Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

 

Por boa governação entendo uma governação exclusivamente norteada para o bem da Res Publica e da Humanidade.


Boa governação exige ética, rigor, verdade, responsabilidade, coerência, compromisso e respeito pelas promessas contidas nos programas eleitorais ou feitas em campanha o que a coloca nos antípodas da corrupção, demagogia, manipulação, mentira…


Boa governação implica preocupação com os mais fragilizados e desprotegidos da sociedade, estar à escuta e em diálogo com as mais íntimas aspirações dos cidadãos e colocar o Estado Nacional e o Mundo acima dos momentâneos interesses partidários e pessoais.


Boa governação requer ideias claras quanto às verdadeiras causas Nacionais e Globais existentes e lutar, contra ventos e marés, por elas.


A boa governação deve impelir a um diálogo singular e colectivo com os povos, olhos nos olhos, explicando bem e claramente a razão de certas decisões deveras difíceis e sensíveis como são certas decisões económicas e todas as guerras, mesmo as incompreensíveis, como a do Iraque. Exige ainda que se consulte os povos quando a opção da guerra não consta de nenhum programa eleitoral ou de governo, pelo que, de seguida restará apenas acatar a decisão soberana e sem apelo dos povos.


A boa governação não aceita que se façam guerras baseadas na trapaça e na mentira (como aconteceu com a guerra do Iraque) e que se encete, em período próximo de eleições, malabarismos de marketing, afirmando e prometendo tudo e o seu contrário ou pura e simplesmente que se fuja às suas responsabilidades, sobretudo se for para ocupar um lugar de maior destaque… Esses espúrios comportamentos e atitudes vergonhosas contribuíram decisivamente para a descredibilização das classes políticas e dos governantes responsáveis pela actual desorientação e desmotivação dos povos.

 

Boa governação exige experiência de vida, cultura nacional, regional e global assim como conhecimentos profundos do Mundo, que não apenas livrescos ou teóricos, coluna vertebral e seriedade sobre os quais os povos possam alicerçar fundamentadamente a sua Confiança.


Boa governação não se faz sem que o exemplo motivador e esclarecedor venha das lideranças com um imprescritível sentido do Dever pois ser-se líder é sobretudo ter Deveres e pouquíssimos direitos.


Quem não está pronto a sujeitar-se a este imperativo exigente e inegociável não pode pretender ser líder e de tal pretensão deve ser de imediato afastado, seja onde for no Mundo.
As pseudo-lideranças enfermas de vaidades, calculismos, oportunismos, direitos (apenas direitos e só direitos), do fartar vilanagem, de incompetência e irresponsabilidades, devem ser erradicadas do Planeta Terra, seja onde for, pois os povos já estão fartos.


Essa boa governação é exigível aos três pilares das Nações e do Mundo!


Serão chamadas a responder, sem possibilidade de qualquer salvaguarda imunitária, todas as lideranças de todos os poderes dos Estados, das Instituições Multinacionais, das Forças do Mercado e da Sociedade Civil no Mundo.


É a esse justo preço que se recuperará o Crédito e a insubstituível Confiança nos três pilares indispensáveis dos Estados e do Mundo.


Ao fim e ao cabo, a liderança global já existe! Infelizmente, actualmente ela é secreta, feita de cima para baixo e nada democrática. Ela está inoperativa, descoordenada, cacofónica e descredibilizada com as guerras do Iraque e Afeganistão com as confusões do Kosovo (estendidas à Ossétia do Sul e à Abacásia), com a Crise Financeira e Económica sistémica, com as piratagens no mar da Somália e a desgovernação na República Democrática do Congo, no Zimbabué, na Somália, na Chechénia, Birmânia…


Por tudo isso é que a nada clara governação global, não assumida, constituída pelas Nações Unidas, FMI, BM, OMC, Clube de Roma, o G8, o G20, G2+18, G2 e, menos globalmente, a OPEP, a ASEAN, a União Europeia, a OCDE, a OSCE… está caduca. A Governação Global tem que ser absoluta e urgentemente reformada, reenquadrada e democraticamente legalizada, tendo em conta a premência de Soluções Globais. Não há volta a dar!

 

Exige-se a reforma das instituições e a renovação das lideranças comprometidas com desvarios passados, assim como sucedeu nos EUA com a substituição do senhor Bush filho pelo senhor Obama, a fim de que sejam tratadas com eficácia, humanismo e urgência a Crise financeira, económica, social e política presente, a Crise ambiental, a Crise da violação constante dos Direitos Humanos, a Crise da corrida armamentista, a Crise do Direito Internacional, a Crise da Insegurança e dos Terrorismos, a Crise dos Refugiados, a Crise dos já débeis Sistemas Democráticos, a Crise Cultural e Religiosa, a Crise do Desenvolvimento Global (implementem-se já os Objectivos do Milénio e um Comércio Justo!), a Crise da Confiança…


A Terra precisa de um Sistema de Governação Global (SGG) ético, credível, respeitado e operativo. É vital que se integrem nesse SGG personalidades de grande craveira moral, ética e sábios. Elas existem! Alguns, poucos, Prémios Nobel da Paz, da Economia, da Literatura… Bem peneirados, pois não há nenhum prémio, como não há nenhum grau ou qualidade científica e académica que garanta, de per si, aos seus titulares a integridade, seriedade e coragem necessárias. Precisamos de espíritos livres com coluna vertebral!

 

Até o Papa Bento XVI, que algumas “brasas” tem espalhado no seio do mundo islâmico (de propósito? irreflectidamente?), em 29 de Junho de 2009, na Encíclica Caritas in Veritate, apelou à criação de uma Nova Ordem Mundial ao serviço da Justiça e da Fraternidade. Tal exige um Governo Mundial com tino e força para regular e fiscalizar a globalização. Tal facto implicará, forçosamente, um novo paradigma das mentalidades e uma Organização das Nações Unidas renovada, mais ética e equilibrada. Não basta que se faça apenas a gestão da actual crise económica! Porquê só económica? E as outras crises, que também exigem uma abordagem e soluções globais? Nomeadamente, os fundamentalismos religiosos…

 

Sabemos, sei, que a ideia e a concretização de um Sistema de Governação Global não vai ao encontro dos ideais sectários e nacionalistas daqueles que ainda sonham, querem e lutam, com todos os meios legítimos e ilegítimos ao seu alcance, pela constituição de governos imperialistas sustentados por determinadas ideologias, que sempre excluem o outro. São esses ideólogos sectários, ainda actuantes e até influentes, que estão por detrás das corridas armamentistas e prontos a tudo varrer, se necessário, com bombas atómicas, mesmo se o preço for centenas de milhões de mortos, desde que não sejam eles e as suas mulheres, filhos e pais…. Nas perversas mentes de certos ferozes predadores, tudo é possível e o egoísmo não tem limites!


Uma vez decidida a inevitabilidade de um SGG, o resto é trabalhar, escolher as pessoas certas (porventura o mais difícil, tamanhas são as ambições, os egoísmos e as armadilhas…) e tomar as decisões urgentes que se impõem para já: normas jurídicas e globalização das instituições, objectivos da governação global (claros e definidos), reforma das instituições internacionais…

 



publicado por Fernando Nobre às 13:25
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Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Em Janeiro de 2007, escrevi este texto, hoje prefácio de um livro prestes a ser publicado: "Comércio Justo para Todos", de Joseph Stiglitz e Andrew Charlton. Com a actual crise e os novos proteccionismos, como já era previsível em 2007, a ronda de Doha foi remetida para as calendas gregas... com essa atitude, os países ricos contribuem para que os ditos PVD não se possam desenvolver... A emigração continuará!...

 

Não sendo eu economista – e por isso não dispondo de todas as ferramentas que me permitam escalpelizar algumas análises ou capítulos mais técnicos deste livro – ouso, mesmo assim, afirmar, como médico-cirurgião humanitário que há quase 30 anos intervém nos grandes dramas do nosso desregulado e desequilibrado Mundo, que o livro "Comércio Justo para Todos”, de Joseph Stiglitz e Andrew Charlton, deveria ser de leitura e estudo obrigatórios para todos aqueles (economistas, políticos, estudantes – em especial da área socio-económica –, governantes de todos os hemisférios e latitudes, dirigentes das ONG, responsáveis do FMI, BM, OCDE, Clube de Roma, Clube de Paris, OMC, UE, G8...) que realmente querem contribuir para um melhor equilíbrio socio-económico do planeta Terra, condição sine qua non para a edificação de um mundo mais ético, mais harmonioso e de Paz.

 

Todos sabemos que não existe uma panaceia para tal alteração, pelo que passará necessariamente pelo advir de um novo paradigma humano e civilizacional. Mas todos sabemos igualmente que a aplicação de novos códigos de conduta nas transacções económicas entre Povos, Nações e Estados representa um passo essencial na caminhada de construção de uma humanidade com valores.

 

O comércio justo para todos, com tudo o que tal implica e como tão bem demonstra Stiglitz neste livro, é parte obrigatória de um cocktail ético e de justiça que deverá também integrar:

• o perdão da dívida e dos juros de dívida dos países mais pobres e endividados (alguns deles já pagaram várias vezes essas dívidas espúrias);
• o controlo da corrupção (moralização do binómio corrupto-corrupto) ;
• o desenvolvimento do micro crédito (é essencial que os decisores globais e o sistema bancário tenham em atenção as pessoas e entendam, por isso mesmo, que a microeconomia é necessária e indissociável da macroeconomia);
• o congelamento de todas as contas bancárias dos governantes corruptos (toda a gente sabe quem são), verdadeiros agentes do terror que matam à fome e mantêm reféns os seus povos miseráveis;
• a criação de um fundo de emergência e salvação para a África subsariana, constituído pelos fundos das contas dos corruptos, por uma taxa sobre as transacções financeiras (tipo Taxa Tobin), por uma taxa sobre as transacções de armamentos e por uma taxa sobre os voos aéreos;
• o desenvolvimento do comércio justo que incentive e proteja a sobrevivência dos pequenos agricultores do Sul;
• o investimento privilegiado na educação, saúde e mundo rural agonizante dos PVD;
• a moralização, nomeadamente da OMC e da sua nefasta política proteccionista de patentes de certos medicamentos e espécies agrícolas;
• a sobrevivência e o reforço da sociedade civil do Sul – único garante da democratização de certos regimes políticos, assim como da escolha de políticas de sustentabilidade;
• o reforço da intervenção pública das mulheres.


Como é evidente, só com uma acção multi-sectorial o que implica vontade e determinação políticas, até hoje não encontradas, por parte sobretudo dos países ricos, devidamente esclarecidos, sensibilizados e éticos – será possível estancar a hemorragia que está a matar grandes franjas populacionais nos países mais pobres. E é exactamente nesta matéria que o livro de Stiglitz é terrivelmente esclarecedor, e deveria servir de detonador para um novo amanhã nas relações comerciais entre os Estados.

 

Stiglitz, pelas funções económicas e políticas que desempenhou ao mais alto nível no Banco Mundial e na Administração Clinton, assim como pelo manancial económico, teórico e prático que possui e pelo profundo conhecimento que tem dos palcos (e dos bastidores!) das grandes rondas comerciais globais, sabe perfeitamente do que fala. Das denúncias de atitudes e comportamentos aos egoísmos e autismos que prevaleceram até hoje nas negociações do Uruguai Round e nas cimeiras falhadas de Cancun e Doha, Stiglitz aponta caminhos e soluções credíveis e exequíveis! Se houver visão e vontade políticas globais. Como ele tão bem afirma a dado momento, “uma verdadeira ronda de desenvolvimento deveria ir para além do acesso ao mercado”. Sem dúvida: deveria ir ao encontro dos profundos desejos das pessoas e dos povos que anseiam, antes de mais, por equidade, justiça e direito a viverem dignamente, sem serem permanentemente humilhados pelas suas indigências e misérias diárias!

 

Os caminhos apontados por Stiglitz, acoplados aos que já enunciei e a outros possíveis, vão seguramente na direcção certa: a única que, cortando o mal pela raiz, permitirá evitar a emigração em massa (que já apavora a Europa) e o terrorismo e as consequentes derivas securitárias (em breve ditatoriais?) que tantas vidas ceifam e tanto nos preocupam.

É sintomático e reconfortante constatar como grandes personalidades ligadas aos sistemas bancário, financeiro, comercial e institucional – tais como Joseph Stiglitz, George Soros, Jacques Attali, Muhammad Yunus, Bill Gates – tomam consciência de que é necessário um novo paradigma económico e institucional para evitar que o mundo regresse à barbárie e mergulhe no apocalipse. Nessa constelação, Stiglitz, que foi um verdadeiro insider do sistema económico dominante e opressor ao serviço das grandes economias ocidentais (com muitos dos seus programas de reestruturação económica e de privatização que se revelam verdadeiramente desestruturantes, senão mesmo verdadeiros assassinos económicos das economias débeis dos países mais frágeis) –, melhor do que ninguém sabe que é necessário inverter rapidamente a marcha fúnebre das últimas décadas... A esse respeito, hoje já não restam dúvidas: a globalização económica em curso, verdadeiro rolo compressor impulsionado pelas economias dominantes e as suas empresas globais, aumenta a pobreza dos mais pequenos e fracos, porque não são tidos em conta, votados que estão ao esquecimento.

 

Stiglitz demonstra também que não há apenas uma estratégia económica única de crescimento e de desenvolvimento e que a liberalização total da economia associada a uma desregulamentação desenfreada e a uma demissão total do Estado, é, para as economias fracas – mesmo se tendencialmente emergentes – contraproducente. Os casos de Singapura, Malásia, Coreia, China e Índia são disso exemplo: afirmaram-se como casos económicos de sucesso, porque os seus governos actuaram sempre como reguladores dos factores de crescimento que mais lhes convinham e que melhor se adaptavam ao estado das suas economias e sobretudo das suas fragilidades conjunturais. Como é bom ler Stiglitz e compreender que a Economia, no seu todo, não é um dogma e que há caminhos que interessa trilhar com bom senso e sensibilidade humana.

 

Para mim, que passo a vida a palmilhar o nosso planeta e convivo com as suas mais gritantes e insuportáveis assimetrias geradoras de tanto sofrimento, é reconfortante constatar que Stiglitz, economista prestigiado, mas também ser humano pungente, coloca o homem no cerne da economia e dos seus rounds comerciais globais, quase sempre norteados por egoísmos nacionais ferozes e visões tacanhas, sem rasgo nem futuro para o colectivo humano!

 

É essencial que se perceba que é necessário promover uma repartição mais justa das riquezas do mundo – e 2007 dirá se as negociações comerciais do ciclo de desenvolvimento encetadas em 2001 (em Doha), continuarão a ser um rotundo fracasso ou não. É necessário que as empresas globais e os governos que têm incentivado e dominado as estratégias do subdesenvolvimento perene dos mais fracos assumam compromissos claros de não estrangulamento da sobrevivência dos pequenos agricultores do Sul. Como podem competir estes pequenos agricultores com os grandes monopólios do Norte que definem as regras e são, ainda por cima, maciça subvencionados e têm os seus mercados protegidos?

Permitam-me uma metáfora: como pode um perneta famélico competir com um campeão olímpico superalimentado e medicamente assistido e ainda por cima dopado? É impossível.

Há, pois, que criar mecanismos que permitam reequilibrar as hipóteses de sucesso para que a competição em curso, nesta globalização pervertida, tenha algum interesse e lhe sobeje uma réstia de equidade. É disso que Stiglitz trata, e bem, quando aborda o tema “Tratamento especial para os países em vias de desenvolvimento”. Não basta, como faz a OMC, que lhes sejam reconhecidas “necessidades particulares”.É preciso actuar; passar dos discursos à prática; ter a coragem política e técnica para aplicar já os correctivos necessários (que são conhecidos) e que Stiglitz magistralmente apresenta. É lamentável que até hoje tenham sido sistematicamente rejeitados os pedidos dos países africanos para que os subsídios pagos aos agricultores do Norte sejam reduzidos e que a compensação seja paga aos agricultores africanos.

 

Há muito mais economia para além do consenso de Washington e da sua prática neo-liberal extremada! Stiglitz demonstra sabê-lo, mas demonstra sobretudo coragem e inteligência. Lamy Summers, que foi ministro de Bill Clinton, dizia recentemente: “A redistribuição dos dividendos da globalização é hoje a questão mais importante colocada às democracias desenvolvidas”. Tanto Stiglitz como Summers têm, quanto a mim, total razão: se não corrigirmos e actuarmos por humanidade, como tenho afirmado inúmeras vezes, façamo-lo por inteligência e até por mero egoísmo de sobrevivência. É o mínimo que podemos exigir! Sabemos que, infelizmente para alguns, os tubarões, os assassinos económicos que desmantelam Estados e Economias em benefício próprio ou dos seus mandantes, só há uma palavra: “rentabilidade-lucro”. Mas, e repito-o, só para alguns”! Desconhecem ou desprezam a palavra solidariedade. Tudo bem. Mas será que são tão cegos ou burros que não alcançam o que a Inteligência hoje exige para a salvaguarda das Novas Democracias e da Paz no Mundo? Porque, ao fim e ao cabo, é disso que se trata quando se negoceia, quer seja em Seattle, Doha, Monterey, Cancun ou no Fórum Económico Mundial de Davos!

Escrevo este prefácio – que muito me honra, embora não conheça pessoalmente Joseph Stiglitz – em Nairobi, onde decorre o Fórum Social Mundial 2007 e onde estive em 1992. Preocupa-me a SIDA, os campos de refugiados somalis e a tragédia em curso na Somália desde 1991. O que os cidadãos do mundo exigem é o reconhecimento de uma cidadania global, ética e responsável, e compromissos sérios a favor de um desenvolvimento global durável, únicos garantes de uma Paz sustentada. Acreditamos que um outro Mundo, mais justo, mais social, mais ambiental, mais intelectual, mais pacífico é ainda possível. Acreditamos ainda que é possível construirmos um mundo de diálogo, de pontes, de inclusão e de Paz social.

 

Não tenho dúvidas de que Stiglitz está nessa démarche. O seu livro faz um diagnóstico certeiro e propõe terapêuticas alternativas que são, para mim, convincentes. Stiglitz não é nenhum fundamentalista dogmático e por isso merece, no mínimo, ser escutado e entendido. Acredito que este livro, como outros que escreveu recentemente, merece ser divulgado e lido, pois é indubitavelmente um contributo positivo que, se seguido, permitiria minorar muito sofrimento no mundo. Como disse no início deste prefácio, o comércio justo é uma das ferramentas essenciais à correcção dos desequilíbrios e assimetrias hoje existentes. Não é a única, mas se aplicada, seria com certeza uma alavanca poderosa para fazer surgir e avançar as outras que lhe são complementares, pois demonstraria que seria possível vislumbrar um novo paradigma nas relações comerciais globais.

 

A esse respeito, enquanto cidadão, no que concerne às rondas negociais sobre patentes e direitos intelectuais sobre os medicamentos, considero essenciais que se prevejam acordos de partilha justos sobre as descobertas científicas e as suas implicações económicas, com os países do Sul (fornecedores das matérias-primas florestais essenciais às investigações e às descobertas de novos fármacos por parte das indústrias farmacêuticas do Norte!). Eis um exemplo muito concreto de justiça e de moralidade que, se inserido, aplicado e respeitado nas rondas comerciais globais permitiria o acesso aos tratamentos, a um preço enfim acessível a muitos milhões de pessoas que hoje morrem por não os conseguirem comprar!

É disso também que se trata quando se fala, no concreto, de comércio justo! Este livro, ao desmontar claramente os mecanismos de distorção processuais das negociações globais (GATT, OMC), aponta caminhos e soluções e mostra-nos o que está em jogo: evitar a curto e médio prazo, a explosão da Bomba Social Global que permitimos que se criasse e armadilhasse. O que não se fez até agora – por não se escutar Josué de Castro (Geopolítica da Fome) e René Dumont (A África Começa Mal) que muito nos alertaram sobre os caminhos perversos que nos conduziram ao presente inquietante – podemos ainda fazê-lo se tivermos enfim a inteligência de Stiglitz.

 

O subdesenvolvimento – e Stiglitz demonstra-o tão bem – não é o resultado de um qualquer atavismo genético, geográfico ou climático de que padecem certos povos. Também não é inultrapassável nem incurável. Há soluções. Stiglitz aponta algumas das mais importantes. Para as pôr em prática, serão necessários inteligência, vontade e capacidade políticas e, porque não, humanismo. O busílis da questão, quanto a mim, está na vontade e capacidade políticas. Receio que essa “vontade e capacidade políticas” dos decisores globais só se manifeste sob pressão de uma Cidadania Global responsável, actuante e exigente. Essa Cidadania Global está em fase de constituição de forma acelerada e estou certo de que será decisiva na génese de um novo paradigma humano e societário que obrigará a uma nova abordagem nas negociações comerciais globais, assim como em tantas outras matérias decisivas, que permitirão uma Sociedade Humana mais justa e equilibrada.

 

Stiglitz é hoje uma referência e as suas Prioridades para uma Ronda de Desenvolvimento – verdadeiro roteiro para se sair do embuste em que caíram as rondas comerciais actuais (dirigidas por mentes tacanhas, insensíveis e, ouso afirmá-lo, incompetentes por tanta tecnocracia mal dirigida) – deveriam ser de aplicação imediata.

 

Desejo sinceramente que o conjunto de ferramentas económicas e políticas que Stiglitz desenvolve e propõe seja adoptado por quem de direito: todos nós.


Talvez assim, com inteligência, valores e uma economia virada para o Ser Humano, ainda se vá a tempo de se erguerem muralhas eficazes contra a tragédia já anunciada, mas ainda evitável. Talvez assim o optimismo da vontade ainda se possa sobrepor ao pessimismo da razão...

 

Bem hajam por isso, Joseph Stiglitz e Andrew Charlton por terem escrito este livro e a ASA por o publicar em Portugal.

 

Nairobi, 25 de Janeiro de 2007

 



publicado por Fernando Nobre às 11:27
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Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Mais uma vez, meus amigos, vos peço desculpa pela minha falta de tempo para este contacto convosco. Tenho um texto sobre Tombouctou escrito na minha mente, mas não ainda no papel... e viajo dia 3 para a Guiné-Bissau... e entre as viagens tenho toda uma série de compromissos (alguns dos quais constantes na rubrica "Eventos em que participo", neste blog)... Escrever neste espaço é, dia após dia, um prazer adiado. Conto com a compreensão de quem esperava mais...

 

Aqui fica, no entanto, um texto sobre a Paz, que escrevi há algum tempo, mas que considero ainda actual.

 

A Paz é e, ouso dizê-lo, sempre foi, a mais imperiosa e absoluta necessidade assim como o maior desejo e sonho da esmagadora maioria das pessoas. Sem Paz, o Mundo muito dificilmente poderá alcançar o Desenvolvimento e a Democracia durável para todos. Disso não tenho dúvidas. Mas se assim é, como se explica que a História da nossa Humanidade possa ser representada, desde sempre (se excluirmos algumas épocas de relativa acalmia e bom senso), por um fresco dominado pelas cores da guerra, da morte, do sofrimento, da exploração, da humilhação e da dor infligidos por seres ditos humanos aos seus semelhantes? 

 

Eis a pergunta dilacerante que me interpela diariamente há três décadas. Como explicarmos tal desvario de comportamento, completamente absurdo e paradoxal? Devo confessar que, quanto mais percorro o Planeta Terra e penso no Universo que nos engloba e nos reduz à insignificância absoluta, mais perplexo fico e mais perdido me sinto ao confrontar-me com a História e sobretudo com a actualidade das guerras e holocaustos.

 

Quanto mais me interrogo, mais convicto fico que o absurdo e o horror com que me tenho confrontado nos quatro cantos do mundo se devem à Indiferença, à Intolerância e à Ganância. A meu ver, são essas as doenças malignas que têm levado a nossa Humanidade aos conflitos incessantes, aos genocídios, à exploração, à humilhação, à despudorada governação global e ao ódio, já de difícil remissão.

 

Essas doenças mortíferas têm corroído a consciência dos seres humanos e têm impedido o surgimento de um novo paradigma nas suas relações. Essas doenças parecem ter atingido a liderança global pois só assim encontro explicação para o desnorteamento total que impera ainda hoje na nossa Humanidade neste início do século XXI e nos mergulhou desde já num Mundo particularmente inquietante, violador e atentatório dos mais elementares direitos humanos, que parece querer conduzir-nos a um novo apocalipse.

 

Todos estamos perfeitamente conscientes, penso eu, que, a menos que os cidadãos no mundo despertem da letargia profunda onde mergulharam, ou foram induzidos, e exijam lideranças globais mais responsáveis, a espada de Dámocles que está suspensa por um frágil fio desabará em cima de todos nós. Estas doenças incendiárias (a Indiferença, a Intolerância e a Ganância), se não forem dominadas com o rápido surgimento de uma nova liderança mundial mais esclarecida, mais responsável, mais sensata e menos geradora de revolta, de humilhação, de injustiça, de exclusão e de ódio, levar-nos-ão a confrontos civilizacionais, religiosos e sociais de dimensões até hoje nunca vistos e inimagináveis.

 

Ao longo da minha caminhada como médico humanitário há três décadas, tendo actuado como tal em mais de 70 países de todos os continentes, considero, repito, que essas doenças são as responsáveis directas de todos os dramas humanos que vivenciei. São elas, quanto a mim , as geradoras das principais ameaças à Paz presente e futura.

 

Mas, quais são as principais ameaças à Paz?


Será que ainda existem esperanças e acções possíveis no sentido de reduzirmos, ou até mesmo anularmos, essas actuais e prementes ameaças à Paz que tanto nos inquietam e amedrontam?


Será que já é irreversível o caminho para o choque de civilizações ou de religiões que alguns propagandeiam e estimulam?

 

Eis-nos perante questões difíceis mas que exigem respostas clarificadoras. Há que encontrar novos caminhos e soluções de mudança para os velhos e novos desafios que enfrentamos. Se assim não for, receio muito que o século XXI acabe ainda bem pior do que começou.

 

Com franqueza, e em boa verdade confesso, temo que já seja tarde demais para atalharmos com eficácia as ameaças que referirei, embora algumas ondas positivas estejam felizmente já lançadas contra o tsunami devastador que nos quer submergir. Mais do que nunca, é fundamental falar de Paz, de cultura de diálogo, de ecumenismo, de entendimento, de pontes entre os povos, e de inclusão.

 

As ameaças mais importantes à Paz, todas elas profundamente violadoras dos Direitos Humanos, e que carecem de resolução urgente para que possamos talvez ainda vislumbrar um amanhã de Paz e um mundo harmonioso são quatro:

 

1. Os conflitos armados no Próximo e Médio Oriente (da Palestina ao Afeganistão passando pelo Iraque)

A não resolução célere, justa e equilibrada desses conflitos é, e será cada vez mais, a causa directa da extensão da conflituosidade entre as comunidades judaica, cristã e muçulmana, e alimentará ainda mais o terrorismo em todo o mundo. A recente guerra entre israelitas e palestinianos, povos irmãos, ainda agravou mais as já explosivas conflituosidades existentes.

 

A pacificação do conflito israelo-palestiniano, com a criação e reconhecimento de dois Estados economicamente viáveis e verdadeiramente soberanos, é a pedra basilar para a eventual resolução dessas tremendas conflituosidades que acabo de referir. Uma vez esse imbróglio histórico, político, territorial e militar ultrapassados, estarão criadas as condições favoráveis para se dar um passo na resolução das outras guerras vigentes na região se, também aí, as nossas democracias souberem fazer passar muito claramente a mensagem de que não serão nunca mais aceites e praticados por nós violações de todo inaceitáveis dos Direitos Humanos, do Direito Internacional e das Convenções de Genebra... Só assim poderemos invocar qualquer autoridade moral para podermos exigir em todo o Mundo o respeito desses direitos elementares.

 

Para mim, já o escrevi há anos, a resolução da tragédia que é o conflito israelo-palestiniano e que está a gangrenar o Mundo só poderá ter um fim se houver dois Estados, reconhecidos e resultando de uma partilha equitativa do território, com soberania plena dos seus governos, com uma utilização equilibrada dos recursos hídricos e um diálogo fraterno entre os dois governos semitas, oriundos de eleições reconhecidas como justas e livres, ficando Jerusalém exclusivamente como Cidade Santa, Património Mundial da Humanidade e sob gestão das Nações Unidas.

 

Quanto às guerras no Afeganistão e no Iraque, a menos que se saia quanto antes airosamente para todos do atoleiro israelo-palestiniano e que a chamada comunidade internacional se empenhe em encontrar rapidamente soluções para as outras ameaças à Paz Global, que passo a enunciar sinceramente, não vejo outra saída que não seja o caos...

 

2. A miséria, a exclusão, a humilhação, a indiferença e o esquecimento a que foram votados ao longo da história largas franjas da população mundial: essa situação tem-se agravado nas últimas décadas mercê de uma má governação em muitos países e de uma orientação económica mundial que ignora o ser humano mais fraco.

 

Já é cansativo e repetitivo citar o que de todos é sabido:
• 1/3 da população mundial vive na pobreza (rendimento per capita <2 USD/dia),
• 1/5 vive na miséria absoluta (r.p.c. <1 USD/dia),
• existe uma real injustiça no acesso à água potável, ao saneamento básico e aos cuidados de saúde minimamente aceitáveis para uma parte importante da população mundial, etc...


Tudo isso é conhecido, assim como são conhecidos Os Objectivos do Milénio, que os líderes mundiais se comprometeram a atingir em 2015 na Cimeira do Milénio nas Nações Unidas em Nova Iorque em Setembro de 2000.

 

Infelizmente já todos sabemos também que esses objectivos não serão atingidos em 2015 como era previsto, o que será um revés grave para a pacificação do planeta. A continuarmos na trajectória actual, esses objectivos, essenciais para todos, talvez só poderão ser alcançados, sobretudo na África Sub-sariana, lá para 2050 ou 2100... A profunda crise financeira, económica e social vigente está a flagelar particularmente os povos mais frágeis e há tanto tempo esquecidos!

 

Chamar-me-ão pessimista! Não. Como o digo e escrevo há anos sou, penso eu, apenas um optimista informado! O tsunami migratório que apavora a Europa (ver o que se passa com a Espanha, a Itália,...) é a prova fundamentada que as políticas ditas “de desenvolvimento” de décadas e nomeadamente os Objectivos do Milénio não estão a surtir efeito algum a sul do planeta, embora um certo discurso politicamente correcto pretenda fazer-nos crer o contrário.

 

Essa onda migratória (os famintos e desesperados estão em marcha...) vai ser avassaladora e, não tenhamos ilusões, não haverá muros, nem canhões, nem barcos de guerra suficientes, em número e em força, para a neutralizar e impedir que a Paz e a ainda existente Democracia no Ocidente sejam gravemente questionadas! Veja-se o que está a acontecer com a aceitação crescente, por parte do eleitorado, dos movimentos e partidos políticos racistas, xenófobos e até nazis, como tem acontecido nas últimas eleições na Europa. É um sinal de alerta grave que tem que ser considerado. Eis o tempo da mudança! Tal está na mão de todos nós!

 

O que eu sei é que essa situação de profunda e imensa exclusão é a grande nutriente do desespero, da frustração e do ódio que alastra por todo o mundo e que alimenta e facilita o recrutamento em massa para os movimentos terroristas e/ou revolucionários violentos. A História assim nos diz: as lideranças desses movimentos sempre pertenceram a elementos letrados da pequena e até da grande burguesia (exceptuando um ou outro caso, como a revolta dos gladiadores liderada por Spartacus...) mas, o que é facto é que a massa humana desses movimentos é, como sempre foi, constituída pelos famintos, excluídos, esquecidos e humilhados. Enquanto não se secar, educando e desenvolvendo, esse verdadeiro pântano da miséria humana, os movimentos terroristas vão ver o recrutamento facilitado e a corrente migratória será imparável.

 

Não é com bombas e metralhadoras que se combate esse fenómeno social que exige, isso sim, uma abordagem responsável e global. O que eu estou certo, enquanto médico, é que a abordagem eficiente das pandemias da malária ou do sida exige uma panóplia de medidas preventivas e curativas. Se não actuarmos da mesma forma, para as matérias que nos preocupam, será impossível atalhar eficazmente as problemáticas que tanto parecem preocupar a liderança mundial: o terrorismo internacional e a imigração selvagem.

 

3. Os Fundamentalismos, Os Movimentos Terroristas e uma Liderança Mundial, a actual, inapta, desadequada e irresponsável (salvo a esperança que ainda representa Obama).

 

Não há dúvida nenhuma que existem hoje no Mundo grupos e movimentos terroristas com ideologias e objectivos que não nos interessam minimamente e que, por meio de acções de terror, procuram destabilizar a ordem vigente, infelizmente enferma das três doenças que já referi.

 

Esses grupos e movimentos terroristas, hoje espalhados no mundo e inter-relacionados, pugnam pela destruição da nossa sociedade e sonham tomar o poder, criando o caos se necessário. Para tal, estão prontos e dispostos a avançar, como já o fizeram, com massacres em massa de inocentes. É evidente que esses grupos têm de ser combatidos com determinação total, mas tal não nos dá o direito de utilizarmos também metodologias terroristas, como se tem verificado e é sobejamente conhecido da opinião pública mundial.Tal não é admissível, como muito justamente diz James Follows (excertos do The Atlantic Monthly de Boston referidos no nº75 do Courrier Internacional) citando David Kilcullen “ É a Al-Qaeda mais a nossa reacção que criam um perigo mortal”, e Sir Richard Dearlove “A causa da América está perdida se esta não conseguir restabelecer a sua estatura moral”.

 

É essencial que nesse combate legítimo, desde que se utilizem armas que não firam mortalmente as nossas Democracias e Liberdades, não se ponha tudo no mesmo saco e que cegamente não se reconheça que há movimentos de resistência, como na Palestina, no Líbano ou no Iraque, com os quais é fundamental que se dialogue para se encontrarem soluções viáveis e sustentáveis.

 

Importa desde já salientar que a denominação “terrorista” foi, e é, volátil. Se olharmos para a história da Humanidade nos últimos 250 anos (e poderíamos recuar muito mais) os pais fundadores dos Estados modernos foram, poderiam ter sido, ou seriam hoje seguramente considerados como terroristas: George Washington, Bolívar, Lenine, Ho Chi Minh, Mao, Charles de Gaulle, Bem Gourion, Menahem Beghim, Yasser Arafat, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Machel, Nino Vieira...Não nos esqueçamos que todos os heróicos resistentes europeus à ocupação nazi durante a 2ª Guerra Mundial, assim como os heróicos resistentes judeus no gueto de Varsóvia, foram apelidados de terroristas tendo sido, quando apanhados, todos torturados e muitos executados como Jean Moulin. Também eram chamados de terroristas os guerrilheiros dos movimentos independentistas nas antigas colónias portuguesas, inglesas, francesas... Assim como os movimentos cujo contributo foi decisivo para a criação de novos estados, como aconteceu, por exemplo, com os grupos Irgoun e Stern, tão importantes para a génese do Estado de Israel.

 

Não nos esqueçamos também (como a memória é volúvel!) que os guerrilheiros chechenos, antes do 11/09/2001, eram apelidados pelo Ocidente de “combatentes pela liberdade”, mas num ápice, após o 11/09/2001 (por conveniências geo-políticas globais...), passaram a ser rotulados de “terroristas”. Conjunturas e interesses passageiros...
Alguns desses “terroristas”, tais como Menahem Begin e Yasser Arafat, até acabaram por ser galardoados com o Prémio Nobel da Paz... Incongruências, incoerências, esquecimentos, lobbies, contingências, interesses ou revisões históricas?

Os movimentos verdadeiramente terroristas, aqueles onde se vislumbra não haver reformulação possível dos seus métodos execráveis, existem e têm de ser combatidos com todos os meios, menos o terrorismo, como se fez com o regime nazi durante a II Guerra Mundial, e como se deveria ter feito com o movimento Khmer vermelho no Cambodja e o movimento Interhamwé no Ruanda em 1994. Esses movimentos e regimes foram genocidários, verdadeiramente de terror e era impossível dialogar com tamanhas monstruosidades.

 

Da mesma maneira, acredito firmemente que, em nome da Paz e da equidade presente e futura, é importante e até imprescindível que se dialogue com certos Estados e movimentos catalogados como pertencendo ao “eixo do mal” ou “terroristas” tais como a Síria, o Irão, o Hamas e o Hezbollah. Assim terá de ser para que se encontrem soluções, caso contrário a conflituosidade no Médio Oriente e entre os mundos judaico, cristão e islâmico ficará irremediavelmente fora de controlo e conduzir-nos-á ao tal conflito de civilizações ou de religiões que alguns pretendem.

 

Diabolizando o outro não se constrói a Paz! As correntes fundamentalistas primárias e maniqueístas existem e são infelizmente muito actuantes nas três religiões monoteístas, as religiões do Livro. Para a construção da Paz é e será essencial que a moderação, o bom senso e um verdadeiro sentido ecuménico impere nas cúpulas das três religiões. É fundamental que se fortaleça o diálogo, que sejam enviadas mensagens claras nesse sentido para a opinião pública mundial e que sejam evitados discursos e opiniões negativas ou de fácil distorção.

 

Associado a essa dinâmica de diálogo, de sensibilidade diplomática e, por que não, de Amor e Perdão, é necessário que se pugne por uma boa governação. Temos que pôr termo, pela pressão global sem tibiezas, a todos os governos cleptopatas, escandalosa e notoriamente corruptos que considero serem governos genocidários porque, mesmo se silenciosamente, são responsáveis pela morte de milhões de seres humanos. Não é porque morrem em silêncio, anónimos, sem um grito, longe das câmaras de televisão, que deixam de ser seres humanos! Não são baratas!

 

Os governos irresponsáveis que criam flagrantes desigualdades e iniquidades são particulares geradores de humilhação, de desespero e de ódio. São eles, associados a políticas nefastas globais, que estão a provocar a fuga maciça das suas populações em direcção ao Ocidente. As suas práticas foram quase sempre encobertas ou incentivadas pelo Ocidente sob o espúrio raciocínio como me foi um dia explicado por um governante mundial, que a “corrupção é útil porque é geradora de uma elite rica que, ao investir no seu país, é geradora de riqueza...” (“Deixem-me rir, para não chorar”).

 

Finalmente, não esqueçamos que são da responsabilidade desses mesmos governos as políticas causadoras dealterações climáticas gravíssimas que, a curto e médio prazo, poderão provocar tragédias humanas de grandes dimensões.


4. O Comércio das Armas

Eis um tema melindroso mas real. Os Estados e os movimentos que se guerreiam não o fazem à pedrada nem à flechada! Todos eles se abastecem, quase livremente e às claras, junto dos grandes produtores ou de empresas “particulares” ditas “independentes” mas que têm canais de ligação aos Estados e aos poderes. São muitas vezes empresas fictícias, de fachada, que permitem aos Estados produtores vender e evacuar os seus stocks, sobretudo de bombas, outros explosivos e equipamentos bélicos que tenham os seus prazos próximos da expiração. Muitas vezes é mais fácil enviar esses foguetes explodirem sobre pessoas do que pagar o custo da sua reciclagem. É, neste caso também, a lógica do mercado e da produtividade a funcionarem no seu melhor...

 

O busílis de toda a questão do armamento (produção e venda), que demonstra que o fenómeno da Paz é uma autêntica quadratura do círculo, é que os maiores produtores e vendedores de equipamentos bélicos no e para o Mundo são os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e que, absurda e cinicamente, são exactamente aqueles que têm como primeira missão zelar pela Paz no Mundo...O que dizer mais?

 

EM CONCLUSÃO, Meus Amigos digo que para haver Paz tem que haver Justiça. Só com Justiça, Sensibilidade e Humanidade poderemos combater as três doenças malignas que referi no início: a INDIFERENÇA, a INTOLERÂNCIA e a GANÂNCIA.

 

Só assim conseguiremos, ainda talvez, soluções para debelarmos as quatro maiores ameaças antes referidas que, quanto a mim, pairam sobre a Paz no Mundo: as guerras incessantes no Médio Oriente (génese do ódio que nutre o terrorismo e o conflito religioso), a Miséria Global (que está na origem do tsunami migratório e facilita, por outro lado, o recrutamento terrorista), o Terrorismo Internacional e a Má Governação (que nutrem a conflitualidade global) e, por fim, o Comércio das Armas.

 

Aos terroristas e diversos beligerantes nunca foi tão fácil recrutar carne para canhão: os famintos miseráveis e humilhados que vomitam ódio pela nossa sociedade de abastança mas exploradora e confrangedoramente desequilibrada.

 

Ousaria dizer que, se resolvêssemos a contento para a Humanidade esses quatro desafios -ameaças à Paz Global, conseguiríamos a criação de um novo paradigma nas relações internacionais e, quem sabe, um novo padrão do Ser Humano.

Ao fim ao cabo para termos Paz bastaria que:
• Todos os Estados respeitassem a Declaração Universal dos Direitos Humanos que ratificaram, assim como as Convenções de Genebra
• Que verdadeiramente pugnassem para que os Objectivos do Milénio fossem atingidos como previsto, o que desde já se revela impossível, em 2015.

 

Se essas quatro ameaças à Paz fossem aniquiladas, penso que todos os outros desafios seriam facilmente superados. Desafios como as alterações climatéricas, a desertificação, o acesso e a repartição equitativas da água (património da humanidade e por isso não privatizável à escala global...), o surgimento e crescimento de partidos políticos racistas e xenófobos, o tsunami migratório que já começou em direcção ao Ocidente, o unilateralismo ou o novo hegemonismo imperial de previsíveis consequências na conflituosidade mundial, as violações graves e repetidas do Direito Internacional e do Direito humanitário, o proteccionismo...teriam solução rápida e justa.

 

Não quereria acabar sem citar quatro indícios de esperança que existem:
1. O despertar da Sociedade Civil Mundial e a tomada de consciência da importância de uma Cidadania Global.
2. Embora não estando a ser conseguidos, a existência dos Objectivos do Milénio demonstram que, nas Nações Unidas, os Estados tomaram consciência de importantes desafios globais que importa urgentemente resolver.
3. Iniciativas como a do Sr. Bill Gates, que demonstram que os Grandes Empresários Globais começam a entender não haver solução para o nosso Planeta se não houver partilha da riqueza.

4. A substituição do nefasto Senhor Bush e sua equipa, pelo Senhor Obama.

 

Penso sinceramente que a Paz, presente e futura, tão ameaçada, tem ainda uma oportunidade. Actuemos já e resolvamos as quatro ameaças, verdadeiros cavaleiros do apocalipse a encaminharem-nos para o Armagedon.

É simples. Basta termos a vontade de ver no “outro” um “semelhante”, e seguirmos dois “mandamentos” muito simples:

“Não matarás” e
“A minha liberdade acaba onde começa a do outro”.

Todos! Cidadãos, Sociedade Civil Organizada, Empresas, Governantes, com particular responsabilidade para os grandes líderes mundiais e as suas instituições (G8, FMI, Banco Mundial, OCDE, OSCE, Nações Unidas, ASEAN, União Africana, Grupo de Roma, Fórum de Davos, etc.)!

 

Só assim será possível formar uma verdadeira Cultura da Paz.


 



publicado por Fernando Nobre às 13:52
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Quinta-feira, 19 de Março de 2009

 

Republico este texto porque tudo se mantém actual... foi escrito para uma intervenção feita no âmbito das Comemorações das Bodas de Diamante do Corpo Nacional de Escutas.

 

 

Antes de mais acredito que os velhos valores são valores perenes, valores que se prendem com a solidariedade, com a tolerância, com a ética, com o cavalheirismo, com o respeito da vida, com o humanismo, com a família, com o altruísmo, com a honra, com a palavra dada e seria bom que esses valores continuassem vivos entre nós. Pugnar por esses valores é pugnar pela luta pela verdade, pela justiça, pela liberdade, pelo amor, pela fraternidade. Diria que é uma luta gloriosa de todos os tempos: passados, presentes e futuros. Diria mesmo que todos esses valores são mandamentos universais.

 

Mas a luta pelos velhos valores coloca-nos novos desafios. Esses novos desafios de que falarei em breve impõem a intervenção de todas as almas generosas, de todos os homens de boa vontade, de todos os espíritos livres e implica que, desde já, estejamos “sempre alerta”. Sei inclusive que esse é o vosso lema. “O escuta deve estar sempre alerta”, o que quer dizer: estar pronto a actuar em favor do outro, na ajuda ao outro. Estar sempre alerta é estar atento, é não ser indiferente, é estar pronto a actuar em nome da solidariedade, do humanismo, da tolerância, da ética e do altruísmo. É isso que é fundamental que todos tenhamos: um estado de espírito novo para desafios novos.

 

Vocês, jovens, vão ter de enfrentar esses novos desafios. Alguns são velhos como a humanidade: a luta contra a indiferença pelo outro, contra o egoísmo e a intolerância, mas é um facto que estes desafios conhecem hoje uma nova actualidade. É verdade que cada vez mais vivemos numa sociedade do paradoxo: se por um lado há cada vez mais seres humanos conscientes do seu dever de intervenção cívica, por outro lado há egoísmos exacerbados. Insiste-se cada vez mais e quase permanentemente na importância do eu, esse eu que neste fim de século é o centro de todas as atenções e o motivo de todos os desvarios. Estamos num mundo em profunda aceleração, em profunda instabilidade, em profunda transição. Estamos num mundo onde a intolerância e a indiferença estão a atingir picos inaceitáveis, estamos num mundo onde se elegeu um novo deus, o Mercado, em nome do qual tudo parece querer ser feito e tudo parece ter justificação. Querem-nos fazer crer que o liberalismo selvagem é o único sistema possível. Que o sistema que se baseia essencialmente sobre uma especulação financeira sem rosto e de ganância pura é o único sistema possível para o futuro da humanidade. É o “deus finança”, é o novo mundo da especulação, das leis do mercado, de uma globalização puramente financeira enquanto se põe de parte aquela globalização que efectivamente interessa, a globalização dos valores, a globalização da ética, a globalização da cultura, a globalização da tolerância, a globalização que teria que se fazer para que a humanidade no seu todo pudesse evoluir de forma harmoniosa. Estamos no mundo dos dois pesos e das duas medidas, estamos no mundo onde se perde de vista o fundamental que é o sagrado da vida, estamos num mundo onde a exclusão social galopa, onda a bomba social se armadilha, onde os atropelados do sistema, os drogados e os sem abrigo, se amontoam. Estamos num mundo onde os 5 membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que deveriam zelar e velar mais do que quaisquer outros pela paz e pela segurança no mundo, são os maiores produtores e vendedores de armas. Estamos num mundo onde o Estado perdeu importância, onde os grupos económicos multinacionais se substituíram muitas vezes aos Estados, tendo inclusive orçamentos superiores a muitos Estados, onde a política abdicou das suas responsabilidades, desregulamentando a nossa sociedade em termos até hoje nunca vistos. Estamos num mundo que aceita viver resignadamente, ao que parece, com a exclusão de uma parte importante da sua sociedade, estamos num mundo em que 1/5 da sua população vive em situação de miséria e 1/3 em situação de pobreza.

 

Mas é também neste mundo que, felizmente, despontam factores extremamente positivos. Em primeiro lugar, uma juventude da qual vocês fazem parte, juventude insubmissa, juventude crítica, juventude que nos interpela e com toda a razão, juventude que cada vez mais se integra nos movimentos associativos da sociedade civil. Este é, sem dúvida nenhuma, um grande factor de esperança, numa sociedade que está pronta a assumir uma cidadania global. Uma sociedade civil que exige participar, que exige ser escutada, que quer ser activa, interveniente, interpelativa, que pugna por valores e defende, por exemplo, o perdão da dívida dos países mais endividados, pugnando por uma solidariedade efectiva junto das populações mais deserdadas. Uma sociedade civil que pugna pela defesa do meio ambiente, que pugna pelo estabelecimento de um Tribunal Penal Internacional que fará com que os criminosos do mundo inteiro não possam mais fugir à justiça, que pugna pelo fim da venda de armas ligeiras e das minas anti-pessoais, e tudo isso representa uma enorme esperança. Estou certo que este pulsar de vontades da sociedade civil mundial encontrará formas de se fazer ouvir.

 

Eu sou daqueles que afirmam, cada vez mais, que para que possamos viver numa sociedade harmoniosa e equilibrada é fundamental que três pilares essenciais a sustentem: o pilar do Estado, representado pelos seus políticos e pelos seus sistemas democraticamente eleitos e estruturados, o pilar da sociedade civil cujas instituições organizadas possam intervir e ser permanentemente escutadas e o pilar do mercado, da verdadeira economia e não da especulação e do jogo. É fundamental que esses três pilares, ou que esses três vértices da base da pirâmide estejam equilibrados e é fundamental que no topo da pirâmide estejam as preocupações sociais e humanas também representadas e defendidas pela sociedade civil. Acredito que só pela educação e pela formação cívica é que tal conceito ideal poderá ser atingido. Acredito que vocês, escutas, têm essa preocupação e estou certo que partilham o conceito de cidadania mundial, da sociedade universal também defendida por vários autores como o senegalês Leopold Sedar Senghor.

 

Um aspecto que se destaca desde já em termos do segundo sector, o sector do mundo empresarial, é o aparecimento do conceito de cidadania empresarial que interioriza a tomada de consciência social por parte das empresas.

 

Isso é extremamente positivo. Isto quer dizer que em todos os sectores-chave da sociedade humana estamos a assistir a uma evolução espiritual, ao desenvolvimento de uma preocupação social e isso é sem dúvida extremamente positivo. Outro aspecto muito positivo é a mobilidade das pessoas, o que faz com que tomem consciência de que efectivamente vivemos num mundo sem fronteiras, num mundo global. Já não tem cabimento a invocação do Direito de não-Ingerência em relação a outros povos quando está em jogo a genuína intervenção humanitária. Nós somos todos globalmente responsáveis pelas infelicidades e pelos extermínios de povos, em que o século XX, infelizmente, tem sido tão fértil.

 

Acho que o que está em jogo, no final de tudo isto, e o que pretende essa evolução positiva do mundo, é recentrar o Homem nas nossas preocupações. O Homem é mais importante do que os números dos parâmetros económicos. É mais importante saber se os homens vivem melhor e são mais felizes do que estarmos sempre preocupados com o lucro, a competitividade e a produtividade. Reparem, meus queridos amigos, nunca se acumulou tanta riqueza, nunca se produziu tanto como hoje na História da Humanidade, mas também é verdade que nunca tanto como hoje as disparidades foram tão brutais. Os 250 homens mais ricos do mundo detêm tanta riqueza como metade da população mundial, a saber 3 mil milhões de pessoas. É um caminhar suicidário, e é isso que temos de parar. É preciso redistribuir, é preciso valorizar o esforço, é preciso valorizar as competências, é preciso investir na formação cívica, na formação escolar, na saúde, nas estruturas de lazer, é preciso investir na defesa do meio ambiente e, a esse respeito, diria que vocês, escutas, têm também uma função primordial. Desde a Cimeira Mundial do Rio de Janeiro, em 1992, sobre o meio ambiente, pouco ou nada foi feito. É fundamental que se consigam atingir padrões mínimos de poluição para que, amanhã, os vossos filhos, netos e bisnetos possam continuar a viver num mundo respirável.

 

Em conclusão, eu diria que estamos em plena III Revolução Mundial. A primeira, como é sabido, foi a passagem do nomadismo à sedentarização, com a agricultura. A segunda foi a Revolução Industrial que durou algumas centenas de anos e agora estamos na terceira revolução, a revolução tecnológica e da informação, que levará apenas algumas décadas para se afirmar. Porque estamos no olho do furacão dessa mesma revolução, muitas vezes não nos apercebemos da dimensão do que está a acontecer. Estamos a viver a revolução da mentalidade humana, estamos a viver uma revolução tecnológica fabulosa, estamos a viver a revolução que se traduz numa globalização extremamente acelerada, pese embora essa globalização já ter começado há muito, visto que começou com os romanos e alargou-se com as descobertas dos marinheiros portugueses. Estamos numa revolução das telecomunicações que faz com que efectivamente tudo se saiba em momento real. O Mundo, hoje, é global mas é preciso que não seja só global do ponto de vista das finanças e da especulação bolsista. Ele tem de ter outras vertentes. Estejam alerta, meus queridos amigos escutas, porque nada é perene e ainda menos a democracia. O fascismo, o nacional-fascismo, a xenofobia e o egoísmo feroz estão à espreita e, se nós deixarmos de estar em situação de alerta, esses ismos contidos nos fundamentalismos e nos extremismos de toda a espécie virão à superfície e desencadearão catástrofes. Preparem-se, meus amigos, vêm aí tempos difíceis. Desculpem-me se estou a ser alarmista mas de facto estou alarmado, estou preocupado. O século XXI vai precisar, antes de mais, de solidariedade e de verdadeira cooperação, vai precisar também de muita esperança, de muita responsabilidade, vai precisar que a palavra volte a ser respeitada, que a honra volte a ser um valor querido e respeitado. A minha geração - a geração de Maio de 68 - não correspondeu às expectativas criadas. Lembro-me que, nessa altura, liderei uma greve estudantil no meu liceu em Bruxelas. Pena é que tantos dessa geração se tenham acomodado, se tenham instalado nas poltronas do poder e tenham renegado o seu espírito de esperança, o seu espírito de combate. É pois fundamental, meus amigos, que continuemos a cultivar os valores universais referidos no início desta palestra. O que vos transmito é um grito de alma, é um grito do coração, é uma grito de revolta. Tenho a certeza que a mudança das mentalidades está já em curso e que um novo paradigma do homem está em preparação: serão vocês. Sejamos sábios. Às vezes quando falo com responsáveis, ou aparentemente responsáveis, digo-lhes que, se não for por humanismo temos de actuar com inteligência, não podemos estar a criar exclusão à nossa volta porque, se assim for, vamos ter momentos muito difíceis. Não podemos aceitar que no século XXI regressem as guerras nucleares, não podemos permitir que no século XXI haja guerras por causa do petróleo ou da água..., não podemos permitir que a África seja esquecida, abandonada. As Nações Unidas terão de ser renovadas, repensadas, com novos países a fazerem parte do seu Conselho de Segurança de forma permanente e não podemos permitir que as Nações Unidas sejam reféns de uma única potência. Sabemos todos que o descalabro a Leste já está organizado. Temos de restabelecer equilíbrios, temos, e esse é o meu sonho, de chegar a ter um governo mundial de autênticos sábios humanistas que saibam gerir o mundo com Humanidade, mas também com regras e que saibam fazer respeitar essas regras. Tenho confiança e esperança na vossa juventude, sejam participativos e generosos. Diria, para parafrasear o Padre António Vieira que numa carta de 30 de Junho de 1671 dizia ter vontade de ver os portugueses, (e os outros acrescento eu) a viver melhor e gozar o privilégio de uma pátria mais justa, fraterna, arrumada, moderna e inovadora. Eu diria que aspiro isso para toda a humanidade, aspiro ao fim da indiferença, aspiro ao fim da intolerância, apelo a maior criatividade, a maior capacidade de solidariedade, a maior capacidade de adaptação aos novos tempos. Não se conformem: vocês são a esperança da humanidade. Se é verdade que se diz que a primeira fase da vida é essencialmente “ser” , e que a segunda fase da vida, que é a minha, é sobretudo “ter” - o que corresponde muitas vezes a perder o ideal - peço-vos, meus amigos, que continuem a “ser”. Não nos esqueçamos de que, quando deixarmos este mundo, vamos deixar aqui tudo o que possuímos, levaremos apenas o que somos. É isso que temos de ter sempre presente quando pensamos no verbo ser e no verbo ter.

 

Um grande abraço a todos vós e repito: tenho esperança na vossa juventude. Sei que serão capazes de enfrentar os enormes desafios que aí vêm.

 

Muito obrigado.

 

PS -  Como teria gostado de não ter razão há já 11 anos. Quanto tempo perdido... há tanto tempo que me bato por isto... 



publicado por Fernando Nobre às 11:19
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Sexta-feira, 6 de Março de 2009

É chegado o tempo da acção e da opção: sempre pela Positiva!
Pois a Esperança não pode morrer!

 

É sabido que estamos a viver tempos muito difíceis e que os próximos, 2010- 2011…, serão provavelmente ainda mais duros.
Sabemos que o ultra liberalismo selvagem, erguido como novo “deus” inquestionável e dogmático, foi o errado paradigma de sociedade que enfermou boa parte das mentes das “elites” políticas, económicas e financeiras que governaram o nosso Mundo nas últimas décadas.


Esse sistema que estava errado nas suas premissas, a boa auto-regulação dos mercados e a correcta redistribuição da riqueza produzida, e que favoreceu de forma medonha o egoísmo feroz e o ego doentio da esmagadora maioria dos seus mentores e executantes, provocou uma derrocada de dimensões ainda inimagináveis.


Porque indiferentes perante a miséria e o sofrimento da maioria significativa da população do nosso planeta, esses “líderes” dos Direitos, e apenas e só dos Direitos, entraram em levitação estratosférica, eufórica e irresponsável, drogados e dopados por todos os produtos tóxicos que criaram, sem os controlar, e pelas engenharias financeiras que engendraram conscientemente para justificarem os seus obscenos salários e miríficos bónus. A infernal espiral estava montada e tinha que ruir, como ruiu, agravando terrivelmente a exploração, o sofrimento e a morte dos mais frágeis no Mundo.


Estamos nesse ponto e caímos num poço que parece não ter fundo. O sistema ruiu de podre e exige ser substituído, e não remendado depressa e toscamente...


Atenção: querem-nos fazer crer, os mesmos que puseram o Mundo num caos e com isso se enriqueceram imenso, criando e beneficiando-se de todo esse desvario, que tudo tem solução com umas pequenas operações plásticas, um pouco de ervanária e muita acção de mau malabarismo. Errado!, como já grito há pelo menos dez anos.


Temos, TODOS, de criar um novo paradigma de Sociedade HUMANA, com novas políticas e novos políticos sempre supervisionados pelos CIDADÃOS.


Na Europa, e em todos os países, tal como aconteceu com Obama nos EUA, pese embora as resistências e limitações existentes à indispensável MUDANÇA que ele tenta introduzir, temos que encontrar NOVOS POLÍTICOS capazes de implementar NOVAS POLÍTICAS mais solidárias, corajosas, éticas e transparentes, e capazes de traçar novos rumos a fim de que possamos sair do charco lamacento e desesperante onde estamos.


Os actuais líderes europeus estão comprometidos, até ao tutano e à exaustão, com o regime que ruiu porque foram eles que o criaram, impulsionaram, defenderam ou permitiram até há bem poucos dias. Lembram-se? Para mim eles JÁ não servem porque não merecem CONFIANÇA, por não terem a mínima CREDIBILIDADE e porque tenho as mais sérias dúvidas da sua genuína vontade e capacidade em serem os agentes da mudança que o Mundo reclama. Não são capazes: é uma questão de coluna vertebral!


Então, o que nos resta? O desespero total? NÃO, nada disso.


Restamos NÓS, OS CIDADÃOS, com o DEVER indeclinável de agarrarmos o nosso futuro, votando em quem quisermos sem nunca mais permitirmos que os políticos, sejam eles quem forem, usem os nossos votos como cheques em branco e com isso fazerem o que bem entendem sem nos consultar como se fossemos uns débeis ou uns carneiros que se deixam levar docilmente ao abate. Esse tempo tem que acabar de vez ou seremos todos co-responsáveis da destruição das nossas vidas e do nosso Planeta.


Como disse tão bem um dia o Doutor Mário Soares temos o direito sagrado à indignação!


Temos que ter a coragem e determinação:
1º - de exigirmos e conseguirmos desde já, na presente crise, que os responsáveis directos desta tremenda derrocada, sejam eles quem forem, sejam responsabilizados criminalmente, sem apelo nem agravo, e tenham os seus bens penhorados até ao limite dos desfalques (= roubos) feitos ao longo dos últimos anos,


2º - de fazermos compreender aos políticos, presentes e futuros, sejam eles quais forem, que não toleraremos nunca mais que:
- o sentido dos nossos votos seja desvirtuado e que, de ora em diante, exigiremos que os compromissos eleitorais sejam respeitados por eles, uma vez eleitos, e que não abdicaremos de ser consultados sempre e quando matérias de relevante interesse Nacional, ou municipal, estejam em causa (como, por exemplo, nos casos recentes: cobertura política e logística vergonhosa da iníqua guerra contra o Iraque, inclusive os voos da CIA, a ratificação ou não do Tratado de Lisboa, a descaracterização da estação fluvial de Alcântara por contentores…).
- o dinheiro dos nossos impostos seja desbaratado pela corrupção ou projectos desnecessários (ex: 10, dez!, estádios de futebol para o Euro 2004)
 

São apenas exemplos… Poderia escrever muito mais mas seria redundante. Penso que ficou claro o que quero dizer:
TEMOS QUE APERFEIÇOAR A DEMOCRACIA REPRESENTATIVA COM UMA COMPONENTE, ESSENCIAL, DE DEMOCRACIA PARTICIPATIVA EM TERMOS GLOBAIS E LOCAIS E TEMOS QUE REFORÇAR O CONCEITO E A PRÁTICA DA “CIDADANIA GLOBAL SOLIDÁRIA”, NUMA REDE FORTE E COESA, PORQUE INADIÁVEL E INSUBSTITUÍVEL.


Agora em Consciência e Liberdade totais que cada um vote e actue agora e no futuro como lhe aprouver!
 



publicado por Fernando Nobre às 21:56
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Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Escrevo sobre Angola, país que me viu nascer, já lá vão 57 anos. Porque decidi uma vez por todas na minha vida sobrepor ao “politicamente correcto” o “humanamente correcto” e porque já não aguento assistir à tragédia da grande maioria dos angolanos, e porque o meu silêncio se tornou ensurdecedor perante a minha consciência, quero lançar aqui um grito de dor e de protesto assim como um veemente apelo em nome de um povo heróico, mártir e esquecido: o povo angolano, o meu povo irmão. Na tragédia em curso há décadas, só e apenas ele é merecedor de carinho, respeito e admiração porque só e apenas ele está isento de culpas.

 

Culpados foram e são, porque se deixaram moldar pelas teias da política internacional e pela corrupção, uma boa parte dos seus dirigentes, passados ou presentes, no governo ou na oposição, a comunidade internacional com as suas gananciosas interferências e os seus planos de (des)ajustamento estrutural e certos governantes portugueses perfeitamente ignorantes da História e das gentes (tão merecedoras de carinho, respeito e admiração) de África em geral e de Angola em particular. A todos eles acuso de serem os responsáveis directos do genocídio passado e do sofrimento ainda em curso, em Angola. Nenhuma dessas entidades pode, nem poderá nunca furtar-se, em consciência, das enormes responsabilidades que teve e tem no germinar, no eclodir e no arrastar do indizível sofrimento e morticínio que esmagou e continua a esmagar o povo angolano. Activa ou passivamente, embora em diversos graus, todos incentivaram (ou cinicamente fingiram que não era nada com eles) o desentendimento e a desconfiança mortais, a corrupção escandalosa, o armamento desenfreado, a ganância sem limites, a indiferença assassina, a cobardia irresponsável... Em suma, o desgoverno total que engendrou uma Angola, sofrida e mutilada por várias gerações, onde coexistem um punhado de multimilionários cleptopatas e milhões de miseráveis que deambulam perdidos e deslocados, na esperança muitas vezes vã de encontrarem uma instituição que lhes acuda com um pouco de arroz, alguns medicamentos e um agasalho, ou, na sua falta, uns restos num contentor de lixo, com que enganar a fome e morrerem silenciosamente...ignorados!

 

Conseguiram assim, transformar um grande e riquíssimo país (talvez por isso mesmo!), embora hoje em fase de recuperação, sobretudo em Luanda e nas capitais provinciais, num dos países com maior grau de destruição, com maior número de amputados e de minas antipessoais e com menor índice de desenvolvimento do Mundo: a nefasta sinergia da corrupção, da incompetência, da cobiça e indiferença internacional perante o sofrimento alheio, assim como a mortífera intolerância entre os angolanos fizeram de Angola, com as suas fabulosas potencialidades humanas, agrícolas, pecuárias, piscatórias, mineiras (diamantiferas, petrolíferas e muito mais), cinegéticas, turísticas ... um amontoado de miséria que deveria comover o mais insensível e empedernido dos homens fosse ele angolano ou estrangeiro, simples cidadão ou governante. Pelos vistos, os responsáveis directos por todo esse descalabro ainda não se comoveram... a matança dos inocentes continua! Anonimamente…


Angola tem hoje, finda a guerra civil mortífera em 2002 que para os responsáveis directos tudo parecia explicar e justificar..., a derradeira ocasião de se reencontrar. Essa ocasião não pode ser desperdiçada: acabaram os subterfúgios, as mentiras e as desculpas descabidas. Os angolanos, e essencialmente eles, com particular responsabilidade para os seus dirigentes, têm o dever e a possibilidade de reporem Angola no mapa do Mundo, tornando-a num exemplo para toda a África. Tal só acontecerá se os governantes e a sociedade civil angolana agarrarem com unhas e dentes os poucos trunfos de que Angola dispõe, nomeadamente o seu povo, os seus minérios, as suas enormes potencialidades agropecuárias, piscatórias, turísticas e o petróleo. Desde já lanço um alerta aos dirigentes africanos mais clarividentes e responsáveis: em certos círculos geopolíticos anglosaxonicos já se ousa falar e escrever da necessidade, como sempre em nome do bem dos povos, de se começar a pensar na eventualidade da utilidade de uma nova recolonização...noutros moldes... evidentemente... CUIDADO! Tal não pode acontecer mas só não acontecerá se, de uma vez por todas, os dirigentes interiorizarem que o maior património dos seus países é o seu povo, sendo por isso fundamental investir na educação, na saúde e numa agricultura diversificada, em vez de se iludirem com o agastado discurso do país “Grande” e “Rico”; se fizerem as leituras correctas, com as implicações decorrentes, do que está a acontecer na perversa e nada ética revolução mundial em curso, e se pugnarem verdadeiramente pela tolerância e concórdia nacional (estou a pensar especificamente em Cabinda, atropelada pela História da descolonização e sempre sofredora) e implementarem a Democracia e uma Boa Governação que, como é óbvio, não se coaduna de modo nenhum com a tentacular corrupção que foi e é, quanto a mim, a maior responsável do estado em que Angola e África estão, com nefastos e devastadores efeitos equiparados, ou até superiores, aos da guerra. É tempo de se assumir esta verdade!


Só assim, acredito, é o meu sonho!, o povo angolano alicerçado no seu sofrimento e sustentado pela sua sociedade civil, embora ainda fraca e dispersa mas cada vez mais sensibilizada, organizada, interveniente e exigente poderá enfim construir uma sociedade democrática e encontrar o caminho da Paz, da Concórdia e da Responsabilidade que o conduzirá ao amanhã radioso com que há tanto sonha e ao qual tem direito, como todos os povos. É da mais elementar justiça e não lhe resta outra alternativa para sobreviver!

 

Não posso terminar sem fazer um último apelo: que o povo português nunca esqueça, apoiando-os, os povos irmãos angolano e cabinda com o qual partilha tantos laços de sangue e de História. Eles merecem.
 



publicado por Fernando Nobre às 08:00
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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Mais uma vez, sou tentado a colocar aqui um texto, escrito há 8 anos, que, pela actualidade que ainda mantém, considero pertinente.

 

 

Entrámos no Século XXI, esperançoso para muitos, assustador para bastantes mais e uma verdadeira incógnita para quase todos se exceptuarmos os inconscientes que, cegos pela sua megalomania financeira e pelo seu efémero e aparente poder, pensam tudo poder condicionar, dominar, manipular, operando a seu belo prazer, do ambiente à existência dos seus semelhantes. Tal é a cegueira, que nem se apercebem dos enormes desafios que os esperam, em grande medida como consequência directa dos seus egoísmos, insensatez e ganância, e que teremos de enfrentar e vencer no século que agora principia!

 

Acabamos de deixar, convenhamos que com poucas saudades, o Século XX, sem dúvida marcado pelo mais intolerável paradoxo:


1) Por um lado, assistimos a horrores:


a) Os genocídios, as matanças e as arbitrariedades provocadas pelas mentes doentias dos loucos sedentos de poder ou de hegemonia, como Hitler, Hiro Hito, Estaline, Mao, Pol Pot ou Pinochet, entre tantos outros, e de todos os seus acólitos. Inúmeros outros ditadores os sucederem, espalhando a morte, o terror e a barbárie do Ruanda à Serra Leoa, passando pela Libéria, Somália, Burundi, Angola, Colômbia, El Salvador, Congo, Bósnia, Chechénia e tantos outros... Mas tal só foi possível com a conivência e, tantas vezes até com o apoio das diplomacias das “Grandes Potências”. Diplomacias pouco ou nada democráticas, na medida em que, conduzidas quase sempre à revelia dos sentimentos e das aspirações dos nossos povos, se fossem postas à votação, de certeza não seriam sufragadas.

b) Do lado negro do Século XX, ainda de salientar as mentes geniais e brilhantes, mas cegas e loucas, dos cientistas que, enclausurados nos seus laboratórios e levados pela excitação da “descoberta”, omitiram as suas responsabilidades éticas perante a Humanidade e, deixando-se manipular por pressões políticas e “Razões de Estado”, conceberam e realizaram as bombas atómicas, químicas e bacteriológicas, de sinistra memória, que até hoje ameaçam de extermínio e enfermidades. E mais, sem acautelarem todas as possíveis implicações, lançaram-se desenfreadamente, como autênticos aprendizes feiticeiros, na manipulação genética criando os OGM (Organismos Geneticamente Modificados), verdadeira espada de Damocles suspensa sobre os agricultores e, por isso, sobre todos nós, tornando a Clonagem Humana uma assustadora realidade.

c) De salientar ainda o autismo social e alucinante que produziu a nossa civilização no século que findou: produziu riqueza e descobertas científicas inigualáveis na História mas infelizmente não soube ou, pior, não quis, por egoísmo ou indiferença, partilhá-las com toda a Humanidade, deixando-as reféns de uma minoria cada vez mais rica e mais detentora do saber e da alta tecnologia, perante uma maioria cada vez mais numerosa (a população mundial passou vertiginosamente de um para seis biliões de pessoas entre 1900 e 2000, vivendo actualmente metade destas pessoas amontoadas em megacidades; e serão cerca de 70 por cento em 2025. Já entrámos no assustador Milénio Urbano!) mais relativamente pobre e ignorante, mais ignorada e prisioneira do ciclo infernal das suas doenças esquecidas e da sua miséria, criando assim as condições objectivas que nos fazem entrar no século XXI com justificados receios e anseios das bombas sociais e ecológicas que deixamos armadilhar.

 


2) Por outro lado, tivemos a sorte e a alegria de assistirmos durante o século agora findo a acontecimentos extraordinários:


a) A medicina conheceu assinaláveis progressos, dos meios de diagnóstico aos tratamentos, permitindo a cura e a prevenção de enfermidades que povoam de terror, não há muito tempo, o nosso imaginário colectivo, mesmo no Ocidente, tais como a peste, a lepra, a tuberculose, a varíola, a sífilis, a cólera... pena é não se ter também investido e investigado de forma suficiente e empenhada as doenças que afectavam e continuam a afectar essencialmente os países mais pobres, tais como a malária (só há bem pouco tempo banida da Europa e que pode regressar mais depressa do que muitos pensam...), a doença do sono ou tripanosomíase, a biliarziose, a doença de Chagas, o dengue, a oncocercose, a leishmaniose, ... sem falar já da terrível pandemia do SIDA que, por si só, poderá parar ou gravemente condicionar o futuro desenvolvimento da África negra e da Ásia meridional, doença essa para a qual, para já, se vislumbram mais preocupações de controlo dos futuros mercados, com os enormes lucros financeiros daí decorrentes, do que em salvar as dezenas de milhões de africanos já condenados à morte certa.

b) O aperfeiçoamento e o desenvolvimento antes inimaginável da tecnologia, infelizmente não seguida por uma evolução espiritual tão intensa, levou-nos à Lua, às profundezas dos oceanos, à televisão, à telefonia mais sofisticada, à Internet, à informação/desinformação/manipulação instantânea, dita online, aos satélites espiões e outros ultra-sofisticados, à Ressonância Magnética e outras imagiologias médicas espectaculares, aos aviões supersónicos que fizeram de Lisboa e Moscovo duas aldeias vizinhas embora ainda muito incompreendidas, à maximização da produção agrícola e animal que levou a que, como nunca antes, o Mundo conhecesse uma produção alimentar globalmente excedente mas coexistindo com vastas regiões de fome e com o brinde, devido à ganância pelo lucro fácil das multinacionais da indústria agroalimentar, da encefalite espongiforme bovina e humana!

c) O acordar da sociedade civil mundial: este acordar é, quanto a mim, a grande esperança para o Século XXI. Os cidadãos do mundo inteiro entenderam enfim que “Democracia” não é apenas ter direito a voto e a falar! É também participar no dia-a-dia nas decisões e nas suas correctas implementações que condicionam as nossas vidas e a nossa Humanidade no seu concreto. Estou certo de que esta tomada de posição assumida pela Sociedade Civil Mundial, expressa muito claramente no I Fórum Social Mundial (que decorreu em Porto Alegre, no Brasil, recentemente), é irreversível no sentido da MUDANÇA POSITIVA tão necessária para os bem mais necessitados do Mundo. Espero muito sinceramente e esperançosamente que os “Senhores do Mundo” do G8, do FMI, Banco Mundial e outros, que se reúnem há décadas em Davos, entendam e entrem em diálogo rapidamente pois só assim se evitarão explosões sociais de terríveis consequências a curto e médio prazo!

 

Foi com este intolerável paradoxo do Século XX que entrámos no Século XXI, com todos os medos e anseios justificados, entre outros:


• da explosão demográfica, das imigrações em massa – já iniciadas e doravante inevitáveis com os seus nefastos acompanhantes, o racismo e a xenofobia.
• da instabilidade laboral e social e da subsequente exclusão e miséria que nos irão bater à porta, trazidas pela globalização, refém de um neoliberalismo selvagem, desregulado, sem humanismo e sem ética.
• das drogas para os nossos filhos.
• do SIDA, sobretudo para os países mais pobres,
• dos integrismos, fanatismos e outros fundamentalismos, religiosos ou não.
• da destruição irreversível dos recursos naturais.
• do descontrolo no uso das armas nucleares mesmo que “só” tenham urânio “empobrecido”.
• de já não sabermos o que podemos comer pois já não podemos confiar no que os responsáveis nos dizem, como o surto da BSE tem demonstrado em toda a Europa!
• da aceleração brutal que a vida levou, tornando tudo efémero, tudo instável, fazendo com que ninguém hoje tenha certezas e garantias para o “amanhã”.
• de saber se não seremos também produtos descartáveis e se os nossos filhos terão sequer tempo para nos vir dar um beijo, deixando-nos numa atroz solidão, solidão essa à qual são já votados muitos dos nossos anciãos depositados em “lares”, por vezes autênticas antecâmaras da morte por abandono!


São esses os desafios que vamos ter de enfrentar e vencer juntos, lutando por um novo padrão do Homem: um Homem que lute por ser e não por parecer, um Homem com uma mente virada não só para si mas também para o Outro e para o Mundo como partes integrantes do seu próprio Ser!


A evolução positiva do Mundo e do Universo, assim como a nossa própria evolução e bem-estar exige-o a todos nós! Vamos pois em frente e juntos venceremos todos esses desafios e medos e todos os demais que possam surgir!


Não estamos sós, pude confirmá-lo pessoalmente em Porto Alegre: os cidadãos do mundo inteiro estão a reagir! Eis, meus queridos amigos, o novo paradigma para o Século XXI, já que a Humanidade na sua lentíssima, mas mesmo assim, positiva caminhada ainda não logrou alcançá-lo. Com a nossa ajuda, os nossos netos irão certamente conseguir.

 

Publicado na AMInotícias nº19, 2001

 



publicado por Fernando Nobre às 11:22
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Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Enquanto homem que pretende ser activo na Sociedade Civil portuguesa e mundial, cometeria “um crime por omissão” ao não me pronunciar sobre os assuntos que dizem respeito a todos.

 

Portugal, seria absurdo nega-lo, enfrenta problemas que, sem serem catastróficos, são muito graves e carecem de urgente, empenhada e determinada resolução. De nada vale silencia-los, pois só se resolvem enfrentando-os e não negando-os com visões de curto prazo e demagogia que só demonstram a ausência de uma estratégia clara e de uma firme vontade em se ir avante com as reformas de que o país carece. O essencial sobre os problemas está dito e redito. Está feito o diagnóstico sobre os críticos sectores da saúde, da educação, da justiça, da agricultura, da defesa, da política externa… que são débeis porque débeis são a nossa organização, a nossa vontade e determinação políticas, a nossa economia e a nossa sociedade civil.

 

Nenhum de nós pode nem poderá estar satisfeito enquanto houver pessoas sem-abrigo, reformas de miséria, precariedade no trabalho, doentes que ficam meses à espera de uma operação; enquanto centenas dos nossos estudantes forem obrigados a emigrar para se formarem; enquanto as nossas universidades não se expurgarem do supérfluo e inútil e não deixarem de ter os parcos orçamentos que têm; enquanto, por norma, for preciso esperar anos para se fazer justiça; enquanto se privilegiarem com o erário público os “elefantes brancos” e os buracos sem fundo, em vez de se investir em hospitais, em escolas, apetrechos para universidades e centros de pesquisa, na luta contra a exclusão social e na melhoria da reforma dos idosos; enquanto os campos do nosso Interior se forem despovoando; enquanto os nossos ex-combatentes e as nossas Forças Armadas não forem devidamente reconhecidos e dignificados; enquanto a nossa política externa continuar a ter o orçamento mísero que tem; enquanto não se der a devida importância às nossas comunidades de emigrantes e imigrantes; enquanto a nossa sociedade civil for fraca, ignorada e mesmo, por vezes, ostracizada; enquanto a nossa economia não for competitiva e cidadã.

 

Se não superarmos tudo isto e o muito que ficou por dizer, ninguém, nem Estado, nem Mercado, nem nós – Sociedade Civil – (em suma, os três pilares que, quando equilibrados, são a essência de uma sociedade civil humana e harmoniosa), repito, ninguém, poderá dormir descansado, pois não teremos conseguido criar todos, em conjunto, a sociedade justa e ética de que Portugal precisa e que merece.

 

Falta vontade, organização, aprumo, dignidade e transparência na definição das prioridades. E depois, rigor, determinação e empenho no seu cumprimento.

 

São grandes os desafios e os obstáculos, sem dúvida, mas sinceramente creio que Portugal os vencerá se acreditar que é possível e se para tal for devidamente motivado.

Só com rigor, só sobrepondo o mérito, a competência e as provas dadas à cunha e ao clientelismo, só com profissionalismo, só com uma estratégia clara quanto às prioridades nacionais, só com transparência na gestão das contas públicas, só com genuína e sincera abertura à sociedade civil, chamando-a a intervir e a participar, só com um combate sem quartel à corrupção que mina a eficácia e a dignidade nacionais, só com mensagens e acções mobilizadoras que vençam o desânimo e o pessimismo instalados, será possível debelar a crise moral, social e económica que parece ter-se instalado. Para isso serão precisas decisões e opções políticas sérias e corajosas, que enfrentem alguns interesses instalados, que substituam intenções vagas, por medidas concretas e combatam, sem tréguas, a demagogia, o cinismo, a tibieza, a ligeireza e a superficialidade.

 

A grave crise latente no sistema político representativo, tendo na linha de mira a própria democracia, é um sinal de alerta de que todos temos de ter consciência. Tal como o Mundo de hoje tão injusto e ameaçador, Portugal, o nosso País, precisa de Estadistas, quero dizer, de políticos que não se demitam das suas responsabilidades e que façam da correcta gestão do bem público, a sua prioridade, não esquecendo nunca que a ÉTICA, a ESTABILIDADE, e a EQUIDADE SOCIAIS, deverão estar sempre presentes no momento da tomada de decisões.

 

Peço-vos pois, a quem lê o que escrevo, que contribuam decisivamente, num verdadeiro compromisso de Sociedade Civil, para um Portugal mais dinâmico, mais ético, mais solidário, digno e regulado. Para um Portugal com um projecto de sociedade e onde uma nova cultura cívica e de responsabilidade valorize o esforço e traga de volta uma visão estratégica de que D. João II foi, no plano histórico, o nosso maior exemplo. Assim, com opções e prioridades claras, poderemos de novo acreditar e sonhar com largos horizontes, empolgando-nos, dando-nos esperança a todos, em nome de Portugal.

 

Portugal pode não ter a força das armas nem a dos dinheiros, mas poderá sempre ter a força de ler o Direito e proclamar a Justiça, à luz dos Direitos Humanos. Designadamente, dando o exemplo.

 

O que aqui deixo expresso é válido para qualquer país do Mundo.

O NOSSO Mundo.
 



publicado por Fernando Nobre às 15:29
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Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

Não posso deixar de exprimir a minha optimista opinião sobre a tomada de posse de Barack Obama como 44º Presidente dos EUA e as consequências que daí poderão advir para os EUA e para o Mundo.


Antes de mais quero esclarecer que considero que a governação do Presidente Obama só poderá ser melhor do que a nefasta actuação do ex - Presidente Bush, o que para todos nós é uma excelente notícia e um grande motivo de alento.
A desgovernação deste último, e da sua perversa e espúria equipa, estava a precipitar-nos para o caos, criando um Mundo cada vez mais perigoso e inquietante.
A maneira maniqueísta, autoritária e primária que tinha de ver o Mundo e os seus desafios globais, e a consequente forma prepotente de se relacionar com os outros, representou um profundo retrocesso para os EUA e para o Mundo em matérias tão vitais como: - a Paz - os Direitos Humanos (cívicos, políticos, sociais, económicos, culturais e ambientais) - o Direito Internacional – a Pacificação entre Religiões e Civilizações – a Defesa do Meio Ambiente – a Regulamentação Financeira – o conflito Israelo-Palestiniano – o Comércio Justo – o Desarmamento…


Obama é portador de Esperança e de Desanuviamento na resolução ou, pelo menos, no amenizar de todas essas candentes questões. Só isso já é muito!
Depois de tudo o que de negativo se viveu nos últimos oito anos, espero, penso e desejo que o Presidente Obama não deixará de marcar a diferença pela positiva, pese embora as portentosas forças negativas, autêntico colete belicista e ganancioso, que já o cercam e tentarão manietar (os lóbis petrolífero, armamentista e incondicional pró governo israelita).
A sua acção terá de ser determinante e decisiva na tentativa de corrigir os desvarios do seu directo antecessor nas seguintes matérias: - melhoria das questões sociais, tais como emprego e saúde dos seus cidadãos – protecção dos mais frágeis nos EUA (e espero também no Mundo) – abordagem multilateral e multicultural, num Mundo hoje multipolar, das questões globais tais como os Direitos Humanos, o Direito Internacional, o meio ambiente, os conflitos internacionais… – abordagem mais ética, imparcial e justa do Conflito Israelo-Palestiniano – maior empenho na abordagem e na procura de soluções dos dramas humanos que flagelam o Mundo e, nomeadamente, África – desanuviamento no Iraque e nas relações com o Irão... - maior respeito pelas Nações Unidas e todos os Tratados e Convenções…


Se o Presidente Obama conseguir essa proeza terá o seu lugar cativo na História da Humanidade que terá todas as razões para lhe ficar grata. Tem sobre os seus ombros uma pesadíssima herança: não pode falhar, ainda que vá encontrar as forças contrárias que já referi, no alcance desses objectivos, vitais para todos nós.
Embora ele já tenha avisado, e quanto a mim bem, que vai cometer erros, que vai haver avanços e recuos, vamos todos dar-lhe força para que não esmoreça na sua vontade de mudança. Possa assim ele contribuir para o surgimento de um outro mundo menos conflituoso, mais ético e humano.
Sim, mesmo com as pedras que com certeza já lhe tentam pôr no caminho, ele vai tentar, não tenho dúvida. Embora pragmático e algo céptico, ainda creio…
 

 

Ele tem de acreditar, e nós também, que um outro Mundo é possível! 
 

 

PS - Por questões de ordem pessoal, ainda não me foi possível terminar o texto sobre o Zimbabué. Fá-lo-ei, como prometido, este fim-de-semana.



publicado por Fernando Nobre às 15:18
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Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Já começa a ser difícil acordar e não sermos de imediato inquietados por mais um caso de ganância e desnorte totais que aprofunda a seriíssima crise de desconfiança instalada em todos nós.
Desta vez foi o até agora celebrado guru da alta finança, o muito “estimado” Sr. Madoff, que chegou a ser presidente do mercado bolsista Nasdaq, que actuou impunemente durante mais de uma década, liderando uma roubalheira, porque de um ladrão se trata, de dimensão global: no mínimo 50.000 milhões de dólares. O impacto no nosso país será de, pelo menos, 76 milhões de euros.
Mais uma vez ficou patente que a derrocada é inevitável quando a liderança dos Deveres é substituída pela liderança dos Direitos, apenas e só dos Direitos, porque quando assim é está sempre enferma de Irresponsabilidade, de Vaidade, de Indiferença!
Essas “lideranças dos direitos insaciáveis” já são do foro psiquiátrico: estamos a lidar com doentes mentais. Precisam de ser internados: em hospitais prisionais. É tempo de se parar com essa loucura desenfreada de Ganância. Onde andam os legisladores, reguladores e fiscalizadores? Incompetentes, distraídos ou cúmplices?
A irresponsabilidade e o desvario, e ainda não sabemos que outras bolhas de verdadeira loucura estarão para rebentar amanhã, já ultrapassaram todos os limites imagináveis com impactos ainda inimagináveis na vida de inúmeras famílias no nosso Mundo.
Está chegado o momento de todos os Seres Humanos de Bem, porque os há, no Estado, em todos os Partidos Políticos, no Mercado e na Sociedade Civil dizerem alto e bom som: Basta!
Como tão bem dizia Burke, para que o mal triunfe basta que as pessoas de bem não reajam!
 



publicado por Fernando Nobre às 10:28
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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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- "Viagens Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Gritos Contra a Indiferença",
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- "Imagens Contra a Indiferença",
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- "Histórias que contei aos meus filhos",
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- "Mais Histórias que Contei aos Meus Filhos", Oficina do Livro

- "Humanidade - Despertar para a Cidadania Global Solidária", Temas e Debates/Círculo de Leitores

- "Um conto de Natal", Oficina do Livro
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