Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

No momento em que é grande a minha preocupação sobre a situação no Mundo quero lançar um veemente e esperançado apelo para a necessidade imperiosa de nós, Portugueses, tal como há cinco séculos, mostrarmos um espírito visionário, dinâmico e ousado, que nos ponha na vanguarda dos povos que, voltando-se para e abrindo-se ao Mundo, defendam as causas, a ética, os valores e os princípios, sem os quais não vejo, pessoalmente, futuro promissor para a Humanidade.

Sem pretender ser exaustivo, referirei alguns dos problemas mundiais candentes que já se nos apresentam e na solução dos quais Portugal deve empenhar cada vez mais a sua voz e as suas acções.

 

Os conflitos armados, muitos dos quais esquecidos, tendo como pano de fundo os vários nacionalismos, etnicismos, tribalismos, fundamentalismos...enfim, sempre a intolerância. É inadmissível e incompreensível que, no século XXI, em África, na Europa, na Ásia, nas Américas e no próximo e Médio Oriente persistam dramas incomensuráveis sem que os governantes da arena internacional e os seus órgãos económico-político-militares mostrem vontade e capacidade para lhes pôr cobro. Qualquer criminoso contra a Humanidade, qualquer governo incompetente, corrupto e assassino, goza de imunidade e ri-se da passividade das instâncias internacionais e das suas decisões e ameaças. Estamos em pleno reino da selva; da lei do mais forte. O Direito Internacional nunca foi, talvez, tão menosprezado, as decisões das Nações Unidas tão ignoradas e os Direitos Humanos tão espezinhados. Estamos no meio de uma profunda crise de valores, de uma total ausência de referências éticas.

 

Os movimentos migratórios do Sul e do Leste vão agravar-se sem que nenhuma política-fortaleza os possa conter. Só as árvores nascem e morrem no mesmo sítio.
Esses movimentos, que rapidamente se transformarão em verdadeiros rios humanos, virão desaguar nas nossas fronteiras e nas nossas cidades atraídos pela Europa - "Árvore de Natal". Eles são provocados pela péssima situação socio-económica em que vivem esses povos devido às guerras, aos fundamentalismos, à péssima governação (corrupção), à explosão demográfica e à degradação do eco-sistema (nomeadamente a desertificação).

Só uma acção de Solidariedade enérgica e urgentíssima, no sentido de uma Cooperação forte, activa e verdadeira que leve a uma melhoria significativa das condições de vida desses povos, nos seus próprios países, criando condições de um desenvolvimento sustentado poderá anular essa tendência migratória que já começou e que nos ameaça submergir. Tal não será possível sem se pôr cobro à desgovernação vigente em muitos países: a esse respeito o que se passa no Zimbabué é o perfeito exemplo. Ninguém, hoje, sabe dizer como é que a África sub-sahariana vai viver daqui a 20 anos, com o dobro da população actual. Não será então que as soluções de fundo terão de ser pensadas para um bilião e duzentos milhões de pessoas quando, já para este ano, o défice alimentar é superior a dois milhões de toneladas.

 

A desertificação vai ser só um dos problemas ecológicos que as próximas gerações, porque a nossa pouco ou nada fez, vão ter que enfrentar, se não começarmos já a tomar as medidas vitais para que o problema não se lhes venha a deparar insolúvel.

 

O reaparecer de movimentos políticos racistas e fascistas por toda a Europa, e em Portugal também, sem que os governantes pareçam poder ou querer reagir com medidas económicas e políticas enérgicas que lhes possam pôr cobro.

 

O desemprego com as subsequentes pobreza e exclusão social que atingem franjas cada vez mais importantes dos povos é o custo inaceitável de soluções económicas autistas e de uma má distribuição da riqueza existente. É necessário que cresça uma nova forma de solidariedade para com os pobres e que se ponha um travão às deslocalizações abusivas e nefastas de certas empresas globais hoje, infelizmente, mais poderosas que a maioria dos Estados.

 

Hoje em dia, ninguém pode dizer que não sabe, pois com a informação instantânea de que dispomos, temos todos obrigação de conhecer as questões fundamentais que se nos levantam. Não podemos também e sobretudo cair na descrença e na desmotivação do nada podermos fazer. Nós, cidadãos, nós, Sociedade Civil (de Portugal, da Europa e do Mundo) temos a força, a razão e a capacidade de intervir e de mudar o que quisermos e quando quisermos. Os povos não pertencem aos Governos, sejam eles nacionais ou supranacionais mas, sim, à Humanidade e, por isso, têm o direito e o dever de reagir e de exigir uma maior participação nas decisões que possam pôr em causa a sua existência presente ou futura.

Perante tal quadro, quanto a mim realista, é forçoso lutar com coerência, sem ambiguidades, sem compromissos e sem receios, pela defesa da Paz, da Liberdade e dos Direitos do Homem o que implica lutar pela defesa do nosso eco-sistema, do Direito Internacional, assim como pelo fim dos conflitos (nomeadamente o iníquo e intolerável descalabro humano vivido na Palestina).

 

Portugal, que deu mundos ao Mundo, que legou à História o Humanismo Universalista, que foi o iniciador do movimento que transformou a Terra numa Aldeia Global, levando os povos a conhecerem-se e as culturas a interpenetrarem-se (infelizmente nem sempre da melhor forma) Portugal demonstrou então, que podia liderar uma verdadeira revolução cultural mundial.

 

Hoje, também Portugal pode e deve liderar outra revolução mundial: uma revolução do foro ético, neste mundo cercado de perigos e ameaças que ainda não assimilou o ideal da Fraternidade, participando na génese de um novo paradigma humano: mais solidário, mais ético e mais justo.

 

No Mundo, na Europa e em Portugal os portugueses não podem adoptar uma atitude passiva, integrando um movimento isolacionista, de intolerância, de indiferença, que conduzirá à construção de uma inoperante e inumana Europa-Fortaleza. Portugal, que viu milhões dos seus filhos emigrarem e serem acolhidos em todos os continentes, deve recusar alinhar numa decisão cega e egoísta que só levará a maior desespero e revolta dos esquecidos e famintos que nos rodeiam e que merecem lhes seja dado tratamento humano.

 

Meus amigos, sendo um ser optimista - o que me levou a fundar a AMI, uma obra humanista de dignificação do Homem e de Portugal - acredito plenamente que temos razões para sermos um povo com confiança em si próprio, para não cairmos no conformismo e derrotismo dos perdedores e que podemos ser líderes na defesa intransigente e inegociável de valores e princípios que preservem e dignifiquem Portugal e a Humanidade e que possam desactivar as bombas-relógio que representam a pobreza, a fome e a violência. Como diz António Alçada Baptista no seu livro "O Riso de Deus": "A fome e a violência são absurdos de tal modo estampados na cara do mundo que, quem a isso não é sensível, é porque não se chegou a integrar na espécie humana".

 

Nós, Portugueses, e todos os povos do Mundo temos que fazer parte dessa espécie humana. Devemo-nos isso.

 

É na defesa e na dinamização desses princípios e valores éticos e humanistas universais que eu penso que Portugal, país pequeno em superfície mas grande na sua História e na sua gente, se pode empenhar tornando-se impulsionador. Uma visão do Mundo onde a Vida e o Cidadão sejam colocados no seu centro é a única solução para podermos continuar a caminhar todos em paz e em progresso. Nós, Portugueses, temos as potencialidades e a capacidade para participarmos activamente nesse processo humano, sem quaisquer complexos de inferioridade.

 

Esse caminho só pode ser um: o que leve ao desenvolvimento de todos os povos, respeitando-se mutuamente, ajudando-se mutuamente, nesta aldeia global que os nossos navegantes nos legaram.

 

Como escreveu Júlio Dantas num artigo sobre a Rainha Santa Isabel: " Que seria de Portugal se o seu povo tivesse perdido a sua generosidade e a sua dádiva para com os que sofrem? Porque ser Português é ter uma alma que se comove e vibra e chora quando perante a dor, o gesto nobre, o feito heróico, o amor. Foi essa generosidade que fez Portugal. Porque quando o povo quer, Portugal acontece".

 

Ao terminar, lembro-vos o que perguntava Jorge de Sena a concluir um poema sobre a liberdade após o 25 de Abril: "E agora, povo português?"
 



publicado por Fernando Nobre às 16:11
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32 comentários:
De Mendo Henriques a 12 de Janeiro de 2009 às 02:51
Meu Caro Fernando Nobre

Apenas para dizer presente e obrigado por mais este seu grito!


De Fernando Nobre a 12 de Janeiro de 2009 às 15:37
Meu Caro amigo sei que entende. Foi em nome da Liberdade e do Desenvolvimento sustentado do nosso País que foi criado o IDP ... Abraço e bem haja.


De Jorge Silva a 11 de Janeiro de 2009 às 21:26
Meu caro:

Comungo na íntegra das suas preocupações e subscrevo na íntegra tudo o que escreveu.

Citando-o e a Jorge de Sena... "E agora, Povo Português?"

Pela minha parte respondo: PRESENTE.

Abraço amigo e fraterno

Jorge Silva







De Fernando Nobre a 11 de Janeiro de 2009 às 23:20
Sei que o meu Amigo estará sempre presente e, se necessário for, estaremos do mesmo lado do muro... Abraço sempre Fraterno e que a Força e a Beleza nos conduzam à Harmonia.


De Graza a 11 de Janeiro de 2009 às 20:26
Caro Fernando Nobre a força das suas palavras e a maravilhosa utopia da sua crença turvam-nos o olhar e quase nos priva por momentos a escrita. Como seria esta Terra com muito mais gente do seu calibre, do que daquela que lhe impedem a concretização dos seus sonhos? Que tormentos passados poderíamos ter evitado e de que futuros poderíamos estar a salvo se a génese humana não acolhesse no seu seio tanto egoísmo, princípio de todos os seus males? Como é possível acordar tanta resignação e indiferença sem que seja preciso algum veículo, um invólucro espécie de demanda religiosa, que os apanhe pelo seu lado frágil que é a sua pequenez perante o medo da morte? Como é possível fazermos isto sem os castradores atavismos de uma religião? Como é concretizável com uma Humanidade tão pavorosamente estratificada ? E que fazer dos escolhos que impedem indefinidamente o curso? Não quero obviamente nenhuma resposta, porque não é o facto de o estar a interrogar que me coloca do lado dos resignados e indiferentes. São simples reflexões, como partículas sem massa para incorporar nessa espécie de singularidade que preconiza e deseja, á espera do seu big bang .


De Fernando Nobre a 11 de Janeiro de 2009 às 23:16
Não sei como lhe explicar minha amiga. Só sei que é assim que tenho de viver e lutar. Se assim não fosse já cá não estaria. Acredito que eu vou morrer no período das Trevas. Luto para que um dia os meus filhos, ou netos, possam ver nascer uma nova Aurora. Posso-me enganar. Desejo ardentemente que me engane. Só o futuro dirá. Abraço sempre amigo.


De Graza a 12 de Janeiro de 2009 às 11:05
Caro Doutor Fernando Nobre, a culpa é minha por navegar aqui com este identificação, o Graza é apenas uma alcunha derivada de João Grazina! Sem problema algum!


De Sara M a 11 de Janeiro de 2009 às 18:30
olá Dr. Fernando Nobre,
desde o primeiro post que acompanho o seu blog.
este blog é um dos tesouros que se podem encontrar de partilha tão generosa, que tem tido a capacidade de revolucionar o meu interior e fortalecer ideais. as suas palavras tão vividas fazem acreditar no futuro (não desistir dele) e levam-me a segredar baixinho todas as noites um optimismo persistente. cada dia, cada "passo" da missão, todos os dias como um pedacinho de uma missão. começo a aperceber-me da importância de tomar consciência da nossa aldeia global, do efeito borboleta - onde cada gesto vai ter uma vibração própria que vai afectar sempre alguém. e, no nosso dia-a-dia, o gesto mais simples e verdadeiro tem um impacto real, por isso nunca haverá razões para desistir. ubuntu.
o que mais me cativa é, e será sempre, a coragem de viver como ser livre...espero crescer a aprender isso e, agradeço o seu belo testemunho e história de vida.
estou pronta, preparada o dirá o tempo, para me inserir na sociedade de olhos atentos e mãos desamarradas para construir, tocar, segurar. do meu ponto de vista, parece que todo o país, em geral, está dormente, anestesiado. onde uns vivem activamente em simbiose, outros acatam passivamente um comensalismo e, outros um terrível parasitismo. parecem-me urgentes mudanças e, com tantos avisos até da mãe natureza não percebo a falta de acção, porque meios não faltam. acredito cada vez menos no nosso sistema actual e, já não se trata de acreditar mas sim, infelizmente, vivenciar. talvez, se o dinheiro fosse mais valorizado/merecido não houvesse tanta ganância, as coisas seriam feitas com propósito próprio e não secundárias à quantidade de dinheiro em jogo. talvez, um sistema mais baseado numa troca de serviços desse mais sentido e alegria às nossas vidas. por um lado orgulho-me da nossa era, o homem pode sonhar cada vez mais alto e concretizar em tempo de vida o que idealiza. com a internet o nível de cooperação e acessibilidade que nos é permitido é ilimitado, esteja eu onde estiver fisicamente. por outro lado, e assustadoramente, pouco se faz para salvar o planeta que nunca se recusou a acolher-nos e a alimentar-nos. esta distância cada vez maior da natureza, a dificuldade de perceber de que somos feitos. Será que ninguém vê as consequências? Só vale o que tenho agora no imediato para me consolar?
e, só de pensar, no impacto da comunicação social…quantas horas os cidadãos passam a ver televisão, a deixarem o cérebro absorver informação, imagens, sons, movimento..coisas que o definem e entusiasmam…é importante seleccionar tudo isto, porque isto também nos alimenta… só anseio que esta crise ambiental, política, económica, educacional impulsione boas mudanças e, não apenas fáceis e ilusórias mudanças para o domínio de massas. como país pequeno que somos, acho que não devemos perder a coragem de dizer não quando é necessário, nem sim quando é premente.
sinceramente, só vejo os problemas, não consigo arranjar uma solução simples para tudo isto. a única solução que vejo agora é, começar por mim a viver em consciência, com o poder que tenho com o que me rodeia e os que me rodeiam e, esperar e rezar pelos que podem, fazem, desejam, persistem, optimizam..que tenham forças e não se deixem abater pelos desvalores que andam por aí…porque em breve isto pode acabar por rebentar, só espero que não cheguemos a esse ponto, e se chegarmos que não seja o advento do “admirável mundo novo”, mas sim uma tomada de consciência global que nos dispa e eleve a nossa “luz”. o que aconselha doutor para se reverter esta anestesia geral?


De Fernando Nobre a 11 de Janeiro de 2009 às 23:09
Cada um de nós deve contribuir para a sensibilização geral. Somos todos gotas de água mas acredito que a vontade move montanhas. Nunca desistir de lutar pelas nossas ideias. Nunca desista. Estamos a lutar para os filhos e os netos... Abraço e Força.


De António a 11 de Janeiro de 2009 às 14:28
Dr.Fernando Nobre.Sei que é grande admirador de Agostinho da Silva.Eu também.Filosoficamente,comungo de muitas das suas ideias,embora ele tivesse sempre o cuidado de sugerir,no seu discurso benevolamente irónico:"façam-me o favor de estar do contra...;",apelando,pois,à supremacia do espírito livre e crítico.Um Grande Mestre,uma Grande Alma,sem dúvida.Dele disse Eduardo Lourenço,no prefácio ao livro de Luis Machado,"A Última Conversa Com Agostinho da Silva":"Recebeu-me(recebeu-nos,a mim e minha mulher)como se me conhecesse desde sempre.Com uma enorme e negra aranha dos trópicos na palma da mão esquerda,divertido com o meu assombro e não pequeno temor.A Natureza e a sua face misteriosa,terrífica,o símbolo dos pesadelos e das ficções científicas,repousava nas suas mãos como num berço.Tinha domesticado "o mal" como se ele não existisse.Ou como se ele não quisesse ver.Não sei se isso basta para perceber que espécie de "misticismo" era o seu.Mas bastou-me para sentir,e definitivamente,que estava diante de um dos Homens mais extra-ordinários que me foi dado conhecer".Onde quer que ele esteja,está certamente espiritualmente vivo,feliz como haver em Portugal e no Mundo um Homem Nobre como o senhor...abraço amigo.


De Fernando Nobre a 11 de Janeiro de 2009 às 23:25
Eu estou sobretudo feliz por ter tido a imensa Honra de ter abraçado um Ser Humano Extraordinário com a imensidão de um Agostinho da Silva. Sei que um dia nos voltaremos a ver e que ricas conversas em perspectiva... Grande abraço.


De paula a 11 de Janeiro de 2009 às 10:03
Mudar mentalidades é o grande desafio nesta sociedade que deixámos crescer, de consumismo, competitividade, aparências, em que se valoriza mais os resultados e não os percursos.
Será a crise económica mundial a grande lição para as sociedades «evoluídas»?
Será que a crise económica vem fazer com que as pessoas se tornem mais solidárias, com que alterem as suas prioridades, com que procurem valores morais e éticos?
É com angústia e sofrendo na pele, que cada vez mais me inclino para admitir que a crise económica é o «balde de água fria» necessário para despertar consciências.
É a partir das famílias, das escolas, das comunidades jovens, que se tem que começar a mudar, e daí para o Mundo.
Há um ou dois anos atrás achava que os valores éticos que tenho vindo a ensinar aos meus filhos não tinham aplicação prática, não se enquadravam na cruel realidade social deles, marginalizá-los-iam.
Hoje sei que não há outro caminho, Solidariedade, Verdade, Seriedade, Instrução e Conhecimento.
Alguém disse um dia – tomar conhecimento é tornar-se responsável – é preciso abrir os olhos e dar a conhecer.
Agora um à parte e um sorriso: por aqui, no meu micro-universo, vou «pregando» na esperança de que como o povo diz – água mole em pedra dura tanto dá até que fura – mas há alturas em que me parece que só os dois peixinhos vermelhos aprisionados no aquário é que me ouvem…e porque não podem fugir…
Bom domingo e parabéns pelo tempo que consegue para responder aos comentários (eu não disse que ele estica?).


De Fernando Nobre a 11 de Janeiro de 2009 às 12:50
Faz muito bem em semear esses Valores que são eternos. Acabarão por vencer. As grandes crises, como a actual, ajudam-nos a recentrar as questões. Ah minha amiga...o tempo! Beijinhos.


De paula a 11 de Janeiro de 2009 às 13:04
O tempo, Fernando... está frio. Cuide-se


De Fernando Nobre a 11 de Janeiro de 2009 às 23:27
Abraço Amiga.


De Ana Isabel Silva a 11 de Janeiro de 2009 às 04:38
Boa noite!
Este seu post levou-me a pensar no orgulho com que, em outros tempos, o meu avô, que infelizmente já não está entre nós há muito tempo, lutou para que fôssemos um país livre, democrático, em que a voz do povo fosse ouvida. Recordo sempre a história contada pela minha mãe de como lhe escorria uma lágrima pela face quando pôde, por primeira vez, exercer o seu direito ao voto... ele, homem imponente, sério, de poucas lágrimas.
Tenho 24 anos e, feitas as contas, não vivi esses momentos de luta cujas histórias tanto me fascinam. Não faltará, em muitas das gerações pós- 25 de Abril, como a minha, a necessidade de (re)pensar ideais? de travar as nossas próprias lutas? de perceber o valor de ir às urnas, exercer o que considero, mais do que um direito, um verdadeiro dever?
Falta pensamento crítico, vontade de arregaçar as mangas e partir à descoberta de novos caminhos. É tempo de preferir o diálogo ao silêncio mudo das armas. É tempo de abraçar quem procura o nosso país para novas oportunidades... e é tempo de as dar!
Quanto ao crescimento dos movimentos fascistas e racistas... tenho assistido ao mesmo com preocupação em países como a Suiça (país onde se encontram a viver os meus pais neste momento), Alemanha ou Austria. Seguramente, ainda que não tão evidente, o mesmo sucede, pela calada, no nosso país. Será que a História é um círculo em que tudo se sucede, mais ou menos de igual forma, de tempos a tempos? Será que poderemos permitir que tal aconteça, impávidos? Outro dia, no programa "Opinião Pública" da Sic Notícias, falando-se do conflito Israelo-palestiniano, ouvi comentários que me chocaram. Desde a afirmação de que não existiu o Holocausto até à frase "essas pessoas de Israel são a pior raça à face da terra". Como é possível? E por incrível que pareça... é.
Respondendo à última pergunta, com que termina o seu post... Espero que agora seja o tempo de travar injustiças, de pensar soluções, de não cruzar braços e de não ficar parados. Agora é não deixar para amanhã. É não ouvir e calar. É não desviar o olhar ao que está mal. Agora é tempo de travar novas lutas e perceber que nada se consegue fazer sem se fazer alguma coisa.
P.S. - Como enfermeira assisto, demasiadas vezes, ao abandono dos nossos idosos. Fica para pensar talvez... mas se não cuidamos dos nossos, de quem nos deu o colo, a comida, os primeiros carinhos... como queremos ir mais além e ajudar outros?


De Fernando Nobre a 11 de Janeiro de 2009 às 12:45
Estou seguro que a sua geração, que é a dos meus filhos (28, 26, 16 e 12) saberá travar as batalhas que se impõem e saberá vencê-las. Só as grandes batalhas merecem ser travadas. Não desespere que a sua geração conhecerá uma nova Aurora. Lutem por Valores, pela Dignificação de TODOS os Seres Humanos, pela Tolerância e pela Liberdade sempre tão frágeis... Abraço.


De M.A. a 10 de Janeiro de 2009 às 16:17
A visita a este blog e a leitura dos seus escritos já se tornaram num hábito diário para mim e creio que para muitos mais.Faço mesmo impressão de alguns deles para levar a um amigo de 85 anos que sei gostar também de os ler. "Que Portugal no perturbado mundo contemporâneo?" Uma interrogação que nos deixa muitas dúvidas, claro. Saibamos nós, portugueses, cada um à sua escala, continuar inconformados e sempre revoltados com a fome e toda e qualquer forma de violência que grasse em qualquer parte deste Planeta. Recentemente, atacada pela gripe, a estadia na cama deu-me oportunidade de ler, de um fôlego, as suas "Viagens contra a indiferença". De novo eu lhe digo: Bem haja pelo que faz!
M.A.


De Fernando Nobre a 11 de Janeiro de 2009 às 01:52
Abraço e recupere depressa da gripe. Abraço também ao seu amigo de 85 anos. Aprenda com ele pois é de certeza uma grande biblioteca e Doutorado pela vida! Aos dois, até um dia...


De Lara Mafalda a 10 de Janeiro de 2009 às 14:21
É uma força extraordinária e transcendente que move este homem!!
Este é um blog inspirador e desafiador e de um enorme sentido de humildade. O Dr. Fernando Nobre, nobilíssimo, responde aos comentários feitos aos seus posts !!
Obrigada.


De Fernando Nobre a 11 de Janeiro de 2009 às 01:45
Não mereço tão grandes elogios. Tentarei responder ao máximo de comentários porque é uma questão de educação e porque procuro que este blog seja um espaço de DIALOGO. Aqui só não são, nem serão, inseridos os comentários insultuosos. Quanto às discordâncias, se apresentadas com elevação e espírito crítico construtivo , serão sempre as bem vindas. As pontes e os entendimentos temos que os estabelecer entre nós antes de pedir que os outros o façam... Abraço.


De isabel mota a 10 de Janeiro de 2009 às 08:14
Antes de mais muito obrigada por ter iniciado este espaço onde podemos sentir, uma proximidade muito maior, com toda a sua generosidade, sensibilidade e também com a dureza da realidade que testemunha .

O senhor e a AMI representam para Portugal um enorme motivo de orgulho. Se todos fizermos um pouco atentos e se ensinarmos os nossos filhos, com o nosso exemplo, a viver a solidariedade no nosso quotidiano, poderemos ter esperança no Portugal do amanhã.
Sou voluntária, apenas duas manhãs por semana, no Centro de Dia da minha freguesia e nos meus filhos vejo o oposto do que encontro nos "meus velhos".
Eu luto contra a resignação deles e solidarizo-me consigo na sua luta, aqui e pelo mundo. Continue a dar-nos mais e novas pistas e conte comigo sempre que precisar. Isabel Mota


De Fernando Nobre a 11 de Janeiro de 2009 às 01:34
Continue a lutar amiga. Não se deixe resignar nem permita que tal aconteça com os seus filhos! Força e abraço.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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