Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Neste texto, embora focalizado nos tremendos impactos sociais que a crise económica e financeira em curso terá inevitavelmente nos planos Nacional e Mundial, não me poderei eximir de comentar certos aspectos políticos, económicos e fiscais embora, estou ciente, outros autores os abordarão de forma muito mais exaustiva do que eu.

O primeiro comentário é que hoje ninguém está capacitado para poder prever, com o mínimo de rigor e credibilidade, qual será a verdadeira duração e a real gravidade, antevendo-se desde já que será profunda, da actual crise nas economias dos países, e dos seus povos, nem que novo sistema financeiro e económico emergirá após o fim desta tormenta.

E ninguém o pode fazer porque ninguém pode afirmar categoricamente que não haverá outros “casos” Madoff , BPN e afins que não venham a explodir amanhã. Daí resulta a extrema falta de confiança que hoje está profundamente instalada dentro do próprio sistema financeiro e que tanto bloqueia o crédito inter-bancário!

Uma coisa é certa: o sistema em vigor ruiu (e só as injecções ou avais massivos de cerca de três milhões de milhões de USD por parte dos Estados e dos Bancos Centrais - dez vezes o que seria necessário em quinze anos para se conseguir os vitais Objectivos Do Milénio - evitou a derrocada total!) e urge agora encontrar um novo paradigma nas relações económicas e financeiras entre os estados e os bancos.

Ficou demonstrado, penso eu e também o ex-presidente da FED, Sr. Greenspan, que a auto-regulação, tão exigida e propalada até há pouco pelos defensores do liberalismo total do mercado, o novo deus e o novo abre-te sésamo para o desenvolvimento e felicidade globais, faliu redondamente.

Faliu porque, progressivamente, se evoluiu para um sistema financeiro cada vez mais especulativo e irreal, não alicerçado na economia real mas sim substituído pela famigerada “economia virtual ou de casino” com os seus inúmeros “subprimes”, incontroláveis “produto tóxicos” e outros “derivados” em que já ninguém tinha mão e que ruíram como castelos de areia à primeira ventania. Era o delírio do jogo da roleta russa. A ressaca só podia, como foi, ser violenta: inúmeras instituições mortas ou nos cuidados intensivos e milhões de pessoas "ao Deus dará"...

Faliu porque estavam em causa homens, e apenas homens, falíveis, sem sistemas eficazes de contrapesos, que se deixaram facilmente infectar pelo “vírus da Ganância”(dixit Sr. Greenspan). Em estado eufórico de levitação estratosférica, apenas pensaram em satisfazer os seus enormes egos e descabidos apetites de mordomias assim como as insaciáveis exigências das assembleias gerais de anónimos sócios.

Faliu porque, por razões várias, os sistemas de regulação não funcionaram, mesmo quando aparentemente suficientes, os sistemas de fiscalização dos Bancos Centrais estavam distraídos ou não tinham os meios para exercerem cabalmente as suas funções e as grandes empresas de auditoria foram coniventes ou omissas para não perderem tão importantes contratos...

Faliu porque grandes especialistas em questões fiscais, sociedades gestoras e de advogados..., se profissionalizaram junto das off-shores e dos diversos paraísos fiscais para subtrair os seus clientes às suas normais obrigações fiscais perante os seus Estados. Estados esses, sem meios para desvendar as teias extremamente complexas montadas para esses fins. Daí a impunidade que usufruem até hoje a esmagadora maioria dos grandes crimes de colarinhos brancos...

Faliu porque muitos Estados, e os seus políticos, se demitiram da sua imprescindível responsabilidade na correcta e atenta gestão da Res Publica como se tem observado na Grécia, Islândia,...

Perante essa doença, com múltiplos agentes patogénicos, é evidente que a abordagem terapêutica será complexa e levará bastante tempo a surtir efeito. Já não é hora para homeopatias. Terá que se combinar cirurgia com medicinas agressivas porque de uma grave situação gangrenosa se trata! A medicina tradicional chinesa mostrou que tem, neste caso específico, melhores soluções que todas as nossas caducas teorias...

Agora uma coisa é certa: serão tremendos os efeitos desses verdadeiros desvarios e desnortes em 2009, 2010, 2011... nas economias dos países mais frágeis, que ficarão arrasadas, como serão tremendos os efeitos no agravamento do desemprego e da exclusão social dentro das nossas sociedades ditas, até agora, desenvolvidas. Poderão vir a estar mesmo em causa a paz social e a democracia, ainda vigentes nas nossas sociedades!

Como efeitos imediatos estão remetidos para as calendas gregas os objectivos que se pretendiam atingir: um comercio mundial mais justo e equilibrado, com a Ronda de Doha (que esteve bloqueada 7 anos para agora sumir de vez), e os 8 Objectivos do Milénio (ODM) que nunca serão atingidos em 2015, como se pretendia, nem em 2050, quanto a mim!

É de temer fortemente, nos países em vias de desenvolvimento, já em estado permanente de sufoco financeiro, sobre-endividados, sem acesso aos créditos e sem qualquer margem de manobra, explosões sociais preocupantes, como consequência da desagregação completa do tecido social, do desemprego massivo e do alastrar da fome...

Tal não é de excluir também nos nossos países, onde inevitavelmente os encargos sociais dos Estados vão aumentar brutalmente, assim como o desemprego, a criminalidade e as tensões sociais. Serão necessárias por parte dos governantes e de todos nós uma atenção e sensibilidade social redobradas para que possamos evitar o pior.

O mais preocupante ainda, como se o que referi anteriormente não o fosse já sobejamente, é que a confiança dos cidadãos nos seus governantes, bancos e sociedades gestoras, foi gravemente atingida. Poderá levar muito tempo antes que a confiança se restabeleça e estimule o consumo interno que é, com o investimento público, das poucas alavancas que dispomos para inverter a tendência depressiva da economia, antes que ela entre em deflação!

É pois imperioso e urgente que as lideranças voltem a demonstrar aos seus concidadãos que estão mais preocupadas com os seus próprios Deveres, do que com os seus Direitos, e apenas Direitos! Se isso não acontecer rapidamente, as ondas de choque desta grave crise quase sistémica serão avassaladoras e a derrocada pode desde já estar anunciada. Nesse caso, um novo paradigma de sociedade humana levaria décadas a ser implementado.

Desde já apelo ao reforço da Cidadania Global Solidária e ao empenho total e convergente das três componentes de um Estado que se quer moderno e mobilizador: estruturas políticas do Estado verdadeiramente democráticas, geridas com responsabilidade e transparência, não receando ouvir os seus cidadãos e que acatem o sentido do seu voto (o que infelizmente os governos, ainda democráticos, da UE não pretendem fazer em relação ao voto dos irlandeses sobre o futuro do Tratado de Lisboa...), forças económicas e financeiras empreendedoras, responsáveis e cidadãos e sociedades civis organizadas, activas, exigentes, solidárias e transparentes.

Se assim não for, tanto a nível Nacional como Global, estaremos então todos em péssimos lençóis, e por tempo indeterminado.

É esta a minha sincera opinião.
 



publicado por Fernando Nobre às 13:47
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13 comentários:
De Rode madalena de Jesuz a 26 de Fevereiro de 2009 às 13:10
Crise económica ? Não, não existe crise económica , e sim golpe económico
Nos últimos anos, a economia mundial teve um excelente crescimento, e muitas pessoas físicas entraram nos negócios de ações , os preços das ações dispararam , e mesmo assim as empresa venderam muitas ações , ate que accionistas maioritários viram uma chance de ganhar muito dinheiro, recomprando as ações ,só que a preços menores. Mas , como baixar os preços das ações ? Ai surgiu uma ideia, usar os bancos, pois na verdade são eles que controlam a economia de todos os paises. Então os bancos diminuíram as quantias de créditos disponível no mercado, deixando as pessoas em situação de risco, e as mesmas diminuíram seus gastos travando assim o comercio. E assim surgiu o tal efeito manada, todas as pessoas que tinham ações correram para vende-las, e deu nisso ai, as empresas estão pegando de volta as ações vendidas muito caras, à agora à preço de bananas, e ainda usaram as pessoas de refém , e forçaram os governos a ingetarem grandes quantidades de dinheiro publico em suas empresas .
No Brasil algumas empresas estão tentando dar o mesmo golpe, e com a ajuda da MI DIA . A DÍDIA é o quarto poder da republica, e como os outros três ela também é corrupta, e com o intuito de informar a DÍDIA assusta, apavora, intimida as pessoas, porque tudo que as pessoas fazem é sobre infrencia da MIDIA , a MIDIA rege-as, a MI DIA é seu combustível , adulterado , mas, é.


De João Leitão a 23 de Janeiro de 2009 às 23:38
Obrigado pela síntese do problema.

Estamos perante uma mudança de paradigma económico-financeiro, psicossocial, energético e ambiental.

Parte da solução: Comunidades Locais Sustentáveis, baseadas na Permacultura, usando o modelo Transition Initiatives.


De papaleguas a 23 de Janeiro de 2009 às 00:22
Senhor Fernando Nobre, novamente venho contribuir com um comentário sobre o assunto em questão. Apesar de sempre ter sido antieuropeista e antiglobalização convicto, sou a favor da livre circulação dos povos embora com algum controlo pelas autoridades de segurança para evitar a entrada de pessoas relacionadas ou envolvidas no crime. A crise, no meu fraco entender, vem-se acentuando à já varias décadas e precisamente com o surgimento deste sistema actual em que tudo é livre e sem controlo rigoroso, dando lugar ao aparecimento e desenvolvimento da ganância pelo poder económico, social e politico, prevalecendo os valores da especulação, inflação e também o aparecimento dos agiotas. Quando estudei numa escola então, profissional, e tirei o curso comercial, aprendi que os lucros eram controlados para que não houvesse especulação, o credito era controlado para evitar o endividamento descontrolado e os agiotas eram punidos severamente, era preocupação governamental as exportações serem elevadas e as importações serem conforme cotas pré -estabelecidas para que a nossa economia fosse positiva e gerasse o emprego. Agora é o descalabro total, o próprio governo (seja ele qual for ) endivida-se sem moral ou objectivos reais, as pessoas estão endividadas devido ao vicio do consumismo, as empresas de agiotagem proliferam e com anúncios na TV constantes e ilusórios , o luxo sem bases é vulgar, a ignorância e desprezo pelo próximo é notório , é o salvasse quem puder. As medidas implementadas pelos governos só servem os poderosos e os erros acumulam-se . Não querendo ser pessimista , antevejo um futuro próximo de pessoas a deambular sem destino e de barriga vazia enquanto outro passeiam em carros topo de gama...mas também vislumbro uma nova Bastilha " e aí então os poderosos que se cuidem! Para quem leia a historia universal, verá que nenhum sistema ou império durou eternamente, nem o comunismo, socialismo ou capitalismo farão a diferença. Tudo não passa de utopias , o ser humano é na sua grande maioria ganancioso e hipócrita. Ensinaram-me que o bem venceria o mal, mas constato o contrario infelizmente.
Quanto ao Senhor e as causas que defende, um bem haja. Obrigado


De Graza a 9 de Janeiro de 2009 às 15:12
"Cidadania Global Solidária" Ficou-me retida da primeira vez que a li, e volta novamente a ficar-me a pairar como qualquer coisa que merecia ser trabalhada, não sei por quem e de que forma, mas a humanidade precisa urgentemente a nivel global de começar a trilhar caminhos destes.


De Fernando Nobre a 11 de Janeiro de 2009 às 02:20
ENQUANTO NÃO TIVERMOS A CERTEZA DA NOSSA PERTENÇA A UM MUNDO ÚNICO COM O QUAL TEMOS QUE SER GLOBALMENTE SOLIDÁRIOS NÃO HAVERÁ RESPOSTA AOS NOSSOS PROBLEMAS. QUANDO ACTIVARMOS O CONCEITO DE CIDADANIA GLOBAL SOLIDÁRIA, ENTÃO NINGUÉM DUVIDE: UM BATER DE UMA DAS NOSSAS ASAS AQUI FARÁ AVANÇAR O MUNDO. ASSIM O CREIO. ABRAÇO A TODOS QUE INTERVIERAM SOBRE O TEMA DESTE MEU TEXTO E QUE ESTEJAM DETERMINADOS A BATER FORTEMENTE AS ASAS!

ESTOU TRISTE QUE QUASE NINGUÉM TENHA REAGIDO AO TEMA "POVOS E DOENÇAS ESQUECIDOS": NÃO INTERESSA? INDIFERENÇA PERANTE OS ESQUECIDOS?


De Graza a 11 de Janeiro de 2009 às 17:54
Fui dos que deixou um comentário nesse excelente post, como são de um modo geral todos os que tem editado, mas este blog é já um sucesso para o tempo de vida que tem. Aquele post saíu na ressaca do fim de ano e do regresso ao trabalho, acredito que tenha sido apenas por isso, porque tem já aqui muita gente interessada a ler o que vai dizendo.


De Fernando Nobre a 12 de Janeiro de 2009 às 00:00
Obrigado amigo.


De GMaciel a 7 de Janeiro de 2009 às 20:44
Cheguei aqui pela mão de uma amiga que me enviou por correio electrónico o post sobre Israel e Gaza. Grata lhe fico por me ter aberto esta janela por onde respiro, agora, um novo e fresco ar.

Em relação ao post que comento, considero-me realista, não pessimista, quando afirmo que dificilmente se fará a revolução de mentalidades necessária para "dar a volta" à situação a que se chegou, mas não será impossível. Um amigo meu dizia-me sempre: "são os pequenos gestos que fazem a diferença e com muitos pequenos gestos se chega à mudança". Comecemos nós e, responsavelmente, passemos essa mesma revolução às gerações mais jovens. Hoje nós, amanhã eles.

Um abraço sentido


De antónio abreu a 7 de Janeiro de 2009 às 16:13
Dr. Fernando Nobre
No segundo mês do seu blog quero felicitá-lo pela lucidez das suas apreciações, mesmo quando são aproximações da realidade, sempre confrontáveis com outras apreciações.
Tomei a liberdade de transcrever o seu post sobre Gaza no meu blog
www.antreus.blogspot.com

Cumprimentos e bom trabalho!

António Abreu


De Fernando Nobre a 7 de Janeiro de 2009 às 19:36
Obrigado. A nossa verdade é sempre parcial e uma aproximação da Verdade. O que tento aqui exprimir, meu caro amigo, eu que sou essencialmente um operativo, é a minha visão das coisas estando sempre aberto ao contraditório. Por outro lado por mais que escrevesse nunca esgotaria os temas que abordo por duas razões: a complexidade das questões por um lado e as minhas próprias limitações por outro. É por isso que dez cabeças pensam melhor que uma! Temo muito os oráculos , os seres providenciais e o pensamento único... Abraço amigo.


De FLAVIO PENICELA a 26 de Março de 2009 às 09:26
OBRIGADO NOBRE ESSA E A VERDADE.


De Maria Faia a 7 de Janeiro de 2009 às 00:01
Estimado Dr. Fernando Nobre,

Da leitura da sua análise ficam-me as palavras para mim mais importantes: "reforço da Cidadania Global Solidária". Esse sim, parece-me o caminho, senão o único caminho pois, nessa senda (talvez utópica...) chegaremos um dia a um mundo verdadeiramente solidário e fraterno e não haverá governo que dele se possa desviar sob pena de perecer.

Um abraço Amigo e o meu singelo muito obrigado pela "Obra" deixada no corpo e na alma daqueles que sofrem.

Maria Faia


De paula a 6 de Janeiro de 2009 às 18:10
http://www.jornaldigital.com/noticias.php?noticia=17231
aqui está uma boa notícia, uma gota de água no oceano talvez, ou talvez aquele bater de asas da borboleta que provoca um tsunami do outro lado do mundo.... quem sabe?


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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