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Contra a Indiferença

A visão de um cidadão activo e inconformado com certos aspectos e da sociedade.

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Contra a Indiferença

11
Fev09

Século XXI: Estamos apostados em vencer os desafios à Humanidade!

Fernando Nobre

Mais uma vez, sou tentado a colocar aqui um texto, escrito há 8 anos, que, pela actualidade que ainda mantém, considero pertinente.

 

 

Entrámos no Século XXI, esperançoso para muitos, assustador para bastantes mais e uma verdadeira incógnita para quase todos se exceptuarmos os inconscientes que, cegos pela sua megalomania financeira e pelo seu efémero e aparente poder, pensam tudo poder condicionar, dominar, manipular, operando a seu belo prazer, do ambiente à existência dos seus semelhantes. Tal é a cegueira, que nem se apercebem dos enormes desafios que os esperam, em grande medida como consequência directa dos seus egoísmos, insensatez e ganância, e que teremos de enfrentar e vencer no século que agora principia!

 

Acabamos de deixar, convenhamos que com poucas saudades, o Século XX, sem dúvida marcado pelo mais intolerável paradoxo:


1) Por um lado, assistimos a horrores:


a) Os genocídios, as matanças e as arbitrariedades provocadas pelas mentes doentias dos loucos sedentos de poder ou de hegemonia, como Hitler, Hiro Hito, Estaline, Mao, Pol Pot ou Pinochet, entre tantos outros, e de todos os seus acólitos. Inúmeros outros ditadores os sucederem, espalhando a morte, o terror e a barbárie do Ruanda à Serra Leoa, passando pela Libéria, Somália, Burundi, Angola, Colômbia, El Salvador, Congo, Bósnia, Chechénia e tantos outros... Mas tal só foi possível com a conivência e, tantas vezes até com o apoio das diplomacias das “Grandes Potências”. Diplomacias pouco ou nada democráticas, na medida em que, conduzidas quase sempre à revelia dos sentimentos e das aspirações dos nossos povos, se fossem postas à votação, de certeza não seriam sufragadas.

b) Do lado negro do Século XX, ainda de salientar as mentes geniais e brilhantes, mas cegas e loucas, dos cientistas que, enclausurados nos seus laboratórios e levados pela excitação da “descoberta”, omitiram as suas responsabilidades éticas perante a Humanidade e, deixando-se manipular por pressões políticas e “Razões de Estado”, conceberam e realizaram as bombas atómicas, químicas e bacteriológicas, de sinistra memória, que até hoje ameaçam de extermínio e enfermidades. E mais, sem acautelarem todas as possíveis implicações, lançaram-se desenfreadamente, como autênticos aprendizes feiticeiros, na manipulação genética criando os OGM (Organismos Geneticamente Modificados), verdadeira espada de Damocles suspensa sobre os agricultores e, por isso, sobre todos nós, tornando a Clonagem Humana uma assustadora realidade.

c) De salientar ainda o autismo social e alucinante que produziu a nossa civilização no século que findou: produziu riqueza e descobertas científicas inigualáveis na História mas infelizmente não soube ou, pior, não quis, por egoísmo ou indiferença, partilhá-las com toda a Humanidade, deixando-as reféns de uma minoria cada vez mais rica e mais detentora do saber e da alta tecnologia, perante uma maioria cada vez mais numerosa (a população mundial passou vertiginosamente de um para seis biliões de pessoas entre 1900 e 2000, vivendo actualmente metade destas pessoas amontoadas em megacidades; e serão cerca de 70 por cento em 2025. Já entrámos no assustador Milénio Urbano!) mais relativamente pobre e ignorante, mais ignorada e prisioneira do ciclo infernal das suas doenças esquecidas e da sua miséria, criando assim as condições objectivas que nos fazem entrar no século XXI com justificados receios e anseios das bombas sociais e ecológicas que deixamos armadilhar.

 


2) Por outro lado, tivemos a sorte e a alegria de assistirmos durante o século agora findo a acontecimentos extraordinários:


a) A medicina conheceu assinaláveis progressos, dos meios de diagnóstico aos tratamentos, permitindo a cura e a prevenção de enfermidades que povoam de terror, não há muito tempo, o nosso imaginário colectivo, mesmo no Ocidente, tais como a peste, a lepra, a tuberculose, a varíola, a sífilis, a cólera... pena é não se ter também investido e investigado de forma suficiente e empenhada as doenças que afectavam e continuam a afectar essencialmente os países mais pobres, tais como a malária (só há bem pouco tempo banida da Europa e que pode regressar mais depressa do que muitos pensam...), a doença do sono ou tripanosomíase, a biliarziose, a doença de Chagas, o dengue, a oncocercose, a leishmaniose, ... sem falar já da terrível pandemia do SIDA que, por si só, poderá parar ou gravemente condicionar o futuro desenvolvimento da África negra e da Ásia meridional, doença essa para a qual, para já, se vislumbram mais preocupações de controlo dos futuros mercados, com os enormes lucros financeiros daí decorrentes, do que em salvar as dezenas de milhões de africanos já condenados à morte certa.

b) O aperfeiçoamento e o desenvolvimento antes inimaginável da tecnologia, infelizmente não seguida por uma evolução espiritual tão intensa, levou-nos à Lua, às profundezas dos oceanos, à televisão, à telefonia mais sofisticada, à Internet, à informação/desinformação/manipulação instantânea, dita online, aos satélites espiões e outros ultra-sofisticados, à Ressonância Magnética e outras imagiologias médicas espectaculares, aos aviões supersónicos que fizeram de Lisboa e Moscovo duas aldeias vizinhas embora ainda muito incompreendidas, à maximização da produção agrícola e animal que levou a que, como nunca antes, o Mundo conhecesse uma produção alimentar globalmente excedente mas coexistindo com vastas regiões de fome e com o brinde, devido à ganância pelo lucro fácil das multinacionais da indústria agroalimentar, da encefalite espongiforme bovina e humana!

c) O acordar da sociedade civil mundial: este acordar é, quanto a mim, a grande esperança para o Século XXI. Os cidadãos do mundo inteiro entenderam enfim que “Democracia” não é apenas ter direito a voto e a falar! É também participar no dia-a-dia nas decisões e nas suas correctas implementações que condicionam as nossas vidas e a nossa Humanidade no seu concreto. Estou certo de que esta tomada de posição assumida pela Sociedade Civil Mundial, expressa muito claramente no I Fórum Social Mundial (que decorreu em Porto Alegre, no Brasil, recentemente), é irreversível no sentido da MUDANÇA POSITIVA tão necessária para os bem mais necessitados do Mundo. Espero muito sinceramente e esperançosamente que os “Senhores do Mundo” do G8, do FMI, Banco Mundial e outros, que se reúnem há décadas em Davos, entendam e entrem em diálogo rapidamente pois só assim se evitarão explosões sociais de terríveis consequências a curto e médio prazo!

 

Foi com este intolerável paradoxo do Século XX que entrámos no Século XXI, com todos os medos e anseios justificados, entre outros:


• da explosão demográfica, das imigrações em massa – já iniciadas e doravante inevitáveis com os seus nefastos acompanhantes, o racismo e a xenofobia.
• da instabilidade laboral e social e da subsequente exclusão e miséria que nos irão bater à porta, trazidas pela globalização, refém de um neoliberalismo selvagem, desregulado, sem humanismo e sem ética.
• das drogas para os nossos filhos.
• do SIDA, sobretudo para os países mais pobres,
• dos integrismos, fanatismos e outros fundamentalismos, religiosos ou não.
• da destruição irreversível dos recursos naturais.
• do descontrolo no uso das armas nucleares mesmo que “só” tenham urânio “empobrecido”.
• de já não sabermos o que podemos comer pois já não podemos confiar no que os responsáveis nos dizem, como o surto da BSE tem demonstrado em toda a Europa!
• da aceleração brutal que a vida levou, tornando tudo efémero, tudo instável, fazendo com que ninguém hoje tenha certezas e garantias para o “amanhã”.
• de saber se não seremos também produtos descartáveis e se os nossos filhos terão sequer tempo para nos vir dar um beijo, deixando-nos numa atroz solidão, solidão essa à qual são já votados muitos dos nossos anciãos depositados em “lares”, por vezes autênticas antecâmaras da morte por abandono!


São esses os desafios que vamos ter de enfrentar e vencer juntos, lutando por um novo padrão do Homem: um Homem que lute por ser e não por parecer, um Homem com uma mente virada não só para si mas também para o Outro e para o Mundo como partes integrantes do seu próprio Ser!


A evolução positiva do Mundo e do Universo, assim como a nossa própria evolução e bem-estar exige-o a todos nós! Vamos pois em frente e juntos venceremos todos esses desafios e medos e todos os demais que possam surgir!


Não estamos sós, pude confirmá-lo pessoalmente em Porto Alegre: os cidadãos do mundo inteiro estão a reagir! Eis, meus queridos amigos, o novo paradigma para o Século XXI, já que a Humanidade na sua lentíssima, mas mesmo assim, positiva caminhada ainda não logrou alcançá-lo. Com a nossa ajuda, os nossos netos irão certamente conseguir.

 

Publicado na AMInotícias nº19, 2001

 

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