Domingo, 4 de Janeiro de 2009

Pedem-me muitas vezes que mostre um caminho.

 

Não sou profeta, nem guru. Sem ter, sequer, a pretensão de ser guia seja para quem for, porque prezo ao máximo o sentido crítico e o livre exame de cada um, ousaria dizer que a melhor maneira de actuarmos, cada um à sua dimensão, é ousarmos assumir em pleno os deveres e os direitos que a nossa cidadania nos confere. Informemo-nos e eduquemo-nos lendo por exemplo o "Le Monde Diplomatique" (há em português) e outras revistas e livros com conteúdo (proporei dois por mês) que têm a coragem de nos interpelar... Manifestemos com dignidade a nossa indignação quando confrontados com acontecimentos que chocam as nossas consciências humanas. Ousemos exprimir as nossas opiniões mesmo, e sobretudo, se politicamente incorrectas mas humanamente correctas... Preservemos o nosso sentido crítico e não nos deixemos adormecer, anestesiar... É DIFÍCIL E HÁ UM CUSTO A PAGAR MAS VALE SEMPRE A PENA sobretudo se actuarmos em prol daqueles que, mais frágeis do que nós, precisam da nossa ajuda a fim de voltar a ter rosto e voz humanos! Não tenhamos medo e não enveredemos pelo nefasto caminho da autocensura, primeiro passo para a destruição da democracia e instauração da ditadura encapotada ou não... Enfim, é uma mudança de paradigma humano que, se soubermos fazê-lo germinar em nós e nos outros, sobretudo os mais jovens, poderá tornar possível o desenvolvimento de uma Cidadania Global Solidária talvez a única muralha contra o apocalipse anunciado. É apenas isso e só isso que pela minha acção e reflexão eu tento fazer: traçar e seguir um caminho que me permita contribuir, com a minha gotinha, para o surgimento de um outro Mundo, que é possível, menos inquietante, mais ético e mais fraterno. Em nome da Equidade e da Paz sem as quais não poderá haver Desenvolvimento Harmonioso e Sustentável para o máximo, senão para todos. Para alguns isso é utópico, lírico ou eté mesmo infantil! Não me preocupa mesmo nada: sustentado nos meus estudos, tenho todos os graus académicos que se pode almejar..., nas minhas viagens (mais de 150 países), nas minhas observações das tragédias humanas e nas minhas acções É ESSE O CAMINHO QUE DECIDI TRILHAR E NÃO HÁ FORÇA QUE ME POSSA IMPEDIR DE O SEGUIR PORQUE SE NECESSÁRIO FOR ESTOU DISPOSTO A DAR COMO CAUÇÃO A MINHA PRÓPRIA VIDA. É TÃO SIMPLES QUANTO ISSO. SER LIVRE! PARA QUEM ME CONHECE SABE QUE ISSO É INEGOCIÁVEL.



publicado por Fernando Nobre às 11:09
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23 comentários:
De anonimo a 14 de Janeiro de 2009 às 13:25
Caro Dr.
Venho acompanhando o seu percurso já lá vão uns anos. Tive a felicidade de o conhecer pessoalmente em Évora, recentemente. O seu "Gritos contra a indiferença" autografado está na minha cabeceira desde esse dia para me recordar que não posso ficar anestesiada pela vulgarização do horror debitado pelos media diariamente e pelas preocupações mesquinhas do meu dia-a-dia de classe média / funcionária pública.
Este seu belíssimo texto, divulgado nos users " da Universidade de Évora, trouxeram-me ao seu blog.

Bem haja.

P.S. Que maior legado poderia deixar aos seus filhos?


De Fernando Nobre a 20 de Janeiro de 2009 às 16:55
De um pai que muito os amou pese embora as suas múltiplas ausências. Abraço.


De Izanagi a 8 de Janeiro de 2009 às 12:09
Será que esta defesa do Dr. Fernando Nobre, com uma “costela judia” ?? resulta de um sentimento de culpa por aquilo que alguns dos seus antepassados fizeram, que expulsaram os árabes semitas de Portugal que se refugiaram na aldeia palestiniana de Deir Hiassin e que acabaram vítimas de Israel ( na altura Israel ainda era pouco eficiente – levou uma noite inteira para assassinar 300 pessoas, coisa que hoje os árabes semitas fazem em escassos segundos)?
Diz também que sente, como europeu, uma culpa por aquilo que aconteceu aos Judeus no sec.xx, mas não se propõe tampouco transferir para lá a sua organização e habitar uma dessas cidades onde há 8 ininterruptos anos, a população vive num estado permanente de medo e stress.
Finalmente o Dr. Fernando Nobre não explica onde se situava o estado de Israel. Porque será? Diz que a Palestina é Palestina há cerca de mil Anos, mas antes disso já havia judeus. Onde habitavam? Isso não explica o Dr. Fernando Nobre. Acresce que um Estado não se toma por usucapião e mesmo para que se verifique usucapião, tem de haver abandono da coisa, ao caso território, de vontade própria e não por expulsão apoiada na força.
Seria bom que o Dr. Fernando Nobre se esforçasse por explicar as omissões, que imagino, por negligência, nem se apercebeu das mesmas.



De Fernando Nobre a 8 de Janeiro de 2009 às 21:56
O meu amigo está confuso , desculpe que lhe diga, e baralha muita coisa. Não é aqui que lhe vou explicar a História desde a Mesopotâmia , e a saída de Abraão de Ur , até aos nossos dias...Quanto à minha costela judia, também tenho moura, negra, ibera , celta, romana, visigótica, franca,...nem imagina! Só me resta saber se tenho também origens orientais o que não me espantaria. Também em mim, como em si, circula sangue de reis, santos, assassinos, padres, plebeus, condes e ladrões. Não tenho qualquer sentimento de culpa porque em mim circula, como em si e em todos nós, sangue de vítimas e sangue de carrascos, meus antepassados que também foram os seus. Uma vez assumido isso poderemos falar como seres humanos e procurar soluções a tanta barbárie. Não acha? ou vamos continuar nessa estúpida senda de olho por olho mais mil anos? Faça a sua escolha que eu já fiz a minha e não entro em certos jogos. Entendido meu amigo? Talvez um dia nos encontremos, espero que em sentimento de Paz, e lhe falarei da minha história e da História do meu Mundo. É mais que tempo de pararmos com esses jogos de luz e sombra porque não nos levam a parte nenhuma . Abraço fraterno.


De Teresa Leal a 8 de Janeiro de 2009 às 01:49
Caro Fernando,
Não iria escrever este comentário para não tornar a sua leitura maçuda, mas é importante que saiba que não está sozinho nem a sua família (que bonita prova de amor a da sua filha Isabel - obrigado). Tem seguidores sim. Tenho acompanhado de muito perto a AMI e o seu percurso, tenho lido quase tudo o que tem produzido e assistido a algumas conferências e debates onde participado. Poucas pessoas têm o seu sentido do global (direitos humanos, ambiente, economia global, pobreza, riqueza, oportunidade para todos, etc. , tudo está interligado).
É importante que saiba que é um guia mas isso não lhe traz mais responsabilidade a si, mas a nós, pois ao invés de nos tornar seguidores cegos, incute-nos aquilo que mais preza, a humanidade, a tolerância mas também o sentido critico e a urgência do nosso grito de rato.
Até breve e bem haja, bem como toda a sua família e equipa da AMI.

Teresa Leal


De Fernando Nobre a 9 de Janeiro de 2009 às 07:01
Obrigado minha amiga. É bom não se sentir só... Sobretudo quando se anda à chuva, para não dizer temporal! Abraço.


De Cristina Domingues a 6 de Janeiro de 2009 às 23:59
Mesmo que não o pretenda, acaba por ser um exemplo para muitos... E oxalá muitos seguíssem o caminho que tem traçado.

E acreditar num mundo melhor não é ser utópico, é ser alguém, ser humano. Eu acredito com todas as minhas forças nesse novo mundo... E tento lutar com ele, com as poucas "armas" que disponho. Mas tento.

Podem-nos tirar tudo, mas a vontade de acreditar nunca!


De GorgeousMind a 6 de Janeiro de 2009 às 15:38
Olá Dr. Fernando Nobre!
O "Le Monde Diplomatique" já consta nos meus favoritos. Fico à espera das suas outras sugestões.
Obrigada.


De Fernando Nobre a 6 de Janeiro de 2009 às 21:53
Irei sugerindo livros que ao longo dos anos me foram ensinando...a conhecer a História, o que é fundamental, e a ser tolerante... Leia-os de forma critica, comparando o passado e o presente! Exemplo: quando ler um que em breve irei sugerir, Mila 18, faça os paralelismos suficientes e relativos entre o Gueto de Varsovia e o actual Gueto de Gaza... Os seres humanos mudaram pouco...Abraço amigo.


De ce a 8 de Janeiro de 2009 às 15:48
"Não há dúvida de que os alemães obtiveram grandes êxitos na guerra contra a população civil, nessa frente só conheceram vitórias, diante deles tinham adversários desarmados... Milhões de mortos... Nem todos eram valentes, mas houve também alguns heróis, cujos nomes não conhecemos ou quase não conhecemos. Mas, se falarmos do ghetto, o primeiro monumento deveria ser para as crianças, [...] Vivendo com cento e vinte e cinco gramas de pão por dia e cem gramas de ervilhas por semana, os habitantes do ghetto teriam morrido em três meses. Mas eles não morreram, tiveram de ser exterminados. A primeira batalha foi contra a fome, as crianças foram as primeiras a conseguir combatê-las e conseguiram vencer. Elas conheciam os sítios por onde podiam passar para as ruas vizinhas, conseguiam enfiar-se em qualquer fresta, removiam montes de lixo, roubavam os armazéns e as casamatas, assim como os camiões alemães, trocavam objectos por pão ou compravam-no quando tinham dinheiro, e traziam tudo para o ghetto, até à última migalha."
Anatoli Ribakov, Areia Pesada, p.294

"Dizer que a questão era séria, que o problema era sério, era o mesmo que não dizer nada. Era uma questão insolúvel, um problema insolúvel.
Uma rebelião? Em todo o ghetto havia um total de vinte pessoas que sabiam, mais ou menos, manejar uma arma, um punhado de adolescentes contra tropas regulares. Onde se defenderiam? Em duas ruas? Nas casas de madeira? Bastava pegar fogo a uma casa e todo o ghetto arderia, com todos os seus habitantes.
Tentar fugir para a floresta? Como? Como podia uma caravana de três mil pessoas, uma multidão de fugitivos, romper os cordões de isolamento e de patrulhas, e atravessar um descampado? Mesmo admitindo a fantástica possibilidade de que conseguissem sair do ghetto e abrir caminho até à floresta, que fariam depois? Como alimentar as pessoas, mantê-las, defendê-las? O Outono estava a chegar, e depois dele o inverno.
Só havia uma solução: conformarem-se com a sua sorte, estenderem-se na vala ao lado dos filhos ou filhas, exporem a nuca a uma bala alemã sem oferecerem uma resistência desesperada mas digna, sem erguerem a mão contra os assassinos... Esta era a menos aceitável de todas as variantes. Em todas as outras só se perdia a vida, nesta perdia-se a vida a e honra.
De tal modo, seria uma rebelião seguida de fuga para a floresta. Era um objectivo irreal, mas sem objectivo não há acção. [...] Era um plano fantástico, desperado, mas não havia alternativa. Era um plano para morrer, mas para morrer com dignidade, era o preço que os habitantes do ghetto exigiriam pela sua morte e que os nazis pagariam com as suas vidas."
Anatoli Ribakov, Areia pesada, p.330


De Fernando Nobre a 8 de Janeiro de 2009 às 22:06
Obrigado pelo texto que pôs no seu comentário. É comovente e realista. Há momentos em que só resta morrer com dignidade. Abraço.


De Isabel Nobre a 6 de Janeiro de 2009 às 14:18
Olá "Dr. Fernando":

Li as tuas palavras, " É ESSE O CAMINHO QUE DECIDI TRILHAR E NÃO HÁ FORÇA QUE ME POSSA IMPEDIR DE O SEGUIR PORQUE SE NECESSÁRIO FOR ESTOU DISPOSTO A DAR COMO CAUÇÃO A MINHA PRÓPRIA VIDA.", e continuo a querer dizer-te sempre que tenho muito orgulho em ti e que apesar de teres estado grande parte ausente fizeste sempre questão de estar presente. Sei que questionas muitas vezes se terá sido o caminho certo.. se não deverias ter optado pelo teu consultório privado ou por um Hospital e estares mais perto dos teus filhos. Pois eu respondo-te que o que nos deste estando ausente valeu bem mais do que qualquer outro valor material. Ensinaste-nos a humildade, a luta pela tolerância, a compreensão, o outro, sem te aperceberes conduziste-nos pelo melhor caminho da humanidade. Não digo que não tivesse sentido a tua falta, se não tivesses sido o pai que foste estando presente não teria custado tanto a tua ausência. Custou muito.. hoje compreendo o porquê de tanta insistência na luta pelos outros.. Fica descansado .. e se por algum motivo tiveres que partir sem regresso quero que saibas que o que criaste não foi em vão.. nunca nos perdeste, sempre te acompanharemos!!Força e Obrigada por seres nosso pai. Sabes que gosto bem mais de estar escondida no anonimato mas achei importante dizer-te mais uma vez publicamente, que como médico podes não me ter dado uma casa um carro, o luxo que uma filha de médico cirurgião pode ter mas deste-me uma coisa bem mais importante o saber viver, e isso vale bem mais do que qualquer outra coisa.

Obrigada sempre!!

Tua filha,

beijo,

Isabel Focquet Nobre



De paula a 7 de Janeiro de 2009 às 08:55
esta é a resposta para algo que muitas vezes questiono. Parabéns à filha, parabéns ao pai!


De Graza a 7 de Janeiro de 2009 às 10:46
Quem não gostava de ter uma filha assim?


De yulunga a 5 de Janeiro de 2009 às 23:42
Um virus de Natal impediu que tivesse desejado a todos os blogs que gosto de ler umas Boas Festas. Já matei o animal e como até aos Reis se pode fazê-lo... continuação de Festas Feslizes.

"Manifestemos com dignidade a nossa indignação quando confrontados com acontecimentos que chocam as nossas consciências humanas. Ousemos exprimir as nossas opiniões mesmo, e sobretudo, se politicamente incorrectas mas humanamente correctas... "
Subscrevo na integra sem mudar uma virgula que seja. E sim paga-se muito, mas muito caro; a alma em consciência mas a vida num inferno por vezes.
Uma frase que já coloquei no meu blog, e que li algures é que o homem é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra. Pode ter duplo significado. Ou se é estúpido ou se é persistente.
Se calhar as pessoas que lhe pedem para que lhes mostre um caminho já tropeçaram tantas vezes na mesma (boa) pedra e já pagaram caro esse tropeço que pôem em causa se valerá a pena. Logicamente que pedem ajuda a pessoas como o Sr. que continua a acreditar.

"Não sou profeta, nem guru. Sem ter, sequer, a pretensão de ser guia seja para quem for,..."
Acredito que diga isto com humildade. Mas não o faça. Tenha orgulho naquilo que faz.
Sinta orgulho por ser um guru, por ter seguidores.
Guru e seguidores soa mal, não é? Soa a seita e tal, mas isso quando realmente as coisas assim funcionam. Ser guru e ter seguidores de uma causa como aquela que o Sr. abraçou é certamente garantia que essa mesma causa continua.


De Graza a 6 de Janeiro de 2009 às 11:05
Que lindas palavras Yulunda!


De isabel maia jácome da costa a 5 de Janeiro de 2009 às 23:39
...Impressionam as palavras, impressiona a certeza, o orgulho, o trabalho, a entrega... mas acima de tudo, impressiona "o caminho", a liberdade e a vida na sua escolha.
Obrigada, Doutor!...
Isabel


De António a 5 de Janeiro de 2009 às 19:19
"Pedem-me muitas vezes que mostre um caminho"...

O seu exemplo de vida,Dr.Fernando Nobre,é a demonstração mais eloquente desse Caminho...


De Graza a 5 de Janeiro de 2009 às 17:19
Claro Doutor, sabemos que não é profeta nem guru, como sabemos não haver e não querer homens providenciais, temos até medo deles, mas nem todos têm o condão de pegar em valores tão caros à Humanidade e transmiti-los desta forma. é por isso que é tão útil a sua palavra, a sua acção e agora sua presença aqui. Esse é um valor que não podemos desperdiçar, nem pode deixar de ter em conta a toda a hora, senão, atente-se no que foram a concretização das utopias referidas no comentário anterior.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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