Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Contra a Indiferença

A visão de um cidadão activo e inconformado com certos aspectos e da sociedade.

A visão de um cidadão activo e inconformado com certos aspectos e da sociedade.

Contra a Indiferença

24
Fev09

O SIDA

Fernando Nobre

Foi em meados de 1983 que, sem saber, fui pela primeira vez confrontado com o temível, mas ainda quase desconhecido, síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA).

Estava em Bruxelas e operei um senhor ruandês muito magro; menos de um ano depois, morria das complicações do SIDA.

 

Na altura, dizia-se que o SIDA era um síndrome adstrito aos homossexuais, drogados e negros! Tal estigmatização tranquilizava os não homossexuais, não toxicodependentes e não negros! Depois, perante a nossa ignorância sobre o SIDA, veio o medo: ao examinarmos esses doentes era-nos aconselhado, no hospital, o uso de luvas, de batas, de máscaras... Perante a incerteza do contágio, era melhor protegermo-nos!

 

Então, ao terrível sofrimento dos doentes, acrescentámos o nosso afastamento e a nossa própria angústia, filha do nosso desconhecimento, do nosso medo.

 

Duros tempos de incerteza em que os bem pensantes moralistas não se inibiram de lançar os piores anátemas sobre o pecado do sexo.

 

Em finais dos anos 80, perdi pessoas conhecidas vindas do então Zaire: não eram negros, nem homossexuais, nem toxicodependentes. O círculo tinha-se alargado e, de repente, sentimo-nos todos ameaçados: medo das transfusões, do sexo ocasional e não só.

 

Estávamos todos no mesmo barco, já não havia mais lugar para a indiferença e a intolerância, essas duas terríveis doenças da mente que classifico como as piores doenças da Humanidade.

 

Pouco a pouco, graças aos movimentos da sociedade civil, às Nações Unidas e aos governos, foi possível uma sensibilização e uma tomada de consciência salutar sobre esse autêntico flagelo.

 

Desde então, passadas quase três décadas do início do surto epidémico, surgiu enfim um fraterno ímpeto de solidariedade e de compreensão (infelizmente nem sempre generalizado) para com os nossos semelhantes infectados pelo vírus, fossem eles hetero ou homossexuais, brancos ou negros, toxicodependentes ou não.

 

O caso dos hemofílicos do mundo inteiro chocou-nos pela dimensão do seu drama, do nosso drama, tanto individual como colectivo.

 

Desde então muitos progressos foram feitos, tanto na abordagem e sensibilização do síndrome como no desenvolvimento de novos fármacos e na maior acessibilidade, infelizmente ainda muito insuficiente sobretudo nos países mais pobres, dos doentes aos tratamentos.

 

O drama é também que o Mundo continua sem dispor de uma vacina eficaz e não se vislumbra o momento em que tal aconteça.

 

Para uma doença que já vitimou seguramente mais de 40 milhões de pessoas, que deixou muitos milhões de crianças órfãs e que representa um pesadíssimo fardo social e económico para os países mais atingidos, nomeadamente na África central e austral, temo que muito reste por fazer até nos darmos como satisfeitos no controlo, para não dizer na erradicação, dessa temível pandemia.

 

Não há tempo a perder: governos, cientistas, médicos e população em geral têm que unir esforços e vontades para que esta verdadeira “peste negra” do final do Século XX e início do 3º Milénio e o seu terrível cortejo de sofrimento e morte cesse. A criação do Fundo Global (destinado ao combate à Malária, à Tuberculose e ao SIDA) foi um importante primeiro passo, mas só com o empenhamento de todos o vírus imprevisível do SIDA será domado, como aconteceu com o da varíola.

 

Alerto: grandes regiões da África Central, Austral e do Leste estão a despovoar-se devido ao SIDA. Não esqueçamos que, associada à corrupção e à crise económica e social existentes, essa tragédia hipoteca o desenvolvimento e o futuro de África. E sem África o Mundo não será sustentável!

 

É urgente a criação de uma vacina eficaz e é indispensável que o preço dos testes e dos tratamentos já existentes seja acessível às populações de todo o Mundo. Se assim não for, nesta Casa Global que é o nosso Mundo, não controlaremos o flagelo.

 

Temos que continuar com o nosso esforço sem esmorecer. Ainda optimista quanto ao futuro do Ser Humano, não tenho dúvidas que acabaremos com o flagelo do SIDA: em nome dos doentes, da juventude actual, merecedora de uma sexualidade sem medos, e das gerações vindouras.

 

Hoje a guerra está longe de ser vencida mas já começamos a ganhar batalhas.

Estou certo que a Humanidade vencerá.

21 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

FOTO DA SEMANA



LIVROS QUE PUBLIQUEI


- "Viagens Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Gritos Contra a Indiferença",
Temas & Debates

- "Imagens Contra a Indiferença",
Círculo de Leitores / Temas & Debates


- "Histórias que contei aos meus filhos",
Oficina do Livro


- "Mais Histórias que Contei aos Meus Filhos", Oficina do Livro

- "Humanidade - Despertar para a Cidadania Global Solidária", Temas e Debates/Círculo de Leitores

- "Um conto de Natal", Oficina do Livro

Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2013
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2012
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2011
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2010
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2009
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2008
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D