Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009


Um dos grandes paradoxos da nossa época, que pretende ficar na História da Humanidade como sendo a época da Mundialização, é que muitos povos e as suas maleitas, continuam votados a um completo ostracismo e a um mortífero esquecimento. Tal facto é tanto mais inaceitável que, mercê de um desenvolvimento tecnológico sem equivalência histórica, nunca como hoje se produziu tanta riqueza no Mundo, nunca como hoje se acumulou tanto saber científico capaz, se bem orientado, de debelar as grandes pandemias que afectam largas centenas de milhões de pessoas e nunca como hoje foi possível estarmos instantaneamente informados do infortúnio desses povos.

Tais factos fazem com que o esquecimento a que é condenada uma parte muito significativa da Humanidade se torne, a meus olhos, ainda mais intolerável e inaceitável! Estamos todos a assistir a um verdadeiro genocídio quotidiano, verdadeiro terrorismo silencioso porque silenciado que, à semelhança de outros tão justamente noticiados, deveria ser vigorosamente combatido. Não há dúvida de que tal fenómeno, é o grande gerador, presente e futuro, da espiral de frustração, de humilhação, de desespero e de violência que já nos atinge por ricochete.

 

Senão vejamos:

Hoje, as doenças esquecidas ou não suficientemente combatidas, tais como a malária, a tuberculose, a Sida, a doença do sono, a leishmaniose, a biliarziose...matam todos os anos mais de 15 milhões de pessoas no mundo. Se acrescentarmos a esta verdadeira hecatombe a morbilidade provocada por essas doenças assim como por outras, também elas esquecidas, como a oncocercose (“cegueira dos rios”), as diversas e graves avitaminoses tipo beribéri, o dengue... estaremos, no concreto, a levar esses povos a um subdesenvolvimento sem retorno. Tudo o resto é retórica oca e demagogia assassina! Está em curso um autêntico genocídio perante a indiferença global! Somos todos passíveis de julgamento histórico de “ não assistência a povos em perigo”! Ainda há poucos anos participei em Genebra, como observador convidado, na reunião do restrito grupo (apenas 12 organizações internacionais mais a AMI e o CICV como observadores) da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a vigilância da oncocercose e fiquei literalmente aterrado ao constatar que essa doença, cujos efeitos devastadores bem conheço (pois nos Camarões a AMI financia projectos nessa área há anos), poderá afectar a vida de cerca de 125 milhões de pessoas com tendência para aumentar em mais de 40 países (36 em África e 6 na América Latina), nomeadamente Angola, Guiné Bissau, Moçambique e Brasil...

Se ao atrás referido acrescermos, como é de todos conhecido, que: 
- cerca de 40.000 crianças morrem diariamente ( o apagar de uma cidade como Portimão todos os dias!) por insuficiente cobertura dos programas de vacinação e por inacessibilidade aos medicamentos eficazes já existentes nomeadamente para as infecções intestinais e respiratória. (Não chega a 10% - dos cerca de 60 biliões de USD da investigação médica mundial anual - o montante para os problemas de saúde que afligem 90% da população mundial. Por outro lado, menos de 1% desses investimentos destinam-se à investigação da malária, tuberculose, pneumopatias, diarreias...que tantas vidas ceifam nos países em desenvolvimento!) 
- desde 1975 apenas foram lançados no mercado à volta de 25 novos fármacos de combate a doenças tropicais, dos quais 12 para as afecções veterinárias...
- a Organização Mundial do Comércio (OMC), sob a pressão do poderosíssimo lobby das multinacionais farmacêuticas, (só forçada pela pressão de organizações humanitárias, que gritavam perante o escândalo e de países como o Brasil e a Índia) é que muito recentemente entreabriu a porta, com muitas precauções e limitações, permitindo que esses países pudessem produzir medicamentos a baixo preço, 10 vezes mais baratos, para os seus doentes com SIDA. Sob pretexto da defesa das patentes, uma obstinação feroz que custou a vida a milhões de pessoas! Refira-se que muitas dessas patentes resultaram, e resultam, da pesquisa em matérias primas recolhidas nesses mesmos países que, para tal, nunca receberam ou recebem nenhuma compensação!
- cerca de 2 milhões de pessoas morrem de fome por ano. Para acabar com esse flagelo e vergonha bastaria que se destinasse a esse combate o montante das verbas gastas nos EUA, ou na nossa rica Europa, em produtos de beleza e em roupas para cães e gatos... Surpreendente, NÃO?

 

Perante tais desmandos e desgovernação global só resta uma das seguintes opções:
1) Pactuar com os cínicos, oportunistas, derrotistas e ...indiferentes;
2) "Suicidar-se" com os que desesperam da condição humana não prevendo para ela qualquer futuro ou melhoria; ou
3) Gritar, sensibilizar e actuar para quem ainda tenha uma réstia de sensibilidade, humanismo, resistência, caracter e coerência, é o que temos feito na AMI. Lançando os nossos gritos de rato, de protesto, mas que esperamos construtivos, sempre que se justifica e que tenhamos a possibilidade de o fazer!

 

Mas ao gritarmos, será que alguém nos ouve? Por isso é sobretudo necessário agir.

É exactamente esta problemática, “Segurança e Dignidade das Populações”, que me leva a participar, desde há 10 anos, nas Conferências Anuais das Nações Unidas com as Organizações da Sociedade Civil Mundial em Nova Iorque.

Como as Nações Unidas, entendo que só pugnando pelo direito à DIGNIDADE de todos os homens, o que implica lutarmos todos para garantirmos a todos a satisfação das necessidades mais básicas, como a alimentação, a saúde, a educação, a liberdade de consciência...é que teremos um Mundo em SEGURANÇA, em PAZ e sem terrorismos, venham eles de grupos terroristas integristas (independentemente da religião adulterada invocada), de certos países ou de certas atitudes tais como a indiferença e a intolerância.

Este é o meu pensamento sincero e reflectido.
 



publicado por Fernando Nobre às 12:29
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13 comentários:
De António a 3 de Janeiro de 2009 às 23:15
Sou apenas mais um dos seus imensos admiradores,Dr. Fernando Nobre.Costumo evocar o valor da Bondade Humana como o Valor Supremo.E,quando vejo o seu notável exemplo de conduta ética,ao serviço dos deserdados da sorte,reconheço-o como um daqueles raros seres que pratica a Suprema Bondade de forma consequente...Bem haja por tudo,e tanto é,que tem dado de melhor à Causa da Humanidade...


De Fernando Nobre a 12 de Janeiro de 2009 às 00:06
O tentar é uma coisa. O conseguir é outra! Ao morrer quero pensar que terei tentado tendo em conta as minhas limitações. É só isso. Abraço.


De ana a 3 de Janeiro de 2009 às 19:40
http://www.jornaldigital.com/noticias.php?noticia=17197


De Graza a 3 de Janeiro de 2009 às 12:26
São palavras e força como esta que vão com certeza ajudar, porque elas são como sementes. Um dia, com as condições certas, germinarão.

Não sei a que post ou palavras dê mais destaque neste blog. A solução foi dar-lhe a visibilidade permanente merecida no modesto sítio onde escrevo e onde sou parco em destaques. Este blog amplia a minha admiração pelo Dr. Fernando Nobre, cuja força presumo seja também um exemplo para muita gente. Há agradecimentos que não se fazem mas não resisto a um, Bem Haja!


De Fernando Nobre a 12 de Janeiro de 2009 às 00:07
Obrigado e Abraço.


De Diogo Ribeiro a 2 de Janeiro de 2009 às 21:04
Dr. Fernando Nobre, não sei se falo apenas em nome pessoal ou em nome de vários utilizadores que lêm este blog. Mas sobre mim, diga-me a melhor maneira de dar este grito para ser o mais eficaz possivel. Encaminhe-me(-nos) para poder ajudar este mundo. Por favor, dê-nos conselhos para agir, guie-nos. Neste mundo, estar informado é muito importante, e sendo você uma presença atenta neste panorama solidário mundial, talvez nos possa informar de coisas que se estejam a passar e que possamos aproveitar, como campanhas, palestras, livros, etc.

PS-comentei como um "pedido" e como sugestão, e espero que não leve a mal, pois foi tal como diz nos seus primeiros textos, sugestões sao bem vindas.

Um Grande Abraço


De Ana Isabel Silva a 2 de Janeiro de 2009 às 18:50
Boa tarde! Sou enfermeira há 2 anos e meio e toda a área de Infecciologia sempre me interessou, mesmo como estudante. O VIH/SIDA foi sempre uma temática sobre a qual me debrucei com atenção, não somente desde o ponto de vista clínico mas, e sobretudo, desde um ponto de vista mais social e humano. Dediquei a esta área o tempo para o meu trabalho final de curso e dedico, todos os dias, no meu contexto profissional, tempo a estes doentes e às suas famílias. A indiferença de que fala é palpável no meu dia-a-dia. São palavras que ainda assustam, que incomodam, que estão rodeadas de mitos e tabus que considero inacreditáveis numa sociedade que se diz informada e esclarecida... Se isto acontece cá, sucede ainda mais lá fora, nos países africanos, sul americanos... países menos ricos onde ninguém vai, para onde ninguém quer olhar, onde não interessa o que se passa desde que se passe dentro dos limites das suas fronteiras... e nós andamos por cá, achando que sabemos e podemos tudo, que estas coisas não batem à nossa porta e que por cá só sucedem a quem leva uma "má vida", ou porque se droga, ou porque se prostitui, ou porque é promíscuo. Ainda pensamos assim hoje. Resta saber quando conseguiremos mudar mentalidades... eu vou tentando, sinto que muitas vezes sem sucesso, mas vou tentando.


De Fernando Nobre a 3 de Janeiro de 2009 às 08:52
Minha Amiga o mais importante é o que faz: tentar! Quem se empenha na ajuda ao seu semelhante, ajudar não é fácil, viverá sempre entre a satisfação e a frustração... Tiramos a força para continuar porque sabemos e sentimos que ajudar os outros é um dever Indeclinável! Por isso Força e nunca desista de fazer o trabalho maravilhoso que faz embora seja muito difícil: eu sei. Abraço solidário e muito amigo.


De paula a 2 de Janeiro de 2009 às 17:38
Sabe Dr., eu não me considero com qualificações para comentar uma realidade que não conheço, que não sinto na pele. Faço parte desta grande maioria de pessoas que passam na vida a correr, a correr para sustentar, criar e acompanhar os filhos.
Envolta numa sociedade de consumismo, aparências e conveniências. A informação que nos chega é aquela que nos molda a personalidade, a sensibilidade, a indiferença.
É a informação do vendável, a informação do politicamente correcto, é a informação que convém a quem tem poder.
Por isso, acredito que o resultado do trabalho de quem se importa com os menos visiveis tem que passar por aí, pela informação. É um remar contra a maré, e um trabalho «de sapa».
É uma informação que devia entrar nas famílias, nas escolas, na educação.
Felizmente hoje temos a Internet que pode com persistência tornar os pequenos, o inconveniente, visivel.
Felizmente com a Internet têmo-lo a si, desse lado, mostrando a Humanidade no seu melhor e no seu pior. E assim, aos poucos, podemos incluir o que nos mostra nos nossos dias, nos trabalhos da escola dos nossos filhos, na informação que divulgamos, e pouco a pouco, ir em pessoas «normais» como eu, alterando prioridades, abrindo horizontes, modificando comportamentos.
Como diz a minha mãe «migalhas é pão», pouco a pouco, acabando com a intolerância, a indiferença, conseguirá, de si, para nós, para o mundo.


De Georg Dutschke a 2 de Janeiro de 2009 às 19:06
Em primeiro, gostaria de felicitar o Dr. Fernando Nobre por esta iniciativa. Irei contribuir activamente para que este espaço tenha a visibilidade que merece. Tenho realizado nos últimos anos, trabalhos de investigação com crianças do 1º ciclo em Portugal sobre temáticas como a Internet e Multiculturalidade. Do que até agora aprendi com as cerca de 4.000 crianças entrevistadas, permite-me referir que são indivíduos mais atentos ao que se passa no mundo (quando comparados com as gerações anteriores) muito devido ao uso da Net , e são, também, uma geração que aceita, com prazer, as diferentes culturas com que, hoje, convivem diariamente em Portugal. Acredito que esta nova geração, a geração Net , poderá contribuir num futuro próximo para o desenvolvimento de uma sociedade global mais justa e preocupada com o próximo. Até lá, como pais e educadores, deveremos ter como missão ajudar, mesmo com "migalhas de pão", todos aqueles que que não têm a sorte de viver com a dignidade devida a um Ser Humano. Só desta forma poderemos efectivamente ajudar, na prática, quem necessita e, desta forma, dar-mos o exemplo devido aos nossos filhos e educandos. Gostaria de referir a minha disponibilidade para pró activamente ajudar no que seja necessário. Bem haja.


De Fernando Nobre a 3 de Janeiro de 2009 às 08:40
Obrigado pela sua intervenção. A sua área de estudo é muito interessante, diria mesmo indispensável nos nossos dias. A esse respeito, para sua informação, posso-lhe desde já dizer o seguinte: a Fundação AMI, em parceria com a Fundação Yuste de Espanha vai organizar este ano em Maio no ISCTE um grande seminário, 3 dias, sobre a Interculturalidade que é, nomeadamente, uma questão essencial para a promoção da Paz. Por outro lado, em parceria com a FNAC, HP e GALILEU a AMI já abriu INFOTECAS (para jovens em risco e outros grupos humanos vulneráveis...) nos seus Centros Porta Amiga de Gaia e de Cascais, e irá em breve abrir em mais outros 3 (Funchal, Porto e Almada) dos seus 11 Centros. A sua participação proactiva será pois muito bem vinda! Sei que em breve falaremos disso e muito mais! Abraço Amigo.


De ana paula esteves a 3 de Janeiro de 2009 às 12:11
Sem querer transformar este espaço num fórum, partilho da esperança que Georg tem no que chama geração Net . É precisamente a partir daí que se tem que educar para a solidariedade, é precisamente a partir do 1º ciclo que se deve encaminhar e seduzir as crianças para a inter-ajuda . Mas dessas estradas que se abrem é urgente construir pontes para as fases seguintes, pois é na adolescência que as referências se podem perder, ao virar de uma esquina.
Seria preciso incluir nos programas escolares, nas actividades da comunidade escolar os princípios da solidariedade e dar-lhe visibilidade. Os estudantes estão cheios de disciplinas onde se pode enquadrar o tema, haja vontade e iniciativa – Estudo Acompanhado, Formação Civica , Área de Projecto, Moral, e até em Ciências e Geografia…
Sem pretender desvalorizar ou descartar o papel da família, a realidade é que é lá fora, nas ruas, nas escolas, na sua comunidade desportiva, que eles vão buscar referências, valores, comportamentos, que por vezes deitam por terra toda a educação que tiveram no seio da família.
Por isso estou convicta quando sugiro, trabalhem com as escolas, proponham temas de trabalho, viagens de final de curso baseadas na «aventura solidária», ajudem a construir as estradas e as pontes que irão levar as crianças, os jovens de hoje, adultos amanhã a dar continuidade a trabalhos como os da AMI.
É urgente mudar as mentalidades da sociedade, da conjuntura, e é a partir de baixo, é a partir da formação dos jovens.
Será talvez uma luta inglória, um remar contra a maré, um varrer folhas contra o vento, mas como alguém disse «A grandeza de um ideal não está em atingi-lo mas em lutar por ele».


De Fernando Nobre a 2 de Janeiro de 2009 às 19:07
Minha amiga não tenho dúvidas: juntando as nossas migalhas conseguiremos dar a volta ao texto... Abraço!


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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