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Contra a Indiferença

A visão de um cidadão activo e inconformado com certos aspectos e da sociedade.

A visão de um cidadão activo e inconformado com certos aspectos e da sociedade.

Contra a Indiferença

19
Mar09

Velhos Valores, Novos Desafios

Fernando Nobre

 

Republico este texto porque tudo se mantém actual... foi escrito para uma intervenção feita no âmbito das Comemorações das Bodas de Diamante do Corpo Nacional de Escutas.

 

 

Antes de mais acredito que os velhos valores são valores perenes, valores que se prendem com a solidariedade, com a tolerância, com a ética, com o cavalheirismo, com o respeito da vida, com o humanismo, com a família, com o altruísmo, com a honra, com a palavra dada e seria bom que esses valores continuassem vivos entre nós. Pugnar por esses valores é pugnar pela luta pela verdade, pela justiça, pela liberdade, pelo amor, pela fraternidade. Diria que é uma luta gloriosa de todos os tempos: passados, presentes e futuros. Diria mesmo que todos esses valores são mandamentos universais.

 

Mas a luta pelos velhos valores coloca-nos novos desafios. Esses novos desafios de que falarei em breve impõem a intervenção de todas as almas generosas, de todos os homens de boa vontade, de todos os espíritos livres e implica que, desde já, estejamos “sempre alerta”. Sei inclusive que esse é o vosso lema. “O escuta deve estar sempre alerta”, o que quer dizer: estar pronto a actuar em favor do outro, na ajuda ao outro. Estar sempre alerta é estar atento, é não ser indiferente, é estar pronto a actuar em nome da solidariedade, do humanismo, da tolerância, da ética e do altruísmo. É isso que é fundamental que todos tenhamos: um estado de espírito novo para desafios novos.

 

Vocês, jovens, vão ter de enfrentar esses novos desafios. Alguns são velhos como a humanidade: a luta contra a indiferença pelo outro, contra o egoísmo e a intolerância, mas é um facto que estes desafios conhecem hoje uma nova actualidade. É verdade que cada vez mais vivemos numa sociedade do paradoxo: se por um lado há cada vez mais seres humanos conscientes do seu dever de intervenção cívica, por outro lado há egoísmos exacerbados. Insiste-se cada vez mais e quase permanentemente na importância do eu, esse eu que neste fim de século é o centro de todas as atenções e o motivo de todos os desvarios. Estamos num mundo em profunda aceleração, em profunda instabilidade, em profunda transição. Estamos num mundo onde a intolerância e a indiferença estão a atingir picos inaceitáveis, estamos num mundo onde se elegeu um novo deus, o Mercado, em nome do qual tudo parece querer ser feito e tudo parece ter justificação. Querem-nos fazer crer que o liberalismo selvagem é o único sistema possível. Que o sistema que se baseia essencialmente sobre uma especulação financeira sem rosto e de ganância pura é o único sistema possível para o futuro da humanidade. É o “deus finança”, é o novo mundo da especulação, das leis do mercado, de uma globalização puramente financeira enquanto se põe de parte aquela globalização que efectivamente interessa, a globalização dos valores, a globalização da ética, a globalização da cultura, a globalização da tolerância, a globalização que teria que se fazer para que a humanidade no seu todo pudesse evoluir de forma harmoniosa. Estamos no mundo dos dois pesos e das duas medidas, estamos no mundo onde se perde de vista o fundamental que é o sagrado da vida, estamos num mundo onde a exclusão social galopa, onda a bomba social se armadilha, onde os atropelados do sistema, os drogados e os sem abrigo, se amontoam. Estamos num mundo onde os 5 membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que deveriam zelar e velar mais do que quaisquer outros pela paz e pela segurança no mundo, são os maiores produtores e vendedores de armas. Estamos num mundo onde o Estado perdeu importância, onde os grupos económicos multinacionais se substituíram muitas vezes aos Estados, tendo inclusive orçamentos superiores a muitos Estados, onde a política abdicou das suas responsabilidades, desregulamentando a nossa sociedade em termos até hoje nunca vistos. Estamos num mundo que aceita viver resignadamente, ao que parece, com a exclusão de uma parte importante da sua sociedade, estamos num mundo em que 1/5 da sua população vive em situação de miséria e 1/3 em situação de pobreza.

 

Mas é também neste mundo que, felizmente, despontam factores extremamente positivos. Em primeiro lugar, uma juventude da qual vocês fazem parte, juventude insubmissa, juventude crítica, juventude que nos interpela e com toda a razão, juventude que cada vez mais se integra nos movimentos associativos da sociedade civil. Este é, sem dúvida nenhuma, um grande factor de esperança, numa sociedade que está pronta a assumir uma cidadania global. Uma sociedade civil que exige participar, que exige ser escutada, que quer ser activa, interveniente, interpelativa, que pugna por valores e defende, por exemplo, o perdão da dívida dos países mais endividados, pugnando por uma solidariedade efectiva junto das populações mais deserdadas. Uma sociedade civil que pugna pela defesa do meio ambiente, que pugna pelo estabelecimento de um Tribunal Penal Internacional que fará com que os criminosos do mundo inteiro não possam mais fugir à justiça, que pugna pelo fim da venda de armas ligeiras e das minas anti-pessoais, e tudo isso representa uma enorme esperança. Estou certo que este pulsar de vontades da sociedade civil mundial encontrará formas de se fazer ouvir.

 

Eu sou daqueles que afirmam, cada vez mais, que para que possamos viver numa sociedade harmoniosa e equilibrada é fundamental que três pilares essenciais a sustentem: o pilar do Estado, representado pelos seus políticos e pelos seus sistemas democraticamente eleitos e estruturados, o pilar da sociedade civil cujas instituições organizadas possam intervir e ser permanentemente escutadas e o pilar do mercado, da verdadeira economia e não da especulação e do jogo. É fundamental que esses três pilares, ou que esses três vértices da base da pirâmide estejam equilibrados e é fundamental que no topo da pirâmide estejam as preocupações sociais e humanas também representadas e defendidas pela sociedade civil. Acredito que só pela educação e pela formação cívica é que tal conceito ideal poderá ser atingido. Acredito que vocês, escutas, têm essa preocupação e estou certo que partilham o conceito de cidadania mundial, da sociedade universal também defendida por vários autores como o senegalês Leopold Sedar Senghor.

 

Um aspecto que se destaca desde já em termos do segundo sector, o sector do mundo empresarial, é o aparecimento do conceito de cidadania empresarial que interioriza a tomada de consciência social por parte das empresas.

 

Isso é extremamente positivo. Isto quer dizer que em todos os sectores-chave da sociedade humana estamos a assistir a uma evolução espiritual, ao desenvolvimento de uma preocupação social e isso é sem dúvida extremamente positivo. Outro aspecto muito positivo é a mobilidade das pessoas, o que faz com que tomem consciência de que efectivamente vivemos num mundo sem fronteiras, num mundo global. Já não tem cabimento a invocação do Direito de não-Ingerência em relação a outros povos quando está em jogo a genuína intervenção humanitária. Nós somos todos globalmente responsáveis pelas infelicidades e pelos extermínios de povos, em que o século XX, infelizmente, tem sido tão fértil.

 

Acho que o que está em jogo, no final de tudo isto, e o que pretende essa evolução positiva do mundo, é recentrar o Homem nas nossas preocupações. O Homem é mais importante do que os números dos parâmetros económicos. É mais importante saber se os homens vivem melhor e são mais felizes do que estarmos sempre preocupados com o lucro, a competitividade e a produtividade. Reparem, meus queridos amigos, nunca se acumulou tanta riqueza, nunca se produziu tanto como hoje na História da Humanidade, mas também é verdade que nunca tanto como hoje as disparidades foram tão brutais. Os 250 homens mais ricos do mundo detêm tanta riqueza como metade da população mundial, a saber 3 mil milhões de pessoas. É um caminhar suicidário, e é isso que temos de parar. É preciso redistribuir, é preciso valorizar o esforço, é preciso valorizar as competências, é preciso investir na formação cívica, na formação escolar, na saúde, nas estruturas de lazer, é preciso investir na defesa do meio ambiente e, a esse respeito, diria que vocês, escutas, têm também uma função primordial. Desde a Cimeira Mundial do Rio de Janeiro, em 1992, sobre o meio ambiente, pouco ou nada foi feito. É fundamental que se consigam atingir padrões mínimos de poluição para que, amanhã, os vossos filhos, netos e bisnetos possam continuar a viver num mundo respirável.

 

Em conclusão, eu diria que estamos em plena III Revolução Mundial. A primeira, como é sabido, foi a passagem do nomadismo à sedentarização, com a agricultura. A segunda foi a Revolução Industrial que durou algumas centenas de anos e agora estamos na terceira revolução, a revolução tecnológica e da informação, que levará apenas algumas décadas para se afirmar. Porque estamos no olho do furacão dessa mesma revolução, muitas vezes não nos apercebemos da dimensão do que está a acontecer. Estamos a viver a revolução da mentalidade humana, estamos a viver uma revolução tecnológica fabulosa, estamos a viver a revolução que se traduz numa globalização extremamente acelerada, pese embora essa globalização já ter começado há muito, visto que começou com os romanos e alargou-se com as descobertas dos marinheiros portugueses. Estamos numa revolução das telecomunicações que faz com que efectivamente tudo se saiba em momento real. O Mundo, hoje, é global mas é preciso que não seja só global do ponto de vista das finanças e da especulação bolsista. Ele tem de ter outras vertentes. Estejam alerta, meus queridos amigos escutas, porque nada é perene e ainda menos a democracia. O fascismo, o nacional-fascismo, a xenofobia e o egoísmo feroz estão à espreita e, se nós deixarmos de estar em situação de alerta, esses ismos contidos nos fundamentalismos e nos extremismos de toda a espécie virão à superfície e desencadearão catástrofes. Preparem-se, meus amigos, vêm aí tempos difíceis. Desculpem-me se estou a ser alarmista mas de facto estou alarmado, estou preocupado. O século XXI vai precisar, antes de mais, de solidariedade e de verdadeira cooperação, vai precisar também de muita esperança, de muita responsabilidade, vai precisar que a palavra volte a ser respeitada, que a honra volte a ser um valor querido e respeitado. A minha geração - a geração de Maio de 68 - não correspondeu às expectativas criadas. Lembro-me que, nessa altura, liderei uma greve estudantil no meu liceu em Bruxelas. Pena é que tantos dessa geração se tenham acomodado, se tenham instalado nas poltronas do poder e tenham renegado o seu espírito de esperança, o seu espírito de combate. É pois fundamental, meus amigos, que continuemos a cultivar os valores universais referidos no início desta palestra. O que vos transmito é um grito de alma, é um grito do coração, é uma grito de revolta. Tenho a certeza que a mudança das mentalidades está já em curso e que um novo paradigma do homem está em preparação: serão vocês. Sejamos sábios. Às vezes quando falo com responsáveis, ou aparentemente responsáveis, digo-lhes que, se não for por humanismo temos de actuar com inteligência, não podemos estar a criar exclusão à nossa volta porque, se assim for, vamos ter momentos muito difíceis. Não podemos aceitar que no século XXI regressem as guerras nucleares, não podemos permitir que no século XXI haja guerras por causa do petróleo ou da água..., não podemos permitir que a África seja esquecida, abandonada. As Nações Unidas terão de ser renovadas, repensadas, com novos países a fazerem parte do seu Conselho de Segurança de forma permanente e não podemos permitir que as Nações Unidas sejam reféns de uma única potência. Sabemos todos que o descalabro a Leste já está organizado. Temos de restabelecer equilíbrios, temos, e esse é o meu sonho, de chegar a ter um governo mundial de autênticos sábios humanistas que saibam gerir o mundo com Humanidade, mas também com regras e que saibam fazer respeitar essas regras. Tenho confiança e esperança na vossa juventude, sejam participativos e generosos. Diria, para parafrasear o Padre António Vieira que numa carta de 30 de Junho de 1671 dizia ter vontade de ver os portugueses, (e os outros acrescento eu) a viver melhor e gozar o privilégio de uma pátria mais justa, fraterna, arrumada, moderna e inovadora. Eu diria que aspiro isso para toda a humanidade, aspiro ao fim da indiferença, aspiro ao fim da intolerância, apelo a maior criatividade, a maior capacidade de solidariedade, a maior capacidade de adaptação aos novos tempos. Não se conformem: vocês são a esperança da humanidade. Se é verdade que se diz que a primeira fase da vida é essencialmente “ser” , e que a segunda fase da vida, que é a minha, é sobretudo “ter” - o que corresponde muitas vezes a perder o ideal - peço-vos, meus amigos, que continuem a “ser”. Não nos esqueçamos de que, quando deixarmos este mundo, vamos deixar aqui tudo o que possuímos, levaremos apenas o que somos. É isso que temos de ter sempre presente quando pensamos no verbo ser e no verbo ter.

 

Um grande abraço a todos vós e repito: tenho esperança na vossa juventude. Sei que serão capazes de enfrentar os enormes desafios que aí vêm.

 

Muito obrigado.

 

PS -  Como teria gostado de não ter razão há já 11 anos. Quanto tempo perdido... há tanto tempo que me bato por isto... 

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