Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Enquanto homem que pretende ser activo na Sociedade Civil portuguesa e mundial, cometeria “um crime por omissão” ao não me pronunciar sobre os assuntos que dizem respeito a todos.

 

Portugal, seria absurdo nega-lo, enfrenta problemas que, sem serem catastróficos, são muito graves e carecem de urgente, empenhada e determinada resolução. De nada vale silencia-los, pois só se resolvem enfrentando-os e não negando-os com visões de curto prazo e demagogia que só demonstram a ausência de uma estratégia clara e de uma firme vontade em se ir avante com as reformas de que o país carece. O essencial sobre os problemas está dito e redito. Está feito o diagnóstico sobre os críticos sectores da saúde, da educação, da justiça, da agricultura, da defesa, da política externa… que são débeis porque débeis são a nossa organização, a nossa vontade e determinação políticas, a nossa economia e a nossa sociedade civil.

 

Nenhum de nós pode nem poderá estar satisfeito enquanto houver pessoas sem-abrigo, reformas de miséria, precariedade no trabalho, doentes que ficam meses à espera de uma operação; enquanto centenas dos nossos estudantes forem obrigados a emigrar para se formarem; enquanto as nossas universidades não se expurgarem do supérfluo e inútil e não deixarem de ter os parcos orçamentos que têm; enquanto, por norma, for preciso esperar anos para se fazer justiça; enquanto se privilegiarem com o erário público os “elefantes brancos” e os buracos sem fundo, em vez de se investir em hospitais, em escolas, apetrechos para universidades e centros de pesquisa, na luta contra a exclusão social e na melhoria da reforma dos idosos; enquanto os campos do nosso Interior se forem despovoando; enquanto os nossos ex-combatentes e as nossas Forças Armadas não forem devidamente reconhecidos e dignificados; enquanto a nossa política externa continuar a ter o orçamento mísero que tem; enquanto não se der a devida importância às nossas comunidades de emigrantes e imigrantes; enquanto a nossa sociedade civil for fraca, ignorada e mesmo, por vezes, ostracizada; enquanto a nossa economia não for competitiva e cidadã.

 

Se não superarmos tudo isto e o muito que ficou por dizer, ninguém, nem Estado, nem Mercado, nem nós – Sociedade Civil – (em suma, os três pilares que, quando equilibrados, são a essência de uma sociedade civil humana e harmoniosa), repito, ninguém, poderá dormir descansado, pois não teremos conseguido criar todos, em conjunto, a sociedade justa e ética de que Portugal precisa e que merece.

 

Falta vontade, organização, aprumo, dignidade e transparência na definição das prioridades. E depois, rigor, determinação e empenho no seu cumprimento.

 

São grandes os desafios e os obstáculos, sem dúvida, mas sinceramente creio que Portugal os vencerá se acreditar que é possível e se para tal for devidamente motivado.

Só com rigor, só sobrepondo o mérito, a competência e as provas dadas à cunha e ao clientelismo, só com profissionalismo, só com uma estratégia clara quanto às prioridades nacionais, só com transparência na gestão das contas públicas, só com genuína e sincera abertura à sociedade civil, chamando-a a intervir e a participar, só com um combate sem quartel à corrupção que mina a eficácia e a dignidade nacionais, só com mensagens e acções mobilizadoras que vençam o desânimo e o pessimismo instalados, será possível debelar a crise moral, social e económica que parece ter-se instalado. Para isso serão precisas decisões e opções políticas sérias e corajosas, que enfrentem alguns interesses instalados, que substituam intenções vagas, por medidas concretas e combatam, sem tréguas, a demagogia, o cinismo, a tibieza, a ligeireza e a superficialidade.

 

A grave crise latente no sistema político representativo, tendo na linha de mira a própria democracia, é um sinal de alerta de que todos temos de ter consciência. Tal como o Mundo de hoje tão injusto e ameaçador, Portugal, o nosso País, precisa de Estadistas, quero dizer, de políticos que não se demitam das suas responsabilidades e que façam da correcta gestão do bem público, a sua prioridade, não esquecendo nunca que a ÉTICA, a ESTABILIDADE, e a EQUIDADE SOCIAIS, deverão estar sempre presentes no momento da tomada de decisões.

 

Peço-vos pois, a quem lê o que escrevo, que contribuam decisivamente, num verdadeiro compromisso de Sociedade Civil, para um Portugal mais dinâmico, mais ético, mais solidário, digno e regulado. Para um Portugal com um projecto de sociedade e onde uma nova cultura cívica e de responsabilidade valorize o esforço e traga de volta uma visão estratégica de que D. João II foi, no plano histórico, o nosso maior exemplo. Assim, com opções e prioridades claras, poderemos de novo acreditar e sonhar com largos horizontes, empolgando-nos, dando-nos esperança a todos, em nome de Portugal.

 

Portugal pode não ter a força das armas nem a dos dinheiros, mas poderá sempre ter a força de ler o Direito e proclamar a Justiça, à luz dos Direitos Humanos. Designadamente, dando o exemplo.

 

O que aqui deixo expresso é válido para qualquer país do Mundo.

O NOSSO Mundo.
 



publicado por Fernando Nobre às 15:29
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15 comentários:
De Jorge Delfim a 11 de Março de 2009 às 03:32
Escrevia Eça de Queiroz em 1871 «O país perdeu a inteligência moral e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína cresce, cresce, cresce…O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. O estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e um inimigo» (Uma Campanha Alegre, de «As Farpas», Edição «Livros do Brasil» Lisboa).

A impressionante actualidade de muito deste texto devia tirar-nos o sono.


De Beatriz a 3 de Fevereiro de 2009 às 10:36
Sinceramente o que acho é que a Sociedade Civil, na sua maioria, sabe fazer as escolhas certas, quando as propostas que se nos apresentam são portadoras de mensagens de esperança, honestidade e competência. Mas infelizmente o que acontece quase sempre é sermos enganados. Sinto-me bastante negativa em relação às opções que ,se apresentam neste momento para Portugal. O nosso envolvimento - sociedade civil - será tão maior tanto quanto os nossos lideres estiveram na disposição de pôr de parte as guerrilhas de poder, e isso não parece possivel num futuro próximo. Já não há paciência para tudo o que se passa. A miséria a alastrar, a falta de fé ,de esperança, são hoje os temas de discussão. Ontem à noite, a caminho de casa, depois do trabalho, percurso que faço sempre a pé, senti uma revolta enorme. Num determinado local do Porto, cidade onde vivo, vi grupos de homens, na sua maioria com aspecto saudável e capazes de trabalhar, a arranjarem as camas na rua, para passarem mais uma noite. Este cenário, apesar de não ser novo, chocou-me tremendamente, porque alí estavam seres humanos no fulgor da sua idade adulta com direitos, com deveres , e a quem a sociedade retira toda a dignidade. Senti revolta, indignação e até falta de fé. Que Deus é este que deixa que estas coisas aconteçam. Citando o Dr. Nuno Lobo Antunes no seu livro - Sinto Muito - Que trafulhice terá feito Deus para consentir que estas coisas aconteçam e possa continuar a gozar impunemente os beneficios do Céu. É obvio que Deus nada tem a ver com as más decisões que os homens tomam, mas perante tanta injustiça que podemos nós fazer...Eu, sinto-me impotente. Que caminho seguir? em quem acreditar? Desculpem, mas hoje não consigo acreditar.


De Fernando Nobre a 3 de Fevereiro de 2009 às 11:15
Não é o momento de se perder a esperança. Força. Abraço.


De João Ferreira a 8 de Fevereiro de 2009 às 23:19
Caro Fernando,

Tem sido com muito prazer e com muita alegria que tenho seguido as pegadas da AMI desde os anos 90, tendo participado como voluntário e colaborador no Centro Porta Amiga do Porto. O destino quis que nós não nos cruzássemos, pois em Maio de 2001 (Ano Internacional dos Voluntários) não compareci (talvez por não ser muito dado a festas?!) numa cerimónia para receber das suas mãos um diploma de reconhecimento pela acção humanitária desenvolvida. Quis o destino, ou talvez Deus, que nós agora nos encontrássemos aqui neste espaço cibernético . :-)

Relativamente ao assunto e ao pedido em causa, gostava de deixar uma palavra àqueles que te lêem e acompanham neste blogue.

Meus Caros: a nossa Sociedade Civil (a portuguesa, mas não só esta) tem andado arredada dos círculos políticos desde a alguns tempos a esta parte; talvez por desinteresse, ou talvez pela bipolaridade do sistema politico, ou mesmo pela descrença no sistema fruto de uma actividade parlamentar pobre e indiferente no que toca à resolução dos verdadeiros problemas dos cidadãos. Porém, houve grupos de cidadãos sem qualquer formação política que souberam reagir, ora criando ONGs, ora criando Movimentos de Cidadania activa que se vão submeter a votos em próximas eleições (um deles é o Movimento Esperança Portugal). Cada um de nós tem um papel fundamental na construção de uma sociedade e de um mundo que dignifique a pessoa humana e que não deixe ninguém ficar para trás no comboio do desenvolvimento. Este é o tempo ideal para começar do "zero" e criar um novo paradigma de desenvolvimento sócio-económico.

Deixo-vos com alguns links onde podem encontrar a inspiração para um empreendedorismo social e cívico:

1. Conferência dada pelo Senhor M. Yunus (pioneiro do microcrédito) http://global.unc.edu/index.php?option=com_content&view=article&id=792&Itemid=94

2. Kiva e o seu papel no desenvolvimento do empreendedorismo nos países sub-desenvolvidos: http://www.kiva.org/about/what/

E muitos mais haverão....

Um Abraço,
João


De pedro castro a 2 de Fevereiro de 2009 às 18:18
Dr. Fernando Nobre,
Isto era tão fácil se todos os políticos tivessem 1/10 (já não peço mais) das qualidades e visões que o DR. tem para Portugal e para o Mundo, porque será que não fazem?
Este caminho talvez um dia venha a ser percorrido, mas quanto tempo? quantas gerações terão passado para que o Homem evolua em todos os sentidos da palavra, Humanismo, Respeito e Equidade?
Como dizia um famoso musico e "poeta" John Lennon , numa música intitulada Imagine- " maybe you say I'm a dreamer , but I'm not the only one .............., só espero que um dia sejamos muitos e possamos mudar este estado de coisas.
Um forte abraço
Pedro Castro


De paula a 2 de Fevereiro de 2009 às 09:56
Poderá a Sociedade Civil lutar por ideais sem um governo honesto que a apoie?
Olhando para quem nos governa, bem ou mal, olhando para a oposição, procurando alternativas… o quadro é, se não negro, cinzento muito escuro. E, infelizmente não me parece que venha aí um «D. João II» …
(Já sei, já sei, é o meu pessimismo do costume, mas já tem vindo a ceder aos bocadinhos…)


De Fernando Nobre a 3 de Fevereiro de 2009 às 17:54
São os cidadãos que elegem os seus governos, pelo menos nos países, ainda democráticos, onde se vota! Nenhum de nós se pode eximir das suas responsabilidades. Somos todos co-responsáveis! A Idade da Inocência terminou... Agora é olhar para o Futuro e actuar em consciência e em conformidade...com o que desejamos para a nossa Sociedade Humana e para o Mundo!


De paula a 3 de Fevereiro de 2009 às 17:58
Para actuar em consciência elegendo governos e responsáveis é preciso que haja alternativas credíveis, se não há que nos resta? votar nas oposições, mesmo que não seja pelos ideais, esperando que equilibre a balança...


De Fernando Nobre a 3 de Fevereiro de 2009 às 21:39
Amiga Paula na altura certa as alternativas credíveis surgirão. Tenha calma e paciência... Até lá olhemos à nossa volta e ajudemos quem precisa: pode estar mesmo ao nosso lado. Força.


De paula a 3 de Fevereiro de 2009 às 22:45
Fernando, dificilmente chegarão alternativas credíveis daqui até lá. Quanto a paciência, tenho tanta que de virtude passa a defeito... Admiro o seu optimismo perante os cenários que se lhe deparam. Abraço


De Joana Miguel a 1 de Fevereiro de 2009 às 22:41
Nunca é demais falar sobre as injustiças que são declaradas em qualquer ponto no Mundo !
Para mim as injustiças são um desagrado total às acções que o Homem perfaz sobre os outros ..
É bom que as pessoas fiquem lúcidas e conscientes do que é ser justo e não ser .. do que envolve todo o sistema .. é necessário existirem essas pessoas para as almas serem salvas e principalmente para haver respeito e acima de tudo evolução no Planeta Azul!

Continue a postar com essas palavras que descrevem cada realidade actual!

Cumprimentos!


De Outsider a 1 de Fevereiro de 2009 às 18:25
Ola Fernando,

Gostei da frontalidade do teu post.
Este nosso país, terceiro mundista vai de mal a pior.

O que me agrada no meio disto tudo é a liberdade que existe na blogosfera a a possibilidade de encontrarmos opiniões iguais e pontos de vista comuns, em vários blogs, onde a verdade é publicada, sem favoritismos, clubismos ou outras afiliações ... doa a quem doer ... a carapuça que sirva a quem tem de servir!!

Viva a blogosfera ...



De Fernando Nobre a 3 de Fevereiro de 2009 às 17:34
Assim é: só enfia a carapuça quem quiser... Abraço.


De Luisa a 1 de Fevereiro de 2009 às 16:06
Com tão poucas palavras, conseguiu descrever tudo o que vai cá no nosso Portugal e as medidas certas para as combater, pois enquanto houverem (como disse e muito bem) "visões a curto prazo", que só servem para tapar buracos e passar a batata quente a quem a quiser segurar, as coisas não podem de facto evoluir... O problema é que ainda não apareceu quem verdadeiramente quem esteja disposto a, honestamente, querer segurar essa "batata quente"!! Existem muitos portugueses com ideias, vontades, determinações, esperança, etc, como o Dr. Fernando, como eu, e como tantos outros, mas se não houver uma real transformação ao nível do governos e das suas políticas, as coisas pouco podem melhorar, pois como referiu, e muito bem, só com a união dos 3 pilares essenciais (Estado, Mercado e Sociedade Civil) as coisas podem começar a ser diferentes para aquilo que todos sonhamos, um Portugal mais justo, mais digno. Enquanto essas mudanças não acontecem, nós como sociedade devemos fazer a nossa parte, pois assim, quando surgirem transformações do poder maior (Governo) estaremos preparados para dar continuidade à nossa doação pelo bem comum! Essa doação não pode surgir do comodismo no aguardo do surgimento de que algo seja feito por quem "lá manda", deve surgir desde já, creio que tudo começa em nós e passando por nós, passa também pelas administrações do nosso país, que se quer mais humano em vários níveis. Por isso subscrevo o seu apelo à nossa sociedade: "que contribuam decisivamente, num verdadeiro compromisso de Sociedade Civil, para um Portugal mais dinâmico, mais ético, mais solidário, digno e regulado." E se tudo isto se torna válido para qualquer país do mundo, quem dera muitos países terem alguém como você para lhes dar ânimo, sentido de vida e de sociedade...

:)



De Fernando Nobre a 3 de Fevereiro de 2009 às 17:31
Cada um de nós dá o que pode. Temos que continuar a lutar pelos Valores que, para mim, são Universais. Assim tem que ser! Força.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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