Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Escrevo sobre Angola, país que me viu nascer, já lá vão 57 anos. Porque decidi uma vez por todas na minha vida sobrepor ao “politicamente correcto” o “humanamente correcto” e porque já não aguento assistir à tragédia da grande maioria dos angolanos, e porque o meu silêncio se tornou ensurdecedor perante a minha consciência, quero lançar aqui um grito de dor e de protesto assim como um veemente apelo em nome de um povo heróico, mártir e esquecido: o povo angolano, o meu povo irmão. Na tragédia em curso há décadas, só e apenas ele é merecedor de carinho, respeito e admiração porque só e apenas ele está isento de culpas.

 

Culpados foram e são, porque se deixaram moldar pelas teias da política internacional e pela corrupção, uma boa parte dos seus dirigentes, passados ou presentes, no governo ou na oposição, a comunidade internacional com as suas gananciosas interferências e os seus planos de (des)ajustamento estrutural e certos governantes portugueses perfeitamente ignorantes da História e das gentes (tão merecedoras de carinho, respeito e admiração) de África em geral e de Angola em particular. A todos eles acuso de serem os responsáveis directos do genocídio passado e do sofrimento ainda em curso, em Angola. Nenhuma dessas entidades pode, nem poderá nunca furtar-se, em consciência, das enormes responsabilidades que teve e tem no germinar, no eclodir e no arrastar do indizível sofrimento e morticínio que esmagou e continua a esmagar o povo angolano. Activa ou passivamente, embora em diversos graus, todos incentivaram (ou cinicamente fingiram que não era nada com eles) o desentendimento e a desconfiança mortais, a corrupção escandalosa, o armamento desenfreado, a ganância sem limites, a indiferença assassina, a cobardia irresponsável... Em suma, o desgoverno total que engendrou uma Angola, sofrida e mutilada por várias gerações, onde coexistem um punhado de multimilionários cleptopatas e milhões de miseráveis que deambulam perdidos e deslocados, na esperança muitas vezes vã de encontrarem uma instituição que lhes acuda com um pouco de arroz, alguns medicamentos e um agasalho, ou, na sua falta, uns restos num contentor de lixo, com que enganar a fome e morrerem silenciosamente...ignorados!

 

Conseguiram assim, transformar um grande e riquíssimo país (talvez por isso mesmo!), embora hoje em fase de recuperação, sobretudo em Luanda e nas capitais provinciais, num dos países com maior grau de destruição, com maior número de amputados e de minas antipessoais e com menor índice de desenvolvimento do Mundo: a nefasta sinergia da corrupção, da incompetência, da cobiça e indiferença internacional perante o sofrimento alheio, assim como a mortífera intolerância entre os angolanos fizeram de Angola, com as suas fabulosas potencialidades humanas, agrícolas, pecuárias, piscatórias, mineiras (diamantiferas, petrolíferas e muito mais), cinegéticas, turísticas ... um amontoado de miséria que deveria comover o mais insensível e empedernido dos homens fosse ele angolano ou estrangeiro, simples cidadão ou governante. Pelos vistos, os responsáveis directos por todo esse descalabro ainda não se comoveram... a matança dos inocentes continua! Anonimamente…


Angola tem hoje, finda a guerra civil mortífera em 2002 que para os responsáveis directos tudo parecia explicar e justificar..., a derradeira ocasião de se reencontrar. Essa ocasião não pode ser desperdiçada: acabaram os subterfúgios, as mentiras e as desculpas descabidas. Os angolanos, e essencialmente eles, com particular responsabilidade para os seus dirigentes, têm o dever e a possibilidade de reporem Angola no mapa do Mundo, tornando-a num exemplo para toda a África. Tal só acontecerá se os governantes e a sociedade civil angolana agarrarem com unhas e dentes os poucos trunfos de que Angola dispõe, nomeadamente o seu povo, os seus minérios, as suas enormes potencialidades agropecuárias, piscatórias, turísticas e o petróleo. Desde já lanço um alerta aos dirigentes africanos mais clarividentes e responsáveis: em certos círculos geopolíticos anglosaxonicos já se ousa falar e escrever da necessidade, como sempre em nome do bem dos povos, de se começar a pensar na eventualidade da utilidade de uma nova recolonização...noutros moldes... evidentemente... CUIDADO! Tal não pode acontecer mas só não acontecerá se, de uma vez por todas, os dirigentes interiorizarem que o maior património dos seus países é o seu povo, sendo por isso fundamental investir na educação, na saúde e numa agricultura diversificada, em vez de se iludirem com o agastado discurso do país “Grande” e “Rico”; se fizerem as leituras correctas, com as implicações decorrentes, do que está a acontecer na perversa e nada ética revolução mundial em curso, e se pugnarem verdadeiramente pela tolerância e concórdia nacional (estou a pensar especificamente em Cabinda, atropelada pela História da descolonização e sempre sofredora) e implementarem a Democracia e uma Boa Governação que, como é óbvio, não se coaduna de modo nenhum com a tentacular corrupção que foi e é, quanto a mim, a maior responsável do estado em que Angola e África estão, com nefastos e devastadores efeitos equiparados, ou até superiores, aos da guerra. É tempo de se assumir esta verdade!


Só assim, acredito, é o meu sonho!, o povo angolano alicerçado no seu sofrimento e sustentado pela sua sociedade civil, embora ainda fraca e dispersa mas cada vez mais sensibilizada, organizada, interveniente e exigente poderá enfim construir uma sociedade democrática e encontrar o caminho da Paz, da Concórdia e da Responsabilidade que o conduzirá ao amanhã radioso com que há tanto sonha e ao qual tem direito, como todos os povos. É da mais elementar justiça e não lhe resta outra alternativa para sobreviver!

 

Não posso terminar sem fazer um último apelo: que o povo português nunca esqueça, apoiando-os, os povos irmãos angolano e cabinda com o qual partilha tantos laços de sangue e de História. Eles merecem.
 



publicado por Fernando Nobre às 08:00
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Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985, altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas. É Doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi Assistente (Anatomia e Embriologia) e Especialista em Cirurgia Geral e Urologia. (continuar a ler)
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