Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

O texto que se segue foi escrito em Dezembro de 1998, há mais de 10 anos (incluí-o também no meu livro "Gritos Contra a Indiferença")...

 

Constato, infelizmente, que tinha razão!...

 

De regresso de várias viagens -  à Guiné-Bissau (via Senegal) durante o último Verão, para apoio às populações vítimas da guerra; de uma estadia no Bangladesh onde a AMI está a financiar um projecto junto dos miseráveis deslocados pelas recentes inundações; de uma passagem por Nova Iorque, a convite da Fundação Konrad Hilton para participar num seminário sobre o Humanitário e o século XXI; e de uma missão humanitária nas Honduras para socorrer as vítimas do ciclone Mitch - devo confessar que concordo com o Sr. Ignacio Ramonet, director do “Le Monde Diplomatique”: estamos a caminho do caos. Ou paramos já (para escutarmos e socorrermos os gritos de desespero de ¾ da população mundial, para olhar e ver os erros cometidos nomeadamente na defesa do Homem e do meio ambiente e para pensarmos no que realmente queremos fazer do nosso mundo) ou todo este frenesim descontrolado pode levar-nos mesmo ao caos global.
Hoje, os políticos, os economistas e os financeiros estão todos ultrapassados, tentando no máximo gerir o dia a dia, pela rapidez com que a globalização se fez e pela instantaneidade com que os colossais fluxos financeiros se movimentam, destabilizando regiões inteiras num jogo virtual especulativo, perverso e perigosíssimo para o mundo inteiro. Estamos em equilíbrio muito instável em cima de um castelo de cartas que pode ruir de repente, levando consigo toda esta aparente e falsa tranquilidade. A falência do banco Barings e os efeitos do “el niño” e da “el niña” já deviam ter sido suficientes, entre muitos outros sinais de alerta, para nos chamar à razão e ao bom senso!

As revoluções tecnológica (tendencialmente desumanizante), económico – financeira (verdadeiro jogo como no “mercado dos futuros”!!) e social (a crise global do poder/ desemprego) em curso, estão a levar ao domínio total do financeiro sem rosto sobre o político, o social, o ético e o moral com todas as terríveis consequências. Sem querer ser o Velho do Restelo, grito: alerta!, cuidado!

Com tanto miserável no nosso mundo onde umas 300 pessoas acumulam mais riqueza do que 3 biliões (50% da população mundial), onde o fosso entre o Norte e o Sul nunca foi tão abissal, onde as disparidades sociais nos países ditos civilizados e desenvolvidos nunca foi tão grande, isso só pode rebentar. Quando? Não sei! Só sei que assim não vamos a parte nenhuma. É tempo de inverter a marcha funesta que nos tem conduzido. Por favor, é preciso bom senso.

Após ter estado num espaço de um mês em Gabu, na Guiné, em Nova Iorque e a sua frenética Wall Street, em Bogra, no Bangladesh e em Tegucigalpa nas Honduras, estou em estado de choque. Não aceito tão fantásticas disparidades; não é humanamente suportável. Eu não consigo conviver com isso sem gritar a minha angústia, revolta e indignação e sem tentar, convosco, fazer algo de positivo pelos sofredores, pelo nosso mundo.
Peço-vos, pois, para reagirem. À escala individual, sejamos solidários. Não à indiferença, não à intolerância, não ao caos que alguns estão a oferecer a tantos, em nome de coisa nenhuma a não ser a insensatez e a cobiça. Temos, cada vez mais, de continuar juntos a nossa luta. Só ela dá sentido à vida.

 

Publicado na AMInotícias nº14 - 1998



publicado por Fernando Nobre às 14:53
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12 comentários:
De Ana a 26 de Fevereiro de 2009 às 23:34
A cada dia que passa assistimos a um aumento da pobreza no mundo e quase ninguém se importa apenas finge importar-se.
A verdade, e que ás vezes vemos crianças, com olhar triste, a pedir na rua e pensamos "coitadinha!!, que futuro terá esta criança??" mas o que fazemos para mudar isso? absolutamente nada... Voltamos costas e continuamos a viver a nossa vida e os nossos problemas... Eu acredito que as pessoas sintam pena e queiram ajudar até porque quando há acções de sensibilização mostram-se bastante receptivas mas na hora de disponibilizar tempo o caso muda de figura... Disponibilizar tempo a ajudar os outros é algo que infelizmente poucos são capazes de fazer e, deste modo, o mundo continuará a ser daqueles que nasceram num "berço de ouro" e as desigualdades sociais serão cada vez mais evidentes...

Mas, a verdade, é que também não é por eu deixar aqui um comentário que o mundo vai mudar porém se o deixo é porque acredito que um dia vou ter condições para lutar por aqueles que não têm culpa de ter nascido num mundo marcado essencialmente pela injustiça.


De António Duarte Homem a 10 de Fevereiro de 2009 às 22:37
Concordo com a intolerância e indiferença que se verifica todos os dias neste Portugal e no Mundo. Eu próprio fui e continuo a ser vitima daqueles males. Não tanto como o Sr. Doutor, mas conheço alguns países africanos, nomeadamente, Angola, antes e depois da independência Meu pai era enfermeiro dos Serv.Saúde e Assistência em Angola. Também esteve no Congo em 1954/5. Conheceu os 4 cantos de Angola no âmbito do plano de vacinações. Embora se verifique um crescimento constante nesse país, dada a sua grandiosidade ainda há muito por fazer. Por ter acompanhado sempre os meus pais, penso que venha dessa situação o meu sentimento humanitário. Pena é que a maioria das pessoas se tenha deixado envolver por um exacerbado sentimento de egoísmo, colocando em plano secundário, o sentimento humanitário, a solidariedade , factores que o Mundo actual se encontra carenciado Mesmo que esses factores sejam produto da "evolução", como o Sr. Doutor refere devíamos não esquecer que com tanto egoísmo, intolerância e indiferença o Mundo poderá "tombar". Lamento não poder estar presente no Encontro a realizar no dia 28 de Fevereiro de 2009, no Porto, tendo recebido um convite da AMI. Sou de Coimbra e o momento não se proporciona à deslocação. Bem haja para a AMI. Os meus cumprimentos-


De Fernando Nobre a 19 de Fevereiro de 2009 às 17:05
Sei que em espírito estará presente. Abraço.


De paula a 6 de Fevereiro de 2009 às 11:49
Num mundo tão imenso, tão repleto de desigualdades sociais, crises humanitárias e dramas nos lugares mais recônditos e por isso menos visíveis do planeta, como escolhe quem ajudar? Que critério segue?


De Fernando Nobre a 8 de Fevereiro de 2009 às 12:59
Em resumo: a credibilidade das solicitações que nos são enviadas e que são sempre estudadas por missões de avaliação, a intensidade das necessidades, os nossos objectivos prioritários actuais (saúde, social, alimentar...) e as localizações geográficas em função das previsões que fazemos quanto a futuras catástrofes (guerras, alterações climáticas...). Uma coisa é certa: a pressão na nossa mangueira é cada vez mais diminuta perante o que já se passa. Nem ouso pensar (mas penso...) o que poderá advir nos próximos anos! Seja como for temos e teremos que dar o contributo possível


De MAlbertina F.S.Silva a 6 de Fevereiro de 2009 às 01:33
Chorar não ajuda, mas não consigo evitar as lágrimas.
NÃO, NÃO, NÃO.
"Não é humanamente suportável "este mundo tão desigual.
Tambem não aceito. Tambem grito.
1998-2009...Onze anos, o que mudou Amigo?

Como podemos dormir em sossego, perante esta triste realidade que é este nosso mundo,esta nossa vergonha?
A minha gratidão, Dr Fernando, por ser como é.
Um abraço amigo. Tina


De Zé da Burra o Alentejano a 6 de Fevereiro de 2009 às 16:52
A Globalização, tal como foi concebida, vai determinar o fim da Europa social que conhecemos: o ocidente caiu na armadilha da Globalização que os bancos e as grandes companhias lhe venderam. A actual crise não é apenas uma crise criada pela especulação bolsista americana e pela não fiscalização das reservas monetárias de segurança da generalidade dos bancos e dos fluxos monetários com destino aos paraísos fiscais onde depois se perde o rasto do dinheiro. Os bancos e as grandes companhias visavam a obtenção de maiores lucros. Os primeiros procuravam a liberdade total para fazerem o que muito bem entendessem ao dinheiro que lhes era confiado; os segundos pretendiam aproveitar-se dos baixos custos de produção no extremo oriente em virtude dos baixos salários e da inexistência de obrigações sociais. O resultado já está à vista: o descalabro bolsista e bancário, a falência de uns bancos e as ajudas governamentais a outros; a necessidade de corte nas produções industriais das empresas, incluindo nas que já se mudaram para os novos países, porque as produções se destinavam sobretudo à exportação para o ocidente onde estão as populações com maior poder de compra que está agora em rápido declínio, como fruto da globalização criada.
Ao aderirem ao desafio da globalização, os países ocidentais e da União Europeia prometeram ao seus cidadãos que as suas economias se tornariam mais robustas e competitivas e não exigiram aos países do oriente que prestassem às suas populações mais e melhores condições sociais: regras laborais justas, melhores salários, menos horas e menos dias de trabalho, férias anuais pagas, assistência na infância, na saúde e na velhice para poderem aceder livremente aos mercados ocidentais. Não! o ocidente optou simplesmente por abrir as portas à importação desses países sem que essas condições fossem satisfeitas, criando assim uma concorrência desleal e “selvagem” da qual o ocidente nunca poderá ganhar. A única solução será a de nivelar as condições sociais dos trabalhadores ocidentais pelas desses países e que são miseráveis (crianças chegam a ser vendidas pelos próprios pais para servirem de escravos). O ocidente franqueou as suas portas a países que estão em rápido desenvolvimento tecnológico com custos de mão de obra insignificantes e sem comprometimento com a defesa do ambiente, com tecnologias altamente poluidoras e mais baratas.
Estamos a assistir neste momento a uma tentativa desesperada de resistir a uma guerra perdida, nivelamento por baixo as condições sociais dos trabalhadores ocidentais. Daí a revolta que se observa nos vários países da UE. Mas será que os trabalhadores ocidentais vão aceitar trabalhar a troco de dois ou três quilos de arroz por dia, sem direito a descanso semanal, férias, reforma na velhice, etc...? Não! O resultado será um lento definhar em direcção ao caos e enquanto umas empresas fecham portas para sempre, outras se deslocam para a China ou para Índia para não serem sufocadas pela concorrência desleal, mas, até mesmo essas terão que reduzir a sua produção porque os ocidentais estão a perder rapidamente poder de compra. Entretanto, no ocidente a indigência, a marginalidade e o crime mais ou menos violento irão crescer e atingir níveis inimagináveis, apenas vistos em filmes de ficção ou referidos nos escritos bíblicos do apocalipse. Espera-nos uma espécie de nova “Idade Média”, onde restarão alguns privilegiados, protegidos por alta segurança, enquanto a maioria se afunda no caos: desaparecerá a chamada classe média e de remediados. Há que recuar mas será que ainda vamos a tempo? Apesar de todas as crises quem vai ganhar é a China, a Índia, a Tailândia, etc.

Os políticos portugueses do PS e PSD alinharam sempre pelas teses desta globalização. Ora aí têm o resultado!

Zé da Burra o Alentejano



De Fernando Nobre a 8 de Fevereiro de 2009 às 12:46
Concordo consigo. Abraço.


De MAlbertina F.S.Silva a 8 de Fevereiro de 2009 às 12:50
Na primeira parte da sua primeira frase está quase tudo dito:-"A Globalização tal como foi concebida"...
Concordo com ,repito, quase tudo. Só não tenho a certeza que seja só o Ocidente a pagar a crise...
Um "estadista "do nosso burgo diz que precisamos dum CAPITALISMO ÉTICO, com valores... Isso existe?pergunto eu. Os valores de que ele fala, conhecemo-los bem. Estão aí ,com braços de polvo,sugando-nos o sangue...
Como diz Carvalho da Silva,esta crise "resulta das politicas neoliberais mais violentas que precarizaram tudo,com vista à obtenção de lucros no mais curto espaço de tempo...
Outros chamam-lhe crise da ganância dos accionistas, gestores e até dos consumidores fascinados pelos preços cada vez mais baixos, dos bens de consumo etc...
Outros ainda , dizem, que os conflitos sociais que estoiram pela Europa são «lutas de natureza política e económica ,sem os que nelas participam tenham consciência de classe,mas revelam um sentimento de descontentamento, indignação e de protesto contra o sistema em que vivem--pq injusto,social e económicamente desigual, repressivo e destrutivo...»

Para mim, não pode haver mais volta à Idade Média, (apesar de sentir que ainda há quem lá esteja), poderá sim voltar a dialética capitalismo- socialismo, perdão, marxismo.
Afinal ,não faz tanto geito agora o Estado controlar a Banca?
Claro, que este é o meu lado de ver e sentir. Foi sempre o meu lado. O lado esquerdo onde bate o coração.

Um abraço, Zé da Burra o Alentejano--eu sou mais a Burra da Tina,Gandareza.






De Zé da Burra a 16 de Fevereiro de 2009 às 17:33
Os países do Oriente: China, Índia , Tailândia e outros têm estado a crescer economicamente muito, mas como a produção se destinava óbvia e principalmente ao ocidente, dado que os povos daqueles países têm ainda um fraco poder de compra, a recessão ocidental faz-se sentir também naquelas novas potências, porém, para eles a crise representa um crescimento menor. Aqueles países estavam a crescer anualmente a dois dígitos, e agora foi reduzido a apenas um dígito, mas a crise deles seria para nós sucesso. Tomara que nós crescêssemos agora 6 ou 7 por cento, mas, infelizmente, o que está a acontecer por cá é uma recessão. Esperem pelas estatísticas do ano corrente que serão ainda piores.


De Ana a 5 de Fevereiro de 2009 às 19:57
Infelizmente a indiferença continua e sem lutarmos piorará...

Faço parte de uma turma de 12º ano e no âmbito de área de projecto , juntamente com outros 3 colegas estou a fazer um projecto sobre a indiferença. Tendo em conta todo o ser trabalho e visto ter lutado muito e feito tanto para combater esse mal, gostaríamos de lhe pedir ajuda . Para ajudar os jovens da nossa escola e toda a Comunidade Escolar pretendemos fazer entre muitas coisas uma palestra e gostávamos de contar consigo se possível, para mostrar o seu trabalho e dar a conhecer a indiferença.

São poucas as pessoas como o senhor que tentam fazer algo pelos outros, pelo mundo sem pedirem nada em troca. Não bastam sorrisos, nem olhares de agradecimento . Como se costuma dizer uns com tanto e outros com tão pouco...

Muito Obrigada, continue com o bom trabalho !


De Fernando Nobre a 5 de Fevereiro de 2009 às 21:50
Por favor contacte a minha secretária na AMI. Se puder ire! Obrigado.


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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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