Domingo, 4 de Janeiro de 2009

Há momentos em que a nossa consciência nos impede, perante acontecimentos trágicos, de ficarmos silenciosos porque ao não reagirmos estamos a ser cúmplices dos mesmos por concordância, omissão ou cobardia. 

O que está a acontecer entre Gaza e Israel é um desses momentos. É intolerável, é inaceitável e é execrável a chacina que o governo de Israel e as suas poderosíssimas forças armadas estão a executar em Gaza a pretexto do lançamento de roquetes por parte dos resistentes (“terroristas”) do movimento Hamas.

 

Importa neste preciso momento refrescar algumas mentes ignorantes ou, muito pior, cínicas e destorcidas:

- Os jovens palestinianos, que são semitas ao mesmo título que os judeus esfaraditas (e não os askenazes que descendem dos kazares, povo do Cáucaso), que desesperados e humilhados actuam e reagem hoje em Gaza são os netos daqueles que fugiram espavoridos, do que é hoje Israel, quando o então movimento “terrorista” Irgoun, liderado pelo seu chefe Menahem Beguin, futuro primeiro ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou à arma branca durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Hiassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos Arquivos Históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos Arquivos os actos genocidários perpetrados pelos nazis no Gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio), horrorizou o próprio Ben Gourion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e a Cisjordânia possibilitando, entre outros factores, a constituição do Estado de Israel..


- Alguns, ou muitos, desses massacrados de hoje descendem de judeus e cristãos que se islamisaram há séculos durante a ocupação milenar islâmica da Palestina. Não foram eles os responsáveis pelos massacres históricos e repetitivos dos judeus na Europa, que conheceram o seu apogeu com os nazis: fomos nós os europeus que o fizemos ou permitimos, por concordância, omissão ou cobardia! Mas são eles que há 60 anos pagam os nossos erros e nós, a concordante, omissa e cobarde Europa e os seus fracos dirigentes assobiam para o ar e fingem que não têm nada a ver com essa tragédia, desenvolvendo até à náusea os mesmos discursos de sempre, de culpabilização exclusiva dos palestinianos e do Hamas “terrorista” que foi eleito democraticamente mas de imediato ostracizado por essa Europa sem princípios e anacéfala, porque sem memória, que tinha exigido as eleições democrática para depois as rejeitar por os resultados não lhe convirem. Mas que democracia é essa, defendida e apregoada por nós europeus?


- Foi o governo de Israel que, ao mergulhar no desespero e no ódio milhões de palestinianos (privados de água, luz, alimentos, trabalho, segurança, dignidade e esperança ), os pôs do lado do Hamas, movimento que ele incentivou, para não dizer criou, com o intuito de enfraquecer na altura o movimento FATAH de Yasser Arafat. Como inúmeras vezes na História, o feitiço virou-se contra o feiticeiro, como também aconteceu recentemente no Afeganistão.


- Estamos a assistir a um combate de David (os palestinianos com os seus roquetes, armas ligeiras e fundas com pedras...) contra Golias (os israelitas com os seus mísseis teleguiados, aviões, tanques e se necessário...a arma atómica!).


- Estranha guerra esta em que o “agressor”, os palestinianos, têm 100 vezes mais baixas em mortos e feridos do que os “agredidos”. Nunca antes visto nos anais militares!


- Hoje Gaza, com metade a um terço da superfície do Algarve e um milhão e meio de habitantes, é uma enorme prisão. Honra seja feita aos “heróis” que bombardeiam com meios ultra-sofisticados uma prisão praticamente desarmada (onde estão os aviões e tanques palestinianos?) e sem fuga possível, à semelhança do que faziam os nazis com os judeus fechados no Gueto de Varsóvia!


- Como pode um povo que tanto sofreu, o judeu do qual temos todos pelo menos uma gota de sangue (eu tenho um antepassado Jeremias!), estar a fazer o mesmo a um outro povo semita seu irmão? O governo israelita, por conveniências políticas diversas (eleições em breve...), é hoje de facto o governo mais anti-semita à superfície da terra!


- Onde andam o Sr. Blair, o fantasma do Quarteto Mudo, o Comissário das Nações Unidas para o Diálogo Inter-religioso e os Prémios Nobel da Paz, nomeadamente Elie Wiesel e Shimon Perez? Gostaria de os ouvir! Ergam as vozes por favor! Porque ou é agora ou nunca!


- Honra aos milhares de israelitas que se manifestam na rua em Israel para que se ponha um fim ao massacre. Não estão só a dignificar o seu povo, mas estão a permitir que se mantenha uma janela aberta para o diálogo, imprescindível de retomar como único caminho capaz de construir o entendimento e levar à Paz!


- Honra aos milhares de jovens israelitas que preferem ir para as prisões do que servir num exército de ocupação e opressão. São eles, como os referidos no ponto anterior, que notabilizam a sabedoria e o humanismo do povo judeu e demonstram mais uma vez a coragem dos judeus zelotas de Massada e os resistentes judeus do Gueto de Varsóvia!

Vergonha para todos aqueles que, entre nós, se calam por cobardia ou por omissão. Acuso-os de não assistência a um povo em perigo! Não tenham medo: os espíritos livres são eternos!

 

É chegado o tempo dos Seres Humanos de Boa Vontade de Israel e da Palestina fazerem calar os seus falcões, se sentarem à mesa e, com equidade, encontrarem uma solução. Ela existe! Mais tarde ou mais cedo terá que ser implementada ou vamos todos direito ao Caos: já estivemos bem mais longe do período das Trevas e do Apocalipse.

É chegado o tempo de dizer BASTA! Este é o meu grito por Gaza e por Israel (conheço ambos): quero, exijo vê-los viver como irmãos que são.
 



publicado por Fernando Nobre às 08:40
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151 comentários:
De lurdes a 21 de Fevereiro de 2010 às 00:38
ok... fernando nobre não é anti-semita... é anti-sionista.


De maria ferreira a 23 de Fevereiro de 2010 às 13:30
Adorei ler o seu livro - Viagens contra a indiferença Venho manifestar o meu maior agrado pela sua candidatura a Presidente da República. Disponibilizo desde já a minha assinatura, caso seja, necessária, para oficializar a mesma. O momento justifica o propósito, e este, impõe-se, num País onde a política parece não encontrar o norte. Julgo que alguns cidadãos, nunca tiveram, verdadeiramente, quem os represente. Na minha opinião, o lugar a que se candidata, precisa acima de tudo, um humanista, que tenha uma visão global do Mundo, de Portugal e dos Portugueses. Sendo também imprescindível, uma disciplina que atinja todos os cidadãos e cure vícios de algumas camadas sociais. O P. R. deve ser visto como uma figura de autoridade com compromissos sérios, sem fantasias, sem ódios, visando, um único objectivo, somente, a tolerância, igualdade e a dignidade, de todos os cidadãos.....estou consigo nesta luta contra a indiferença.


De Carlos Rebola a 18 de Fevereiro de 2009 às 22:47
Dr. Fernando Nobre

O seu texto, é uma importante chamada à reflexão.
Penso que alguém que conheça, como o senhor tão bem conhece, os efeitos duma guerra, qualquer que ela seja, se tendo conhecimento disso defende a guerra, no meu entender, esse alguém deixou simplesmente de ser humano. Admiro o Dr. pelo seu humanismo, pela coragem de defender os mais fracos (hoje pelos vistos cada vez mais difícil) e acima de tudo pela sua obra no terreno, que minimiza o sofrimento de quem, tantas vezes sem saber porquê, é atingido pela barbárie, a guerra não pode ter outro nome.

Obrigado


De Fernando Nobre a 19 de Fevereiro de 2009 às 16:56
Tento continuar coerente... É sempre um grande desafio. Mas vale a pena.


De Fernando Nobre a 19 de Fevereiro de 2009 às 17:01
OBRIGADO EU.


De dora Morgado a 17 de Fevereiro de 2009 às 12:38
Caro Fernando Nobre
Não percebo muito da história de Israel e Palestina, mas basta ver na televisão e nos jornais para perceber que os habitantes de Gaza estão a ser completamente massacrados. Ainda na revsita Pública deste Domingo (15/2) vem a história de um pai médico que perde as 3 filhas porque um tanque Israelita lhes entrou quarto adentro. Simplesmente não tenho PALAVRAS!!!


De Fernando Nobre a 19 de Fevereiro de 2009 às 16:57
O HORROR...


De paula a 10 de Fevereiro de 2009 às 11:33
Pois é meu amigo, aqui está a mesma verdade, diferentes visões, conforme quem a olha, e os «arquivos da memória» também diferentemente interpretados... (penso eu)


De Fernando Nobre a 11 de Fevereiro de 2009 às 00:33
Cara amiga cada um interpreta segundo a sua consciência. Eu sigo a minha: só ela me comanda. Sempre assim foi e, garanto-lhe a si e a todos, assim será até ao meu último suspiro. Desse caminho não há força que me conseguirá desviar. Quem me conhece sabe que assim é. As ameaças "cobardes" e os insultos "velados" de que já fui alvo nunca me demoveram de continuar a lutar pelo que para mim é justo. Assim continuará a ser no futuro. Por isso persisto e assino: nos últimos acontecimentos discordo frontalmente dos comportamentos, para mim inaceitáveis, dos governantes e das forças armadas israelitas. Isso não faz de mim nem um "defensor" do Hamas nem um "anti - semita", o que para mim é um completo absurdo. Faz sim de mim um defensor dos israelitas e dos palestinianos que não têm outro futuro , quanto a mim, que não seja entenderem-se como povos irmãos que são. Não sou nem primário, nem maniqueísta ! Lamento.


De paula a 11 de Fevereiro de 2009 às 06:01
acho que não tem que lamentar, ser como é. é de louvar


De Rui Neves a 9 de Fevereiro de 2009 às 20:19
Caro Dr. Fernando Nobre,
A verdade não é absoluta nem pertence certamente a uma pessoa, país, religião, etc.. mas sim à humanidade.
O seu texto é desconcertante porque entre uma tentativa de isenção (julgo) tem passagens verdadeiramente anti-semitas.
A sua “distância” ao conflito é idêntica a qualquer um dos humanos que não vivem quer em Israel quer em Gaza ou na Cisjordânia. Por conseguinte a sua verdade é muito relativa visto não se encontrar na pele de cada um dos seus habitantes.
Hoje de facto vivemos num mundo de muita informação e muita desinformação e pior o futuro nos reservará nesta matéria. Mas atenção que esta não é uma característica dos tempos actuais, pois sempre existiu desde que existe a humanidade.
A história não deve servir para apontar os culpados. Pois corre-se o risco de se ter lido apenas uma parte da história e daí enviesar a realidade. E nisto o seu texto é rico nisso.

Agora, o que não posso deixar de lamentar é que o Dr. Fernando Nobre, sentado numa Europa, refere como sendo democrática a eleição do Hamas . Em face do seu nível cultural que ostenta, quero acreditar que não o faz propositadamente.
Mas será que por “democraticamente” refere-se à eliminação de diversos elementos políticos, policiais, dos serviços de segurança interna da Fatah ??
Refere-se à vergonha, que os homens que sobreviveram à questão anterior, foram obrigados a caminhar até aos postos fronteiriços com Israel completamente nus ??
Refere-se ao racionamento de bens organizado pelos membros do Hamas e entregue à população conforme as conveniências politicas e obediência??
Refere-se à entrada em Gaza de diversas armas denominadas ligeiras que foram entregues aos diversos membros do Hamas ??
Isto ocorreu antes das eleições democráticas.

Talvez o Hamas já estaria a pensar no direito à Resistência sobre a Nação Israelita?!?!? Não me parece.

Mais exemplos seriam fáceis de enumerar em face das virtudes do Hamas . Mas imagine como seria a Europa ou os EUA (coitado da Humanidade), se um "partido" daqueles governasse por cá um país do mundo ocidental que tanto critica.

Na guerra nunca existem vencedores mas apenas derrotados. Pois existirá sempre uma criança inocente que morrerá apenas porque nasceu no meio de um conflito. Mas será impossível obter-se a paz se continuarmos a contar a história errada a essa criança. A verdadeira história a contar será aquela em que ambos os povos procuram viver juntos lado a lado e isso não será possível com a procura contínua dos culpados.


De Fernando Nobre a 10 de Fevereiro de 2009 às 17:38
Meu caro Riu Neves nunca me arvorei como sendo o detentor da VERDADE. Quanto às ditas passagens anti-semitas faça-me o favor de não ir por aí porque esse argumento já está mais que gasto (nunca se esqueça que os palestinianos também são semitas!) e tenta ser uma forma de pressão primária para impedir alguém de discordar com as atitudes injustas do governo de Israel. Então todos os israelitas que se manifestam e lutam por um entendimento com os palestinianos também são anti-semitas ? Isso é um total absurdo. Repito: não vá por aí. Essa postura já cansa e assim o diálogo torna-se muito difícil. Eu sou pelo Diálogo e pela Tolerância. Isso não quer dizer que estou disposto a calar-me. A história do Hamas é muito longa e complexa onde Israel também tem a sua quota parte de responsabilidade. Quanto às eleições democráticas...também é um terreno muito complicado e não se arruma com três penadas. Agradeceria pois que acabasse com a expressão de "anti-semita " pois o Senhor, segundo os seus confusos critérios, ao falar como fala dos palestinianos também seria... Entendeu amigo? Melhores cumprimentos.


De Normando a 7 de Fevereiro de 2009 às 18:30
Dr. Fernando Nobre,
O texto é das coisas mais anti-semitas que tenho lido ultimamente. Está privado de bom senso e de conhecimento dos factos reais e históricos.
Visto que o movimento terrorista Hamas por quem o sr. nutre tanta simpatia está actualmente - segundo informações do Ministério de Saúd Palestiniano - a expulsar os médicos dos vários hospitais em Gaza e a ocupa alas desses hospitais com centros de interrogatório, TORTURA e apriosionamento, aconselhava-o a ir para lá trabalhar a soldo desse movimento, pois dessa forma talvez o sr. possa exprimir mais convenientemente os sentimentos que nutre por essa gente, que de humano deve ter tanto como eu de chinês.
Tenho apreciado o seu trabalho na AMI, mas, sinceramente, o seu antisemitismo é decepcionante...


De Fernando Nobre a 10 de Fevereiro de 2009 às 13:11
Caro Normando,
Anti-semita não sou, pois, se fosse, seria anti-judaico e anti-palestiniano . E não sou, garanto-lhe, nem uma coisa, nem outra.
Agradeço-lhe que leia as minhas respostas a comentários aqui publicados, para melhor conhecer a minha posição em relação a esta matéria.
A provarem-se verdadeiros os factos que menciona no seu comentário, serei o primeiro a condená-los, com a mesma veemência que condeno tudo aquilo que considero injusto e indigno.
Fique bem.


De João Monteiro a 6 de Fevereiro de 2009 às 00:02
Será que ninguém percebe que milhões de dólares e de euros já foram enviados (e continuam a ser) dos EUA e da EU desde 1993, altura em que a Autoridade Palestiniana foi criada após os Acordos de Oslo, sem que nada ela tivesse feito no sentido de proporcionar alguma melhoria nas condições de vida do seu povo? Sabem qual era a principal responsabilidade do Hamas após a sua vitória nas eleições? Era precisamente essa, a de tentar proporcionar bem-estar ao seu povo!!! Mas não! Porque, infelizmente o principal objectivo desses líderes é a total e completa expulsão da “entidade sionista” (muitos até se recusam a chamar Israel pelo seu nome) da terra a que chamam Palestina (mais um dos mitos históricos que nos iria levar longe agora desmistificar), como se Israel fosse a potência “usurpadora” e “colonizadora” de um território que não lhe pertence. Lembro a este propósito, o chamado “Plano por Fases” de 1974 da OLP, segundo o qual qualquer parcela de território ganha aos judeus serve de “trampolim” para ganhar outra e assim sucessivamente até à sua expulsão total. É de 1974 mas para muitos ainda se mantém em vigor. Se verdadeiramente os Palestinianos quisessem um estado, com o território que já dominam, este já existiria há muito tempo – Israel desocupou Gaza em 2005 mas essa retirada afinal apenas serviu para que os palestinianos começassem a lançar rockets sobre as populações do sul de Israel (mas então eles não querem que Israel retire dos territórios “ocupados”?) Lembro, por outro lado que, para Israel, a terra conta, e muito! (No entanto, está disposto a negociá-la em troca de paz!) Note-se que desde o território do Mandato conferido pela Sociedade das Nações à Grã Bretanha em Julho de 1922, no seguimento da Declaração Balfour de 1917, passando pela revisão desse território em Setembro de 1922 em que dele foi retirada a Transjordânia ”, até ao “Plano de Partilha” da ONU de 1947, que estabelecia a criação na “Palestina Ocidental” de um estado judaico e de um estado palestiniano árabe, o território para o futuro estado de Israel foi, como se vê, sendo sucessivamente reduzido. A grande diferença é que os Judeus, apesar dessas reduções, aceitaram a parte que lhes foi dada (pois a ligação que têm àquela terra é milenar) ao passo que os palestinianos recusaram a que lhes foi atribuída então, como continuam a recusar agora chegar a um acordo por não aceitarem conviver com a presença judaica. Lembre-se finalmente que nas conversações de Camp David em 2000 sob a égide do presidente Bill Clinton em que participaram o presidente da Autoridade Palestiniana, Yasser Arafat e o primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak , este foi ao ponto de propor àquele a divisão da cidade de Jerusalém pela entrega de quase toda a parte reclamada para capital da Autoridade, o que, incrivelmente, foi recusado por Arafat! Por isso, enquanto nós europeus e americanos continuarmos a “embarcar” na propaganda que os palestinianos tão bem urdem (afinal eles já perceberam há muito como “apelar” ao nosso sentimento!), muito dificilmente as coisas mudarão. Não posso, por isso, aceitar que por tudo se culpabilize Israel mesmo quando exerce o dever moral e legítimo de defesa das suas populações. Gritemos sim, mas contra os líderes palestinianos que continuam a lançar o opróbrio sobre o seu povo e se recusam a viver em civilidade, optando antes por padrões do século VII de confronto e provocação. Contra esses, sim, gritemos e indignemo-nos.


De Fernando Nobre a 8 de Fevereiro de 2009 às 13:32
O meu caro amigo infelizmente só vê um lado da questão: è verdade que a liderança palestiniana nem sempre esteve à altura das legítimas aspirações do seu povo. Já o escrevi há muitos anos. Houve corrupção, como em Israel, guerras fratricidas e incompetência vária. Isso não invalida que Israel sob pretexto de direitos históricos (não havia lá povos antes da chegada de Abraão? ouviu falar nomeadamente dos Filisteus?) tenha hoje cerca de 80% da palestina sob mandato britânico e que, ainda não contente, tenha cerca de 20% da Cisjordânia (colonatos, estradas...) e tenha construído um muro da vergonha que não respeita sequer as fronteiras e que se aproprie de um máximo de água. Por outro lado Israel destrói sistematicamente as infra-estruturas palestinianas construídas com os financiamentos da União Europeia (reservatórios de água, centrais eléctricas , escolas, universidades...). Porque será que os fundamentalistas israelitas assassinaram o seu primeiro ministro Rabin ? É tempo de parar com essa retórica belicista: é preciso dar uma hipótese aos moderados dos dois lados e sentar-se à mesa do dialogo e procurar soluções que ponham termo às carnificinas. A última, ainda tão recente, não lhe chegou? E se uma dessas centenas de crianças palestinianas assassinadas fosse sua? Sim eu choro e grito por Israel e a Palestina porque se não se parar já todo esse desvario será péssimo para ambos! Haja juizo.


De João Monteiro a 10 de Fevereiro de 2009 às 01:30
Dr. Fernando Nobre. O meu objectivo não é alimentar polémicas consigo (nem com ninguém, para o efeito). O meu objectivo foi e é apenas o de mostrar o lado da questão que nunca é tido em conta por ninguém (pelos grandes órgãos de comunicação internacionais que formam a opinião pública, pela comunidade internacional em geral – os países individualmente e a expressão organizativa dessa comunidade internacional que é a ONU – e pela manipulação constante que a parte palestiniana faz desses mesmos “media” internacionais que, obviamente, se deixam perfeitamente manipular em vez de procurarem reportar com equidade (como é seu dever), aceitando as informações que lhes são passadas sem terem o cuidado de as confirmar. E quando mais tarde se vem a verificar que informações por eles divulgadas afinal eram falsas, não são feitos desmentidos que reponham a verdade, ficando apenas na consciência colectiva a mentira inicialmente apresentada. Há vários exemplos flagrantes disto que acabo de dizer. Permita-me apenas que me refira a dois aspectos do que menciona: o primeiro é o dos povos que já existiam na região antes de Abraão. É verdade, já lá existiam outros povos, mas não posso deixar de achar curioso que dos vários povos cananeus que poderia mencionar, foi logo referir os Filisteus. Sabe que os Filisteus não eram um povo cananeu por não ser originário daquela região. Os Filisteus eram um povo europeu (mais exactamente de Creta) que migrou para aquela região com o objectivo de conquistar o Egipto. Como naturalmente não conseguiu, porque o Egipto era a potência da altura que conhecemos, fixou-se ali ao lado, grosso modo na região que hoje é a Faixa de Gaza. Os Filisteus não têm, portanto, nada a ver com os Palestinianos nem estes nada a ver com aqueles (trata-se de um outro mito bem montado pela propaganda a que me referi antes no sentido de se justificar uma herança histórica que nunca existiu). Os Palestinianos são árabes como o são os Sírios, os Iraquianos, os Jordanos, os Sauditas e todos os outros povos da Península Arábica. São uma única identidade étnica, cultural e linguística e a divisão em vários países é artificial e resulta, como bem sabe, da Primeira Guerra Mundial. Ora, os árabes apenas conquistaram a terra de Israel no século VII A.D., mas, ainda assim, nunca lá se estabeleceram de forma sustentada e organizada (basta vermos fotos da Esplanada das Mesquitas em Jerusalém do século XIX e princípios do século XX, ou lermos algumas descrições do famoso Mark Twain que no século XIX viajou por aquela região e deixou registadas as suas impressões, para percebermos o estado de abandono a que a terra estava votada – lembre-se que os judeus eram na altura e por causa da Diáspora, uma minoria). Os judeus, por seu lado, durante os períodos em que foram forçados a sair da terra, nunca deixarem de ter lá um remanescente, por sempre a terem considerado sua, não só desde a conquista cerca de 1500 anos antes de Cristo, como desde antes, cerca de 2000 anos A.C., com a presença de Abraão e dos seus descendentes, antes da ida destes para o Egipto, o que depois deu origem ao Êxodo. Quanto à questão do território do Mandato Britânico, não vou voltar a referi-la, pois já o fiz anteriormente.


De João Monteiro a 10 de Fevereiro de 2009 às 01:32
Quero, em segundo lugar, referir-me ao “muro”. Sabe, é, de facto, uma vergonha para o mundo que Israel tenha sido levado a construir a Cerca de Segurança porque esse mesmo mundo que critica Israel por tê-la construído, nada fez para evitar que os bombistas suicidas entrassem em Israel e fizessem ir pelos ares autocarros, pizzarias e outros locais públicos (cujas vítimas também foram muitas crianças), nem ao assunto deu qualquer importância. As notícias eram apenas transmitidas como se de acontecimentos banais se tratasse. Sei perfeitamente que também não quereria que isso acontecesse a algum dos seus filhos porque o senhor, como eu, não educámos os nossos filhos no ódio desde que começaram a falar e a ter alguma consciência da realidade que os rodeava, como são educados esses adolescentes e jovens que se fazem explodir. Esse “muro”, ao contrário do outro, com o qual abusivamente é conotado, salvou vidas e os ataques suicidas foram reduzidos drasticamente desde que ele foi construído. O outro, servia de prisão para o seu próprio povo; este serviu de defesa do seu próprio povo. O outro foi construído como expressão da repressão totalitária e do cerceamento da liberdade do seu povo; este, como último recurso, que o seu povo agradeceu, para se travar uma barbárie. Aceite os meus respeitosos cumprimentos.


De Fernando Nobre a 11 de Fevereiro de 2009 às 01:10
Caro amigo João Monteiro infelizmente não tenho tempo (cada um sabe da sua vida...) para rebater ponto por ponto o muito que, erradamente quanto a mim, escreve. Talvez a minha diferença consigo resida no facto de eu ter estado em TODOS os Estados da região, inclusive Israel e os Territórios da Autoridade Palestiniana. Por outro lado, embora tenha dedicado grande parte da minha vida à Medicina vivi e li da História da Humanidade o suficiente para debater consigo quando quiser... Porque gosto de falar olhos nos olhos, peço-lhe que telefone por favor para a minha secretária: estou disposto a beber um chá consigo para falar-mos calmamente. Estou certo que verá que faz adjectivações precipitadas a meu respeito.... Com os meus cumprimentos.


De paula a 12 de Fevereiro de 2009 às 15:38
Desculpe Fernando, mas não pude deixar de reparar, que em vez de almoço passou a sugerir chá para os «anti-palestina»…, parece que a sua paciência se está a esgotar, ou quer mesmo «dar-lhes chá»?, como se diz por estas bandas… Estou a brincar, mande-me para a lixeira (do computador – entenda-se) se quiser, isto é só um daqueles desabafos a que eu não resisto…


De João Monteiro a 5 de Fevereiro de 2009 às 23:59
Caro Dr. Fernando Nobre. Li com muita atenção o seu "post ” do dia 4/01 (aliás já o li várias vezes desde que dele tive conhecimento no passado dia 28), assim como li os diversos comentários ao mesmo. E li-o várias vezes porque ainda me custa a acreditar que aquilo que li foi escrito pela pessoa que foi, atendendo a quem é e à vasta experiência que tem, não só de vida como em ajudar o próximo, numa obra meritória um pouco por todo o mundo. Por esse respeito que o Dr. Fernando Nobre me merece, não posso deixar de lamentar o teor do seu texto que mais parece de alguém que não tem conhecimento dos factos e apenas se deixa inflamar por aquilo que vê e ouve, sem qualquer tipo de espírito analítico. De facto, o Dr. Fernando Nobre tentando justificar o injustificável, faz referencias históricas que, para além de incorrectas, são retiradas do seu contexto, estabelecendo paralelismos onde eles não existem, o que só serve para aumentar a confusão de quem não está por dentro do assunto, ficando dele com uma visão parcial e completamente deturpada. Por muito que gostasse de escalpelizar ao pormenor todas essas referencias, parece-me, contudo, que o mais importante agora é salientar o essencial e relevante desta questão pois, enquanto continuarmos a olhar apenas para a “ponta do iceberg”, vamos continuar a não ver o enorme “bloco de gelo” que está por baixo e continuaremos a “afundar-nos” no mar da confusão que teima em não permitir que a lucidez prevaleça. Todas as vidas inocentes perdidas em guerras são de lamentar. Mesmo quando essas guerras são justas, elas têm essa trágica consequência e, no caso em apreço por maioria de razões, quando os combatentes de um dos lados se misturam com as populações civis, usando-as como escudos humanos, alargando desta forma o teatro de operações com o intuito de deliberadamente provocarem a carnificina que depois exibem para obterem dividendos na responsabilização da outra parte. Será que ninguém percebe que enquanto formos levados por esta propaganda deixando-nos emocionar pelas imagens televisivas da guerra e dos “campos de refugiados”, estamos a fazer o jogo dos líderes palestinianos que em vez de aceitarem a paz e acabarem de vez com esses mesmos campos de refugiados dos seus territórios e criarem condições de vida dignas para as suas populações, como habitação, salubridade, saúde, educação, trabalho etc., preferem manter essas mesmas populações, a quem chamam hipócrita e cinicamente de “seu povo”, forçadamente nesses “campos” para poderem “embandeirá-los” ao mundo dizendo “olhem o que Israel nos faz e ao que nos obriga”, e assim o mundo encher-se de pena e continuar a culpabilizar, a indignar-se e a gritar contra Israel pela miséria da qual só esses líderes são responsáveis? Eles não podem fazer esta escolha e depois simplesmente pretenderem que as responsabilidades pelas consequências dessa sua opção recaiam sobre Israel! Existiu número idêntico ao dos refugiados palestinianos de refugiados judeus, quando estes foram expulsos dos países árabes após a criação do Estado de Israel em 1948 e durante a Guerra da Independência de 1948/49 e relativamente a esses nunca se levantaram vozes condenando a sua expulsão, porque simplesmente Israel os absorveu (não os colocou em campos de refugiados!) e lhes deu condições de vida apesar de terem chegado sem nada, pois tudo lhes foi confiscado.


De Gisele a 23 de Janeiro de 2009 às 21:36
Fernando, sou brasileira e não entendo NADA de política mas nem por isso fico alheia aos acontecimentos.
sinto saudades do meu pai que, até 1991, me ensinava e me explicava tudo quando tinha alguma dúvida. Hoje, recorro à internet e aos amigos mas mesmo assim, fico sem entender pois cada um puxa sardinha para o seu lado.

Seja como for, Deus permita que essa guerra acabe pois só mesmo os inocentes pagam com suas vidas, não é mesmo?
gostei do teu blog.
Um abraço,
Gisele


De Fernando Nobre a 24 de Janeiro de 2009 às 14:07
Abraço minha amiga. Eu também tenho dúvidas e assim será até ao fim da minha vida por cá. Agora também tenho algumas certezas: nomeadamente que o AMOR é o único caminho. Volte sempre.


De papaleguas a 22 de Janeiro de 2009 às 23:39
Os meus cumprimentos a tão ilustre pessoa, pelo seu humanismo e dever de ajuda, porem não posso deixar de perguntar o que foi feito pela invasão do Tibete(Davide) pela China (Golias) , o que foi feito pela invasão da Georgia (Davide) pela Russia (Golias). Por detraz destas guerras todas, estão interesses que por veses desconhecemos e que por veses os proprios beligerantes desconhecem, são manobras provocadas secretamente, porem cabe aos povos , inocentes civis, se oporem a estes actos e se unirem para se criar a paz e não a guerra. Devemos obrigar os nossos governantes a seguirem o caminho do desarmamento pois só aos generais interessa a guerra, nós os civis, tão despresados por essses senhores, não passamos de peões num taboleiro de xadrez manipulado por tão despresiveis jogadores. Eu posso gabar-me de não ter cumprido o serviço militar em parte alguma do globo, apesar de com os meus 61 anos de idade, ter passado pela guerra do ultramar, em Moçambique e mais tarde como cidadão sul africano, naquele país. Fi-lo não por cobardia mas por convicção e não me envergonho do que fiz, mas fui parte importante na primeira greve de trabalhadores em Portugal no tempo de Marcelo Caetano, tendo enfrentado a então DGS. Com isto quero dizer que não tomo partido por nenhum dos intervenientes, apenas gostaria de viver num mudo em paz e de igualdade , mas infelizmente tenho de conviver com a maldade, o egoismo, a criminalidade, a corrupção...onde está Deus? Eu só consigo ver o Diabo! Quanto ao Senhor Fernando Nobre, bem aventurado seja. OBRIGADO.


De Fernando Nobre a 23 de Janeiro de 2009 às 20:28
Compreendo a sua dor e o seu desencanto. Também às vezes me apetece desistir e me refugiar numa montanha. Não podemos desistir. Abraço fraterno.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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- "Viagens Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Gritos Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Imagens Contra a Indiferença",
Círculo de Leitores / Temas & Debates


- "Histórias que contei aos meus filhos",
Oficina do Livro


- "Mais Histórias que Contei aos Meus Filhos", Oficina do Livro

- "Humanidade - Despertar para a Cidadania Global Solidária", Temas e Debates/Círculo de Leitores

- "Um conto de Natal", Oficina do Livro
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