÕE CADA VEZ MAIS, NÃO SÓ A SUBIR A MONTANHA, A ORDEM É PROSSEGUIR! Foi essa a ordem dada a Moisés pelo Senhor dos Exércitos, .. que marchem. Em vez de encalharmos diante das "montanhas" o Senhor Deus quer que o seu povo prossiga na conquista do futuro.

Abraços calorosos do Brasil!!!


De Fernando Nobre a 9 de Janeiro de 2009 às 18:44
Também muitos abraços para todos vós no Brasil, terra que muito amo.


De António a 4 de Janeiro de 2009 às 23:30
Vejo Deus em cada Ser que se condói com o Sofrimento dos outros seres e que actua consequentemente de acordo com essa comoção de alma.Por isso,também vejo Deus em Si,Dr.Fernando Nobre.Normalmente,perguntamos o que é que Deus pode fazer pela Humanidade que não faz.Mas raramente perguntamos o que é cada um de nós pode fazer,como a face visível de Deus,que não faz...


De Helena a 4 de Janeiro de 2009 às 21:18
Já estive perto de si o suficiente para saber ( ver e sentir) que é um anjo com missão nesta nossa Terra. E como são grandes as suas asas!!...E se Anjos existem...então... Deus está mesmo por aqui, em si e connosco. As suas palavras têm o toque e a beleza do Amor pelos outros. Agradeço a Graça de poder ter a honra de ver a sua LUZ!. Bom Ano de 2009! Não tenho duvidas que continuará a subir a montanha, mas peço a Deus que a subida seja suave...


De sissia a 3 de Janeiro de 2009 às 22:54
Sr Dr. Fernando Nobre,
só hoje li esta "carta a Deus" e fiquei deveras emocionada com o sentimento expresso nas palavras e a realidade tão vivida que transparece nas ideias. Tenho fé. E considero extremamente necessária hoje em dia, pois se não acreditarmos e encontarmos um sentido podemos até enloquecer....só não enloquece quem não tem consciência, tempo ou coração para dedicar nem que seja um minuto a pensar no que se passa no mundo. DA mesma forma que aprecio um por de sol, a primavera ou o mar...reconheço os terrores actuais ...quanto a mim....evitáveis!E é tudo tão efémere.....
Isto para dizer-lhe que, se é que me permite, existem muitas pessoas a admirar o seu trabalho e a juntar a fé à sua fé. Continue...
Um abraço.


De Fátima a 3 de Janeiro de 2009 às 20:57
Exmo Sr Doutor Fernando Nobre

O Sr está entre aqueles que não mais morrerá. Sem falsas modéstias, reconhecerá que nesta sua peregrinação pela Terra ficará bem gravado na memória e no coração de um sem número pessoas a quem se deu inteirinho. Acredito que, se Deus existe e está vivo, actua através de pessoas como o doutor. Legitima a dúvida que persiste em mim em relação a Deus. Se o senhor, sendo quem é e fazendo o que faz, ainda O não conseguiu encontrar (será que não?...), como poderia eu ter conseguido? Tento... tento... Preciso Dele. Muito. Mas, a dúvida não desiste de mim. E a hipocrisia que anda por esse mundo fora, mormente nos meios eclesiásticos, ajuda à festa... Também eu insisto na ideia de que a complexidade de um enxame de Galáxias ou a grandeza contida numa simples molécula de DNA não poderão ser obra do acaso... Tb eu, à minha medida, tento ser fiel a princípios e valores que façam prevalecer o Amor, a justiça e a Paz entre os homens.
Que Deus, na Sua infinita discrição, nunca o abandone, Doutor:)
Obrigada por mais este testemunho.
Obrigada por existir!
Abraço-o, comovida.


De joão manuel devezas a 3 de Janeiro de 2009 às 03:12
As dúvidas assaltam todos os inteligentes,mas eu proclamo bem alto que se vê Deus através da sua obra inegualável,meu caro Dr. Fernando Nobre.Um abraço e em breve estarei consigo.


De Júlia a 3 de Janeiro de 2009 às 00:58
Não. Os tempos que vivemos não permitem que a dúvida e a fraqueza se instalem. Também eu duvidei de Deus e encontrei-o, em África, quando dei um pouco de mim a alguém. Alguém que vivendo a pobreza, a doença, a dureza dos dias, resistia e celebrava a vida e Deus com alegria e esperança. No início, não compreendia. Tudo aquilo me revoltava. Mas depois, foi a grande lição.
Esse Deus de Esperança e de Amor não pertence a ninguém e revela-se a todo o ser humano, que, em qualquer momento da sua vida, com humildade, se entrega a uma causa para benefício da humanidade ou se entrega simplesmente a alguém.
Peço-lhe que não pare de acreditar no sonho que o levou a iniciar o seu percurso.
Esse sonho foi o seu encontro com Deus.
A sua missão é árdua, não é o super -homem, mas também ninguém disse que isto de ser humano ia ser fácil, pois não?
Não tem livro de instruções.
Precisamos de si. Portugal necessita de pessoas como o senhor. Sei que é um admirador de Agostinho da Silva. Lembra-se do que ele escreveu sobre a essência do povo português. Do enorme contributo que este povo deu no passado à humanidade e que, um dia, no futuro, voltaria a dar, em conjunto com o resto da Península e os países lusófonos. O Espírito Santo, lembra-se? Claro, que não é o da Pomba...
Já não é necessário gritar. Está na hora da união. É essa união que nos poderá fortalecer e que nos tirará o medo de enfrentar a realidade.
Que mania esta, desenvolvida, no último século, pela civilização ocidental, de se considerar uma privilegiada da História. Essa arrogância está a ter um custo tão elevado...
Que a hora da revolta ceda, em breve, à hora da sabedoria. Toda a experiência e consciência do mundo e da condição humana que o senhor adquiriu tem duas faces. Nunca poderá ser ingenuamente feliz, mas poderá sempre ser sabiamente humano. Esse é um grande privilégio.
Obrigada por tudo o que tem feito. Obrigada pela sua entrega. Obrigada por compartilhar sentimentos e ideias tão autênticas.
Admiro-o. Não por ser o super homem, mas por ter enfrentado a condição humana com tanta coragem e sabedoria.
Não está só.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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