Domingo, 18 de Janeiro de 2009

Desde a Cimeira do Rio em 1992, sobre alterações climáticas e o subsequente Protocolo de Quioto (que os EUA e a China nunca ratificaram) forçoso é constatar que pouco ou nada se fez no que diz respeito às causas responsáveis pelas alterações climáticas do nosso planeta.

O que aconteceu desde então, pese embora a urgência das respostas perante as alterações constatadas (os inquietantes “efeito de estufa” e “aquecimento global”) bem como a elevada previsibilidade das suas tremendas consequências, consubstanciou-se sobretudo, e isto foi muito positivo independentemente dos responsáveis políticos globais, na esclarecida e decisiva tomada de consciência do problema por parte da emergente Cidadania Global. Como consequência dessa metamorfose cívica, ocorreram umas parcas, diminutas e tímidas medidas de contenção por parte de alguns governos e da União Europeia. Mesmo estes não souberam estar à altura das suas responsabilidades ao não reagirem e actuarem com a determinação exigida a curto e médio prazo, remetendo as aplicações concretas dos objectivos medíocres anunciados para prazos dilatados ou até mesmo para as calendas gregas.

E assim, no pântano da indecisão e incompetência, já se passaram 16 anos! Nestes 16 anos poderíamos e deveríamos ter sido muito mais ambiciosos e audaciosos na poupança de matérias-primas através da reciclagem, na substituição dos hidrocarbonetos (do petróleo, do carvão e do gás como fontes energéticas absolutas) e na consequente diminuição das emissões de CO2.

Já então tínhamos as capacidades tecnológicas para o fazer! Faltou, repito, a vontade e a determinação políticas, assim como a sensibilidade humanística por parte do imenso poderio do “complexo petroquímico” que não quis, e continua a não querer até hoje, prescindir de uma parte dos seus fáceis e faraónicos lucros obtidos a partir da exploração das jazidas de matérias fósseis, quase sempre sem as justas contrapartidas de bem-estar para as populações dos países “produtores”.
Pelo contrário, veja-se a miséria oferecida aos nativos, do Médio Oriente à costa ocidental de África, como contrapartida da exploração do ouro negro.

Faltou igualmente, por parte da sociedade civil organizada, e aqui fica o mea culpa, uma sensibilização adequada e sustentada junto das sociedades dos países mais ricos no sentido da contenção do seu consumismo de modo a contribuírem para um desenvolvimento equitativo e sustentado global do nosso planeta.

Em vez de prevenir, preferimos remediar! Eis-nos agora perante a iminência de catástrofes cataclísmicas provocadas pelo aquecimento global, tais como:
• derretimento dos glaciares polares, da Gronelândia e dos picos glaciares onde tínhamos as maiores reservas de água doce do planeta (em breve, por exemplo, já não haverá neve no cume do Kilimanjaro...);
• catástrofes naturais, tais como secas, inundações, tufões e ciclones (um acréscimo de 30% em 2007 comparativamente a 2006, por exemplo!);
• aumento da fome devido às repercussões que as alterações climáticas terão nas colheitas;
• fluxos de refugiados climáticos e guerras pelo controlo dos recursos hídricos;
• subida do nível da água dos mares e oceanos com o desaparecimento já previsto e anunciado de ilhas (no Pacífico e no Índico) e de significativas regiões das orlas costeiras em todos os continentes, incluindo na Europa (ex: região da Camarga, em França) onde já se começa a pensar, como medida preventiva, na construção de diques como os existentes na Holanda;
• ressurgimento de doenças tropicais, tais como a malária, o dengue e a febre amarela, nomeadamente no Sul da Europa (e por isso, em Portugal também) devido à expansão das áreas propícias a insectos vectores (mosquitos...);

Tais consequências são já consideradas irreversíveis, faça-se o que se fizer hoje, para os próximos 25 a 30 anos! Já amanhã! Tal é assumido no relatório anual do International Institute for Strategic Studies que refere que essas alterações poderão provocar conflitos internacionais “equivalentes a uma guerra nuclear” e também pelos delegados do Grupo Intergovernamental de Peritos sobre a Evolução do Clima.

Será preciso mais para acordarmos todos? Ou será que já escolhemos um futuro autofágico e suicida? De que estamos à espera? De mais discursos e mais cimeiras como a que decorreu em Bali, na Indonésia, que juntou cerca de 13 mil pessoas e 190 países, com muita retórica e modestos e decepcionantes objectivos práticos?

Em nome da humanidade, de todos nós, dos nossos filhos e netos É PRECISO ACTUARMOS JÁ, mesmo tendo em conta a irreversibilidade próxima de algumas funestas consequências, resultado da nossa total cegueira das últimas duas a três décadas. O nosso Planeta já não aguenta e não tolera mais os nossos desmandos globais. Não temos sabido escutar e interpretar os muitos sinais anunciadores de mudanças e, por isso mesmo, não soubemos ainda adaptar-nos correctamente aos novos tempos e às suas prementes exigências; temos sido péssimos gestores do nosso bem-estar futuro. Mais levianos e incompetentes é difícil. Somos todos responsáveis da não assistência ao nosso planeta em perigo! É, pois, já uma questão de vida ou de morte! Mais vale um acordar violento do que os cantos de sereia com que alguns irresponsáveis e incompetentes gananciosos globais nos querem adormecer levando-nos ao suicídio colectivo.

A AMI, como gotinha de água que é, está a actuar e prepara-se para o que aí vem. Está a actuar em Portugal e no Mundo, desenvolvendo vários projectos na área ambiental.

Estamos também a preparar-nos para o que pensamos ser, desde já, inevitável: tragédias climáticas e fluxos migratórios massivos. Como? Alargando a nossa rede de contactos globais, criando uma rede social de apoio forte e alargada em Portugal e reforçando as nossas capacidades humanas, logísticas e financeiras para que nos permitam actuar sempre que necessário e possível...
Ao tentarmos antecipar-nos às crises, prevendo-as “tanto quanto humanamente é possível fazê-lo”, e ao tentarmos adaptar-nos às mudanças já inevitáveis, pretendemos, só e apenas, dar o nosso contributo positivo. É a nossa gota de água na construção da Paz e da Harmonia globais. É apenas uma gotinha, mas dela não prescindimos, em nosso nome e em nome dos nossos filhos e netos!


Com todos vós, estou certo, vamos conseguir! Obrigado e um 2009 determinado e tenaz pela construção de um mundo mais justo e harmonioso.

 

 



publicado por Fernando Nobre às 12:32
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10 comentários:
De Ana Paula Costa a 21 de Janeiro de 2009 às 13:08
Mais um esplêndido artigo para despertar consciências Dr. Fernando (e para debate). Há alguns dias vi um documentário na RTP2 (valha-nos algum canal de jeito) sobre aquecimento global e as graves consequências para o planeta se não forem tomadas medidas atempadas para reverter a situação. Concordo que se estão a dar passos de caracol nesta matéria e os SINAIS já são visíveis, a ira do planeta está-se a manifestar das formas mais violentas, terramotos, furacões constantes, cheias, secas, frio abaixo dos valores normais em alguns pontos do globo onde isso não é, de todo normal.

O programa certamente também elucidaria o nosso Amigo Sr. Ferreira Pinto relativamente ao contra senso que lhe parece ser, ao se falar de aquecimento global quando na Europa se estão a manifestar temperaturas frias abaixo do normal. De facto é confuso para leigos como nós na matéria, mas encontrei na internete um artigo da GreenPeace que refere absolutamente tudo o que vi nesse documentário e que se chama “Aquecimento Global”. Creio que vai gostar.

Muito se fala de “sustentabilidade”, palavra tão em moda e à qual os grandes líderes mundiais não dão necessariamente a importância devida, quando estão em jogo factores económicos, parecendo-me, ser esse o maior dos entraves para este combate titânico contra o tempo, afim de se evitar uma catástrofe ambiental.

A propósito, deixo aqui uma "advertência" feita pela Greenpeace e que assenta que nem uma luva ao que refiro no parágrafo acima.

Quando a última árvore tiver caído
Quando o último rio tiver secado
Quando o último peixe for pescado
Vocês vão entender que o dinheiro não se come

Há lá coisa mais verdadeira!


De Graza a 20 de Janeiro de 2009 às 10:14
"Estamos também a preparar-nos para o que pensamos ser, desde já, inevitável:" Não deixa de ser dramático termos que passar à acção com esta premissa, mas é efectivamente isto que faz falta, é este o único caminho depois de nos termos enganado nas escolhas.


De Fernando Nobre a 20 de Janeiro de 2009 às 14:56
O tempo do palavreado passou. Eis chegado o momento da acção para a preservação do nosso belo e extraordinário Planeta Azul. Abraço.


De paula a 19 de Janeiro de 2009 às 09:09
O Global é um conceito lato e imenso, se cada um «varresse as folhas do passeio à sua porta», o mundo seria seguramente mais limpo, mais agradável para todos.
Se cada um cumprir a sua pequena parte em prol do Planeta, do Futuro dos nossos filhos, a luta pela consciencialização dos governos não seria tão difícil.
Está-se constantemente à espera que os governos cumpram com objectivos.
Sacudindo a água do capote, esquecemo-nos que é a partir do indivíduo, de cada um, que tem que crescer a consciencialização por um mundo melhor.
São pequenos gestos, simples, rotineiros, que pela sua simplicidade são negligenciados, desvalorizados. Mas dependendo de cada um de nós poderiam fazer a diferença.


De Fernando Nobre a 20 de Janeiro de 2009 às 14:53
Estou de acordo consigo. Abraço.


De paula a 20 de Janeiro de 2009 às 15:02
Parabéns, chegou ainda com forças e ânimo para responder a comentários. Fazia falta por cá. Bom regresso.


De Ferreira Pinto a 18 de Janeiro de 2009 às 19:38
Será que ainda se pode falar em "aquecimento global"? Tem feito tanto frio. Não será melhor ser mais cuidadoso nessa matéria? Não será que os factos estão a dar razão aos que sempre disseram que se deveria era esperar um arrefecimento do planeta e não o seu aquecimento? Ainda ontem li que, afinal, a calote do Pólo Norte se está a regenerar e a ficar ao nível dos anos setenta do século passado, revista Visão, se não me engano! Também há dias li que as aguas quentes da corrente do Golfo se tinham voltado a misturar com as águas da corrente fria do Pólo Norte como se esperaria que ocorresse em situação normal e não como o projectado segundo o modelo do aquecimento global.

São estas as achegas que deixo, com toda a consideração que o Doutor me merece.


De Fernando Nobre a 20 de Janeiro de 2009 às 14:51
Não sou perito em climatologia mas tudo o que leio, salvo o que certos "peritos" a mando das petrolíferas escrevem em artigos ou livros, vai no sentido do que escrevi. Há 32 anos quando cheguei a Bruxelas tinha todos os invernos neve pelos joelhos e cheguei a ter 20º negativos (o mínimo que vivi até hoje). Duvido que seja este curto período de frio que vivemos que irá travar o desgelo do Árctico , do Alasca e da Groenlândia... Oxalá me engane e que os nossos descendentes por cá possam ainda andar nos próximos 1000 anos. Abraço.


De Joana Santos Silva a 22 de Janeiro de 2009 às 22:39
Mais uma vez as suas palavras estão certas... Estes Invernos cada vez mais frios em Portugal devem-se ao Aquecimento Global! Apesar de contraditório, é verdade, passo a explicar...
O aumento da temperatura atmosférica faz com que as calotes polares derretam, é verdade; o clima em Portugal é "regulado" por uma corrente oceanica vinda do Polo Norte, que devido ao degelo cada vez é mais fria... Logo, regista.se cada vez mais temperaturas negativas.

Mas esta matéria é muito frágil...
Nao é fácil culpabilizar ninguem! Temos que ter em atençao às políticas aplicadas em cada paìs e principlamente aos grandes sectores interessados nesta matéria. É claro que o sector imdustrial vai ter que ser revolucionado, vai.se ter que gastar muitos milhoes de euros para travar o lançamento de gases poluentes para a atmosfera, é complicado fiscalizar se todas as industrias fazem o tratamento das suas águas residuais...
Contudo há uma medida que é muito simples e passa principalemte pela educação da populaçao! Há muitas pequenas tarefas diárias que podem ser feitas,contudo os programas escolásticos sao pobres nesta matéria...


De Rita Fazenda a 18 de Janeiro de 2009 às 17:57
Na minha modesta opinião, o processo mais dificil de todos será uma efectiva mentalização das pessoas do problema efectivo, pois ninguém está minimamente ciente do flagelo que representam as Alterações Climáticas e muito menos o comum mortal.
Primeiro passo é educar as pessoas para o problema e não serão apenas os governantes a fazê-lo mas todos os membros da sociedade civil. Prepranado também as gerações recentes a viverem de forma muito mais responsável em termos ambientais. è pouco mas vai ser muito bom se nacionalmente já isso conseguir, tratando-se ainda por cima de um país tão pequeno.
Agradeço as suas sábias palavras e valentia durante este anos à frente da AMI, è sem dúvida um herói no meu livro.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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