Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Vamos no 17º dia de conflito em Gaza e já com mais de 900 mortos e 4000 feridos.

 

A esse respeito quero apenas relembrar que, na altura do conflito da Sérvia com a sua região autónoma, o Kosovo, em 1999, acusavam-se as forças sérvias de terem morto cerca de 900 kosovares como retaliação de ataques sofridos por parte do UÇK. Essa situação levou à intervenção da NATO que acusava a Sérvia de "genocídio". Quando os bombardeamentos da NATO na Sérvia provocaram 900 a 1000 mortos sérvios, falou-se em "danos colaterais". O que eu hoje me pergunto é se em Gaza vamos falar de "genocídio" ou de "danos colaterais"...

 

APELO a um cessar-fogo imediato e ao diálogo.

 

Permito-me transcrever aqui um texto meu, publicado no Diário Económico de dia 9 do corrente:

 

Seria muito longo abordar, com a profundidade histórica, étnica, religiosa, geográfica e económica…necessárias, um assunto de sobremaneira complexo e intricado nos jogos políticos, económicos e militares das potências regionais e mundiais que intervêm no Médio Oriente.
Esta região não precisa mais de óleo sobre o arrasador incêndio, particularmente violento nos dias de hoje, que há décadas lá se vive. Precisa sim de bom senso e razão.
Ponha-se fim imediato ao massacre e instale-se um cessar-fogo com as seguintes premissas: reconhecimento a breve prazo de dois Estados, soberanos e viáveis, por todos os beligerantes; cessação imediata de apelidações de “terroristas” seja por quem for nessa região; desmantelamento dos colonatos judaicos na Cisjordânia; desmantelamento do muro da exclusão e humilhação; fim dos tiros sobre Israel e das retaliações sobre Gaza; reconhecimento do Hamas como partido político; interposição neutral de forças militares convincentes das Nações Unidas até que os dois povos semitas irmãos cooperem; investimentos financeiros massivos na Palestina para que o seu povo possa viver com dignidade e volte a ter esperança.
O estatuto de Jerusalém, que deve ser declarada Cidade Santa, fica para depois.
É urgente a Paz. Em nome dela são necessárias concessões bilaterais para que se criem pontes de diálogo e de entendimento. É este o meu apelo à razão. Basta de bestialidade e de irracionalidade!



publicado por Fernando Nobre às 18:02
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16 comentários:
De Jorge Delfim a 12 de Março de 2009 às 00:27
«É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta.»

Padre António Vieira


De Helena Barreto a 27 de Janeiro de 2009 às 14:58

Carteira de identidade

Registra-me!

sou árabe

número de minha identidade é cinquenta mil

tenho oito filhos

e o nono... virá logo depois do verão!

vais te irritar por acaso?


Registra-me!

sou árabe

trabalho com meus companheiros de luta

em uma pedreira

tenho oito filhos

arranco pedras

o pão, as roupas, os cadernos

e não venho mendigar em tua porta

e não me dobro

diante das lajes de teu umbral

vais te irritar por acaso?


Registra-me!

sou árabe

meu nome é muito comum

e sou paciente

em um país que ferve de cólera

minhas raízes...

fixadas antes do nascimento dos tempos

antes da eclosão dos séculos

antes dos ciprestes e oliveiras

antes do crescimento vegetal

meu pai... da família do arado

e não dos senhores do Nujub¹

e meu avô era camponês

sem árvore genealógica

minha casa

uma cabana de guarda

de canas e ramagens

satisfeito com minha condição

meu nome é muito comum


Registra-me

sou árabe

sou árabe

cabelos... negros

olhos... castanhos

sinais particulares

um kuffiah² e uma faixa na cabeça

as palmas ásperas como rochas

arranharam as mãos que estreitam

e amo acima de tudo

o azeite de oliva e o tomilho

meu endereço

sou de um povoado perdido... esquecido

de ruas sem nome

e todos os seus homens... no campo e na pedreira

amam o comunismo

vais te irritar por acaso?


Registra-me

sou árabe

tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados

e da terra que cultivava

com meus filhos

e não os deixaste

nem a nossos descendentes

mais que estes seixos

que nosso governo tomará também

como se diz

vamos!

escreve

bem no alto da primeira página

que não odeio os homens

que eu não agrido ninguém

mas... se me esfomeiam

como a carne de quem me despoja

e cuidado... cuida-te

de minha fome

e minha cólera.

(tradução brasileira)
Mahmud Darvich


De paula a 22 de Janeiro de 2009 às 14:16
«Não está claro quem saiu vitorioso neste conflito, mas sim quem o perdeu: a população civil», disse o sub-secretário da ONU para Assuntos Humanitários, John Holmes.
23 dias de ofensiva militar e pelo menos 1 314 palestinianos morreram, entre os quais 106 mulheres e 416 crianças, e 5 320 ficaram feridos em consequência da ofensiva. Da totalidade de feridos 1 855 são crianças e 725 são mulheres.
O Hamas, cujo líder Ismail Haniyeh proclamou uma "vitória histórica" contra Israel, minimizou as perdas sofridas com a ofensiva e afirmou que continua com capacidade para lançar rockets contra o Estado hebreu.
O Estado hebreu advertiu que pode voltar a atacar se o Hamas se rearmar utilizando túneis clandestinos.
E agora? Obama assumiu a presidência dos EUA, vira-se a página, o mundo esquece…. até à próxima «época baixa» de acontecimentos ….quiçá Agosto ou próximo Natal…
Até lá enterram-se os mortos, tratam-se dos feridos, factura-se armamento, reconstrói-se cidades, circula dinheiro…


De Fernando Nobre a 23 de Janeiro de 2009 às 20:19
Um dia as Mulheres e os Homens de Bem (em Israel, na Palestina, em Portugal, no Zimbabué, na Colômbia, nos EUA, na Rússia, na China...no Mundo inteiro!) porão um termo a esse circulo infernal. Assim será porque assim terá que ser. Abraço.


De paula a 23 de Janeiro de 2009 às 23:28
Gostava de ter a sua Fé, Fernando. Mas não tenho. Pelo menos a médio prazo não acredito.
O dinheiro manda, e a comunicação social comanda.
As pessoas têm que sentir a dor na pele para serem solidárias. É facil falar, é facil pregar, é dificil abdicar.
E os povos... África é tão grande e os africanos tão crueis entre si. Ásia é tão grande e tão grande a discriminação social. Europa, é tão cómoda...A América do Norte tão presunçosa, a América latina tão teimosa.

Façamos a nossa pequena parte, e todas as partes juntas, quem sabe? ....

Quem me dera ter a sua Fé


De António a 14 de Janeiro de 2009 às 01:07
O que faltará para inimigos se poderem ver como irmãos da mesma Humanidade ?...Talvez sentarem-se à mesma mesa e olharem-se olhos os olhos...António


De Tiago Santos a 13 de Janeiro de 2009 às 19:14
Penso que a questão já não está no reconhecimento do Estado de Israel, basta ler o que disse o líder do Hamas para o Le Monde Diplomatique...E que tal se Israel começasse a reconhecer o Estado Palestiniano?


De Fernando Nobre a 14 de Janeiro de 2009 às 02:02
Têm que se reconhecer ambos, e rapidamente , para já não haver "razões abjectas" para a chacina de inocentes. Há que se sentar à mesa e DIALOGAR partindo de premissas aceitáveis e que garantam a equidade e a Paz futuras. Estou cansado. Cheguei de uma conferência em Odivelas e parto hoje para o Zimbabué, Preciso de dormir um pouco. Desculpe e abraço.


De Alice a 13 de Janeiro de 2009 às 17:40
Querido tio...

Disse-me ontem entusiasmado o pai que quando tivesse um bocadinho viesse espreitar este teu novo cantinho para "gritar ao mundo".
Os meus parabéns por mais esta iniciativa e a certeza de que não sou a única orgulhosa...

Não é raro ouvirmos alguém dizer "Quero mudar o Mundo!". O teu contributo tem sido grandioso, porque não o dizes apenas... gritas, corres, choras, apertas a mão de alguém no terreno...
Para aqueles que ainda não vivem com a certeza de que este é um Mundo DE TODOS e por isso deve ser um Mundo PARA TODOS, atrevo-me e deixo também o meu grito: "Se querem mudar o Mundo, estão no local certo!". Este tem sido o meu pensamento quando acordo e o grito da minha alma para mim própria. Um pequeno gesto pode mudar a vida de alguém.

Lá em cima existirá sempre quem te proteja e aqui em baixo existirá sempre quem te ame.

Um abraço apertado,
M.Alice


De Fernando Nobre a 14 de Janeiro de 2009 às 02:04
És um bom ser humano. Já a tua avó o dizia e bem. Beijinhos.


De Luís Azevedo Silva a 13 de Janeiro de 2009 às 12:48
Obrigado pela luta contínua.

Partilhamos alguns pontos de vista e gostei de ouvi-lo no fórum pela paz, na A25A.

Também me tenho questionado sobre a questão do "genocídio". Não sei que mais precisam as autoridades para intervir firmemente neste conflito. E apesar de salvaguardar que não considero só um lado culpado, espanta-me que nem sequer façam algo para defender um povo. No fundo, isto é um ataque de um exército (por sinal, bem armado) contra um povo e não um confronto entre duas forças militares (o que, ainda assim, não justificava a desproporção).

As suas sugestões parecem interessantes mas como consigo argumentar quando alguém me pergunta o seguinte: como se pode reconhecer o Hamas como partido político (democraticamente eleito pelo povo) quando este não reconhece o Estado de Israel?

Obrigado.

Luís Azevedo Silva


De Fernando Nobre a 13 de Janeiro de 2009 às 14:19
O Hamas não terá outra solução senão reconhecer o Estado de Israel, pois ficaria numa posição insustentável perante o seu povo, se o Estado de Israel e a Comunidade Internacional reconhecerem o Estado da Palestina e fizerem outros gestos, como por exemplo aqueles que refiro no meu texto. Tudo isso teria que ser feito em simultâneo para ninguém perder a face... É importante! Como seria importante deixarmos de falar de "terroristas" como já referi noutros textos. Abraço..


De Luís Azevedo Silva a 13 de Janeiro de 2009 às 15:28
Sou jovem (tenho a idade do seu filho mais velho) e, mesmo não sendo isso uma desculpa, não sei alguns pormenores deste conflito Israelo-Árabe. Só recentemente, e pelo filme "Valsa com Bashir" soube, por exemplo, do massacre nos campos de Sabra e Chatila.

Penso que terá acompanhado a evolução deste conflito ao longo da sua vida e o que vem nos manuais de História nem sempre é o conteúdo total e exacto do que se passou. Daí também querer aconselhar-me junto de si.

Gostava de continuar esta "discussão" consigo, se me pudesse responder para o mail que deixo: o.azevedo.silva@gmail.com . Isto porque tenho receio de ser muito exaustivo e ocupar demasiado espaço nos comentários.

Há ainda mais questões que gostaria de lhe colocar não só relacionadas com este tema.

Espero que seja possível.


De Fernando Nobre a 14 de Janeiro de 2009 às 02:09
Conheci Sabra e Chatila no verão de 1982. Parto hoje para o Zimbabué. Amigo contacte a minha secretária na AMI que eu tentarei responder às suas questões sem muito me alongar...Falta de tempo... Abraço amigo.


De Mariah a 12 de Janeiro de 2009 às 21:51
Que mais posso dizer senão ...
"Basta de bestialidade e de irracionalidade! "
"É urgente a Paz. ", como o Dr. fernando nobre o diz e faz!
Deixo , à minha maneira, este registo.
Acredito no poder da Palavra.



poema das mil mãos


Aqui a sombra do céu é de sangue
e as nuvens infectadas por negros arcanjos.
A morte legou os seus últimos resíduos
e mil homens levantam-se do aroma da noite .

Escreveremos ainda o poema das mil mãos
em bandeiras de Paz
no peito dos meninos que não viram o sol.

A menos que nos roubem o ar e o fogo e a água
partiremos em busca das humildes mães de Gaza.


maria azenha





P.S. A vida é Vida aqui neste espaço.

Obrigada.


De Fernando Nobre a 13 de Janeiro de 2009 às 12:40
Fico feliz por ler sempre os seus poemas. Obrigado. Abraço amigo.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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